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O Amor e a Justiça de Deus (21-09-2014)

Primeira Leitura:
PROFETAS MAIORES: Livro de Isaías (Is), capítulo 55
(6) Buscai o Senhor, já que ele se deixa encontrar, invocai-o, já que está perto. (7) Renuncie o malvado a seu comportamento, e o pecador a seus projetos, volte ao Senhor, que dele terá piedade, e a nosso Deus que perdoa generosamente. (8) Pois meus pensamentos não são os vossos, e vosso modo de agir não é o meu, diz o Senhor, (9) mas tanto quanto o céu domina a terra, tanto é superior à vossa a minha conduta e meus pensamentos ultrapassam os vossos.

Segunda Leitura:
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Epístola aos Filipenses (Fl), capítulo 1
(20) Meu ardente desejo e minha esperança são que em nada serei confundido, mas que, hoje como sempre, Cristo será glorificado no meu corpo (tenho toda a certeza disto), quer pela minha vida quer pela minha morte. (21) Porque para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro. (22) Mas, se o viver no corpo é útil para o meu trabalho, não sei então o que devo preferir. (23) Sinto-me pressionado dos dois lados: por uma parte, desejaria desprender-me para estar com Cristo - o que seria imensamente melhor, (24) mas, de outra parte, continuar a viver é mais necessário, por causa de vós... (25) Persuadido disto, sei que ficarei e continuarei com todos vós, para proveito vosso e consolação da vossa fé. (26) Assim, minha volta para junto de vós vos dará um novo motivo de alegria em Cristo Jesus. (27) Cumpre, somente, que vos mostreis em vosso proceder dignos do Evangelho de Cristo. Quer eu vá ter convosco quer permaneça ausente, desejo ouvir que estais firmes em um só espírito, lutando unanimemente pela fé do Evangelho,
ASS EVANGELHOS: Evangelho segundo São Mateus (Mt), capítulo 20
(1) Com efeito, o Reino dos céus é semelhante a um pai de família que saiu ao romper da manhã, a fim de contratar operários para sua vinha.
(2) Ajustou com eles um denário por dia e enviou-os para sua vinha.
(3) Cerca da terceira hora, saiu ainda e viu alguns que estavam na praça sem fazer nada.
(4) Disse-lhes ele: - Ide também vós para minha vinha e vos darei o justo salário.
(5) Eles foram. À sexta hora saiu de novo e igualmente pela nona hora, e fez o mesmo.
(6) Finalmente, pela undécima hora, encontrou ainda outros na praça e perguntou-lhes: - Por que estais todo o dia sem fazer nada?
(7) Eles responderam: - É porque ninguém nos contratou. Disse-lhes ele, então: - Ide vós também para minha vinha.
(8) Ao cair da tarde, o senhor da vinha disse a seu feitor: - Chama os operários e paga-lhes, começando pelos últimos até os primeiros.
(9) Vieram aqueles da undécima hora e receberam cada qual um denário.
(10) Chegando por sua vez os primeiros, julgavam que haviam de receber mais. Mas só receberam cada qual um denário.
(11) Ao receberem, murmuravam contra o pai de família, dizendo:
(12) - Os últimos só trabalharam uma hora... e deste-lhes tanto como a nós, que suportamos o peso do dia e do calor.
(13) O senhor, porém, observou a um deles: - Meu amigo, não te faço injustiça. Não contrataste comigo um denário?
(14) Toma o que é teu e vai-te. Eu quero dar a este último tanto quanto a ti.
(15) Ou não me é permitido fazer dos meus bens o que me apraz? Porventura vês com maus olhos que eu seja bom?
(16) Assim, pois, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos. [ Muitos serão os chamados, mas poucos os escolhidos.]
Homilia do : Padre Paulo Ricardo
Homilia do Padre Miguel:---
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético
Ver Homilia de Dom Henrique Soares
Canção Nova: Homilia

25° Domingo do Tempo Comum - A recompensa será igual para todos?

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo 
Mateus (Mt 20, 1-16a)

No Evangelho deste Domingo, Nosso Senhor conta a seus discípulos a parábola dos trabalhadores na vinha. Após contratar várias pessoas para o trabalho, algumas de madrugada, outras às nove da manhã, outras ao meio-dia e às três, e outras ainda às cinco da tarde, o seu patrão remunera-os igualmente, com uma moeda de prata. Diante disso, os que haviam sido contratados primeiro “começaram a resmungar contra o patrão: ‘Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro’”.

Para entender o significado dessa parábola, é preciso explicar o contexto do Evangelho de São Mateus. Ele foi escrito para comunicar a vida de Jesus aos cristãos convertidos da religião judaica, supondo que os seus ouvintes conheciam a história da Antiga Aliança, dos patriarcas e profetas do Velho Testamento, das festas religiosas do povo israelita etc. A partir dessa informação, é possível entender a parábola como uma resposta aos cristãos vindos do judaísmo, que são justamente os trabalhadores que foram contratados “de madrugada”, pois começaram a seguir o Deus verdadeiro ainda no começo da história.

Sabe-se que, no alvorecer das primeiras comunidades cristãs, houve um sério conflito por parte dos cristãos “judaizantes”, que queriam que os convertidos do paganismo se submetessem a algumas prescrições da Torá - como a circuncisão - antes de se batizarem e entrarem na Igreja. A controvérsia foi resolvida no episódio do Concílio de Jerusalém, no qual os apóstolos decidiram “não (...) inquietar os pagãos que se convertem a Deus” [1], mandando-os tão somente “abster-se de carnes sacrificadas aos ídolos, do sangue, das carnes de animais sufocados e das uniões ilícitas” [2].

Ao comparar o Reino dos céus ao patrão que premiou tanto os primeiros trabalhadores quanto os que foram contratados depois com a mesma recompensa, Nosso Senhor já resolvia essa dificuldade do futuro, ilustrando a generosidade de Deus, que se dá todo aos homens, seja aos judeus, seja aos pagãos.

Santo Tomás de Aquino, comentando este Evangelho [3], divide-o em duas partes: a da contratação e a da remuneração.

Com relação à contratação, percebe-se como “Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” [4]: o dia de que fala o Evangelho simboliza tanto a história da humanidade - Deus chamou alguns de madrugada, isto é, de Adão a Noé; outros na hora terça, de Noé a Abraão; outros na hora sexta, de Abraão a Moisés; e outros ainda na hora nona, de Moisés até a vinda de Cristo -, quanto a história de cada homem em particular - alguns o Senhor chama de madrugada, isto é, na infância; outros na hora terça, que é a adolescência; outros na hora sexta, que é a idade adulta; outros na hora nona, que é a velhice; e outros ainda chama na última hora, como chamou o bom ladrão [5].

Quanto à remuneração, a moeda de prata de que fala o Evangelho é a vida eterna, o patrão é Deus Pai e o administrador é Deus Filho. Ao distribuir a recompensa, o patrão dá uma moeda de prata aos trabalhadores, mostrando que a recompensa eterna é igual para todos. Mas, em que sentido se pode dizer isso? Santo Tomás explica:

“A bem-aventurança pode ser considerada quanto ao objeto, e, então, ela é uma só para todos; e quanto à participação do objeto, e, então, ela é diferente, pois nem todos participarão dela do mesmo modo, conforme está escrito em Jo 14, 2: Na casa de meu Pai, existem muitas moradas. É como se muitos fossem à procura de água, e um carregasse um vaso maior do que o outro: o rio está disponível a todos, mas nem todos levarão a mesma quantidade. Assim, quem tem a alma mais dilatada, mais caridade recebe.” [6]

Para entender o que diz o Aquinate, pode servir de apoio a parábola dos talentos [7], na qual o senhor retribui a cada um de seus servos de acordo com o seu trabalho. Embora pareça, essas duas passagens não estão em contradição. Deus, que é como um oceano infinito, é capaz de preencher totalmente tanto uma tampinha de garrafa quanto um copo, uma piscina ou uma Baía de Guanabara. De fato, o objeto da bem-aventurança é um só, Deus mesmo; no entanto, a participação de cada um nessa recompensa será diferente, pois cada um amou a Deus de forma diferente.

A grande lição deste Evangelho é recordar-nos que a recompensa divina não é merecida por nenhum de nós e, por isso, todos devemos viver em ato de contínua gratidão a Deus. Ao responder à murmuração dos primeiros trabalhadores, o patrão lhes pergunta se estão “com inveja”. No original grego, a expressão do Autor Sagrado é: ὀφθαλμός πονηρός [lê-se: ophthalmós poneirós], que quer dizer, literalmente, “olho mau”. Esse termo - que também já foi consagrado pela linguagem popular - descreve uma atitude espiritual: o invejoso, quando vê alguém feliz, se entristece com a sua alegria. Jesus denuncia que esse remordimento interno é causado por uma mentalidade mesquinha, a mesma mentalidade do fariseu que acha que é digno do Reino dos céus [8]. Ele se esquece que todos os que se salvarem o serão por pura misericórdia de Deus e que até os méritos que ele adquire só são possível graças à graça divina. Por isso, é importante dirigir o olhar ao Senhor, em meio ao cansaço e a fadiga do dia a dia, e dizer: Senhor, eu não mereço, mas deixe-me trabalhar pelo vosso Reino, viver o cansaço do dia a dia, por vosso amor.

É importante lembrar também que hoje, 21 de setembro, é justamente o dia da memória de São Mateus. Vivendo como publicano por muito tempo, o evangelista foi um desses agraciados de última hora, que deixou a coletoria de impostos e todo o resto para seguir Nosso Senhor. Depois de deixar a velha vida, Mateus também correspondeu ao amor de Deus, pregando o Evangelho até o martírio. Ele é, portanto, um exemplo das duas realidades: não só é o que se converteu, mas também aquele que trabalhou até o fim, ganhando do Senhor a graça de merecer morrer por Sua causa.

Como São Mateus, independentemente de nossa história de vida, alegremo-nos e correspondamos generosamente à graça superabundante que Deus derrama sobre nós.

Referências

  1. At 15, 19
  2. At 15, 29
  3. Cf. Santo Tomás de Aquino, Super Evangelium Matthaei, 20, 1
  4. 1 Tm 2, 4
  5. Cf. Lc 23, 39-43
  6. Santo Tomás de Aquino, Super Evangelium Matthaei, 20, 1. Cf. também Suma Teológica, I-II, q. 5, a. 2
  7. Cf. Mt 25, 14-30
  8. Cf. Lc 18, 9-14

 

Padre Paulo Ricardo