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A Transfiguração de Jesus Cristo (24-02-2013)

Primeira Leitura:
PENTATEUCO: Livro do Gênesis (Gn), capítulo 15
(5) E, conduzindo-o fora, disse-lhe: “Levanta os olhos para os céus e conta as estrelas, se és capaz... Pois bem, ajuntou ele, assim será a tua descendência.” (6) Abrão confiou no Senhor, e o Senhor lho imputou para justiça. (7) E disse-lhe: “Eu sou o Senhor que te fiz sair de Ur da Caldéia para dar-te esta terra.” (8) “O Senhor Javé, como poderei saber se a hei de possuir?” (9) “Toma uma novilha de três anos, respondeu-lhe o Senhor, uma cabra de três anos, um cordeiro de três anos, uma rola e um pombinho.” (10) Abrão tomou todos esses animais, e dividiu-os pelo meio, colocando suas metades uma defronte da outra, mas não cortou as aves. (11) Vieram as aves de rapina e atiraram-se sobre os cadáveres, mas Abrão as expulsou. (12) E eis que, ao pôr-do-sol, veio um profundo sono a Abrão, ao mesmo tempo que o assaltou um grande pavor, uma espessa escuridão. (13) O Senhor disse-lhe: “Sabe que teus descendentes habitarão como peregrinos uma terra que não é sua, e que nessa terra eles serão escravizados e oprimidos durante quatrocentos anos. (14) Mas eu julgarei também o povo ao qual estiverem sujeitos, e sairão em seguida dessa terra com grandes riquezas. (15) Quanto a ti, irás em paz juntar-se aos teus pais, e serás sepultado numa ditosa velhice. (16) Somente à quarta geração os teus descendentes voltarão para aqui, porque a iniqüidade dos amorreus não chegou ainda ao seu cúmulo.” (17) Quando o sol se pôs, formou-se uma densa escuridão, e eis que um braseiro fumegante e uma tocha ardente passaram pelo meio das carnes divididas. (18) Naquele dia, o Senhor fez aliança com Abrão: “Eu dou, disse ele, esta terra aos teus descendentes, desde a torrente do Egito até o grande rio Eufrates:

Segunda Leitura:
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Epístola aos Filipenses (Fl), capítulo 3
(17) Irmãos, sede meus imitadores, e olhai atentamente para os que vivem segundo o exemplo que nós vos damos. (18) Porque há muitos por aí, de quem repetidas vezes vos tenho falado e agora o digo chorando, que se portam como inimigos da cruz de Cristo, (19) cujo destino é a perdição, cujo deus é o ventre, para quem a própria ignomínia é causa de envaidecimento, e só têm prazer no que é terreno. (20) Nós, porém, somos cidadãos dos céus. É de lá que ansiosamente esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, (21) que transformará nosso mísero corpo, tornando-o semelhante ao seu corpo glorioso, em virtude do poder que tem de sujeitar a si toda criatura.
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Epístola aos Filipenses (Fl), capítulo 4
(1) Portanto, meus muito amados e saudosos irmãos, alegria e coroa minha, continuai assim firmes no Senhor, caríssimos.
EVANGELHOS: Evangelho segundo São Lucas (Lc), capítulo 9
(28) Passados uns oitos dias, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, e subiu ao monte para orar.
(29) Enquanto orava, transformou-se o seu rosto e as suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura.
(30) E eis que falavam com ele dois personagens: eram Moisés e Elias,
(31) que apareceram envoltos em glória, e falavam da morte dele, que se havia de cumprir em Jerusalém.
(32) Entretanto, Pedro e seus companheiros tinham-se deixado vencer pelo sono, ao despertarem, viram a glória de Jesus e os dois personagens em sua companhia.
(33) Quando estes se apartaram de Jesus, Pedro disse: Mestre, é bom estarmos aqui. Podemos levantar três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias!... Ele não sabia o que dizia.
(34) Enquanto ainda assim falava, veio uma nuvem e encobriu-os com a sua sombra, e os discípulos, vendo-os desaparecer na nuvem, tiveram um grande pavor.
(35) Então da nuvem saiu uma voz: Este é o meu Filho muito amado, ouvi-o!
(36) E, enquanto ainda ressoava esta voz, achou-se Jesus sozinho. Os discípulos calaram-se e a ninguém disseram naqueles dias coisa alguma do que tinham visto.
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Canção Nova: Homilia

ESCUTAI-O!

Os evangelhos da tentação no deserto e da transfiguração marcam, a cada ano, os dois primeiros domingos da Quaresma. São os dois lados da nossa vida espiritual: a ascética e a mística. O evangelista São Lucas nos apresenta, mais uma vez, Nosso Senhor como mestre da oração. Mas, por que, embora fosse Deus, Jesus precisava orar mesmo assim?

Santo Tomás de Aquino, em sua Suma Teológica (III, q. 21), recorda, entre outras coisas, que Jesus não tinha somente uma vontade divina, mas também uma vontade humana. E é a existência de uma vontade humana que tornou possível que Jesus orasse.

Mas, eis que aqui se apresenta uma segunda dificuldade. Jesus nunca pecou, por isso, ele jamais colocou um ato de vontade humana que não estivesse em perfeita sintonia com a vontade divina. Como então explicar a “luta” de Jesus no Horto da Oliveiras, para se adequar à vontade de Deus? Santo Tomás explica então a participação de nossos apetites sensíveis na oração.

Na nossa linguagem comum, nós usamos a palavra “vontade” para designar duas realidades de natureza bem diferente:

  • a) a vontade propriamente dita, que é orientada pela nossa razão (seja iluminada de luz natural, seja iluminada pela graça);
  • b) o desejo do apetite sensível, ou seja, a afetividade (que não deveria ser chamado propriamente de “vontade”, mas de “veleidade”, “capricho”).

Ora, são exatamente estas veleidades que precisam ser “domadas” em nossa vida de oração. É aqui que se dá a luta: tendências irracionais, dentro de nós, que não estão em sintonia com a Vontade de Deus. Por isto, escutar a Palavra de Deus e sua divina Vontade é fundamental em nossa vida espiritual. A oração não é um ato irracional, muito pelo contrário. É a elevação de nossa alma a Deus para lhe apresentar nossa vontade, já convenientemente transformada pela luz daquilo que é bom e verdadeiro.

Entremos então, nesta Quaresma, no paciente processo de “domesticar” nosso apetites irracionais, conduzindo-os ao coração eucarístico de Cristo, onde a vontade humana está em perfeita sintonia com a vontade divina.

Padre Paulo Ricardo


Antes de tudo, duas observações: (1) A Palavra de Deus, neste Domingo, apresenta-nos um contraste muito forte entre escuridão e luz: escuridão da noite do Pai Abraão e luz do Cristo transfigurado; (2) chama atenção, num tempo tão austero como a Quaresma um evangelho tão esfuziante como o da Transfiguração. Não cairia melhor na Páscoa, este texto? Por que a Igreja o coloca aqui, no início do tempo quaresmal?

Comecemos pela primeira leitura. Aí, Abraão nos é apresentado numa profunda crise; Deus tinha lhe prometido uma descendência e uma terra e, quase vinte e cinco anos após sua saída de seu pátria e de sua família, o Senhor ainda não lhe dera nada, absolutamente nada! Numa noite escura, noite da alma, Abraão, não mais se conteve e perguntou: “Meu Senhor Deus, que me darás?” (Gn 15,2) Deus, então, “conduziu Abrão para fora e disse-lhe: ‘Olha para o céu e conta as estrelas, se fores capaz! Assim será a tua descendência!” Deus tira Abraão do seu mundozinho, de seu modo de ver estreito, da sua angústia, e convida-o a ver e sentir com os olhos e o coração do próprio Deus. “Abrão teve fé no Senhor”. Abraão esperou contra toda esperança, creu contra toda probabilidade, apostando tudo no Senhor, apoiando nele todo seu futuro, todo o sentido de sua existência! Abraão creu! Por isso Deus o considerou seu amigo, “considerou isso como justiça!” E, como recompensa Deus selou uma aliança com nosso Pai na fé: “’Traze-me uma novilha, uma cabra, um carneiro, além de uma rola e uma pombinha’. Abrão trouxe tudo e dividiu os animais ao meio. Aves de rapina se precipitaram sobre os cadáveres, mas Abrão as enxotou. Quando o sol ia se pondo, caiu um sono profundo sobre Abrão e ele foi tomado de grande e misterioso terror”. Abrão entra em crise: no meio da noite – noite cronológica, atmosférica; noite no coração de Abrão – no meio da noite, as aves de rapina ameaçam, e o sono provocado pelo desânimo e a tristeza, rondam nosso Pai na fé… Deus demora, Deus parece ausente, Deus parece brincar com Abraão! Tudo é noite, como muitas vezes na nossa vida e na vida do mundo! Mas, ele persevera, vigia, luta contra as aves rapineiras e o torpor… E, no meio da noite e da desolação, Deus passa, como uma tocha luminosa: “quando o sol se pôs e escureceu, apareceu um braseiro fumegante e uma tocha de fogo… Naquele dia, o Senhor fez aliança com Abrão”. Observemos o mistério: Deus passou, iluminou a noite; a noite fez-se dia: “Naquele dia, Deus fez aliança com Abrão!” Abraão, nosso Pai, esperou, creu, combateu, vigiou e a escuridão fez-se luz, profecia da luz que é Cristo, cumprimento da aliança prometido pelo Senhor! “O Senhor é minha luz e salvação; de quem eu terei medo? O Senhor é a proteção da minha vida; perante quem tremerei?” Eis o cumprimento da Aliança com Abraão: Cristo, que é luz, Cristo que hoje aparece transfigurado sobre o Tabor!

Fixemos a atenção no evangelho, sejamos atentos aos detalhes: Jesus estava rezando – “subiu à montanha para rezar” - e, portanto, aberto para o Pai, disponível, todo orientado para o Senhor Deus: Cristo subiu para encontrar seu Deus e Pai! E o Pai o transfigura. Sim, o Pai! Recordemos que é a voz do Pai que sai da nuvem e apresenta Aquele que brilha em luz puríssima:“Este é o meu Filho, o Escolhido!” E a Nuvem que o envolve é sinal do Espírito de Deus, aquela mesma glória de Deus que desceu sobre a Montanha do Sinai (cf. Ex Ex 19,16), sobre a Tenda de Reunião no deserto (cf. Ex 40,34-38), sobre o Templo, quando foi consagrado (cf. 1Rs 8,10-13) e sobre Maria, a Virgem (cf. Lc 1,35). É no Espírito Santo que o Pai transfigura o Filho! Na voz, temos o Pai; no Transfigurado, o Filho; na Nuvem luminosa, o Espírito! E aparecem Moisés e Elias, simbolizando a Lei e os Profetas. Aqui, não nos percamos em loucas divagações e ignóbeis conclusões, como os espíritas, que de modo louco, querem provar com este texto que os mortos se comunicam com os vivos! Trata-se, aqui, de uma visão sobrenatural, não de uma aparição fantasmagórica e natural! Moisés e Elias, que “estavam conversando com Jesus… sobre a morte, que Jesus iria sofrer em Jerusalém”. Aqui é preciso compreender! Um pouco antes – Lucas diz que oito dias antes (cf. 9,28) – Jesus tinha avisado que iria sofrer muito e morrer; os discípulos não compreendiam tal linguagem! Agora, sobre o monte, eles vêem que a Lei (Moisés) e os Profetas (Elias) davam testemunho da morte de Jesus, de sua Páscoa! Sua paixão e morte vão conduzi-lo à glória da Ressurreição, glória que Jesus revela agora, de modo maravilhoso! Assim, a fé dos discípulos, que dormiam como Abraão, é fortalecida, como o foi a de Abraão, ao passar a glória do Senhor na tocha de fogo! A verdadeira tocha, a verdadeira luz que ilumina nossas noites sombrias e nossas dúvidas tão persistentes é Jesus!

Mas, por que este evangelho logo no início da Quaresma? Precisamente porque estamos caminhando para a Páscoa: a de 2004 e a da Eternidade. Atravessando a noite desta vida e o combate quaresmal, estamos em tempo de oração, vigilância e penitência! A Igreja, como Mãe, carinhosa e sábia, nos anima, revelando-nos qual o nosso objetivo, qual a nossa meta, o nosso destino: trazer em nós a imagem viva do Cristo ressuscitado, transfigurado pelo Espírito Santo do Pai. Escutemos São Paulo:“Nós somos cidadãos do céu. De lá esperamos o nosso Salvador, o Senhor Jesus Cristo. Ele transformará o nosso corpo humilhado e o tornará semelhante ao seu corpo glorioso. Assim, meus irmãos, continuai firmes no Senhor!” Compreendem? Se mantivermos o olhar firme naquilo que nos aguarda – a glória de Cristo –, teremos força para atravessar a noite desta vida e o combate da Quaresma. Somos convidados à perseverança de Abraão, ao seu combate na noite, à vigilância e à esperança, somos convidados a não sermos “inimigos da cruz de Cristo, que só pensam nas coisas terrenas”, somos convidados a viver de fé, a combater na fé! Este é o combate da Quaresma, este é o combate da vida: passar da imagem do homem velho, com seus velhos raciocínios e sentimentos, ao homem novo, imagem do Cristo glorioso! Se formos fiéis, poderemos celebrar a Páscoa deste ano mais assemelhados ao Cristo transfigurado pela glória da Ressurreição e, um dia, seremos totalmente transfigurados à imagem bendita do Filho de Deus, que com o Pai e o Espírito Santo vive e reina na glória imperecível. Amém!

D. Henrique Soares da Costa