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O Sacrifício Perfeito (20-04-2014)

Primeira Leitura:
ATOS: Atos dos Apóstolos (At), capítulo 10
(34) Então Pedro tomou a palavra e disse: Em verdade, reconheço que Deus não faz distinção de pessoas, (35) mas em toda nação lhe é agradável aquele que o temer e fizer o que é justo. (36) Deus enviou a sua palavra aos filhos de Israel, anunciando-lhes a boa nova da paz, por meio de Jesus Cristo. Este é o Senhor de todos. (37) Vós sabeis como tudo isso aconteceu na Judéia, depois de ter começado na Galiléia, após o batismo que João pregou. (38) Vós sabeis como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com o poder, como ele andou fazendo o bem e curando todos os oprimidos do demônio, porque Deus estava com ele. (39) E nós somos testemunhas de tudo o que fez na terra dos judeus e em Jerusalém. Eles o mataram, suspendendo-o num madeiro. (40) Mas Deus o ressuscitou ao terceiro dia e permitiu que aparecesse, (41) não a todo o povo, mas às testemunhas que Deus havia predestinado, a nós que comemos e bebemos com ele, depois que ressuscitou. (42) Ele nos mandou pregar ao povo e testemunhar que é ele quem foi constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos. (43) Dele todos os profetas dão testemunho, anunciando que todos os que nele crêem recebem o perdão dos pecados por meio de seu nome.

Segunda Leitura:
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Epístola aos Colossenses (Cl), capítulo 3
(1) Se, portanto, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. (2) Afeiçoai-vos às coisas lá de cima, e não às da terra. (3) Porque estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. (4) Quando Cristo, vossa vida, aparecer, então também vós aparecereis com ele na glória.
EVANGELHOS: Evangelho segundo São João (Jo), capítulo 20
(1) No primeiro dia que se seguia ao sábado, Maria Madalena foi ao sepulcro, de manhã cedo, quando ainda estava escuro. Viu a pedra removida do sepulcro.
(2) Correu e foi dizer a Simão Pedro e ao outro discípulo a quem Jesus amava: Tiraram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde o puseram!
(3) Saiu então Pedro com aquele outro discípulo, e foram ao sepulcro.
(4) Corriam juntos, mas aquele outro discípulo correu mais depressa do que Pedro e chegou primeiro ao sepulcro.
(5) Inclinou-se e viu ali os panos no chão, mas não entrou.
(6) Chegou Simão Pedro que o seguia, entrou no sepulcro e viu os panos postos no chão.
(7) Viu também o sudário que estivera sobre a cabeça de Jesus. Não estava, porém, com os panos, mas enrolado num lugar à parte.
(8) Então entrou também o discípulo que havia chegado primeiro ao sepulcro. Viu e creu.
(9) Em verdade, ainda não haviam entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dentre os mortos.
Homilia do : Padre Paulo Ricardo
Homilia do Padre Miguel:---
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético
Canção Nova: Homilia

Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor - Ninguém Me tira a vida, Eu dou-a livremente

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo Mateus
Mt 27, 11-54

Neste Domingo de Ramos, a Liturgia da Santa Missa tem dois Evangelhos: o da entrada de Jesus em Jerusalém [1] e o Evangelho em que Jesus é condenado e crucificado no Calvário. Olhando para Jesus como sumo e eterno sacerdote, é possível perceber a grande ligação entre essas duas passagens: a entrada de Cristo em Jerusalém é como a procissão do sacerdote que se dirige ao altar, a fim de oferecer um sacrifício.

E qual é a importância do sacrifício na teologia cristã? Por que é preciso que os homens ofereçam sacrifícios a Deus? Essa necessidade está inscrita na própria natureza humana. Ao sacrificar coisas à divindade, o homem adora a Deus (reconhecendo o tudo d’Ele e o próprio nada); rende-Lhe ação de graças, em gratidão por tudo o que recebe; e suplica as graças necessárias para continuar servindo-O. Com o drama da queda, acrescenta-se a esses três fins a reparação pelos pecados cometidos contra Deus.

Mas, por que o culto de adoração a Deus deve ser feito exteriormente, por meio de um sacrifício? Isso não é coisa do Antigo Testamento? Jesus não quer, ao contrário, "verdadeiros adoradores", "em espírito e verdade" [2]? A essas indagações Santo Tomás responde do seguinte modo:

"Como escreve São João Damasceno, já que somos compostos por duas naturezas – a intelectual e a sensível –, oferecemos dupla adoração a Deus: uma espiritual, que consiste na devoção interna de nossa mente, e outra corporal, que consiste na humilhação exterior de nosso corpo. E porque em todos os atos de latria o exterior se refere ao interior como o secundário ao principal, a mesma adoração exterior se subordina à interior, para que, mediante os atos corporais de humildade, o nosso afeto se sinta impelido a submeter-se a Deus, pois o natural em nós é chegar ao sensível pelo inteligível" [3].

Pegue-se como exemplo uma genuflexão. Quando se faz uma genuflexão diante do Santíssimo Sacramento, diz-se com o corpo: "Meu Deus, eu não sou nada, eu me rebaixo e me aniquilo diante de Vós". Mas essa genuflexão, que é um ato externo, só tem verdadeiro sentido se acompanhada pela disposição interior. A adoração externa só tem significado se houver, junto, uma alma, um amor que reconhece a grandeza de Deus.

E é isto o que se faz nos sacrifícios: no Antigo Testamento, os animais perfeitos eram oferecidos e queimados (por isso, a palavra "holocausto") como ato externo de adoração a Deus. Esse culto deveria conduzir os sacerdotes a um ato interno, a reconhecer diante de Deus o seu nada. E que ninguém se impressione com o uso insistente desta palavra: nada. Quando Deus criou o homem, isso não enriqueceu em nada Seu ser. Em outras palavras, Ele – sabedoria, bondade e beleza infinitas –, ao criar outros seres – também sábios, bons e belos –, não aumentou a sabedoria, a bondade e a beleza. Aquilo que as criaturas receberam nada mais é que participação de algo que já existia, desde sempre. Então, na verdade, o homem não faz falta nenhuma: Deus criou-o por pura gratuidade. Por isso, quando se adora a Deus, reconhece-se o próprio nada diante d’Ele.

A vida de Jesus foi uma entrega do começo ao fim. O Seu sacrifício e sacerdócio não começaram na Cruz: antes de entrar em Jerusalém, Ele entrou no mundo; antes de ascender ao Calvário, Ele desceu à humanidade, fazendo-se homem. A Carta aos Hebreus diz, citando o Salmo 39:

"Eis por que, ao entrar no mundo, Cristo diz: Não quiseste sacrifício nem oblação, mas me formaste um corpo. Holocaustos e sacrifícios pelo pecado não te agradam. Então eu disse: Eis que venho (porque é de mim que está escrito no rolo do livro), venho, ó Deus, para fazer a tua vontade" [4].

Os "holocaustos e sacrifícios" de bodes e touros não agradaram a Deus, porque não havia uma alma para fazer a Sua vontade. Então o Verbo se fez carne e ofereceu a adoração verdadeiramente agradável a Ele, na gruta em Belém, na Sua apresentação diante do velho Simeão, em sua perda e encontro no Templo, na carpintaria de Nazaré e em toda a sua vida humana. Ele veio a este mundo para amar a Deus e incendiar os corações dos homens [5], a fim de que eles também O amem.

Por isso, ao subir a Jerusalém para oferecer-se em sacrifício, Jesus quer que subamos com Ele. Assim como se elevou ao Pai, Ele quer que elevemos os nossos corações a Ele, como diz a Oração Eucarística: "Sursum corda – corações ao alto!". O Papa Bento XVI, meditando sobre estas palavras, ensinou:

"O coração, segundo a concepção bíblica e na visão dos Padres, é aquele centro do homem onde se unem o intelecto, a vontade e o sentimento, o corpo e a alma; é aquele centro, onde o espírito se torna corpo e o corpo se torna espírito, onde vontade, sentimento e intelecto se unem no conhecimento de Deus e no amor a Ele. Este ‘coração’ deve ser elevado. Mas, também aqui, sozinhos somos demasiado frágeis para elevar o nosso coração até à altura de Deus; não somos capazes disso. É precisamente a soberba de o podermos fazer sozinhos que nos puxa para baixo e afasta de Deus. O próprio Deus tem de puxar-nos para o alto; e foi isto que Cristo começou a fazer na Cruz. Desceu até à humilhação extrema da existência humana, a fim de nos puxar para o alto rumo a Ele, rumo ao Deus vivo. Jesus humilhou-Se: diz hoje a segunda leitura. Só assim podia ser superada a nossa soberba: a humildade de Deus é a forma extrema do seu amor, e este amor humilde atrai para o alto." [6].

É preciso esclarecer que a morte de Cristo, considerada em si mesma, ou seja, as ações das autoridades civis e religiosas para matar Jesus, foram criminosas. O que praticaram foi um verdadeiro deicídio, uma ofensa a Deus. Ao celebrar a Missa, o sacerdote não intenta repetir isso, ele não pretende "matar Deus" de novo. O que constituiu o sacrifício de Cristo foi o fato de Ele ter aceitado interiormente a Cruz; foi a sua disposição interior que transformou aquele madeiro infame em sacrifício agradável a Deus.

Quando Jesus é preso e um de seus companheiros desembainha a espada para tentar impedir que O levem, Ele diz-lhe: "Crês tu que não posso invocar meu Pai e ele não me enviaria imediatamente mais de doze legiões de anjos?" [7]. Ou seja, se Cristo quisesse, poderia pedir que o Pai lhe enviasse "mais de doze legiões de anjos" para tirá-lo da morte. Mas, como Ele diz noutro lugar: "Ninguém Me tira a vida; Eu dou-a livremente" [8]. Jesus aceita o crime e o pecado que cometem contra Ele e transforma-o livre e generosamente em amor e sacrifício. Ele demonstrou essa liberdade interior na noite da Última Ceia, quando disse: "Isto é o meu corpo, que é dado por vós"; "Este cálice é a Nova Aliança em meu sangue, que é derramado por vós" [9].

O que torna a Cruz redentora é o amor com que Cristo nos amou. Na Missa, ocorre, substancialmente, o mesmo sacrifício, como assegura o Concílio de Trento: "Uma e mesma é a vítima: e aquele que agora oferece pelo ministério dos sacerdotes é o mesmo que, outrora, se ofereceu na Cruz, divergindo, apenas, o modo de oferecer" [10]. Então, no altar, o mesmo Jesus que se entregou na Cruz adora a Deus, aniquilando-se e dizendo: "Vós sois Deus e eu sou nada". É claro que Jesus é Deus, mas é como diz a segunda leitura:

"Jesus Cristo, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, mas ele esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens. Encontrado com aspecto humano, humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz" [11].

Ao participarmos da Santa Missa, é importante que o façamos com esta disposição interior de entregarmo-nos a Cristo. Na consagração, o momento mais sublime da Missa, em que Jesus, vivo e glorioso, é sacramentalmente representado como morto [12], somos chamados a unir-nos a Ele, adorando, dando ação de graças, suplicando e reparando os nossos pecados.

Para concluir esta meditação, propõe-se uma oração de São Nicolau de Flüe, que está no Catecismo da Igreja Católica. Segundo a tradição, estas palavras eram repetidas por ele todos os dias:

"Mein Herr und mein Gott, nimm alles mir, was mich hindert zu dir. Mein Herr und mein Gott, gib alles mir, was mich führet zu dir. Mein Herr und mein Gott, nimm mich mir und gib mich ganz zu eigen dir. – Meu Senhor e meu Deus, retira tudo de mim, o que me separa de ti. Meu Senhor e meu Deus, dá tudo a mim, o que me conduz para Ti. Meu Senhor e meu Deus, retira-me de mim e dá-me todo inteiro a Ti" [13].

"Retira-me de mim e dá-me todo inteiro a Ti": que Deus nos ajude a fazer esse sacrifício. Subamos ao altar, neste domingo, junto com o sumo e eterno sacerdote, Jesus Cristo, a fim de oferecer a Deus o único sacrifício verdadeiramente digno d’Ele: a Santa Missa.

Referências

  1. Cf. Mt 21, 1-11
  2. Jo 4, 23
  3. Suma Teológica, II-II, q. 84, a. 2
  4. Hb 10, 5-7
  5. Cf. Lc 12, 49
  6. Homilia na Celebração do Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor, 17 de abril de 2011
  7. Mt 26, 53
  8. Jo 10, 18
  9. Lc 22, 19.20
  10. Concílio de Trento, Sessão XXII, Doutrina sobre o santíssimo Sacrifício da Missa, n. 940. Cf. Denzinger-Hünermann, 1743
  11. Fl 2, 6-8
  12. A expressão "sacramentalmente representado" é uma referência ao que Pio XII explicou na encíclica Mediator Dei, n. 63: "A divina sabedoria encontrou o modo admirável de tornar manifesto o sacrifício de nosso Redentor com sinais exteriores que são símbolos de morte. Já que, por meio da transubstanciação do pão no corpo e do vinho no sangue de Cristo, têm-se realmente presentes o seu corpo e o seu sangue; as espécies eucarísticas, sob as quais está presente, simbolizam a cruenta separação do corpo e do sangue."
  13. Cf. Catecismo da Igreja Católica, 226. A tradução aqui transcrita foi feita livremente pelo Padre Paulo Ricardo. A cantata de Johann Sebastian Bach, a que se faz referência no áudio, é a obra Nur jedem das Seine (BWV 163), que pode ser ouvida no YouTube. O trecho da oração de São Nicolau é usado no 5º movimento dessa canção. 

Padre Paulo Ricardo