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A Sagrada Família (29-12-2013)

Primeira Leitura:
SAPIENCIAL: Livro do Eclesiástico (Eclo), capítulo 3
(3) Pois Deus quis honrar os pais pelos filhos, e cuidadosamente fortaleceu a autoridade da mãe sobre eles. (4) Aquele que ama a Deus o roga pelos seus pecados, acautela-se para não cometê-los no porvir. Ele é ouvido em sua prece cotidiana. (5) Quem honra sua mãe é semelhante àquele que acumula um tesouro. (6) Quem honra seu pai achará alegria em seus filhos, será ouvido no dia da oração. (7) Quem honra seu pai gozará de vida longa, quem lhe obedece dará consolo à sua mãe. (8) Quem teme ao Senhor honra pai e mãe. Servirá aqueles que lhe deram a vida como a seus senhores. (9) Honra teu pai por teus atos, tuas palavras, tua paciência, (10) a fim de que ele te dê sua bênção, e que esta permaneça em ti até o teu último dia. (11) A bênção paterna fortalece a casa de seus filhos, a maldição de uma mãe a arrasa até os alicerces. (12) Não te glories do que desonra teu pai, pois a vergonha dele não poderia ser glória para ti, (13) pois um homem adquire glória com a honra de seu pai, e um pai sem honra é a vergonha do filho. (14) Meu filho, ajuda a velhice de teu pai, não o desgostes durante a sua vida. (15) Se seu espírito desfalecer, sê indulgente, não o desprezes porque te sentes forte, pois tua caridade para com teu pai não será esquecida, (16) e, por teres suportado os defeitos de tua mãe, ser-te-á dada uma recompensa, (17) tua casa tornar-se-á próspera na justiça. Lembrar-se-ão de ti no dia da aflição, e teus pecados dissolver-se-ão como o gelo ao sol forte.

Segunda Leitura:
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Epístola aos Colossenses (Cl), capítulo 3
(12) Portanto, como eleitos de Deus, santos e queridos, revesti-vos de entranhada misericórdia, de bondade, humildade, doçura, paciência. (13) Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, toda vez que tiverdes queixa contra outrem. Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai também vós. (14) Mas, acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição. (15) Triunfe em vossos corações a paz de Cristo, para a qual fostes chamados a fim de formar um único corpo. E sede agradecidos. (16) A palavra de Cristo permaneça entre vós em toda a sua riqueza, de sorte que com toda a sabedoria vos possais instruir e exortar mutuamente. Sob a inspiração da graça cantai a Deus de todo o coração salmos, hinos e cânticos espirituais. (17) Tudo quanto fizerdes, por palavra ou por obra, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai. (18) Mulheres, sede submissas a vossos maridos, porque assim convém, no Senhor. (19) Maridos, amai as vossas mulheres e não as trateis com aspereza. (20) Filhos, obedecei em tudo a vossos pais, porque isto agrada ao Senhor. (21) Pais, deixai de irritar vossos filhos, para que não se tornem desanimados.
EVANGELHOS: Evangelho segundo São Mateus (Mt), capítulo 2
(13) Depois de sua partida, um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse: Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito, fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o menino para o matar.
(14) José levantou-se durante a noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egito.
(15) Ali permaneceu até a morte de Herodes para que se cumprisse o que o Senhor dissera pelo profeta: Eu chamei do Egito meu filho (Os 11,1).
(16) Vendo, então, Herodes que tinha sido enganado pelos magos, ficou muito irado e mandou massacrar em Belém e nos seus arredores todos os meninos de dois anos para baixo, conforme o tempo exato que havia indagado dos magos.
(17) Cumpriu-se, então, o que foi dito pelo profeta Jeremias:
(18) Em Ramá se ouviu uma voz, choro e grandes lamentos: é Raquel a chorar seus filhos, não quer consolação, porque já não existem (Jer 31,15)!
(19) Com a morte de Herodes, o anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, no Egito, e disse:
(20) Levanta-te, toma o menino e sua mãe e retorna à terra de Israel, porque morreram os que atentavam contra a vida do menino.
(21) José levantou-se, tomou o menino e sua mãe e foi para a terra de Israel.
(22) Ao ouvir, porém, que Arquelau reinava na Judéia, em lugar de seu pai Herodes, não ousou ir para lá. Avisado divinamente em sonhos, retirou-se para a província da Galiléia
(23) e veio habitar na cidade de Nazaré para que se cumprisse o que foi dito pelos profetas: Será chamado Nazareno.
Homilia do : Padre Paulo Ricardo
Homilia do Padre Miguel:---
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético
Ver Comentário Exegético
Ver Homilia de Mons. José Maria
Canção Nova: Homilia

 Solenidade da Sagrada Família

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, segundo São Mateus (Mt 2,13-15.19-23)

Damos início ao último programa Testemunho de Fé de 2013, refletindo sobre o mistério da Sagrada Família. O Evangelho de São Mateus nos fala de São José, juntamente com sua esposa, a Virgem Santíssima e o menino recém-nascido, Nosso Senhor Jesus. Um anjo é enviado por Deus para salvá-los das mãos de Herodes: "Levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge para o Egito! Fica lá até que eu te avise! Porque Herodes vai procurar o menino para matá-lo". Trata-se de um episódio duplamente significativo. Deus, ao mesmo tempo em que manda seu anjo para proteger o lar de Maria e José, também se revela como uma Pessoa que se faz família e vive no meio de nós. Após o tempo previsto, José se encaminha para Nazaré, onde Jesus crescerá em total discrição, sendo acalentado pelo zelo de seu pai e sua mãe.

Algumas pessoas ficam escandalizadas diante desse mistério. Como é possível que Deus tenha passado 30 anos de sua vida escondido no abrigo de seu lar, enquanto as pessoas lá fora necessitavam da salvação? Tal é o escândalo que, para justificar o silêncio de Cristo, existem certas teorias duvidosas a respeito dos anos de discrição em que Jesus viveu ocultamente. Alguns defendem que ele teria ido para a Índia aprender com os sábios, outros, que ele teria sido raptado por alienígenas. A razão para essa incompreensão, por conseguinte, se deve ao fato de que ninguém mais é capaz de compreender que Deus tenha vindo à Terra simplesmente para ter um lar01.

Em resposta a essas teorias, podemos ler nos escritos de São Luis Maria Grignon de Montfort, sobretudo no seu famoso Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, que Jesus "deu mais glória a seu Pai durante esse tempo de sujeição e dependência da Virgem Santíssima, do que lhe teria dado empregando esses trinta anos a fazer prodígios, a pregar por toda a Terra a converter todos os homens, do contrário, Ele o teria feito"02. Ora, Deus quis ser família na Terra assim como O é no Céu. São Paulo, com efeito, nos recorda que é do Céu que provém toda a paternidade: "Por esta causa dobro os joelhos em presença do Pai, ao qual deve a sua existência toda família no céu e na terra" (Cf. Ef. 3, 14-15). É uma grande profissão de fé no Deus que é a causa e a origem de toda família. Somente quem enxerga essa realidade pelas lentes da fé pode compreender o mistério familiar. Só crê na família quem crê na alma.

No século XVII, o filósofo Thomas Hobbes, em seu livro Leviatã, descreveu o gênero humano como uma horda de bárbaros. A ideia de Hobbes é de que o homem seria o lobo do próprio homem (homo homini lupus). No início da era humana estaria um comportamento selvagem, que exigiria do homem, por assim dizer, uma espécie de "contrato social" para que ele alcançasse uma relativa paz. A sociedade surge, então, por meio de um acordo de conveniência, não por meio da família. Mas o mundo em que Hobbes vive é evidentemente diferente do nosso. Qualquer pessoa é capaz de enxergar que a civilização tem origem na família, considerada desde os tempos mais remotos a célula mater da sociedade. A própria fragilidade de um bebê exige a existência de um pai e de um mãe. Na era das cavernas, por exemplo, nós vemos claramente a necessidade de uma figura paterna que desse proteção à mãe e à prole diante do perigo das feras.

Todavia, há uma tendência muito negativa no pensamento atual em relação à identidade básica do ser humano. Infelizmente, não se crê mais na alma e nos laços que decorrem de sua existência. O amor deixou de figurar como uma aliança eterna com outra pessoa, uma união de "corpo e alma". E esse é o grande drama familiar moderno. De fato, a família não é - nem pode ser - um "contrato social" para limitar a selvageria do homem. A sociedade surge porque temos alma. Temos uma tendência a realizar essa união, pois nascemos para amar. Não se trata de um contrato social de oportunismo. Nós temos uma alma, uma identidade espiritual para reproduzir aqui na terra a realidade de Deus no céu. É assim que a família se torna o ambiente onde o homem aprende toda virtude.

Se o mundo fosse como Thomas Hobbes o descreve, nós precisaríamos de um policial para cada ser humano. Nós precisaríamos de um governo totalitário para impedir a guerra. Mas se promovemos a família, no entanto, promovemos um lugar onde a pessoa aprende pela virtude. Santo Tomás de Aquino nos recorda isso na Suma Teológica. Existem duas formas de impor a lei:para as pessoas más se requer a repressão, mas para as pessoas virtuosas, exige-se apenas o conselho paterno. Eis aí o significado da família. Ela é o lugar onde as pessoas virtuosas estão dispostas a aprender o conselho paterno.

Então surge diante de nós dois caminhos: seguirmos a vontade de Deus - mesmo na condição de criaturas marcadas pelo pecado -, assumindo uma aliança eterna de amor, para reproduzir já aqui na Terra a divindade do Céu, ou, então, sermos animais selvagens, necessitados de um governo tirânico que retire nossa liberdade, nossas vidas e nossos bens. A Igreja, por outro lado, vem nos recordar que fomos feitos para amar. Essa é a nossa vocação. No íntimo do ser humano existe um chamado à família, a reproduzir a união eterna com Deus. É um dado que se verifica tanto pela fé quanto pela ciência. Nossos corpos não têm sentido sozinhos, mas acompanhados. Somos naturalmente feitos para a comunhão. Com efeito, a família está presente na realidade de todas as épocas, de todos os tempos e de todos os lugares.

Os filósofos modernos, não obstante, incitam a crise familiar, concebendo o homem como uma criatura sem alma. De Hobbes a Marx, a família se torna o lugar da desigualdade, de sorte que vemos agora uma campanha mundial contra a realidade do matrimônio. As universidades, os governos, as instituições se tornaram inimigas da família e, em última análise, do próprio ser humano.

Nesta festa da Sagrada Família, portanto, somos convidados a refletir sobre esta pergunta: quem nós somos, bichos sem alma ou criaturas amadas e queridas por Deus? Ora, o ser humano é família e é família protegida pela graça do Céu. No Evangelho, vemos a mão do Criador se levantar contra o poder de Herodes, para salvar José, Maria e o Menino. Peçamos a Deus, nesse sentido, que Ele venha mais uma vez nos alertar contra os Herodes modernos que tramam contra nós. Que o anjo do Senhor venha e nos diga: "Levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge".

Céus e Terras passarão, mas a família não passará.

Referências

  1. A vida oculta de Jesus
  2. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n. 139

Padre Paulo Ricardo