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Vida, Morte e Ressurreição (02-11-2014)

Primeira Leitura:
SAPIENCIAL: Livro de Jó (Jó), capítulo 19
(1) Jó respondeu então nestes termos: (2) Até quando afligireis a minha alma e me atormentareis com vossos discursos? (3) Eis que já por dez vezes me ultrajastes, e não vos envergonhais de me insultar. (4) Mesmo que eu tivesse verdadeiramente pecado, minha culpa só diria respeito a mim mesmo. (5) Se vos quiserdes levantar contra mim, e convencer-me de ignomínia, (6) sabei que foi Deus quem me afligiu e me cercou com suas redes. (7) Clamo contra a violência, e ninguém me responde, levanto minha voz, e não há quem me faça justiça. (8) Fechou meu caminho para que eu não possa passar, e espalha trevas pelo meu caminho, (9) despojou-me de minha glória, e tirou-me a coroa da cabeça. (10) Demoliu-me por inteiro, e pereço, desenraizou minha esperança como uma árvore, (11) acendeu a sua cólera contra mim, tratou-me como um inimigo. (12) Suas milícias se concentraram, construíram aterros para me assaltarem, acamparam em volta de minha tenda. (13) Meus irmãos foram para longe de mim, meus amigos de mim se afastaram. (14) Meus parentes e meus íntimos desapareceram, os hóspedes de minha casa esqueceram-se de mim. (15) Minhas servas olham-me como um estranho, sou um desconhecido para elas. (16) Chamo meu escravo, ele não responde, preciso suplicar-lhe com a boca. (17) Minha mulher tem horror de meu hálito, sou pesado aos meus próprios filhos. (18) Até as crianças caçoam de mim, quando me levanto, troçam de mim. (19) Meus íntimos me abominam, aqueles que eu amava voltam-se contra mim. (20) Meus ossos estão colados à minha pele, à minha carne, e fujo com a pele de meus dentes. (21) Compadecei-vos de mim, compadecei-vos de mim, ao menos vós, que sois meus amigos, pois a mão de Deus me feriu. (22) Por que me perseguis como Deus, e vos mostrais insaciáveis de minha carne? (23) Oh!, se minhas palavras pudessem ser escritas, consignadas num livro, (24) gravadas por estilete de ferro em chumbo, esculpidas para sempre numa rocha! (25) Eu o sei: meu vingador está vivo, e aparecerá, finalmente, sobre a terra. (26) Por detrás de minha pele, que envolverá isso, na minha própria carne, verei Deus. (27) Eu mesmo o contemplarei, meus olhos o verão, e não os olhos de outro, meus rins se consomem dentro de mim.

Segunda Leitura:
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Epístola de São Paulo aos Romanos (Rm), capítulo 6
(3) Ou ignorais que todos os que fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte? (4) Fomos, pois, sepultados com ele na sua morte pelo batismo para que, como Cristo ressurgiu dos mortos pela glória do Pai, assim nós também vivamos uma vida nova. (5) Se fomos feitos o mesmo ser com ele por uma morte semelhante à sua, sê-lo-emos igualmente por uma comum ressurreição. (6) Sabemos que o nosso velho homem foi crucificado com ele, para que seja reduzido à impotência o corpo (outrora) subjugado ao pecado, e já não sejamos escravos do pecado. (7) (Pois quem morreu, libertado está do pecado.) (8) Ora, se morremos com Cristo, cremos que viveremos também com ele, (9) pois sabemos que Cristo, tendo ressurgido dos mortos, já não morre, nem a morte terá mais domínio sobre ele.
ASS EVANGELHOS: Evangelho segundo São João (Jo), capítulo 11
(17) À chegada de Jesus, já havia quatro dias que Lázaro estava no sepulcro.
(18) Ora, Betânia distava de Jerusalém cerca de quinze estádios.
(19) Muitos judeus tinham vindo a Marta e a Maria, para lhes apresentar condolências pela morte de seu irmão.
(20) Mal soube Marta da vinda de Jesus, saiu-lhe ao encontro. Maria, porém, estava sentada em casa.
(21) Marta disse a Jesus: Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido!
(22) Mas sei também, agora, que tudo o que pedires a Deus, Deus to concederá.
(23) Disse-lhe Jesus: Teu irmão ressurgirá.
(24) Respondeu-lhe Marta: Sei que há de ressurgir na ressurreição no último dia.
(25) Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá.
(26) E todo aquele que vive e crê em mim, jamais morrerá. Crês nisto?
(27) Respondeu ela: Sim, Senhor. Eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, aquele que devia vir ao mundo.
Homilia do : Padre Paulo Ricardo
Homilia do Padre Miguel:---
Presbíteros:
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Ver Homilia de Mons. José Maria
Ver Homilia do Pe. Françoá Costa
Canção Nova: Homilia

Todos os Santos e Finados - A Igreja, comunhão e mediação dos santos

Neste fim de semana, a Igreja celebra duas festas litúrgicas, intimamente ligadas ao mistério da comunhão dos santos: são a Solenidade de Todos os Santos, no dia 1º de novembro, e a Comemoração dos Fiéis Defuntos, no dia 2. São festas que nos recordam que “todos os que somos filhos de Deus (...) constituímos uma única família em Cristo” [1], na qual nos amamos e nos auxiliamos mutuamente.

O Catecismo da Igreja Católica, citando a constituição Lumen Gentium, ensina que, atualmente, a Igreja existe em “três estados”: “Até que o Senhor venha em sua majestade e, com ele, todos os anjos e, tendo sido destruída a morte, todas as coisas lhe forem sujeitas, alguns dentre os seus discípulos peregrinam na terra” – trata-se de nós, Igreja militante; “outros, terminada esta vida, são purificados” – são as almas do purgatório, Igreja padecente; “enquanto outros são glorificados, vendo ‘claramente o próprio Deus trino e uno, assim como é’” – são todos os santos e santas de Deus, que já estão no Céu, Igreja triunfante [2]. Assim como a alma está para o corpo, o Espírito Santo está para a Igreja, Corpo Místico de Cristo, unindo os fiéis do Céu e da Terra e santificando-os com os mesmos tesouros espirituais.

No dia primeiro, festeja-se a Solenidade de Todos os Santos. Infelizmente, as pessoas têm perdido a noção do que seja um “santo”, porque não sabem diferenciar entre uma pessoa santa e uma pessoa salva. Quem está no purgatório, por exemplo, está salvo, mas ainda não está totalmente santificado, no sentido pleno da palavra. Os santos canonizados – principalmente “os de moradas superiores”, para fazer uma referência a Santa Teresa de Jesus –, ao contrário, como já completaram toda a sua purificação nesta vida, com certeza foram diretamente para o Céu.

Este é o grande abismo que separa católicos e protestantes. Os primeiros creem que a santidade é possível nesta terra e acreditam firmemente que, por auxílio da graça – mas também por mérito próprio –, uma pessoa pode chegar a dizer com São Paulo: “Eu vivo, mas não eu: é Cristo que vive em mim” [3]. Os santos, na Igreja Católica, são pessoas que alcançaram tal grau de perfeição e se configuraram de tal modo a Cristo que Ele mesmo se faz presença viva neles. Como ensina Santo Irineu de Lion, padre da Igreja, “gloria Dei vivens homo – a glória de Deus é o homem vivo” [4], isto é, o homem que vive em Cristo. Por isso, depois que morrem, os santos, vendo Deus face a face, podem interceder por nós junto a Ele.

Mas, para os protestantes, Deus operaria as coisas “diretamente”, sem precisar de ninguém. Sem dúvida – e os católicos também reconhecem isto –, Deus não precisa de Suas criaturas, mas toda a história da salvação testemunha que, mesmo não precisando, Ele quer precisar delas. Deus não precisava, por exemplo, servir-se de um homem e de uma mulher para gerar novas vidas no mundo. Num estalar de dedos, os seres humanos podiam simplesmente brotar da grama, como os cogumelos. Todavia, Ele quis depender da ação de um pai e de uma mãe para tanto. A beleza da fé católica está justamente na ação de Deus que ama as Suas criaturas, mas por meio dessas mesmas criaturas, fazendo-as participar de Sua bondade e de Seu amor: é o caso dos santos no Céu e dos anjos da guarda, por exemplo.

No entanto – pode objetar algum protestante –, está escrito: “Há um só mediador entre Deus e a humanidade: o homem Cristo Jesus” [5].– Sim, é verdade. Mas, nos Atos dos Apóstolos, é narrado o episódio de São Pedro que, estando no cárcere, foi libertado pela ação de um anjo de Deus e da Igreja – que “orava continuamente a Deus por ele” [6]. Isso mostra como a mediação de Cristo diz respeito à mediação de Seu Corpo todo, seja nos anjos, que estão no Céu, seja nos fiéis militantes, que estão na terra. Se se admite a intercessão dos anjos e dos vivos, por que não se admite a dos que estão mortos em Cristo, já que nada pode nos separar do amor de Cristo, nem mesmo a morte [7]? Quer dizer que os membros do Corpo Místico de Cristo, uma vez mortos, estão “excomungados”? É claro que não. A comunhão na Igreja é muito mais forte do que a morte. Portanto, os santos, que já estão com o Senhor, rezam por nós.

Além disso, é muito agradável a Deus a intercessão de Seus amigos. É claro que Martinho Lutero e seus seguidores não aceitam que alguém mereça, por seu amor a Deus, ser atendido por Ele. É assim porque o protestantismo nega a doutrina do mérito. Para eles, “tudo é graça”. Os católicos reconhecem que, realmente, tudo – inclusive o mérito – é graça. Os santos receberam muitíssimas graças de Deus, entre as quais está a própria graça de merecer. Por isso, eles, porque amaram muito ao Senhor, merecem ter as suas preces ouvidas por Ele.

Mas, não existem apenas os fiéis que estão no Céu. A Comemoração dos Fiéis Defuntos recorda que nem todos os que se salvam vão diretamente para a vida eterna. Infelizmente, nos últimos tempos, por influência protestante, muitos teólogos têm negado a existência do purgatório, alegando que ele foi uma “invenção medieval” e que, com vistas a um malfadado ecumenismo, a Igreja deveria parar de pregar sobre isso.

A verdade é que o purgatório faz parte do “depósito de fé” e do ensinamento da Igreja de dois mil anos. Os primeiros cristãos, nas catacumbas, por exemplo, já rezavam pelos mortos. Ora, sabendo que depois da morte não existe uma “segunda chance” de salvar-se, essa prática só pode indicar a existência de uma purificação, após a morte, para aqueles que já se salvaram, mas, em vida, não amaram a Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento [8]. Infelizmente, esse é o estado em que se encontram muitos de nós, por conta de nossos pecados e de nossa falta de generosidade com Deus. Se não nos purificarmos nesta vida, seremos purificados na futura. Para os protestantes, no entanto, a fé seria uma espécie de “véu”, que encobriria o fato de que o homem é ontologicamente pecador, perverso e desordenado. Os salvos, portanto, entrariam no Céu como que “disfarçados”.

Os católicos, ao invés, creem que só se entra no Céu totalmente santo. Por isso, é importante que, em um ato de caridade, sufraguemos as almas dos fiéis defuntos, a fim de que se purifiquem logo e entrem na posse eterna de Deus.

Referências

  1. Catecismo da Igreja Católica, 959
  2. Ibidem, 954
  3. Gl 2, 20
  4. Adversus haereses, IV, 20, 7
  5. 1 Tm 2, 5
  6. At 12, 5
  7. Cf. Rm 8, 35-39
  8. Cf. Dt 6, 5; Mt 22, 37

Padre Paulo Ricardo


Vida, Morte e Ressurreição

Há pouco reverenciamos nossos irmãos falecidos. A Igreja dá à data litúrgica de 2 de novembro o título de “Comemoração de todos os fiéis defuntos”. É um dia no qual nós, cristãos, rezamos principalmente pelos nossos irmãos na fé, ou seja, os batizados em Cristo, que já morreram. Claro que toda a humanidade – e não só os cristãos – são objeto da oração e solicitude da Igreja, que é Corpo de Cristo, o Salvador de todos! Diariamente, na Santa Missa, a Igreja recorda não somente os “nossos irmãos que partiram desta vida”, mas também “todos aqueles cuja fé só vós conheceis”!

Seja como for, o Dia de Finados coloca-nos diante de uma questão fundamental para nossa existência: a questão da morte. Nosso modo de enfrentar a vida depende muito do modo como encaramos a morte, e vice-versa! Atualmente, há quatro modos possíveis de encará-la, de colocar-se diante da realidade da morte. Senão vejamos:

Há aqueles – e não são poucos – que cinicamente a ignoram. Vivem como se um dia não tivessem que morrer: preocupam-se tão somente com esta vida: comamos e bebamos! Em geral, quando vão a um sepultamento, conversam o tempo todo sobre futebol, política ou quaisquer outros assuntos banais e rasteiros. São pessoas rasas, essas; pessoas que nunca pararam de verdade para se perguntar sobre o sentido da vida e, por isso mesmo, não vivem; sobrevivem, apenas! Estas, quando tiverem que enfrentar a própria morte, que vazio, que absurdo encontrarão! É o preço a pagar pelo modo leviano com que viveram a vida! Isto é triste porque quando o homem não pensa na morte, esquece que é finito, passageiro, fugaz e, assim, começa a julgar-se Deus de si mesmo e tudo que consegue é infernizar sua vida e a dos outros. São tantos os exemplos atuais…

Há ainda aqueles que diante da morte se angustiam, apavoram-se até ao desespero. A morte os amedronta: parece-lhes uma insensatez sem fim, pois é a negação de todo desejo de vida, de felicidade e eternidade que cresce no coração do homem. Estes sentem-se esmagados pela certeza de um dia ter que encarar, frente a frente, tão fria, tirana e poderosa adversária. Assim, querendo ou não, podem afirmar como Sartre, o filósofo francês: “A vida é uma paixão inútil!”

Há também um terceiro grupo: o dos otimistas ingênuos. Vemo-los nessas seitas esotéricas de inspiração oriental e em todas as doutrinas reencarnacionistas. A Seicho-no-iê, por exemplo, afirma que o mal, a doença, a morte, são apenas ilusão: a meditação, o autocontrole, a purificação contínua, podem libertar o homem de tais ilusões; o Espiritismo, proclama, bêbado de doce ilusão: “A morte não existe. Não há mortos!” – É esta a afirmação existente num monumento ao nascimento do Espiritismo moderno, em Hydesville, Estados Unidos. Não há morte para nos agredir; há somente uma desencarnação!

Mas, há ainda um último modo de encarar a morte, tipicamente cristão. A morte existe sim! E dói! E machuca! Não somente existe, como também marca toda a nossa existência: vivemos feridos por ela, em cada dor, em cada doença, em cada derrota, em cada medo, em cada tristeza… até a morte final! Não se pode fazer pouco caso dela: ela nos magoa e nos ameaça; desrespeita-nos e entristece-nos, frustra nossas expectativas sem pedir permissão! O cristão é realista diante da morte; recorda-se da palavra de Gn 2,17: “De morte morrerás!” Então, os discípulos de Cristo somos pessimistas? Não! Nós simplesmente não nos iludimos: sabemos que a morte é uma realidade e uma realidade que não estava no plano de Deus para nós: não fomos criados para a ela, mas para a vida! Deus não é o autor da morte, não a quer nem se conforma com ela! Por isso mesmo enviou-nos o seu Filho, aquele mesmo que disse: ”Eu sou a Vida; eu sou a Ressurreição!” Ele morreu da nossa morte para que nós não morramos sozinhos, mas morramos com ele e como ele, que venceu a morte! Para nós, cristãos, a morte, que era como uma caverna escura, sem saída, tornou-se um túnel, cujo final é luminoso. Isto mesmo: Cristo arrombou as portas da morte! Ela tornou-se apenas uma passagem, um caminho para a nossa Páscoa, nossa passagem deste mundo para o Pai: “Ainda que eu passe pelo vale da morte, nenhum mal temerei, porque está comigo!” Em Cristo a morte pode ser enfrentada e vencida! Certamente ela continua dolorosa, ela nos desrespeita; mas se no dia a dia aprendermos a viver unidos a Cristo e a vivenciar as pequenas mortes de cada momento em comunhão com Senhor que venceu a morte, a morte final será um “adormecer em Cristo”.

Por tudo isso, o Dia de Finados é sempre excelente ocasião não somente para rezar pelos nossos irmãos já falecidos, mas também para pensarmos na nossa morte e na nossa vida, pois “tal vida, tal morte!

Dom Henrique Soares da Costa