||  Início  ->  O Sacramento do Matrimônio e o Divórcio

O Sacramento do Matrimônio, o Divórcio e as Crianças (07-10-2012)

Primeira Leitura:
PENTATEUCO: Livro do Gênesis (Gn), capítulo 2
(18) O Senhor Deus disse: “Não é bom que o homem esteja só, vou dar-lhe uma ajuda que lhe seja adequada.” (19) Tendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todos os animais dos campos, e todas as aves dos céus, levou-os ao homem, para ver como ele os havia de chamar, e todo o nome que o homem pôs aos animais vivos, esse é o seu verdadeiro nome. (20) O homem pôs nomes a todos os animais, a todas as aves dos céus e a todos os animais dos campos, mas não se achava para ele uma ajuda que lhe fosse adequada. (21) Então o Senhor Deus mandou ao homem um profundo sono, e enquanto ele dormia, tomou-lhe uma costela e fechou com carne o seu lugar. (22) E da costela que tinha tomado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher, e levou-a para junto do homem. (23) “Eis agora aqui, disse o homem, o osso de meus ossos e a carne de minha carne, ela se chamará mulher, porque foi tomada do homem.” (24) Por isso o homem deixa o seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher, e já não são mais que uma só carne.

Segunda Leitura:
HEBREUS: Epístola aos Hebreus (Hb), capítulo 2
(9) Mas aquele que fora colocado por pouco tempo abaixo dos anjos, Jesus, nós o vemos, por sua Paixão e morte, coroado de glória e de honra. Assim, pela graça de Deus, a sua morte aproveita a todos os homens. (10) Aquele para quem e por quem todas as coisas existem, desejando conduzir à glória numerosos filhos, deliberou elevar à perfeição, pelo sofrimento, o autor da salvação deles, (11) para que santificador e santificados formem um só todo. Por isso, (Jesus) não hesita em chamá-los seus irmãos,
EVANGELHOS: Evangelho segundo São Marcos (Mc), capítulo 10
(2) Chegaram os fariseus e perguntaram-lhe, para o pôr à prova, se era permitido ao homem repudiar sua mulher.
(3) Ele respondeu-lhes: 'Que vos ordenou Moisés?'
(4) Eles responderam: 'Moisés permitiu escrever carta de divórcio e despedir a mulher.'
(5) Continuou Jesus: 'Foi devido à dureza do vosso coração que ele vos deu essa lei,
(6) mas, no princípio da criação, Deus os fez homem e mulher.
(7) Por isso, deixará o homem pai e mãe e se unirá à sua mulher,
(8) e os dois não serão senão uma só carne. Assim, já não são dois, mas uma só carne.
(9) Não separe, pois, o homem o que Deus uniu.'
(10) Em casa, os discípulos fizeram-lhe perguntas sobre o mesmo assunto.
(11) E ele disse-lhes: 'Quem repudia sua mulher e se casa com outra, comete adultério contra a primeira.
(12) E se a mulher repudia o marido e se casa com outro, comete adultério.'
(13) Apresentaram-lhe então crianças para que as tocasse, mas os discípulos repreendiam os que as apresentavam.
(14) Vendo-o, Jesus indignou-se e disse-lhes: 'Deixai vir a mim os pequequinos e não os impeçais, porque o Reino de Deus é daqueles que se lhes assemelham.
(15) Em verdade vos digo: todo o que não receber o Reino de Deus com a mentalidade de uma criança, nele não entrará.'
(16) Em seguida, ele as abraçou e as abençoou, impondo-lhes as mãos.
Homilia do Padre Paulo Ricardo : PLAYER AQUI
Homilia do Padre José Ruy:PLAYER AQUI
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético
Ver Comentário Exegético
Ver Homilia de Dom Henrique Soares
Ver Homilia de Mons. José Maria
Canção Nova: Homilia

Neste domingo, a Palavra de Deus trata do matrimônio e de sua indissolubilidade. Eis aqui um tema que se tornou tabu nos tempos atuais e, por isso mesmo, precisa ser tratado com toda clareza pelos cristãos… Afinal, se o Evangelho não for sal e luz, para que serve?

Comecemos com o plano de Deus, descrito no Gênesis de modo figurado, como as parábolas que Jesus contava. São textos que não devem ser tomados ao pé da letra! Se lermos com atenção, perceberemos algo muito belo: Deus, à medida que vai criando, vê que tudo é bom… Ao criar o ser humano, vê que “era muito bom” (Gn 1,31). Mas, há algo na criação que o Senhor Deus viu que não era bom: “Não é bom que o homem esteja só”. Se o ser humano é imagem do Deus-Trindade, ele não foi criado para a solidão, mas deve viver em relação com outros: “Vou dar-lhe uma auxiliar que lhe seja semelhante”. Notemos os detalhes tão belos da criação da mulher: (1) “O Senhor Deus fez cair um sono profundo sobre Adão”. Por quê? Para ficar claro que o homem não participou da criação da mulher; esta é tão obra de Deus quanto aquele. (2) “Tirou-lhe uma das costelas e fechou o lugar com carne. Da costela tirada de Adão, o Senhor Deus formou a mulher”. A imagem é bela: tirada do lado do homem, como companheira e igual! (3) “E Adão exclamou: ‘Desta vez sim, é osso de meus ossos e carne da minha carne!’” É a primeira vez que o homem falou, na Bíblia! E sua palavra foi uma declaração de amor… não a Deus, mas à mulher que o Senhor Deus lhe dera de presente: osso de meus ossos, carne de minha carne… parte de mim, cara metade, outro lado do meu coração! E, finalmente, o preceito de Deus, inscrito no íntimo do coração humano pelo próprio Criador: “O homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e eles serão uma só carne”. Pronto! Esta é o sonho de Deus para o amor humano!

Já aqui há três observações a serem feitas: (a) o laço de amor entre o homem e a mulher é superior a qualquer outro laço, inclusive aquele que liga pais e filhos: o homem e a mulher deixarão pai e mãe para ir ao encontro de sua esposa, de seu esposo. (b) Esta união, no sonho original de Deus, envolve a pessoa toda, corpo e alma: “serão uma só carne”! É uma união completa, abrangente, total: serão um só coração, um só sonho, uma só conta bancária, uma só casa, um só futuro, um só destino! (c) A relação matrimonial, no sonho de Deus, é uma relação entre um homem e uma mulher. Por isso mesmo, jamais os cristãos poderão equiparar a união entre homossexuais ao matrimônio! O respeito às pessoas homossexuais é dever de todos nós; o respeito pela consciência dessas pessoas, que têm o direito de dar o rumo que acharem justo às suas vidas, é obrigação nossa, é gesto de amor que Jesus espera de seus discípulos. Mas, equiparar a relação matrimonial a qualquer outra relação afetiva, sobretudo homossexual, nunca! Por fidelidade a Cristo, nunca! Por respeito ao plano de Deus, jamais! Hoje, no Direito, há uma forte corrente aqui no Brasil, que considera como sendo família qualquer união simplesmente afetiva: não importa se a união é entre marido e mulher, entre amigos ou entre duas pessoas do mesmo sexo. Para nós cristãos, tal concepção é inaceitável! A família, para nós, não é uma realidade simplesmente natural, mas tem sua raiz no próprio plano de Deus. A família é uma realidade também teológica! É preciso escutar o que Deus tem a dizer sobre a família! O problema é que nossa sociedade já não é cristã; é pagã e pensa e age como pagã; é atéia e age como se Deus não existisse… Nossa sociedade acha que o homem é a medida de todas as coisas, o senhor do bem e do mal, do certo e do errado. Isso é absolutamente inaceitável para o cristão!

Agora podemos compreender a palavra de Jesus no Evangelho! Naquele tempo havia o divórcio… E Jesus, que é tão misericordioso, condena sua prática: “Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés” permitiu o divórcio! “No entanto, no princípio da criação Deus os fez homem e mulher… Já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe!” É uma palavra que parece dura, e os próprios discípulos tiveram dificuldades em compreender… como muitíssimos a têm hoje em dia. Compreendamos! Jesus veio para reconduzir este mundo ferido pelo pecado ao plano original de Deus. Ora, o sonho de Deus para o amor conjugal é que ele seja uma entrega total e plena, no amor indissolúvel, fiel e fecundo. Este é o ideal que Jesus aponta aos seus discípulos! Na perspectiva de Jesus, o divórcio é contrário ao plano de Deus para o amor humano! Por isso mesmo, o matrimônio abraçado por um cristão e uma cristã, no Senhor Jesus, é indissolúvel! Aqui é preciso deixar claro que a Igreja não tem autoridade para ensinar ou fazer diferente! Seria trair o Senhor! Surgem, no entanto, algumas questões sérias e graves:

(1) Como prometer amor por toda a vida, se nosso coração é inconstante? Primeiramente é necessário recordar que o matrimônio cristão somente pode ser abraçado na fé, sabendo os esposos que jamais a graça de Cristo lhes faltará. Com toda certeza, o Senhor haverá de conduzir os esposos no caminho do amor. Isto, no entanto, de modo algum, dispensa os esposos de cultivarem esse amor, com o diálogo, os gestos de carinho e de perdão, de compreensão e de atenção. Amor não é só sentimento: o amor não nasce de repente, não é fatal, não é cego, nem morre de repente. O amor pode e deve ser cultivado, cuidado. Como dizia São João da Cruz: “Onde não há amor, semeia amor e colherás amor”. A grande ilusão do mundo atual é pensar que o amor se reduz a sentimento, que não precisa ser cuidado nem cultivado! Confunde-se amor com paixão!

(2) Como fazer uma aliança para sempre, se esta depende não só de mim, mas também da outra pessoa? A questão é séria e, para nós, cristãos, deve ser pensada na fé. O matrimônio entre cristãos é sinal, é sacramento, do amor entre Cristo e a Igreja. São Paulo explica este mistério de modo belíssimo no capítulo quinto da Carta aos Efésios: marido e mulher devem se amar como Cristo e a Igreja (cf. Ef 5,21-32). Ora, este amor foi selado na cruz e na ressurreição; é amor pascal, amor que envolve morte e vida! A indissolubilidade não deveria ser vista como um fardo, mas como uma proposta de um Deus que crê no homem que criou; um Deus que nunca brinca com o amor, um Deus que aposta na nossa capacidade, quando aberta à sua graça! Ora, este amor-doação matrimonial, imagem daquele outro, entre Cristo e a Igreja, certamente terá a marca da cruz. As dificuldades conjugais, para o cristão, têm o nome de cruz, cruz que, assumida com amor e por amor, é transformada em alegria e plenitude de ressurreição. Aqui não se trata somente de palavras bonitas, mas de uma realidade impressionante: quem capitula, quem desiste ante as dificuldades, nunca plantará um amor no sentido cristão! A presença de Cristo na união conjugal não exclui as crises, as dificuldades, a incompatibilidade de temperamentos e até mesmo os erros na escolha do cônjuge! Mas tudo isso, por quanto doloroso possa ser, pode se tornar, em Cristo, um modo libertador e eficaz de participar com generosidade e desapego da cruz do Senhor e caminho de felicidade! “Loucura! Insanidade! Demência!” – dirá o mundo! Mas, a linguagem da cruz é loucura para o mundo! A sabedoria da cruz é tolice para o mundo! Nunca esqueçamos isso! Mas, para quem crê, é poder de Deus e sabedoria de Deus! (cf. 1Cor 1,18; 1Cor 3,18-20). O problema é que as pessoas casam como os cristãos, mas não crêem nem vivem como os cristãos! Que fique bem assentado: o sonho de Deus em Cristo para o matrimônio é a indissolubilidade!

(3) E os nossos irmãos e irmãs que fracassaram na aliança conjugal e estão numa nova união? É uma situação dolorosa. Se são cristãos de verdade, a coisa é primeiramente difícil para eles. Não nos compete julgar suas intenções e sua história! Compete-nos respeitá-los e acolhê-los com espírito fraterno, ajudando-os a viver esta nova união do melhor modo possível. Isto, no entanto, não significa aprovação da separação nem da nova união. Mas, simplesmente, respeito pela história, pela consciência e pelo mistério da vida e das opções de cada irmão e de cada irmã. Mesmo porque, quem estiver sem pecado, que atire a primeira pedra. Cuidado, irmãos: não coloquemos fardos na vida dos outros!

Que o Senhor socorra as famílias e fortaleça no amor os esposos cristãos, fazendo-os simples como as crianças, capazes de acolher a proposta do Cristo para o matrimônio e que, nas dificuldades, recordem-se que Cristo, autor da nossa salvação, também foi levado à consumação passando pelos sofrimentos. Que nossos sofrimentos, unidos aos dele, sejam semente e penhor de vida eterna. Amém.

D. Henrique Soares da Costa


Comentário ao Evangelho do dia feito por Cardeal Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI)
Retiro pregado no Vaticano em 1983

«Quem não receber o Reino de Deus como um pequenino não entrará nele»

É surpreendente constatar a importância que o próprio Jesus atribui à criança, para todo o homem: «Em verdade vos digo: quem não receber o Reino de Deus como um pequenino não entrará nele» (Mt 18,3). Portanto, para Jesus, ser criança não é uma etapa puramente transitória da vida do homem, devida ao seu destino biológico, e que, por isso, deva desaparecer totalmente. Na infância, o que é próprio do homem realiza-se de tal maneira que quem perdeu o essencial da infância está, por sua vez, perdido.

A partir daí, e posicionando-nos no ponto de vista humano, podemos imaginar que lembranças felizes guardaria Cristo dos dias da Sua infância, o quanto a infância continuava a ser, para Ele, uma experiência preciosa, uma forma particularmente pura de humanidade. Daí poderemos aprender a reverenciar a criança que, desarmada, assim apela ao nosso amor.

Mas isso coloca-nos sobretudo a seguinte questão: qual é exactamente o traço característico da infância que Jesus considera insubstituível? [...] É necessário desde logo recordar que o atributo essencial de Jesus, aquele que exprime a Sua dignidade, é o facto de ser «Filho». [...] A orientação da Sua vida, o motivo e o objectivo que lhe deram forma exprimem-se numa única palavra: «Abba, Pai» (Mc 14,36; Ga 4,6). Jesus sabia que nunca estava só, e até ao último grito na cruz obedeceu Àquele a Quem chamava Pai, inclinando-Se inteiramente para Ele. Basta isto para nos permitir explicar que Ele, por fim, Se tenha recusado a chamar-Se rei ou senhor ou a atribuir-Se qualquer outro título de poder, mas tenha recorrido a um termo que poderíamos também traduzir por «criancinha».