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Não Vos Preocupeis (02-03-2014)

Primeira Leitura:
PROFETAS MAIORES: Livro de Isaías (Is), capítulo 49
(14) Sião dizia: O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-me. (15) Pode uma mulher esquecer-se daquele que amamenta? Não ter ternura pelo fruto de suas entranhas? E mesmo que ela o esquecesse, eu não te esqueceria nunca.

Segunda Leitura:
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Primeira Epístola aos Coríntios (1Cor), capítulo 4
(1) Que os homens nos considerem, pois, como simples operários de Cristo e administradores dos mistérios de Deus. (2) Ora, o que se exige dos administradores é que sejam fiéis. (3) A mim pouco se me dá ser julgado por vós ou por tribunal humano, pois nem eu me julgo a mim mesmo. (4) De nada me acusa a consciência, contudo, nem por isso sou justificado. Meu juiz é o Senhor. (5) Por isso, não julgueis antes do tempo, esperai que venha o Senhor. Ele porá às claras o que se acha escondido nas trevas. Ele manifestará as intenções dos corações. Então cada um receberá de Deus o louvor que merece.
EVANGELHOS: Evangelho segundo São Mateus (Mt), capítulo 6
(24) Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará a um e amará o outro, ou dedicar-se-á a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e à riqueza.
(25) Portanto, eis que vos digo: não vos preocupeis por vossa vida, pelo que comereis, nem por vosso corpo, pelo que vestireis. A vida não é mais do que o alimento e o corpo não é mais que as vestes?
(26) Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam, nem recolhem nos celeiros e vosso Pai celeste as alimenta. Não valeis vós muito mais que elas?
(27) Qual de vós, por mais que se esforce, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida?
(28) E por que vos inquietais com as vestes? Considerai como crescem os lírios do campo, não trabalham nem fiam.
(29) Entretanto, eu vos digo que o próprio Salomão no auge de sua glória não se vestiu como um deles.
(30) Se Deus veste assim a erva dos campos, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé?
(31) Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos?
(32) São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso.
(33) Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo.
(34) Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado.
Homilia do : Padre Paulo Ricardo
Homilia do Padre Miguel:---
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético
Ver Homilia de Dom Henrique Soares
Canção Nova: Homilia

8º Domingo do Tempo Comum - Não vos preocupeis

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, segundo Mateus
(Mt 6, 24-34)

Neste Oitavo Domingo do Tempo Comum, Jesus exorta os seus discípulos a confiarem em Deus, lançando sobre Ele as suas preocupações. Só a palavra “preocupar-se” se repete seis vezes neste trecho do Evangelho, convidando também nós a um exame de consciência: onde está o nosso coração, sobre quem estamos lançando nossas preocupações? Sobre Deus – como recomenda São Pedro: “Confiai-lhe todas as vossas preocupações, porque ele tem cuidado de vós”[1] – ou sobre os cuidados com a nossa vida e o nosso dia a dia – “ἐν μερίμναις βιωτικαῖς”[2]?

Não é preciso dizer que Jesus colocou o dedo em nossa ferida: exatamente como Marta, temos andado muito inquietos e preocupados com muitas coisas[3]. Quantos não recorremos, em nossa agitação, a psiquiatras, na ânsia de resolvermos nossas dificuldades de forma clínica, quase que mágica? E, no entanto, a decisão fundamental, que está na origem de nossos problemas, é muitas vezes deixada de lado. Ou escolhemos viver apegados com as realidades da vida, como pagãos, ou, atentos à palavra de Jesus, buscamos em primeiro lugar o Reino de Deus, confiantes em que o resto nos será dado por acréscimo[4]. Ou agitamo-nos como Martas, nas nossas preocupações, imersos nas “μερίμναις βιωτικαῖς”, ou decidimos ser cristãos e atentar-nos ao que realmente importa. Ao colocar diante de nós essas opções, Jesus não diz que devemos descuidar de nosso sustento físico, mas destaca uma questão de prioridade: primeiro, deve vir o Reino de Deus; depois, o resto. Trata-se de perguntar onde vamos colocar o nosso coração: se nos bens materiais ou na rocha firme.

Essa reflexão é importante para nós porque, não raras vezes, em nossa vida ativa, tornamo-nos “piedosos materialistas”: assistimos à Missa, rezamos o Rosário, fazemos novenas, mas nossas preocupações são totalmente materiais; vamos à igreja, na verdade, porque queremos carreira, sucesso e segurança, porque desejamos, em troca de nossa devoção, favores materiais. Deus não quer que pautemos nossa vida dessa forma; Ele quer, ao contrário, que coloquemos nossa prioridade no Céu, em nossa vida eterna.

Para ensinar isso, Jesus conta duas pequenas parábolas: a dos pássaros do céu e a dos lírios do campo. E diz: se Deus cuida dessas coisas que são de valor tão pequeno, como não cuidará de nós? As palavras de Jesus contrastam com a visão de muitos ecologistas, que fizeram a loucura de colocar a natureza acima do homem. Ora, o pássaro vale dois tostões, o lírio murcha e é queimado, mas o ser humano tem uma alma eterna, cujo preço foi o próprio sangue de Cristo.

O Evangelho deste domingo também quer ensinar-nos a confiar em Deus. Não se trata de um exercício fácil. Santa Teresa de Ávila, por exemplo, dizia a Jesus: “Senhor, se é assim que tratas os teus amigos, não é à toa que tens tão poucos”. Diante dos insondáveis desígnios divinos, precisamos abaixar as nossas cabeças e, crucificando nossa inteligência, dizer: “Senhor, vós sois sábio, vós sabeis tudo, eu não sei”.

Encaixa-se, aqui, os famosos versos da mesma Teresa: “Nada te turbe, / nada te espante, / todo se pasa, / Dios no se muda, / la paciencia, / todo lo alcanza. / Quien a Dios tiene / nada le falta. / ¡Sólo Dios basta! – Nada te turbe, / Nada te espante, / Pois tudo passa / Só Deus não muda. / Tudo a paciência / Por fim alcança. / Quem a Deus tenha, / Nada lhe falta, / Pois só Deus basta”[5].

“Tudo passa” – “panta rhei”, como diziam os filósofos. A quem, então, recorrer? Só Deus basta. O nosso coração dirige-se, então, às “coisas que são do Senhor”, procuramos “agradar [ἀρέσκω] ao Senhor”[6]. Teresa ilumina muito bem essas palavras quando diz que o amor consiste “numa total determinação e desejo de contentar a Deus em tudo”[7]. O que quer dizer essa “total determinação” de que fala Santa Teresa? Quer dizer que, se quisermos ter uma vida espiritual e ser verdadeiramente pessoas de Deus, precisamos agradá-Lo.

“Digo que muito importa, sobretudo, ter uma grande e muito decidida determinação de não parar enquanto não alcançar a meta, surja o que surgir, aconteça o que acontecer, sofra-se o que se sofrer, murmure quem murmurar, mesmo que não se tenham forças para prosseguir, mesmo que se morra no caminho ou não se suportem os padecimentos que nele há, ainda que o mundo venha abaixo.”[8]

Teresa dá ênfase a esta palavra: determinar-se. Isso consiste em agradar a Deus, buscar em primeiro lugar o Seu Reino, como lembra Jesus. Assim devemos fazer porque assim o exige o amor. A Quem nos ama, a Quem nos dá continuamente tudo, muito mais do que aos lírios do campo ou às aves do céu, não nos podemos dar senão completamente: seria loucura medir de modo mesquinho a nossa resposta ao amor tão forte de Cristo, que entregou a própria vida para a nossa salvação.

Busquemos, pois, com “determinada determinação”, agradar a Deus a todo custo. Neste tempo da Quaresma, meditemos a respeito de Sua Paixão: se Ele nos amou assim, se Ele nos dá tanto, como podemos ser ingratos?

Referências

  1. 1 Pd 5, 7
  2. Lc 21, 34: “μερίμναις βιωτικαῖς” pronuncia-se merímnais viotikaís.
  3. Cf. Lc 10, 41
  4. Cf. Mt 6, 33
  5. Tradução, em português, das Obras Completas de Teresa de Jesus, das edições Loyola
  6. 1 Cor 7, 32: “ἀρέσκω” pronuncia-se arésko.
  7. Santa Teresa de Jesus, Castelo Interior ou Moradas, Quartas Moradas, capítulo 1, n. 7. In São Paulo: Paulus, 2014. p. 75
  8. Santa Teresa de Jesus, Caminho de Perfeição, capítulo 21, n. 2

Padre Paulo Ricardo