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A Provação da Nossa Fé (10-08-2014)

Primeira Leitura:
HISTÓRICO: Primeiro Livro dos Reis (1Rs), capítulo 19
(9) Chegando ali, passou a noite numa caverna. Então a palavra do Senhor foi-lhe dirigida: Que fazes aqui, Elias? (10) Ele respondeu: Estou devorado de zelo pelo Senhor, o Deus dos exércitos. Porque os israelitas abandonaram a vossa aliança, derrubaram os vossos altares e passaram os vossos profetas ao fio da espada. Só eu fiquei, e querem tirar-me a vida. (11) O Senhor desse-lhe: Sai e conserva-te em cima do monte na presença do Senhor: ele vai passar. Nesse momento passou diante do Senhor um vento impetuoso e violento, que fendia as montanhas e quebrava os rochedos, mas o Senhor não estava naquele vento. Depois do vento, a terra tremeu, mas o Senhor não estava no tremor de terra. (12) Passado o tremor de terra, acendeu-se um fogo, mas o Senhor não estava no fogo. Depois do fogo ouviu-se o murmúrio de uma brisa ligeira. (13) Tendo Elias ouvido isso, cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se à entrada da caverna. Uma voz disse-lhe: Que fazes aqui, Elias?

Segunda Leitura:
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Epístola de São Paulo aos Romanos (Rm), capítulo 9
(1) Digo a verdade em Jesus Cristo, não minto, a minha consciência me dá testemunho pelo Espírito Santo: (2) sinto grande pesar, incessante amargura no coração. (3) Porque eu mesmo desejaria ser reprovado, separado de Cristo, por amor de meus irmãos, que são do mesmo sangue que eu, segundo a carne. (4) Eles são os israelitas, a eles foram dadas a adoção, a glória, as alianças, a lei, o culto, as promessas (5) e os patriarcas, deles descende Cristo, segundo a carne, o qual é, sobre todas as coisas, Deus bendito para sempre. Amém.
EVANGELHOS: Evangelho segundo São Mateus (Mt), capítulo 14
(22) Logo depois, Jesus obrigou seus discípulos a entrar na barca e a passar antes dele para a outra margem, enquanto ele despedia a multidão.
(23) Feito isso, subiu à montanha para orar na solidão. E, chegando a noite,
(24) Entretanto, já a boa distância da margem, a barca era agitada pelas ondas, pois o vento era contrário.
(25) Pela quarta vigília da noite, Jesus veio a eles, caminhando sobre o mar.
(26) Quando os discípulos o perceberam caminhando sobre as águas, ficaram com medo: É um fantasma! disseram eles, soltando gritos de terror.
(27) Mas Jesus logo lhes disse: Tranqüilizai-vos, sou eu. Não tenhais medo!
(28) Pedro tomou a palavra e falou: Senhor, se és tu, manda-me ir sobre as águas até junto de ti!
(29) Ele disse-lhe: Vem! Pedro saiu da barca e caminhava sobre as águas ao encontro de Jesus.
(30) Mas, redobrando a violência do vento, teve medo e, começando a afundar, gritou: Senhor, salva-me!
(31) No mesmo instante, Jesus estendeu-lhe a mão, segurou-o e lhe disse: Homem de pouca fé, por que duvidaste?
(32) Apenas tinham subido para a barca, o vento cessou.
(33) Então aqueles que estavam na barca prostraram-se diante dele e disseram: Tu és verdadeiramente o Filho de Deus.
Homilia do : Padre Paulo Ricardo
Homilia do Padre Miguel:---
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético
Ver Homilia de Dom Henrique Soares
Canção Nova: Homilia

19º Domingo do Tempo Comum - A provação da nossa fé

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo
Mateus (Mt 14, 22-33)

Narra o Evangelho deste Domingo que, “depois da multiplicação dos pães, Jesus mandou que os discípulos entrassem na barca e seguissem, à sua frente, para o outro lado do mar”. É o próprio Jesus quem manda os Seus discípulos para uma situação de perigo. Embora essa ordem nos possa deixar perplexos, São João Crisóstomo a explica: “Ele permite que eles passem toda a noite em perigo para, desta maneira, excitar o temor no coração dos discípulos e suscitar neles um desejo grandíssimo de Si e a Sua memória ininterrupta. Por isso não os ajudou imediatamente, mas, à quarta vigília da noite, veio até os discípulos, andando sobre o mar” [1].

Enquanto os discípulos permaneciam no mar agitado, escreve o evangelista que “Jesus subiu ao monte, para orar a sós”. Situação análoga enfrenta hoje a barca da Igreja: enquanto ela é confrontada pelo vento impetuoso e pelas ondas fortes, Jesus permanece no “monte”, intercedendo por ela. Comenta Santo Agostinho que:

“Em sentido místico, toda montanha designa altura. E, neste mundo, que há de mais alto que o céu? A fé conhece quem é Aquele que verdadeiramente sobe ao céu. Mas por que ascende sozinho? Porque ‘ninguém subiu ao céu senão aquele que desceu do céu’ (Jo 3, 13). Ainda quando vir no final dos tempos, para nos levar ao Céu, Ele subirá sozinho, porque a cabeça com o corpo formará um só Cristo. Agora, no entanto, sobe apenas a cabeça. Sobe para orar porque sobe ao Pai para interceder por nós” [2].

Por ora, então, a Igreja é provada, assim como foi provado São Pedro. Ao ver o Senhor andando sobre as águas, o discípulo, tomado de coragem, “lhe disse: ‘Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água’. E Jesus respondeu: ‘Vem!’ Pedro desceu da barca e começou a andar sobre a água, em direção a Jesus. Mas, quando sentiu o vento, ficou com medo e, começando a afundar, gritou: ‘Senhor, salva-me!’”

O Apóstolo Pedro só começa a afundar por causa de sua pouca fé, como o Evangelho conta: “Jesus logo estendeu a mão, segurou Pedro, e lhe disse: ‘Homem fraco na fé, por que duvidaste?’” A palavra grega usada por São Mateus é “Ὀλιγόπιστε”, que significa, literalmente, “pouca fé”. Se ele tinha “pouca fé”, isso significa que a fé pode crescer.

Santo Tomás de Aquino explica que:

“A magnitude de um hábito se pode considerar sob dois aspectos: o objeto e a sua participação no sujeito. Também se pode considerar o objeto sob dois aspectos: ou segundo a razão formal ou atendendo materialmente às coisas propostas para crer. O objeto formal da fé é único e simples, isto é, a Verdade primeira, como já expusemos. Desde esse ponto de vista, a fé não se diversifica nos crentes, mas é especificamente uma em todos, como dizemos. Mas as verdades materialmente propostas para crer são muitas e podem ser acolhidas mais ou menos explicitamente. Sob esse aspecto se pode crer explicitamente mais coisas que outro, como também pode ser maior a fé no sentido de um maior desenvolvimento de seu objeto. Considerando a fé segundo a participação no sujeito, oferece-se a desigualdade de duas maneiras, enquanto, como já exposto, o ato de fé procede da inteligência e da vontade. Pode-se, portanto, dizer que a fé é maior em um que em outro, ou por parte da inteligência, por causa de sua maior certeza e firmeza, ou por parte da vontade, por causa de sua maior prontidão, entrega e confiança.” [3]

“O ato da fé – explica, noutra parte – é ato da inteligência determinado ao assentimento do objeto pelo império da vontade. O ato, pois, de fé está em relação tanto com o objeto da vontade – o bem e o fim – como com o objeto da inteligência, que é a verdade” [4]. Hoje em dia, muitas pessoas tendem a ver a fé como um sentimento. Mas, o Aquinate lembra que se trata de um ato da vontade: ela ordena a inteligência que, por sua vez, crê.

Para que cresçamos na fé, precisamos entrar na amizade com Deus, pois é o amor o que dá forma a todas as virtudes. Ao cometer um pecado mortal, embora restem as virtudes da fé e da esperança na alma – a menos que se tratem de faltas diretas contra a fé e a esperança –, extingue-se imediatamente a caridade. Urge recuperá-la, por meio da reconciliação, para praticar verdadeiros atos de amor a Nosso Senhor. Nesse processo, são importantes as provações que Jesus permite que soframos – assim como o mar agitado e o vento forte foram importantes para São Pedro –, porque a fé, uma vez provada, faz aumentar o nosso amor. Diante das dificuldades, lancemo-nos com destemor à vontade de Deus, confiando na palavra do Apóstolo: “Tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus” [5], e repetindo, com o pai do menino epilético do Evangelho: Senhor, “eu creio, mas ajuda-me na minha falta de fé” [6].

Também é importante destacar que, em nossa luta espiritual pela fé, a ação demoníaca para nos perder é viva e atuante. Não é raro que aconteça de o demônio suscitar em nós alguma dúvida, a qual se deve repelir com firmeza e prontidão. Essa dúvida não se confunde com um questionamento intelectual, que, ao invés de pôr em questão a autoridade de Deus, nos ajuda a estar “sempre prontos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que a pedir” [7]. Como ensina o bem-aventurado John Henry Newman, “dez mil dificuldades não geram a dúvida”.

Para que percamos a fé, Satanás também se utiliza das más leituras e de nossa própria soberba intelectual – o mais perigoso obstáculo que podemos enfrentar, pois que fecha o nosso coração à misericórdia divina. Como preleciona São Pedro, “Deus resiste aos soberbos, mas dá a sua graça aos humildes” [8]. Aproximemo-nos, pois, confiantemente de Deus, peçamos-Lhe que aumente a nossa fé, humilhemo-nos diante de Sua presença e, principalmente, busquemos amá-Lo, pois o “o amor é o vínculo da perfeição” [9].

Referências

  1. Homiliae in Matthaeum, 50, 1. Apud Santo Tomás de Aquino, Catena Aurea In Matthæum, 14, 5
  2. Sermo 75, 2-3. Apud Santo Tomás de Aquino, Catena Aurea In Matthæum, 14, 5
  3. Suma Teológica, II-II, q. 5, a. 4
  4. Suma Teológica, II-II, q. 4, a. 1
  5. Rm 8, 28
  6. Mc 9, 24
  7. 1 Pd 3, 15
  8. 1 Pd 5, 5
  9. Cl 3, 14

 

Padre Paulo Ricardo


Ao Encontro do Senhor

 Escritura deste Domingo fala-nos de um Deus que é grande demais, misterioso demais, inesperado e surpreendente demais para que possamos enquadrá-lo na nossa lógica e no nosso modo de pensar. Eis, caríssimos! Uma grande tentação para o homem é achar que pode compreender o Senhor, enquadrar seu modo de agir e dirigir o mundo com a nossa pobre e limitada lógica… Mas, o Deus verdadeiro, o Deus que se revelou a Israel e mostrou plenamente o seu Rosto em Jesus Cristo, não é assim! Ele é Misterioso, é Santo, é livre como o vento do deserto!

Pensemos nesta misteriosa e encantadora primeira leitura, do Livro dos Reis. Elias, em crise, fugindo de Jezabel, caminha para o Horeb; ele quer encontrar suas origens, as fontes da fé de Israel. Recordem que o Horeb é o mesmo monte Sinai, a Montanha de Deus. Elias tem razão: nos momentos de dúvida, de crise, de escuridão, é indispensável voltar às origens, às raízes de nossa fé; é indispensável recordar o momento e a ocasião do nosso primeiro encontro com o Senhor e nele reencontrar as forças, a inspiração e a coragem para continuar. Pois bem, Elias volta ao Horeb procurando Deus. Lembrem que no caminho ele chegou a desanimar e pedir a morte: “Agora basta, Senhor! Retira-me a vida, pois não sou melhor que meus pais!” (1Rs 19,4). No entanto, o Senhor o forçou a continuar o caminho: “Levanta-te e come, pois tens ainda um longo caminho” (1Rs 19,7). Pois bem, Elias caminhou, teimou em procurar o seu Deus, mesmo com o coração cansado e em trevas; assim, chegou ao Monte de Deus! Mas, também aí, no seu Monte, Deus surpreende Elias – Deus sempre nos surpreende! O Profeta espera o Senhor e o Senhor se revela, vai passar… Mas, não como Elias o esperava: não no vento impetuoso que força tudo e destrói tudo quanto encontra pela frente, não no terremoto que coloca tudo abaixo, não no fogo que tudo devora… Eis: três fenômenos que significam força, que causam temor, que fazem o homem abater-se… E o Senhor não estava aí. Muito tempo antes, quando foi entregar a Moisés as tábuas da Lei, Deus se manifestara no fogo, no vento e no terremoto: “Houve trovões, relâmpagos e uma espessa nuvem sobre a montanha… E o povo estava com medo e pô-se a tremer… Toda a montanha do Sinai fumegava, porque o Senhor desceu sobre ela no fogo… e toda a montanha tremia violentamente” (Ex 19,16.18). Mas, agora, o Senhor não está no vento impetuoso nem no terremoto nem no fogo… Elias teve de reconhecê-lo, de descobrir sua Presença no murmúrio da brisa suave! – Ah, Senhor! Como teus caminhos são imprevisíveis! Quem pode te reconhecer senão quem a ti se converte? Quem pode continuar contigo se pensar em dobrar-te à própria lógica e à própria medida? Tu és livre demais, grande demais, surpreendente demais! Não há Deus além de ti; tu, que convertes e educas o nosso coração! Elias te reconheceu e cobriu o rosto com o manto, saiu ao teu encontro e te viu pelas costas… Pobres dos homens deste século XXI, que tão cheios de si mesmos, querem te enquadrar à própria medida e, por isso, não te vêem, não te reconhecem, não experimentam a alegria e a doçura da tua Presença!

E, no entanto, meus irmãos, as surpresas de Deus não param por aí! O mais surpreendente ainda estava por vir. Não havia chegado ainda a plenitude do tempo! Pois bem! Na plenitude do tempo, veio a plenitude da graça: Deus enviou o seu Filho ao mundo; ele veio pessoalmente! Não mais no vento, não mais no fogo, não mais no terremoto, não mais pelos profetas! Ele veio pessoalmente, ele, em Jesus: “Quem me vê, vê o Pai. Eu e o Pai somos uma coisa só” (Jo 14,9; 12,45). Por isso mesmo, São Paulo afirma hoje claramente que “Cristo, o qual está acima de todos, é Deus bendito para sempre!” É por essa fé que somos cristãos, meus irmãos! Jesus é Deus, o Deus Santo, o Deus Forte, o Deus Imortal, o Deus de nossos Pais! Nele o Pai criou todas as coisas, por Ele o Pai tirou Abraão de Ur dos Caldeus, por Ele o Pai abriu o Mar Vermelho, por Ele, deu o Maná ao seu povo, sobre Ele fez os profetas falarem e, na plenitude dos tempos no-lo enviou a nós! Surpreendente, o nosso Deus; surpreendente como vem a nós!

Lá vamos nós, lá vai a Igreja, no meio da noite deste mundo, navegando com dificuldade porque a barca da vida é agitada pelos ventos… e Jesus vem ao nosso encontro, caminhando sobre as águas! Em Jesus, Deus vem vindo ao nosso encontro, em Jesus, vem em nosso socorro… E, infelizmente, confundimo-lo com um fantasma, etéreo, irreal. E ele no diz mais uma vez: “Coragem! Sou eu! Não tenhais medo!” Atenção para esta frase do Senhor: “Coragem, EU SOU! Não tenhais medo!” EU SOU! É o nome do próprio Deus como se revelou no deserto! Deus de Moisés, de Elias, Deus feito pessoalmente presente para nós em Jesus Cristo!

Então, caríssimos, digamos como Pedro: “Senhor, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre á água!” Ir ao encontro de Jesus, caminhando sobre as águas do mar da vida! Todos temos de pedir isso, de fazer isso! Peçamos sim, como Pedro, mas não façamos como Pedro que, desviando o olhar de Jesus, colocando a atenção mais na profundeza do mar e na força do vento que no poder amoroso e fiel do Senhor, começou a afundar! Assim acontecerá conosco, acontecerá com a Igreja, se medrosos, olharmos mais para o mar e a noite que para o Senhor que vem a nós com amor onipotente! E Deus é tão bom que, ainda que às vezes, façamos a tolice de Pedro, podemos ainda como Pedro gritar de todo o coração: “Senhor, salva-me!”Salva-nos, Senhor, porque somos de pouca fé! Salva tua Igreja, salva cada um de nós das imensas águas do mar da vida, do sombrio e escuro mar encrepado na noite opaca de nossa existência! Tu, que durante a noite oravas e vias o barco navegando com dificuldade, do teu céu, olha para nós e vem ao nosso encontro! E tu vens! Sabemos que vens na graça da Palavra, no dom da Eucaristia e de tantos outros modos discretos… Cristo-Deus, ajuda-nos a reconhecer-te, a caminhar ao teu encontro, vencendo as águas do mar da vida! Amém.

D. Henrique Soares da Costa