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Ensinava com Autoridade! (01-02-2015)

Primeira Leitura:
PENTATEUCO: Livro do Deuteronômio (Dt), capítulo 18
(15) O Senhor, teu Deus, te suscitará dentre os teus irmãos um profeta como eu: é a ele que devereis ouvir. (16) Foi o que tu mesmo pediste ao Senhor, teu Deus, em Horeb, quando lhe disseste no dia da assembléia: Oh! Não ouça eu mais a voz do Senhor, meu Deus, nem torne a ver mais esse fogo ardente, para que eu não morra! (17) E o Senhor disse-me: está muito bem o que disseram, (18) eu lhes suscitarei um profeta como tu dentre seus irmãos: pôr-lhe-ei minhas palavras na boca, e ele lhes fará conhecer as minhas. ordens. (19) Mas ao que recusar ouvir o que ele disser de minha parte, pedir-lhe-ei contas disso. (20) o profeta que tiver a audácia de proferir em meu nome uma palavra que eu lhe não mandei dizer, ou que se atrever a falar em nome de outros deuses, será morto.

Segunda Leitura:
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Primeira Epístola aos Coríntios (1Cor), capítulo 7
(32) Quisera ver-vos livres de toda preocupação. O solteiro cuida das coisas que são do Senhor, de como agradar ao Senhor. (33) O casado preocupa-se com as coisas do mundo, procurando agradar à sua esposa. (34) A mesma diferença existe com a mulher solteira ou a virgem. Aquela que não é casada cuida das coisas do Senhor, para ser santa no corpo e no espírito, mas a casada cuida das coisas do mundo, procurando agradar ao marido. (35) Digo isto para vosso proveito, não para vos estender um laço, mas para vos ensinar o que melhor convém, o que vos poderá unir ao Senhor sem partilha.
ASS EVANGELHOS: Evangelho segundo São Marcos (Mc), capítulo 1
(21) Dirigiram-se para Cafarnaum. E já no dia de sábado, Jesus entrou na sinagoga e pôs-se a ensinar.
(22) Maravilhavam-se da sua doutrina, porque os ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas.
(23) Ora, na sinagoga deles achava-se um homem possesso de um espírito imundo, que gritou:
(24) Que tens tu conosco, Jesus de Nazaré? Vieste perder-nos? Sei quem és: o Santo de Deus!
(25) Mas Jesus intimou-o, dizendo: Cala-te, sai deste homem!'
(26) O espírito imundo agitou-o violentamente e, dando um grande grito, saiu.
(27) Ficaram todos tão admirados, que perguntavam uns aos outros: 'Que é isto? Eis um ensinamento novo, e feito com autoridade, além disso, ele manda até nos espíritos imundos e lhe obedecem!'
(28) A sua fama divulgou-se logo por todos os arredores da Galiléia.
Homilia do : Padre Paulo Ricardo
Homilia do Padre Miguel:---
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético
Ver Comentário Exegético
Ver Homilia de Dom Henrique Soares
Ver Homilia de Mons. José Maria
Ver Homilia do Pe. Françoá Costa
Canção Nova: Homilia

4º Domingo do Tempo Comum - Pode haver verdadeira fé sem caridade?

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo 
Marcos (Mc 1, 21-28)

Estamos ainda no início da narrativa de São Marcos, nos primeiros passos do ministério público de Nosso Senhor. Enquanto prega em Cafarnaum, "um homem possuído por um espírito mau" o interpela: "Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir? Eu sei quem tu és: tu és o Santo de Deus". Cristo, porém, rejeita a confissão do demônio, intimando-o a calar-se (a palavra grega usada é "Φιμώθητι", a mesma para se referir a uma mordaça). Mas, por que Ele faz isso? Por que não aceita a profissão do diabo?

Porque, explica Santo Agostinho, nos demônios existe a ciência, mas sem a caridade [1]. E, no dizer do Apóstolo, "a ciência infla, mas a caridade edifica" [2]. De fato, Deus não quer de Suas criaturas uma mera profissão de conhecimento. Não basta conhecê-Lo, se não houver caridade; não basta dizer que se crê n'Ele, se não há amor. Os demônios sabiam quem era Jesus, mas não O amavam. A sua ciência era orgulhosa, assim como a de muitos homens desta "era científica": pensando conhecer as coisas, confundem-se em sua soberba e, sem amor, perdem a essência da Verdade.

Cristo também não quer para Si uma simples e superficial admiração, como a narrada pelo Evangelista: "todos ficaram muito espantados"; e "a fama de Jesus logo se espalhou por toda a parte". Ele quer verdadeiro compromisso por parte das pessoas. Uma coisa é admirar-se, outra é crer e evangelizar; uma coisa é ser "discípulo missionário", como pediu o Documento de Aparecida, outra é ser apenas um curioso fofoqueiro.

No que diz respeito à ciência destas coisas sobrenaturais, Santo Agostinho comenta que a situação dos homens é ainda pior que a dos demônios, os quais pelo menos alguma ciência têm acerca de Cristo. O que eles, por causa de sua soberba, não conseguem enxergar, bem como os seres humanos, é "Dei humilitas, quae in Christo apparuit, quantam virtutem habeat – quanto poder existe na humildade de Deus, que apareceu em Cristo" [3].

Na Primeira Leitura deste Domingo, tirada do livro do Deuteronômio, Deus revela a Moisés que suscitará para ele, do meio dele, dentre os seus irmãos, um profeta como ele. Ora, uma das características mais importantes deste patriarca era que ele se comunicava com Deus "face a face". Neste sentido, a promessa divina encontra seu pleno cumprimento em Nosso Senhor. Comenta o Papa Bento XVI, em seu livro "Jesus de Nazaré":

"Neste contexto devemos ler a conclusão do prólogo de S. João: 'Ninguém jamais viu a Deus; o Filho unigênito que repousa no seio do Pai é que no-lo deu a conhecer' (Jo 1, 18). Em Jesus cumpriu-se a promessa do novo Moisés. N'Ele se realiza agora plenamente o que em Moisés se encontrava apenas de um modo fraturado: Ele vive diante do rosto de Deus, não apenas como amigo, mas como Filho; Ele vive na mais íntima unidade com o Pai.
A partir deste ponto podemos então compreender realmente a figura de Jesus, tal como a encontramos no Novo Testamento, tudo o que nos é contado em palavras, ações, sofrimentos, na glória; tudo isto está ancorado aqui. Se omitirmos este autêntico centro, passamos ao lado da figura autêntica de Jesus; então ela se torna contraditória e, em última análise, incompreensível. A questão que cada leitor do Novo Testamento deve levantar - aonde é que Jesus foi buscar a sua doutrina, onde é que se pode esclarecer a sua aparição -, esta questão só a partir daqui é que pode ser realmente respondida. A reação dos seus ouvintes era clara: esta doutrina não tem a sua origem em nenhuma escola. Ela é totalmente diferente do que se pode aprender nas escolas. Ela não é uma explicação à maneira da interpretação tal como é dada nas escolas. Ela é diferente; é explicação 'com autoridade' (...).
A doutrina de Jesus não vem da aprendizagem humana, seja ela de que espécie for. Ela vem do contato imediato com o Pai, do diálogo 'face a face', da visão daquele que repousa no seio do Pai." [4]

O espanto das pessoas com a "autoridade" ("ἐξουσίαν", em grego) de Nosso Senhor nasce de Sua humildade e de Seu rebaixamento, atingindo o seu cume no Calvário, quando o centurião vê Jesus expirar e exclama: "Na verdade, este homem era Filho de Deus!" [5]. Não importa tanto, pois, entusiasmar-se com os sinais e prodígios operados por Cristo, mas enxergar o poder que tem "humilitas Dei – a humildade de Deus".

Percebendo esta realidade, então, estamos prontos para fazer um ato de fé verdadeiramente amoroso – já que não se pode conhecer autenticamente uma pessoa sem amá-la – e nos tornarmos discípulos de Cristo. Afinal, é para isto que o Evangelho, o Magistério da Igreja e a Tradição dos Santos existem: para nos levar à fé católica, íntegra e reta, sem mutilações.

Uma vez com esta fé, é importante fazê-la crescer. Não há melhor instrumento para isso do que a oração. Que, neste ano, tomemos o propósito de ser generosos com Deus e, à semelhança de Maria, irmã de Marta, nos coloquemos aos pés de Cristo, em adoração e escuta silenciosa. A soberba procura engrandecer o homem pelas vias erradas. Na verdade, nunca o ser humano é tão grande como quando se põe de joelhos diante de Deus.

Referências:

  1. De Civitate Dei, IX, 20: "Daemones enim dicuntur (quoniam vocabulum Graecum est) ab scientia nominati. Apostolus autem Spiritu Sancto locutus ait: Scientia inflat, caritas vero aedificat; quod recte aliter non intellegitur, nisi scientiam tunc prodesse, cum caritas inest; sine hac autem inflare, id est in superbiam inanissimae quasi ventositatis extollere."
  2. Cor 8, 1
  3. De Civitate Dei, IX, 20: "Contra superbiam porro daemonum, qua pro meritis possidebatur genus humanum, Dei humilitas, quae in Christo apparuit, quantam virtutem habeat, animae hominum nesciunt immunditia elationis inflatae, daemonibus similes superbia, non scientia."
  4. Papa Bento XVI, Jesus de Nazaré: primeira parte: do batismo no Jordão à transfiguração, São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2007, p. 25
  5. Mc 15, 39

 

Padre Paulo Ricardo

Ensinava com Autoridade!

“Todos ficavam admirados com o seu ensinamento, pois ensinava como quem tem autoridade, não como os escribas”.

Caríssimos, hoje a Palavra a nós proclamada mostra o Senhor ensinando. O Evangelho nos dá conta que seu ensinamento causava admiração. E por quê? Porque Jesus não é um simples mestre, um mero rabi… Vocês escutaram na primeira leitura o que Moisés prometera – ou melhor, o que Deus mesmo prometera pela boca de Moisés: “O Senhor teu Deus fará surgir para ti, da tua nação e do meio de teus irmãos, um profeta como eu: a ele deverás escutar!” Eis! Moisés, o grande líder e libertador de Israel, aquele através do qual Deus falava ao seu povo e lhe dera a Lei, anuncia que Deus suscitará um profeta como ele. E os judeus esperavam esse profeta. Chegaram mesmo a perguntar a João Batista: “És o Profeta?” (Jo 1,21), isto é, “És o Profeta prometido por Moisés?” Pois bem, caríssimos: esse Profeta, esse que é o Novo Moisés, esse que é a própria Palavra de Deus chegou: é Jesus, nosso Senhor! Como Moisés, ele foi perseguido ainda pequeno por um rei que queria matar as criancinhas; como Moisés, ele teve que fugir do tirano cruel, como Moisés, sobre o Monte – não o Sinai, mas o das Bem-aventuranças – ele deu a Lei da vida ao seu povo; como Moisés, num lugar deserto, deu ao povo de comer, não mais o maná que perece, mas aquele pão que dura para a vida eterna. Jesus é o verdadeiro Moisés; e mais que Moisés, “porque a Lei foi dada por meio de Moisés, mas a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1,17). Jesus é a plenitude da Lei de Moisés, Jesus não é somente um profeta, mas é o próprio Deus, Senhor dos profetas, Senhor de Moisés! Moisés deu testemunho dele no Tabor e cairia de joelhos a seus pés se o encontrasse. Jesus, caríssimos, é a própria Palavra do Pai feita carne, feita gente, habitando entre nós!

Mas, essa Palavra não é somente voz, sopro saído da boca. Essa Palavra que é Jesus é tão potente (lembrem-se que tudo foi criado através dela!), que não somente fala, mas faz a salvação acontecer. Por isso os milagres de Jesus, suas obras portentosas: para mostrar que ele é a Palavra eficaz e poderosa do nosso Deus. Ao curar um homem atormentado na sinagoga de Cafarnaum, Jesus nosso Senhor mostra toda a sua autoridade, seu poder e também o sentido de sua vinda entre nós: ele veio trazer-nos o Reino de Deus, do Pai, expulsando o reino de Satanás, isto é, tudo aquilo que demoniza a nossa vida e nos escraviza! – Obrigado, Senhor, Jesus, pela tua vinda! Obrigado pela tua obra de libertação! Muito obrigado porque, em ti, tudo é Palavra potente: tua voz, tuas ações salvadoras, teu modo de viver, teus exemplos, tuas atitudes! Tu não somente tens palavras de vida eterna; tu mesmo és a Palavra de Vida! Obrigado! Dá-nos a capacidade de escutar-te sempre!

Meus caros, se Jesus é essa Palavra potente, Palavra de vida, então viver sua Palavra é encontrar verdadeiramente a vida e a liberdade. Na leitura do Deuteronômio que escutamos, Deus dizia, falando do Profeta que haveria de vir: “Porei em sua boca as minhas palavras e ele lhes comunicará tudo o que eu lhe mandar. Eu mesmo pedirei contas a quem não escutar as minhas palavras que ele pronunciar em meu nome”. Ora, caríssimos, se Jesus é a Palavra de Deus, então é nele que encontramos a luz para os nossos passos e o rumo da nossa existência. Num mundo como o nosso, que prega uma autonomia louca do homem em relação a Deus, uma autonomia contra Deus, nós que cremos em Jesus, devemos cuidar de nos converter sempre a ele, escutando sua palavra. Ele nos fala, caríssimos: fala-nos nas Escrituras, fala-nos na voz da sua Igreja, fala-nos íntimo do coração, fala-nos na vida e nos acontecimentos… Certamente, ouvi-lo não é fácil, pois muitas vezes sua palavra é convite a sairmos de nós mesmos, de nossos pensamentos egoístas, de nossas visões estreitas, de nossa sensibilidade quebrada e ferida pelo pecado. Sairmos de nós para irmos em direção ao Senhor, iluminados pela sua santa palavra – eis o que Cristo nos propõe hoje!

É tão grande a bênção de encontrar o Senhor, de viver nele e para ele, que São Paulo chega mesmo a aconselhar o celibato, para estarmos mais disponíveis para o Senhor. Vocês escutaram a segunda leitura da Missa deste hoje. O Apóstolo recomenda o ficar solteiro, não por egoísmo ou ódio ao matrimônio, mas para ter mais condições de ser solícitos para com as coisas do Senhor e melhor permanecer junto ao senhor. É este o sentido do celibato dos religiosos e dos padres diocesanos: recordar ao mundo que Cristo é o Senhor absoluto de nossa vida e que por ele vale a pena deixar tudo, para com ele estar, para, como Maria irmã de Marta, estar a seus pés, escutando-o e para ele dando o melhor de nós. O celibato, que num mundo descrente e sedento de prazer sensual, é um escândalo, para os cristãos é um sinal do primado de Cristo e do seu Reino.

Rezemos para que aqueles que prometeram livremente viver celibatariamente cumpram seus compromissos com amor ao Senhor e à Igreja. Rezemos também para que os cristãos saibam ver no celibato não uma armadilha ou uma frustração, mas um belíssimo sinal profético, um verdadeiro grito de que Deus deve ser amado por tudo e em tudo, acima de todas as coisas. Se os casados mostram a nós, celibatários, a beleza do amor conjugal e do mistério de amor esponsal entre Cristo e a Igreja, nós, solteiros pelo Reino dos Céus, mostramos aos casados e ao mundo que tudo passa e tudo é relativo diante da beleza, da grandeza e do absoluto dAquele que Deus nos enviou: o seu Filho bendito, sua Palavra eterna, Verdade que ilumina, liberta e dá vida. A ele a glória para sempre. Amém.

Dom Henrique Soares da Costa