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A Providência Divina (22-06-2014)

Primeira Leitura:
PROFETAS MAIORES: Livro de Jeremias (Jr), capítulo 20
(10) Ouço as invectivas da multidão: Cerca-nos o terror! Denunciai-o! Vamos denunciá-lo! Os que eram meus amigos espiam-me agora os passos. Se cair em abusos, tiraremos vantagem, e dele nos vingaremos. (11) O Senhor, porém, está comigo, qual poderoso guerreiro. Por isso, longe de triunfar, serão esmagados meus perseguidores. Sua queda os mergulhará na confusão. Será, então, a vergonha eterna, inesquecível. (12) Senhor, Deus dos exércitos, vós que sondais o justo, e que escrutais os rins e os corações, concedei-me o poder de contemplar a vingança que deles ides tirar! Pois em vossas mãos depositei a minha causa. (13) Cantai ao Senhor, glorificai-o, porque salvou a vida do miserável das mãos do mau.

Segunda Leitura:
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Epístola de São Paulo aos Romanos (Rm), capítulo 5
(12) Por isso, como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim a morte passou a todo o gênero humano, porque todos pecaram... (13) De fato, até a lei o mal estava no mundo. Mas o mal não é imputado quando não há lei. (14) No entanto, desde Adão até Moisés reinou a morte, mesmo sobre aqueles que não pecaram à imitação da transgressão de Adão (o qual é figura do que havia de vir). (15) Mas, com o dom gratuito, não se dá o mesmo que com a falta. Pois se a falta de um só causou a morte de todos os outros, com muito mais razão o dom de Deus e o benefício da graça obtida por um só homem, Jesus Cristo, foram concedidos copiosamente a todos.
EVANGELHOS: Evangelho segundo São Mateus (Mt), capítulo 10
(26) Não os temais, pois, porque nada há de escondido que não venha à luz, nada de secreto que não se venha a saber.
(27) O que vos digo na escuridão, dizei-o às claras. O que vos é dito ao ouvido, publicai-o de cima dos telhados.
(28) Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma, temei antes aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena.
(29) Não se vendem dois passarinhos por um asse? No entanto, nenhum cai por terra sem a vontade de vosso Pai.
(30) Até os cabelos de vossa cabeça estão todos contados.
(31) Não temais, pois! Bem mais que os pássaros valeis vós.
(32) Portanto, quem der testemunho de mim diante dos homens, também eu darei testemunho dele diante de meu Pai que está nos céus.
(33) Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai que está nos céus.
Homilia do : Padre Paulo Ricardo
Homilia do Padre Miguel:---
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético
Ver Homilia de Dom Henrique Soares
Ver Homilia de Mons. José Maria
Canção Nova: Homilia

A providência divina

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo
Mateus (Mt, 10, 26-33)

Neste Domingo, Jesus envia os Seus apóstolos em missão (a palavra “apóstolo” quer dizer justamente isto: enviado), pedindo-lhes que confiem inteiramente na providência divina. Ele tem consciência de que a situação não é fácil. No mesmo capítulo, um pouco antes, adverte: “Eu vos envio como ovelhas no meio de lobos” [1]. Mesmo assim, Ele pede três vezes aos discípulos para que não tenham medo.

Ora, por que confiar? Para convencer os Seus, Jesus usa um argumento a fortiori: “Não se vendem dois pardais por algumas moedas? No entanto, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do vosso Pai. Quanto a vós, até os cabelos da vossa cabeça estão contados. Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais”.

Ao falar da providência, é importante usar a distinção que faz Santo Tomás de Aquino:

“Duas coisas cabem à providência: a razão da ordem dos seres a quem ela provê, a um fim; e a execução dessa ordem, a que se chama governo. — Quanto à primeira, Deus, que tem no seu intelecto a razão de todos os seres, mesmo dos mínimos, a todos provê imediatamente. E preestabelecendo certas causas a certos efeitos, deu-lhes a virtude de os produzir. Logo, é necessário nele preexista a razão da ordem desses efeitos. — Quanto à segunda, a providência, que governa os inferiores pelos superiores, emprega certos seres médios; não por defeito do seu poder, mas pela abundância da sua bondade, que comunica a dignidade de causa, mesmo às criaturas.” [2]

Ao colocar em ação (=governo) o Seu plano de amor (=razão) para as criaturas, Deus nem sempre o faz de modo imediato, mas age por meio de outros seres. Ele ama diretamente a todos, tem uma providência para cada um e cuida dos mínimos detalhes de sua existência, mas, ao executar seu projeto, fá-lo por mediadores. Por exemplo, quando uma pessoa tem um cachorro de estimação, ela é um instrumento da providência divina para aquele animal, assim como Deus se utiliza de Seus anjos, de Seus santos e até mesmo de outras pessoas para cuidar de nós. Às vezes, esperamos que o Senhor faça milagres em nossas vidas, mas não nos atentamos àquilo que Ele mesmo faz por meio dos que nos são próximos. Se, por exemplo, alguém passa fome e suplica a Deus que lhe mande comida, é claro que o Todo-Poderoso pode, milagrosamente, fazer que a sua farinha não acabe e que a sua ânfora de azeite não se esvazie, como fez à viúva de Sarepta [3]; mas Ele também pode providenciar alguém generoso que lhe dê de comer – e, diga-se de passagem, é assim que Ele geralmente prefere agir.

É certo, de qualquer modo, que nos devemos abandonar à providência de Deus. Mas, como fazer isso? Por certo, não devemos “cruzar os braços”, descuidando de nossos deveres de estado e fugindo de nossas responsabilidades. É preciso, antes, cumprir aquela vontade divina que já nos foi manifestada – que o Aquinate chama de “vontade de sinal” – e, depois, confiar na vontade de Deus propriamente dita, que nos é oculta e que Tomás chama de “vontade de beneplácito” [4].

É sabido, por exemplo, que as tribulações que Ele permite que nos advenham nem sempre são para castigar-nos por nossos pecados. Podem ser para purificar o nosso amor. Isto depende do estado em que se encontra a nossa alma.

São Paulo escreve que “todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são os eleitos, segundo os seus desígnios” [5]. E ainda: “Não só isso, mas nos gloriamos até das tribulações. Pois sabemos que a tribulação produz a paciência, a paciência prova a fidelidade e a fidelidade, comprovada, produz a esperança. E a esperança não engana. Porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” [6]. Também Santo Tomás, ao comentar o livro de Jó, antecipa o que São João da Cruz escreve no século XVI: que Deus permite purificações passivas na vida daqueles que O amam.

Agora, se não amamos a Deus, nem tudo concorre para o nosso bem. E isto, não por culpa divina, mas por causa de nós mesmos, que nos fechamos à Sua graça. Um dos sinais de que uma pessoa está caminhando para a perdição eterna é a sua constante revolta contra Deus em meio as tribulações. Quem age deste modo é “forte candidato” a ser réprobo, pois está frequentemente tratando Deus como inimigo.

Diante das cruzes que o Senhor permite que nos venham, precisamos nos purificar. No começo, sofremos mais. Mas, com o tempo, percebemos que Ele age “ad dirigendos pedes nostros in viam pacis – para dirigir os nossos passos, guiando-os no caminho da paz” [7], como rezamos no Benedictus.

Aproveitemos este Domingo para rezar este belo Ato de Abandono à divina providência:

Ato de Abandono

Frei Réginald Marie Garrigou-Lagrange, O.P.

Em vossas mãos, ó meu Deus, eu me entrego.
Virai e revirai esta argila,
sicut lutum in manu figuli (Jeremias 18, 6),
como a vasilha que se modela nas mãos do oleiro.
Dai-lhe forma;
e em seguida despedaçai-a, se assim quiserdes;
ela vos pertence, e nada tem a dizer.
Basta-me que ela sirva a todos os vossos desígnios
e que em nada resista a vosso divino beneplácito,
para o qual eu fui criado.
Pedi, ordenai;
que quereis que eu faça?
que quereis que eu deixe de fazer?
Exaltado ou rebaixado,
perseguido, consolado ou aflito,
utilizado em vossas obras ou sem para nada servir,
a mim não resta senão dizer,
a exemplo de vossa Mãe Santíssima:
“Seja feito segundo a vossa palavra”.

Concedei-me o amor por excelência,
o amor da cruz,
não destas cruzes heroicas
cujo esplendor poderia nutrir o amor próprio,
mas destas cruzes ordinárias
que nós carregamos, ai de nós, com tanta repugnância,
destas cruzes de todos os dias,
com as quais a vida está repleta
e com as quais nos deparamos a todo momento,
no caminho, na contradição, no esquecimento,
no fracasso, nos falsos julgamentos, nas contrariedades,
nas friezas ou no entusiasmo de alguns,
na grosseria ou no desprezo dos outros,
na enfermidade do corpo, nas trevas do espírito,
no silêncio e na secura do coração.
Somente então sabereis que vos amo,
embora, às vezes, nem eu mesmo o saiba nem sinta;
e isto me basta!

Referência

  1. Mt 10, 16
  2. Suma Teológica, I, q. 22, a. 3
  3. Cf. 1 Rs 17, 14
  4. Cf. Suma Teológica, I, q. 19, a. 11
  5. Rm 8, 28
  6. Rm 5, 3-5
  7. Lc 1, 79

Padre Paulo Ricardo


O Evangelho que escutamos neste Domingo é parte do capítulo décimo do Evangelho de São Mateus, que traz o Discurso Apostólico de Jesus: aí, ele chama os Doze – como ouvimos no Domingo passado, previne seus discípulos para as incompreensões e perseguições que sofrerão, exorta-os a não terem medo de falar, afirma claramente que ele mesmo, Cristo, é causa de divisão e, finalmente, renova o convite para segui-lo. Então, estejamos atentos, pois o Senhor nos está falando dos desafios próprios da missão de ser cristão, ontem como hoje!

Claramente, ele nos previne sobre as dificuldades e perseguições: “Não existe discípulo superior ao mestre, nem servo superior ao seu Senhor. Se chamaram Beelzebu ao chefe da casa, quanto mais chamarão assim seus familiares” (Mt 10,24s). Estamos vivendo hoje, neste início de terceiro milênio, a verdade dessas palavras de Jesus. Basta que recordemos as terríveis censuras à Igreja por suas posições o campo da moral sexual e da bioética. Num mundo que não aceita mais Deus e a religião – a não ser no âmbito da vida privada, sem nenhuma importância para a sociedade, anunciar o Cristo e suas exigências virou um crime insuportável para a sociedade neo-pagã! E, no entanto, a ordem que o Senhor nos dá é clara: “O que vos digo na escuridão, dizei-o à luz do dia; o que escutais ao pé do ouvido, proclamai-o sobre os telhados!” A Igreja e cada cristão não podemos calar a novidade e a vida que encontramos em Cristo, não podemos passar por alto as exigências do amor ao Senhor! E o sofrimento? E as incompreensões? Fazem parte do anúncio do Evangelho. São Paulo claramente afirmava aos Gálatas: “Se eu quisesse agradar agradar aos homens não seria servo de Cristo” (1,10). Seria trair o nosso Senhor esconder, mascarar as exigências do Evangelho em nome de um falso diálogo com o mundo, de uma falsa misericórdia e de uma falsa compreensão do homem de hoje. Somente Cristo liberta de verdade o ser humano – o Cristo inteiro, pregado integralmente, com todas as conseqüências do seu Evangelho! Qualquer um que deseje fiel a Deus experimentará a incompreensão e a solidão. Recordemos, na primeira leitura, a queixa do Profeta Jeremias, as calúnias por ele sofridas. Ora, a Igreja não pode fugir desse destino; o cristão – eu, você – não podemos fugir desse compromisso com Cristo! Aliás, o século XX, apenas terminado, foi o século que mais matou cristãos, que mais os perseguiu e exterminou. Só que os meios de comunicação e os governos politicamente corretos mudam e disfarçam a expressão “perseguição religiosa” com a mentira açucarada chamada “choque de culturas”. Não! É perseguição por causa do Evangelho, perseguição por amor a Cristo, perseguição que gera mártires! Também nós, estejamos prontos e nos acostumemos aos ataques contra a Igreja, que visam desmoralizar o cristianismo: na imprensa, muitas vezes, nas universidades, na opinião pública em geral…

Como responder a essa dolorosa realidade? Certamente, com uma atitude de fé, colocando-se nas mãos do Senhor, como Jesus colocou-se nas mãos do Pai: “Ó Senhor, que provas o homem justo e vês os sentimentos do coração… eu te declarei a minha causa!” Não irá se sustentar na fé quem não cravar os olhos e o coração no Senhor crucificado por nós, quem não estiver disposto a participar do mistério de sua cruz! As perseguições de hoje dão-nos a chance de testemunhar nosso amor ao Senhor e escutar aquelas comoventes palavras suas aos discípulos: “Fostes vós que permanecestes comigo em todas as minhas tentações” (Lc 22,31). O que não podemos, caríssimos, é nos acovardar, negociar com um mundo que refuta Jesus: “Todo aquele que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu Pai que está nos céus!” Também não podemos pagar o mal com o mal, violência com violência, calúnia com calúnia, mentira com mentira! Não devemos nunca nos deixar vencer pelo mal: “Cristo sofreu por vós, deixando-vos um exemplo, a fim de que sigais seus passos. Quando injuriado, não revidava; ao sofrer, não ameaçava; antes, punha a sua causa nas mãos daquele que julga com justiça” (1Pd 1,21.23). A Igreja – e nós somos Igreja – não deve se calar ante os inimigos do Evangelho. Com paciência, firmeza, coragem e amor à verdade deve fazer ouvir sua voz, quer agrada quer desagrade, quer aceitem quer não!

Mas – pode alguém perguntar -, por que essas dificuldades? Por que a rejeição ao anúncio do Evangelho? Todos ouvimos São Paulo falar hoje, na segunda leitura, do mistério do pecado: “O pecado entrou no mundo por um só homem. Através do pecado, entrou a morte”. O Apóstolo quer dizer que toda a humanidade encontra-se numa situação de fechamento em relação ao Deus da vida, encontra-se, portanto, numa situação de morte! “Todos pecaram!” – quão triste é a condição do coração humano; quão triste, a situação do mundo! Pecaram os judeus, desobedecendo os preceitos da Lei; pecaram os pagãos, mesmo sem terem conhecido um preceito como aquele dado a Adão ou os preceitos da Lei de Moisés! Pecamos e embotou-se o nosso entendimento, a nossa sensibilidade para as coisas de Deus! O Senhor, tanta vez, parece-nos pesado demais; as exigências do seu amor, às vezes parecem nos oprimir. É que somos egoístas, somos fechados sobre nós mesmos! Por isso, a primeira palavra de Jesus é “convertei-vos”!

E, no entanto, ainda que dirigido a um mundo fechado no seu pecado e na sua prepotência, o anúncio de Cristo é anúncio de uma maravilhosa novidade para a humanidade: se nos primeiros homens, iniciou-se uma corrente maldita, uma cadeia de pecado, em Cristo, o novo Adão, iniciou-se a possibilidade de uma humanidade nova: “A transgressão de um só levou a multidão humana à morte, mas foi de modo bem superior que a graça de Deus, ou seja, o dom gratuito concedido através de um só homem, Jesus Cristo, se derramou em abundância sobre todos”. Eis! Ainda que incompreendida, o anúncio que a Igreja faz é de vida e salvação para toda a humanidade! O cristianismo não é negativo, nunca dirá que o mundo está perdido, que as coisas não têm jeito! É verdade que o mundo crucificou o Senhor Jesus – e nos crucifica com ele; mas também é verdade que o Senhor ressuscitou, venceu para a vida do mundo e estará sempre presente conosco!

Caríssimos, vivamos com coerência, com coragem, com amor a nossa fé! Não tenhamos medo, não desanimemos, não vivamos como os que não conhecem a Cristo! Não nos fechemos em nós mesmos! De esperança em esperança, vivamos e anunciemos o Senhor, certos de sua presença e de seu amor. Ele jamais nos deixará! A ele a glória para sempre. Amém.

D. Henrique Soares da Costa