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Milagre, não Partilha (03-08-2014)

Primeira Leitura:
PROFETAS MAIORES: Livro de Isaías (Is), capítulo 55
(1) Todos vós, que estais sedentos, vinde à nascente das águas, vinde comer, vós que não tendes alimento. Vinde comprar trigo sem dinheiro, vinho e leite sem pagar! (2) Por que despender vosso dinheiro naquilo que não alimenta, e o produto de vosso trabalho naquilo que não sacia? Se me ouvis, comereis excelentes manjares, uma suculenta comida fará vossas delícias. (3) Prestai-me atenção, e vinde a mim, escutai, e vossa alma viverá: quero concluir convosco uma eterna aliança, outorgando-vos os favores prometidos a Davi.

Segunda Leitura:
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Epístola de São Paulo aos Romanos (Rm), capítulo 8
(35) Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação? A angústia? A perseguição? A fome? A nudez? O perigo? A espada? (36) Realmente, está escrito: Por amor de ti somos entregues à morte o dia inteiro, somos tratados como gado destinado ao matadouro (Sl 43,23). (37) Mas, em todas essas coisas, somos mais que vencedores pela virtude daquele que nos amou. (38) Pois estou persuadido de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, (39) nem as alturas, nem os abismos, nem outra qualquer criatura nos poderá apartar do amor que Deus nos testemunha em Cristo Jesus, nosso Senhor.
EVANGELHOS: Evangelho segundo São Mateus (Mt), capítulo 14
(13) A essa notícia, Jesus partiu dali numa barca para se retirar a um lugar deserto, mas o povo soube e a multidão das cidades o seguiu a pé.
(14) Quando desembarcou, vendo Jesus essa numerosa multidão, moveu-se de compaixão para ela e curou seus doentes.
(15) Caía a tarde. Agrupados em volta dele, os discípulos disseram-lhe: Este lugar é deserto e a hora é avançada. Despede esta gente para que vá comprar víveres na aldeia.
(16) Jesus, porém, respondeu: Não é necessário: dai-lhe vós mesmos de comer.
(17) Mas, disseram eles, nós não temos aqui mais que cinco pães e dois peixes. _
(18) Trazei-mos, disse-lhes ele.
(19) Mandou, então, a multidão assentar-se na relva, tomou os cinco pães e os dois peixes e, elevando os olhos ao céu, abençoou-os. Partindo em seguida os pães, deu-os aos seus discípulos, que os distribuíram ao povo.
(20) Todos comeram e ficaram fartos, e, dos pedaços que sobraram, recolheram doze cestos cheios.
(21) Ora, os convivas foram aproximadamente cinco mil homens, sem contar as mulheres e crianças.
Homilia do : Padre Paulo Ricardo
Homilia do Padre Miguel:---
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético
Ver Homilia de Dom Henrique Soares
Ver Homilia de Mons. José Maria
Ver Homilia do Pe. Françoá Costa
Canção Nova: Homilia

18º Domingo do Tempo Comum - Milagre, não partilha

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo
Mateus (Mt 14, 22-33)

Narra o Evangelho que Jesus, após receber a notícia da morte de São João Batista, se retira “para um lugar deserto e afastado”. São Jerônimo, investigando o porquê dessa atitude de Nosso Senhor, ensina:

“Não se retirou a um lugar deserto por temor de que lhe tirassem a vida, como julgam alguns, mas: ou para poupar os seus inimigos, a fim de que não acrescentassem homicídio sobre homicídio; ou para adiar a sua morte até o dia da Páscoa, no qual o cordeiro era imolado como figura e as portas dos fiéis eram aspergidas com sangue; ou para dar o exemplo de que não nos devemos expor temerariamente à perseguição, porque nem todos os que se oferecem a ela perseveram com a mesma constância. Por isso Ele diz, em outra parte: “Quando vos perseguirem numa cidade, fugi para outra” (Mt 10, 23). De onde o evangelista, com propriedade, não diz que Ele fugiu a um lugar deserto, senão que se retirou, mais por evitar que por temer os perseguidores. Também se pode ter retirado, depois de saber da morte de João, a fim de pôr em prova a fé dos fiéis.” [1]

De acordo com São Jerônimo, Jesus teria se retirado também para que o povo pudesse demonstrar o seu amor a Ele. O Papa Bento XVI, ao comparar o episódio da multiplicação dos pães com a primeira tentação de Jesus no deserto, em que Ele se nega a transformar as pedras em pão [2], se pergunta: “Mas por que agora é feito o que antes tinha sido repelido como tentação? Os homens tinham vindo para escutar a palavra de Deus e tinham por isso abandonado todo o resto. E assim, como homens que tinham aberto o seu coração para Deus e para os outros, aqueles podem receber o pão como merecimento” [3]. A multidão viu os pães serem multiplicados porque foram propter Iesum et non propter esum.

Repete-se, com este milagre, a grande lição de Cristo no Sermão da Montanha: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo” [4]. Grandes eram a fé e o amor daquele povo, mas também notável era o desapego dos Apóstolos que, sendo doze, tinham consigo apenas “cinco pães e dois peixes”. “Vemos por estas palavras – comenta São João Crisóstomo – a filosofia dos Apóstolos, que os faz desprezar a comida, porque, sendo eles doze, tinham cinco pães e dois peixes. Olhavam efetivamente com desprezo para as coisas materiais e estavam possuídos pelas espirituais” [5].

Também é notável que o povo tenha esperado por Nosso Senhor até o entardecer. Nessa mesma hora, Ele, reunido com os Seus discípulos, instituiu a Santíssima Eucaristia. No Evangelho deste Domingo, de fato, é seguido o mesmo caminho feito na Liturgia: primeiro, as multidões saem de suas cidades para escutar a Palavra e só depois são alimentadas com o pão eucarístico. A vida do cristão também deve ser assim: antes de comungar, é preciso ir ao deserto e converter-se. Assim como não existe multiplicação dos pães sem a acolhida da Palavra, não há comunhão sem verdadeira conformação à vontade de Deus.

Agora, um comentário à ideia segundo a qual “a multiplicação dos pães não foi um milagre, mas apenas um gesto de partilha”.

Em primeiro lugar, é muita falta de fé pensar que Jesus não seria capaz de fazer alguns pães para alimentar uma multidão. Quem nega isso provavelmente tem dificuldades para crer na divindade de Cristo.

Em segundo lugar, muitas pessoas interpretam o ensinamento da Igreja justamente sob uma perspectiva de “partilha”, adotando o método Paulo Freire para as coisas da fé: ao invés de aprender de Nosso Senhor a verdade, as pessoas ouvem o Evangelho para partilhar entre si o que pensam. Ora, quando compartilhamos a nossa miséria, o resultado final é tão somente uma miséria partilhada, “cegos guiando cegos” [6].

Com esse milagre, Jesus quer deixar bem claro que não podemos prover alimentação a nós mesmos. Para que a nossa miséria – vista na escassez dos “cinco pães e dois peixes” – possa alimentar as pessoas, é preciso que passe para as mãos de Jesus. Por isso, precisamos, antes de qualquer coisa, estar com Nosso Senhor, ouvir a Sua Palavra, meditá-la e transformar o nosso coração. Só então podemos ensinar. A evangelização não é uma partilha, mas um ensinamento. Trata-se de transmitir uma mensagem que não nos pertence. Um padre que diz, por exemplo, que Cristo não fez milagre algum, está desrespeitando a mensagem do Evangelho, pois se preocupa mais em transmitir as suas ideias céticas e empiristas a anunciar a boa nova de Jesus.

A Palavra de Deus não é para ser partilhada, como se fosse objeto de “livre exame”; ela foi feita pela Igreja e para a Igreja e é “com o mesmo espírito com que foi escrita” [7] que deve ser interpretada. Sem o espírito católico de que estavam imbuídos os autores sagrados, não pode haver leitura correta das Escrituras.

Referências

  1. Santo Tomás de Aquino, Catena Aurea In Matthæum, 14, 3
  2. Cf. Mt 4, 3
  3. Jesus de Nazaré: primeira parte: do batismo no Jordão à transfiguração. São Paulo, Planeta, 2007. p. 44
  4. Mt 6, 33
  5. Homiliae in Matthaeum, 49, 1. Apud Santo Tomás de Aquino, Catena Aurea In Matthæum, 14, 4
  6. Mt 15, 14
  7. Dei Verbum, 12

 

Padre Paulo Ricardo


O Pão da Vida

Hoje o Evangelho nos apresenta Jesus como a plenitude da compaixão de Deus no nosso meio. Multiplicando os pães, ele realiza de modo pleno aquilo que Moisés e Elias, os mesmos personagens da Transfiguração, representantes da Lei e dos Profetas, já haviam realizado: Moisés deu de comer ao povo no deserto; Elias sustentou com alimento a viúva de Sarepta durante todo o tempo da seca em Israel. Ora, Jesus é aquele que nos alimenta em plenitude, é o Messias prometido a Israel e à humanidade. Como o Bom Pastor, de que fala o Salmo, ele faz seu rebanho descansar na relva mais fresca e lhe prepara uma mesa. Seu alimento não se reduz ao pão. Primeiro nos alimenta porque sente compaixão de nós, de nossa pobreza e indigência: “Viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes”. Mais do que de pão, é de amor, de ternura e compaixão que o Senhor nos alimenta! Alimenta-nos também com sua Palavra de vida eterna: vê a multidão cansada e abatida como ovelhas sem pastor e ensina-lhe, fala do Reino até o entardecer… Olhando o nosso Salvador, vemos cumprir-se nele o convite tão terno, tão comovente do Deus de Israel: “Ó vós todos que estais com sede, vinda às águas; vós que não tendes dinheiro, apressai-vos, vinde e comei, cinde comprar sem dinheiro, e alimentai-vos bem, tomar vinho e leite, sem nenhuma paga!’

Que belo convite! Num mundo no qual tudo é pago, tudo gira em torno do lucro, tudo tem a preocupação do retorno econômico e do interesse (até nas seitas por aí a fora, o dízimo é a chave de entrada no céu), o Senhor se revela graciosamente! Quem dera, o mundo compreendesse esse amor apaixonado de Deus que se manifesta em Jesus! Quem dera se reconhecesse faminto e sedento! Quem dera se deixasse interpelar: “Por que gastar dinheiro com outra coisa que não o pão, desperdiçar o salário senão com satisfação completa? Ouvi-me com atenção e alimentai-vos bem! Inclinai vosso ouvido e vinde a mim, ouvi e tereis vida!” Infelizmente, o nosso é um mundo cansado, mas também auto-suficiente, prepotente, que pensa poder sozinho, do seu modo se saciar e viver de verdade! Também nós, nas nossas pobrezas, tanta vez fugimos do Senhor, ao invés de correr para ele, nosso Poço, nossa Água, nosso Pão, nosso Refrigério!

Mas, nós, cristãos, sabemos que em Cristo Jesus encontra-se a vida, encontra-se o verdadeiro caminho, a verdadeira vida do mundo! É isso que São Paulo exprime com palavras comoventes: “Quem nos separará do amor de Cristo? Tribulação? Angústia? Perseguição? Fome? Nudez? Perigo? Espada? Em tudo isso somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou!” É por essa experiência do amor tão terno e presente de Jesus na nossa vida que somos cristãos! Deixemo-nos saciar pelo Senhor e experimentaremos que “nem a morte, nem a vida, nem o presente nem o futuro, nem outra criatura qualquer, será capaz de nos separar do amor de Deus por nós, manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor!”

Caríssimos, a verdadeira Boa-Nova para o mundo atual é esta: o amor terno e próximo de Deus, manifestado em Jesus Cristo! Mas, atenção: somente poderemos ser testemunhas de tal amor se nós mesmos nos deixarmos tocar e envolver pela ternura do Cristo! Atendamos, portanto, ao seu convite de ir gratuitamente a ele, apesar de nossas pobrezas! Deixemos que ele nos alimenta e sacie de vida e de paz!

Não esqueçamos também que, sobretudo na Eucaristia essa vida, essa alimento, essa paz vêm a nós! Neste Ano Eucarístico, sintamo-nos convidados pela Igreja a recobrar nossa devoção e piedade eucarísticas. Primeiro pela participação consciente e piedosa da Santa Missa todos os domingos. Mas, também pela adoração ao Santíssimo Sacramento. Aí o Senhor Jesus nos espera para nos falar ao coração e encher-nos da sua paz. Estejamos atentos a alguns aspectos desse carinho pela presença eucarística de Cristo. Eis alguns pontos para nossa meditação: (1) como está minha participação na Missa? (2) Tenho consciência do que é a Missa? Compreendo que ela é o sacrifício de Cristo tornado presente no Altar para vida nossa e do mundo inteiro? (3) Tenho respeito pela presença de Cristo na Eucaristia? Quando entro na Igreja, dobro meu joelho ante o Santíssimo? Detenho-me em adoração ou fico conversando e disperso? (4) Tenho reservado alguns minutos durante a semana para uma visita ao Santíssimo Sacramento, para falar-lhe em espírito e verdade, como um amigo ao outro amigo?

Eis, meus caros! Procuramos vida e realização em tantas bobagens! A Vida, a Realização, é Jesus que se dá a nós no Altar e por nós espera no sacrário! Saibamos valorizar esse Dom tão grande: “Ó vós todos que estais com sede, vinda às águas; vós que não tendes dinheiro, apressai-vos, vinde e comei, cinde comprar sem dinheiro, e alimentai-vos bem, tomar vinho e leite, sem nenhuma paga!’ Que o Senhor nos dê a graça de aceitar seu convite! Amém.

D. Henrique Soares da Costa