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Convertei-vos! (26-01-2014)

Primeira Leitura:

PROFETAS MAIORES: Livro de Isaías (Is), capítulo 9
(1) O povo que andava nas trevas viu uma grande luz, sobre aqueles que habitavam uma região tenebrosa resplandeceu uma luz. (2) Vós suscitais um grande regozijo, provocais uma imensa alegria, rejubilam-se diante de vós como na alegria da colheita, como exultam na partilha dos despojos. (3) Porque o jugo que pesava sobre ele, a coleira de seu ombro e a vara do feitor, vós os quebrastes, como no dia de Madiã.

Segunda Leitura:
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Primeira Epístola aos Coríntios (1Cor), capítulo 1
(10) Rogo-vos, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que todos estejais em pleno acordo e que não haja entre vós divisões. Vivei em boa harmonia, no mesmo espírito e no mesmo sentimento. (11) Pois acerca de vós, irmãos meus, fui informado pelos que são da casa de Cloé, que há contendas entre vós. (12) Refiro-me ao fato de que entre vós se usa esta linguagem: Eu sou discípulo de Paulo, eu, de Apolo, eu, de Cefas, eu, de Cristo. (13) Então estaria Cristo dividido? É Paulo quem foi crucificado por vós? É em nome de Paulo que fostes batizados? (14) Graças a Deus, não batizei nenhum de vós, à exceção de Crispo e Gaio. (15) Assim ninguém poderá dizer que fostes batizados em meu nome. (16) (Aliás, batizei também a família de Estéfanas. Além destes, não me consta ter batizado ninguém mais.) (17) Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar o Evangelho, e isso sem recorrer à habilidade da arte oratória, para que não se desvirtue a cruz de Cristo.
EVANGELHOS: Evangelho segundo São Mateus (Mt), capítulo 4
(12) Quando, pois, Jesus ouviu que João fora preso, retirou-se para a Galiléia.
(13) Deixando a cidade de Nazaré, foi habitar em Cafarnaum, à margem do lago, nos confins de Zabulon e Neftali,
(14) para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta Isaías:
(15) A terra de Zabulon e de Neftali, região vizinha ao mar, a terra além do Jordão, a Galiléia dos gentios,
(16) este povo, que jazia nas trevas, viu resplandecer uma grande luz, e surgiu uma aurora para os que jaziam na região sombria da morte (Is 9,1).
(17) Desde então, Jesus começou a pregar: Fazei penitência, pois o Reino dos céus está próximo.
(18) Caminhando ao longo do mar da Galiléia, viu dois irmãos: Simão (chamado Pedro) e André, seu irmão, que lançavam a rede ao mar, pois eram pescadores.
(19) E disse-lhes: Vinde após mim e vos farei pescadores de homens.
(20) Na mesma hora abandonaram suas redes e o seguiram.
(21) Passando adiante, viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João, que estavam com seu pai Zebedeu consertando as redes. Chamou-os,
(22) e eles abandonaram a barca e seu pai e o seguiram.
(23) Jesus percorria toda a Galiléia, ensinando nas suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino, curando todas as doenças e enfermidades entre o povo.
Homilia do : Padre Paulo Ricardo
Homilia do Padre Miguel:---
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético
Ver Homilia de Dom Henrique Soares
Canção Nova: Homilia

 

3º Domingo do Tempo Comum - A primeira conversão

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, segundo Mateus (Mt 4,12-23)

O Evangelho proclamado neste domingo fala sobre o início da pregação de Jesus. Tendo tomado conhecimento da prisão de João Batista, Cristo deixa Nazaré e vai morar em Cafarnaum, onde começa seu ministério público. A sua mensagem é uma só: "Convertei-vos, porque o reino de Deus está próximo". Dado esse passo, Jesus se dirige a dois pares de irmãos e os convida para segui-Lo: "Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens". São eles Simão, chamado Pedro, e seu irmão André; e Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João. O que se segue após a esse convite consiste em uma renúncia: "Eles imediatamente deixaram as redes e o seguiram." Os quatro não serão somente apóstolos de Jesus, mas também grandes amigos, participando dos momentos decisivos de Sua vida terrena.

Uma grande santa medieval, declarada doutora da Igreja pelo Papa Paulo VI, nos presta uma importante contribuição nesta reflexão. Santa Catarina de Sena, no seu famoso "Livro da Divina Doutrina" - popularmente conhecido como "Diálogo da Divina Providência" -, descreve esse episódio da vida dos apóstolos como "a primeira conversão". A santa nada mais faz do que repetir uma antiga tradição da Igreja, em que os santos padres relatam os três estágios da conversão do homem - aqui, pode-se também fazer um paralelo com a doutrina das "sete moradas" de Santa Teresa d'Ávila (01). A vida espiritual, escreve Santa Catarina, necessita de três conversões para que possa alcançar a perfeição. Seria algo parecido com o que acontece em nosso crescimento biológico. Temos a infância, a adolescência e a maturidade. De igual modo, também na caminhada espiritual vivemos essas transições que, no caso em questão, são os principiantes na fé, os avançados e os perfeitos. O ser humano enfrenta dilemas, crises, consolações e desapegos. Neste itinerário, há um grande risco de que a alma se perca, uma vez que as oscilações levam o indivíduo a considerar um abandono de sua vida espiritual, tal como ocorreu com os próprios apóstolos no momento da crucificação.

Conforme o ensinamento de Santa Catarina de Sena, a primeira conversão se dá no chamado de Cristo. Há uma iniciativa de Deus. Ele vem para nos tornar "pescadores de homens". A segunda conversão, por sua vez, se dá no calvário. A fé do homem é forjada pela dor e pelo risco de se perder. Já a terceira conversão, momento em que abandonamos todas as paixões desordenadas para amar somente a Deus, ocorre em Pentecostes. Jesus envia o seu Espírito Santo sobre nós, encaminhando-nos à missão de evangelizar, isto é, a ser "pescador de homens". E, neste sentido, os apóstolos são os nossos maiores modelos.

Mas o que é interessante em toda esta questão é justamente a ação de Deus. Santa Catarina nos faz perceber que "ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo" (02). É Jesus quem toma a primeira iniciativa, vindo ao nosso encontro. Deus nos amou por primeiro. A primeira conversão, portanto, depende muito mais da graça divina do que do nosso próprio esforço. E é assim que deve ser, pois, do contrário, estaríamos caindo no pelagianismo (03). Reconhemo-nos dependentes da graça divina. É ela que nos dá o impulso para deixar as redes e segui-Lo. E essa graça nos é concedida no batismo, este sacramento que nos eleva acima de todas as outras criaturas.

Com efeito, neste primeiro estágio da conversação, encontramo-nos na condição de São Pedro, quando da entrada de Cristo em seu barco. Ele diz: "Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um pecador" (Cf. Lc 5, 8). Ora, Pedro vê-se indigno da presença de Deus ao mesmo tempo em que quer estar perto d'Ele para amá-Lo e adorá-Lo. E age dessa maneira porque é a luz de Deus que o faz enxergar as próprias misérias, os próprios pecados. A pessoa que se converteu vive um dilema entre o "homem velho" e o "homem novo". De fato, ele ama sinceramente a Deus e, ato contínuo, ama desordenadamente a si mesmo. Há um abandono dos pecados mortais, mas ainda existem resquícios dos pecados veniais, que só serão vencidos por meio da mortificação e da renúncia. À medida que ele se afasta desses pecados, por sua vez, ele começa a receber a recompensa de Deus: as chamadas consolações espirituais. É o que vemos na cena do monte tabor. Tomado pela beleza da transfiguração de Cristo, Pedro lança a proposta: "Senhor, é bom estarmos aqui. Se queres, farei aqui três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias" (Cf. Mt 17, 4). É a atitude de quem ainda necessita de uma nova conversão. Deus nos consola, mas podemos acabar transformando esses consolos em novo pecado. E a partir do momento em que eles se convertem em obstáculo, Deus os cancela, pois deseja nosso crescimento em santidade. Trata-se da pedagodia divina: "A vós, irmãos, não vos pude falar como a homens espirituais, mas como a carnais, como a criancinhas em Cristo. Eu vos dei leite a beber, e não alimento sólido que ainda não podíeis suportar. Nem ainda agora o podeis, porque ainda sois carnais" (Cf. 1 Cor. 3, 1-2).

São João da Cruz explicá-nos algo semelhante no seu livro "A noite escura da alma". O santo escreve que, no estágio da primeira conversão, os pecados capitais vão se convertendo em pecados espirituais. O homem passa a ter gula na oração, a desejar os prazeres do louvor, a buscar as consolações de Deus e não o Deus das consolações. E isso é extramamente grave, porque retarda o crescimento da alma. Por isso, Deus os retira. Deus nos lança na chamada aridez espiritual, para que possamos lutar e vencer nossas tentações. Diz Ele a Santa Catarina de Sena: "Conforme expliquei ao tratar dos estados da alma (18.1.2), retiro-me das almas a fim de que elas progridam no meu amor. Embora a alma continue em estado de graça, ausento-me quanto às consolações e deixo o espírito na aridez, tristonho e vazio." (04) Ainda não se está naquela "noite escura", esse estágio é o da chamada "aridez espiritual" (05).

Vemos, deste modo, que necessitamos da graça de Deus para nos converter. E é Ele quem nos move a lutar contra nossas tendências pecaminosas, até chegarmos ao terceiro estágio. Essa luta, obviamente, supõe algumas quedas e até riscos. Mas, se estivermos seguros da presença de Deus, poderemos superá-la, poderemos vencê-la. Nas coisas de Deus, portanto, ou se progride, ou se regride.

Peçamos ao Senhor a graça necessária para chegarmos à terceira conversão.

Amém!

Referências

  1. Padre Paulo Ricardo, Esforçai-vos para entrar pela porta estreita, Parresia, n. 63
  2. Bento XVI, Carta enc. Deus caritas est (25 de Dezembro de 2005), 18: AAS 98 (2006), n. 1
  3. Outro livro excelente para o estudo das três conversões é o escrito pela Padre Garrigou Lagrange: "As três vias e as três conversões".
  4. Santa Catarina de Sena, "O Diálogo", Cap. 28. Paulus, 9ª edição, São Paulo, 2005 pp. 214-219
  5. Padre Paulo Ricardo, O que fazer para vencer a aridez espiritual, A Resposta Católica, n. 173

Padre Paulo Ricardo