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A miséria e a misericórdia (17-03-2013)

Primeira Leitura:
PROFETAS MAIORES: Livro de Isaías (Is), capítulo 43
(16) Eis o que diz o Senhor que abriu uma passagem através do mar, um caminho em meio às ondas, (17) que pôs em campo carros e cavalos, a tropa de soldados e chefes: eles caíram então para nunca mais se levantar, Extinguiram-se como um pavio de vela. (18) Não vos lembreis mais dos acontecimentos de outrora, não recordeis mais as coisas antigas, (19) porque eis que vou fazer obra nova, a qual já surge: não a vedes? Vou abrir uma via pelo deserto, e fazer correr arroios pela estepe. (20) Dar-me-ão glória os animais selvagens, os chacais e as avestruzes, pois terei feito jorrar água no deserto, e correr arroios na estepe, para saciar a sede de meu povo, meu eleito, (21) o povo, que formei para mim, contará meus feitos.

Segunda Leitura:
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Epístola aos Filipenses (Fl), capítulo 3
(8) Na verdade, julgo como perda todas as coisas, em comparação com esse bem supremo: o conhecimento de Jesus Cristo, meu Senhor. Por ele tudo desprezei e tenho em conta de esterco, a fim de ganhar Cristo (9) e estar com ele. Não com minha justiça, que vem da lei, mas com a justiça que se obtém pela fé em Cristo, a justiça que vem de Deus pela fé. (10) Anseio pelo conhecimento de Cristo e do poder da sua Ressurreição, pela participação em seus sofrimentos, tornando-me semelhante a ele na morte, (11) com a esperança de conseguir a ressurreição dentre os mortos. (12) Não pretendo dizer que já alcancei (esta meta) e que cheguei à perfeição. Não. Mas eu me empenho em conquistá-la, uma vez que também eu fui conquistado por Jesus Cristo. (13) Consciente de não tê-la ainda conquistado, só procuro isto: prescindindo do passado e atirando-me ao que resta para a frente, (14) persigo o alvo, rumo ao prêmio celeste, ao qual Deus nos chama, em Jesus Cristo.
EVANGELHOS: Evangelho segundo São João (Jo), capítulo 8
(1) Dirigiu-se Jesus para o monte das Oliveiras.
(2) Ao romper da manhã, voltou ao templo e todo o povo veio a ele. Assentou-se e começou a ensinar.
(3) Os escribas e os fariseus trouxeram-lhe uma mulher que fora apanhada em adultério.
(4) Puseram-na no meio da multidão e disseram a Jesus: Mestre, agora mesmo esta mulher foi apanhada em adultério.
(5) Moisés mandou-nos na lei que apedrejássemos tais mulheres. Que dizes tu a isso?
(6) Perguntavam-lhe isso, a fim de pô-lo à prova e poderem acusá-lo. Jesus, porém, se inclinou para a frente e escrevia com o dedo na terra.
(7) Como eles insistissem, ergueu-se e disse-lhes: Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra.
(8) Inclinando-se novamente, escrevia na terra.
(9) A essas palavras, sentindo-se acusados pela sua própria consciência, eles se foram retirando um por um, até o último, a começar pelos mais idosos, de sorte que Jesus ficou sozinho, com a mulher diante dele.
(10) Então ele se ergueu e vendo ali apenas a mulher, perguntou-lhe: Mulher, onde estão os que te acusavam? Ninguém te condenou?
(11) Respondeu ela: Ninguém, Senhor. Disse-lhe então Jesus: Nem eu te condeno. Vai e não tornes a pecar.
Homilia do Padre Paulo Ricardo : PLAYER AQUI
Homilia do Padre Miguel:PLAYER AQUI
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético
Ver Homilia de Dom Henrique Soares
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Ver Homilia do Pe. Françoá Costa
Canção Nova: Homilia

A MISÉRIA E A MISERICÓRDIA!

O Evangelho deste domingo faz com que a nossa miséria se encontre com a misericórdia de Cristo. A atitude de Jesus diante da pecadora é marcada por um amor incondicional para com o pecador e por uma clara rejeição do pecado.

O cristianismo é assim: uma espada que separa (absolve) o pecado do pecador. O pecado em si, não merece perdão algum e será precipitado por Deus no abismo infernal. Já o pecador é resgatado pelo Cristo Inocente, o único que poderia "atirar a primeira pedra", mas não condenou. Neste ponto, a misericórdia se transforma em desafio e pede que trilhemos um novo caminho, o caminho do amor: "vá e de agora em diante não peques mais".

Capítulo 6 - Paradoxos do Cristianismo

Tomemos outro caso: a complicada questão da caridade, que alguns idealistas altamente descaridosos parecem julgar muito simples. A caridade é um paradoxo, como a modéstia e a coragem. Mal formulada, a caridade certamente significa uma de duas coisas: perdoar atos imperdoáveis ou amar pessoas não amáveis. Mas se nos perguntarmos (como fizemos no caso do orgulho) o que um pagão sensato sentiria a respeito desse assunto, vamos provavelmente começar da base da questão.

Um pagão sensato diria que há algumas pessoas que se podem perdoar; e algumas que não se podem: um escravo que roubasse vinho poderia ser motivo de riso; um escravo que traísse seu benfeitor poderia ser morto e amaldiçoado mesmo depois de morto. Na medida em que o ato era perdoável, o homem era perdoável. Isso, mais uma vez, é racional, e até reconfortante; mas é uma diluição. Não deixa espaço para o puro horror perante uma injustiça, como aquele que é uma grande beleza no inocente. E não deixa espaço para a mera ternura pelos homens na qualidade de homens, como a que constitui todo o fascínio do caridoso. Como antes, o cristianismo entrou em cena. Entrou de maneira alarmante com uma espada e separou uma coisa da outra. Separou o crime do criminoso. Ao criminoso devíamos perdoar até setenta vezes sete. Ao crime não devíamos perdoar de modo algum. Não bastava que os escravos que roubassem vinho inspirassem em parte ira e em parte bondade. Nós devíamos nos irar muito mais com o furto do que antes, e, no entanto, devíamos ser muito mais bondosos com os ladrões do que antes. Havia espaço para a ira e para o amor sem limites. E quanto mais eu contemplava o cristianismo, tanto mais percebia que, embora ele houvesse estabelecido uma regra e uma ordem, o objetivo principal dessa ordem era permitir espaço para coisas boas sem limites.

G. K. Chesterton, Ortodoxia (Edição centenária 1908-2008), Editora Mundo Cristão, São Paulo, 2007.

Padre Paulo Ricardo


EIS QUE EU FAREI COISAS NOVAS

Vai se intensificando a preparação para o Tríduo Sacro que nos faz celebrar a Santa Páscoa. Desde a segunda-feira passada, as leituras do Evangelho de João apresentam-nos Cristo em tensão com os judeus, tensão que culminará com sua morte. Hoje, a liturgia permite que cubramos as imagens de roxo ou branco, exprimindo o jejum dos nossos olhos: a necessidade de purificar o olhar de nosso coração, para irmos direto ao essencial: “a caridade, que levou o Filho a entregar-se à morte no seu amor pelo mundo” (Oração da Coleta). A partir de amanhã, segunda-feira, este clima de preparação para o mistério pascal intensifica-se ainda mais com o Prefácio da Paixão, rezado em cada Missa.

Por tudo isso, o profeta Isaías, em nome do Senhor, nos convida a olhar para frente, para o mistério que é maior que qualquer outra ação de Deus: o mistério do Filho em sua paixão, morte e ressurreição: “Não relembreis coisas passadas, não olheis para fatos antigos. Eis que eu farei coisas novas, e que já estão surgindo: acaso não as reconheceis”. Mais que a criação, mais que a travessia do Mar Vermelho, mais que a água jorrada da rocha… o Senhor fará algo definitivo! Ele abrirá uma estrada no deserto, fará correr rios em terra seca!

Pensemos estas imagens à luz da Páscoa: o Senhor Jesus nos abrirá no deserto da morte – e das mortes da vida – uma estrada de vida, um caminho para o Pai: “Vós me ensinareis o caminho da vida!” O Senhor Jesus fará brotar de seu lado aberto o rio da graça, o rio dos sacramentos, do Batismo (água) e da Eucaristia (sangue) que regam e fertilizam a nossa pobre existência! “Eis que eu farei coisas novas!”

Nunca esqueçamos que a Páscoa do Senhor – Passagem deste mundo para o Pai, atravessando o tenebroso vale da morte – é também a nossa Páscoa: Passagem pela vida neste mundo, que terminará com Cristo na plenitude do Pai; mas também, já agora, Passagem sempre renovada do pecado para a graça, dos vícios para a virtude, de uma vida centrada em nós mesmos, para uma vida centrada com Cristo em Deus. É este, precisamente, o sentido do Evangelho deste Domingo: a mulher pecadora, renovada pelo perdão do único que poderia condená-la, porque o único Inocente: “Eu não te condeno. Podes ir, e de agora em diante não peques mais”. Diante do Cristo, o Inocente que por nós será entregue e por nós livremente entregar-se-á, como não nos reconhecermos culpados? Como não termos vergonha de julgar e condenar os demais? Como não nos sentirmos amados, acolhidos e perdoados por Aquele que nos lavou com o seu sangue, nos aliviou com suas dores e nos revivificou com a sua Ressurreição? Afinal, quem é essa mulher adúltera? Não é Israel, que se prostituiu? Não é a Igreja, quando nos seus filhos pecadores, trai o Evangelho? Não somos nós, cada um de nós, com nossas infidelidades, covardias e incoerências? Todos pecadores, todos necessitados do perdão, todos perdoados e acolhidos por Aquele que não tem pecado!

Pensemos no Senhor Jesus, naquela sua caridade, naquele seu amor, que o levou a entregar-se à morte no seu amor pelo mundo! Pensemos com o comovente pensamento de São Paulo. É um testemunho comovente de um amor apaixonado: “Considero tudo como perda diante da vantagem suprema que consiste em conhecer a Cristo Jesus, meu Senhor”. Conhecer a Cristo significa unir-se a ele, participar de sua experiência, de seu caminho, de seu destino… “Por ele eu perdi tudo. Considero tudo como lixo, para ganhar Cristo e ser encontrado unido a ele… experimentar a força da sua ressurreição, ficar em comunhão com os seus sofrimentos, tornando-me semelhante a ele na sua morte, para ver se alcanço a ressurreição dentre os mortos” São palavras estupendas! Perder tudo por Cristo, perder-se em Cristo, tudo relativizar por Cristo e em relação a Cristo, ter na vida e fazer da vida uma única paixão: estar unido a Cristo no seu sofrimento e na sua ressurreição, completando em mim o que falta de suas dores e experimentando já agora – e um dia, de modo pleno -, o poder vitorioso da sua Ressurreição. O que São Paulo deseja? Viver na sua vida, na sua carne, nos seus dias, a Páscoa do Senhor. Deseja que seus sofrimentos e desafios estejam unidos aos de Cristo e sejam vividos em Cristo e no amor de Cristo para também experimentar na carne e na vida – na carne da vida! – a vitória de Cristo. Isto é conhecer Jesus Cristo! Não um conhecimento teórico, exterior, mas um conhecimento coração a coração, vida a vida, lágrima a lágrima, vitória a vitória! Este deve – deveria – ser o caminho normal de todo o cristão! Esta é a verdadeira ciência, que transcende qualquer outra ciência; esta, a verdadeira teologia, o verdadeiro conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo!

Está próxima a Páscoa, a Festa dos cristãos! Nestes dias santíssimos, unamo-nos intimamente ao Senhor Jesus Cristo, deixemos que o Santo Espírito reproduza em nós os seus sentimentos de total confiança no Pai e total entrega amorosa aos irmãos, à humanidade. Sigamos o exemplo do Apóstolo: “Uma coisa eu faço: esquecendo o que ficou para trás, eu me lanço para o que está à frente. Corro direto para a meta, rumo ao prêmio, que do alto, Deus me chama a receber em Cristo Jesus”. Cristo Jesus! Que nome tão doce, que consolo tão grande, que esperança tão certa, que prêmio tão imperecível. A ele – e só a ele – toda a glória e toda a honra!

“Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos, porque pela vossa santa cruz remistes o mundo!”

D. Henrique Soares da Costa