Católicos Online

     ||  Início  ->  A Caridade não Passará

A Caridade não Passará (03-02-2013)

Primeira Leitura:
PROFETAS MAIORES: Livro de Jeremias (Jr), capítulo 1
(4) Foi-me dirigida nestes termos a palavra do Senhor: (5) Antes que no seio fosses formado, eu já te conhecia, antes de teu nascimento, eu já te havia consagrado, e te havia designado profeta das nações. (6) E eu respondi: Ah! Senhor JAVÉ, eu nem sei falar, pois que sou apenas uma criança. (7) Replicou porém o Senhor: Não digas: Sou apenas uma criança: porquanto irás procurar todos aqueles aos quais te enviar, e a eles dirás o que eu te ordenar. (8) Não deverás temê-los porque estarei contigo para livrar-te - oráculo do Senhor. (9) E o Senhor, estendendo em seguida a sua mão, tocou-me na boca. E assim me falou: Eis que coloco minhas palavras nos teus lábios. (10) Vê: dou-te hoje poder sobre as nações e sobre os reinos para arrancares e demolires, para arruinares e destruíres, para edificares e plantares. (11) Nestes termos foi-me dirigida a palavra do Senhor: Que vês, Jeremias? E eu respondi: Vejo um ramo de amendoeira. (12) Viste bem, disse-me o Senhor, porque velo sobre minha palavra para que se cumpra. (13) Pela segunda vez dirigiu-se a mim a palavra do Senhor, e assim falou: Que estás vendo? Vejo, respondi, uma caldeira fervente cujo vapor toma a direção norte-sul. (14) Disse-me o Senhor: É do norte que vai transbordar a desgraça sobre todos os habitantes da terra. (15) Pois vou convocar todos os povos dos reinos do norte - oráculo do Senhor. Eles virão, e cada um estabelecerá seu sólio diante das portas de Jerusalém, em torno de suas muralhas, e de todas as cidades de Judá. (16) Eu os condenarei pelos males que cometeram, por me haverem abandonado, ofertando incenso a outros deuses e adorando a obra de suas mãos. (17) Tu, porém, cinge-te com o teu cinto e levanta-te para dizer-lhes tudo quanto te ordenar. Não temas a presença deles, senão eu te aterrorizarei à vista deles, (18) quanto a mim, desde hoje, faço de ti uma fortaleza, coluna de ferro e muro de bronze, (erguido) diante de toda nação, diante dos reis de Judá e seus chefes, diante de seus sacerdotes e de todo o povo da nação. (19) Eles te combaterão mas não conseguirão vencer-te, porque estou contigo, para livrar-te - oráculo do Senhor.

Segunda Leitura:
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Primeira Epístola aos Coríntios (1Cor), capítulo 12
(31) Aspirai aos dons superiores. E agora, ainda vou indicar-vos o caminho mais excelente de todos.
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Primeira Epístola aos Coríntios (1Cor), capítulo 13
(1) Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine. (2) Mesmo que eu tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, não sou nada. (3) Ainda que distribuísse todos os meus bens em sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada valeria! (4) A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante. (5) Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. (6) Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. (7) Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. (8) A caridade jamais acabará. As profecias desaparecerão, o dom das línguas cessará, o dom da ciência findará. (9) A nossa ciência é parcial, a nossa profecia é imperfeita. (10) Quando chegar o que é perfeito, o imperfeito desaparecerá. (11) Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Desde que me tornei homem, eliminei as coisas de criança. (12) Hoje vemos como por um espelho, confusamente, mas então veremos face a face. Hoje conheço em parte, mas então conhecerei totalmente, como eu sou conhecido. (13) Por ora subsistem a fé, a esperança e a caridade - as três. Porém, a maior delas é a caridade.
EVANGELHOS: Evangelho segundo São Lucas (Lc), capítulo 4
(21) Ele começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu este oráculo que vós acabais de ouvir.
(22) Todos lhe davam testemunho e se admiravam das palavras de graça, que procediam da sua boca, e diziam: Não é este o filho de José?
(23) Então lhes disse: Sem dúvida me citareis este provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo, todas as maravilhas que fizeste em Cafarnaum, segundo ouvimos dizer, faze-o também aqui na tua pátria.
(24) E acrescentou: Em verdade vos digo: nenhum profeta é bem aceito na sua pátria.
(25) Em verdade vos digo: muitas viúvas havia em Israel, no tempo de Elias, quando se fechou o céu por três anos e meio e houve grande fome por toda a terra,
(26) mas a nenhuma delas foi mandado Elias, senão a uma viúva em Sarepta, na Sidônia.
(27) Igualmente havia muitos leprosos em Israel, no tempo do profeta Eliseu, mas nenhum deles foi limpo, senão o sírio Naamã.
(28) A estas palavras, encheram-se todos de cólera na sinagoga.
(29) Levantaram-se e lançaram-no fora da cidade, e conduziram-no até o alto do monte sobre o qual estava construída a sua cidade, e queriam precipitá-lo dali abaixo.
(30) Ele, porém, passou por entre eles e retirou-se.
Homilia do Padre Paulo Ricardo : PLAYER AQUI
Homilia do Padre Miguel:PLAYER AQUI
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético
Ver Homilia de Dom Henrique Soares
Ver Homilia de Mons. José Maria
Ver Homilia do Pe. Françoá Costa
Canção Nova: Homilia

A caridade não passará

O Mistério Pascal de Cristo revela de forma perfeita e definitiva a natureza do verdadeiro amor cristão: a "cari-dade" é um amor que está disposto a pagar o alto preço daquele que lhe é "caro".

"A caridade acrescenta ao amor uma certa perfeição de amor, na medida em que aquilo que se ama é considerado como de preço elevado, como a própria palavra o indica" (Suma Teológica I-II, q. 26, a. 3).

Mas, assim como a Cruz se manifesta na Páscoa como fonte de Vida, assim também as renúncias da caridade se revelam como vivificantes. É dela que brota a vida verdadeiramente cristã.

O belíssimo hino da caridade de 1Cor 13 nos apresenta a caridade como sendo a alma desta nova Vida em Cristo. (Santo Tomás fala de forma, finalidade, motor, raiz, mãe; cf. Suma Teológica II-II, q. 24, a.8).

Esquematicamente poderíamos apresentar a estrutura do hino da seguinte maneira:

a) Na primeira estrofe (vv. 1-3), São Paulo apresenta uma pessoa cheia de dons e virtudes, mas vazia de caridade;

b) Na segunda (vv. 4-7), faz desfilar diante de nossos olhos as virtudes que nascem da caridade.

c) E conclui (vv. 8-13) revelando a caridade como única coluna permanente num mundo que irá passar.

O homem adulto é o homem caridoso. Mas esta verdade deixa claro que só seremos plenamente maduros quando virmos face-a-face o Deus-Amor para o qual existimos.

Sendo assim, a caridade é o dom escatológico por excelência. É o início, já nesta vida, de uma Vida que não passará.

"A caridade não significa somente amor a Deus, mas também certa amizade com ele. Essa amizade acrescenta ao amor a reciprocidade no amor, uma comunhão mútua [...] E que isto pertença à caridade consta claramente em 1Jo 4,16: ‘Quem permanece na caridade, permanece em Deus e Deus permanece nele’" (Suma Teológica I-II, q. 65, a. 5).

Padre Paulo Ricardo


Se procurarmos uma idéia que dê unidade as leituras da Missa de hoje, encontraremos a fé. Comecemos pelo Evangelho. Após ler o trecho do rolo de Isaías, “O Espírito do Senhor repousa sobre mim, porque o Senhor me ungiu… para levar a Boa Nova aos pobres e proclamar o Ano da graça do Senhor”, Jesus afirma, cheio de autoridade: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”. É uma afirmação ousada. Somente quando o Messias viesse tal Escritura seria cumprida. Jesus, portanto, apresenta-se como o Messias. E o encanto de seu ensinamento dá testemunho de que ele é verdadeiro… Mas, infelizmente, crer não é fácil… sobretudo quando Deus nos visita de modo humildade, corriqueiro, nas coisas pequenas e banais. E, assim, os nazarenos se escandalizam com Jesus: “Não é este o filho de José?” Como pode alguém nosso, alguém tão do nosso meio ser o Messias? Como pode Deus se manifestar por este, que cresceu e viveu entre nós? Santo de casa não faz milagre! Gostamos do excepcional, da novidade, do exótico! O quanto é necessário sermos abertos para discernir a Palavra e o apelo do Senhor naqueles que nos são enviados e convivem conosco! O quanto precisamos aprender que Deus não é somente Deus de longe, mas também Deus de perto! A mesma experiência o profeta Jeremias fizera antes de Jesus. E o Senhor ordena que seu profeta fale e que não tenha medo, ainda que seja incompreendido e rejeitado pelo seu povo e seus parentes: “Não tenhas medo, senão eu te farei tremer na presença deles. Eu te transformarei hoje numa cidade fortificada, numa coluna de ferro, num muro de bronze… Eles farão guerra contra ti, mas não prevalecerão, porque estou contigo para defender-te!”

Por um lado, o Senhor exige fé e confiança absoluta daqueles que ele envia, de seus profetas; por outro lado, espera daqueles aos quais o profeta é enviado, espera do seu povo, a capacidade de discernir, de acolher, de crer! E quantas vezes não cremos: pensamos que Deus se calou, que não mais se manifesta, não mais nos dirige a Palavra. E, no entanto, o Senhor nos interpela por seus profetas, por aqueles que , tantas vezes, são na Comunidade e na vida uma palavra de Deus para nós! Caso não sejamos abertos à Palavra, corremos o risco de perdê-la. É o que Jesus recorda aos nazarenos: a viúva pagã de Sarepta e o leproso Naamã, também ele pagão, foram mais abençoados que as viúvas e os leprosos de Israel, porque foram abertos… Os nazarenos sentiram-se ofendidos porque Jesus insinuou que eles não tinham fé e não sabiam discernir nele Aquele que o Pai enviara… e terminam por expulsar Jesus de sua cidade. É dramático: a falta de fé fez os nazarenos expulsarem o Messias, o Enviado de Deus. A falta de fé e discernimento, a cegueira do coração, a dureza e o fechamento para as novidades de Deus, podem fazer o mesmo conosco: expulsar do coração e da vida aqueles que nos trazem a Palavra do Senhor e sua vontade a nosso respeito.

Mas, por sua vez, aqueles que são testemunhas do Senhor e ministros do Evangelho, devem estar preparados para a possibilidade de serem rejeitados. Somente os falsos pregadores, os malditos vendedores do Evangelho, os missionários de televisão, é que pregam uma adesão a Jesus fácil e que resolve nossos problemas. Na verdade, seguir o Cristo nos amadurece e nos faz, muitas vezes, enfrentar problemas e contradições. Qualquer um que queira colocar-se a serviço do Senhor, deve preparar-se para tal contradição: “Meu filho, se te ofereceres para servir o Senhor, prepara-te para a prova. Endireita teu coração e sê constante… Tudo o que te acontecer, aceita-o, e nas vicissitudes que te humilharem, sê paciente” (Eclo 2,1.4). Como Jesus e os profetas que vieram antes dele, o serviço e a fidelidade ao Evangelho nos colocam em dificuldades e provações! É a dor do Reino de Deus!

A mesma visão de fé que faz distinguir os profetas do Senhor, também nos abre os olhos para reconhecer nos outros irmãos de verdade, irmãos no Senhor, e amá-los de todo o coração. É este o verdadeiro dom, o maior carisma de que fala São Paulo na segunda leitura. Aí, o Apóstolo não fala de um amor-sentimento, amor-simpatia, amor-amizade, mas do amor-caridade, o amor de Deus, que é o Espírito Santo derramado em nossos corações, amor que é capaz de dar a vida… amor como aquele do Cristo que nos amou primeiro e amou-nos até o fim! É este amor, que nasce da raiz do amor a Deus, da abertura para Deus, da intimidade com Deus, que dá sentido a todas as coisas. E sem ele, nada tem sentido para o Reino de Deus… nem a fé! Em última análise, quem salva não é a fé, mas o amor que dá vida e sabor à fé! E o amor a Deus, que desabrocha no amor aos irmãos, é concreto, tem que ser concreto: pode ser visto na paciência, na benignidade, na generosidade, na humildade, na gratuidade, na mansidão, na retidão, na verdade… E São Paulo recorda que um amor assim é coisa de adultos na fé. Quem não ama é imaturo na fé, é criança que pensa e age como criança! Só o amor nos amadurece, só o amor nos faz ver os outros e a vida com os olhos de Deus

Eis, então, de modo resumido, o desafio, o convite da Palavra de Deus hoje: (1) uma fé, uma capacidade de acolher o Senhor, de tal modo que reconheçamos que ele vem a nós na palavra e no testemunho de tantos irmãos e irmãs que conosco convivem; (2) uma fé capaz de suportar com paciência e alegria os reveses da missão que Deus nos confiou e (3) uma fé capaz de desabrochar em amor aos irmãos; amor provado e revelado em atitudes concretas.
Creiamos: somos a Igreja, Comunidade do Senhor Jesus, continuamente vivificada e orientada pelo seu Espírito de amor! Arrisquemos crer; arrisquemos viver de amor… e experimentaremos a doçura do Senhor e a alegria de viver como irmãos.

D. Henrique Soares da Costa