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A humanidade doente precisa de Jesus Cristo (08-02-2015)

Primeira Leitura:
SAPIENCIAL: Livro de Jó (Jó), capítulo 7
(1) A vida do homem sobre a terra é uma luta, seus dias são como os dias de um mercenário. (2) Como um escravo que suspira pela sombra, e o assalariado que espera seu soldo, (3) assim também eu tive por sorte meses de sofrimento, e noites de dor me couberam por partilha. (4) Apenas me deito, digo: Quando chegará o dia? Logo que me levanto: Quando chegará a noite? E até a noite me farto de angústias. (5) Minha carne se cobre de podridão e de imundície, minha pele racha e supura. (6) Meus dias passam mais depressa do que a lançadeira, e se desvanecem sem deixar esperança. (7) Lembra-te de que minha vida nada mais é do que um sopro, de que meus olhos não mais verão a felicidade,

Segunda Leitura:
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Primeira Epístola aos Coríntios (1Cor), capítulo 9
(16) Anunciar o Evangelho não é glória para mim, é uma obrigação que se me impõe. Ai de mim, se eu não anunciar o Evangelho! (17) Se o fizesse de minha iniciativa, mereceria recompensa. Se o faço independentemente de minha vontade, é uma missão que me foi imposta. (18) Então em que consiste a minha recompensa? Em que, na pregação do Evangelho, o anuncio gratuitamente, sem usar do direito que esta pregação me confere. (19) Embora livre de sujeição de qualquer pessoa, eu me fiz servo de todos para ganhar o maior número possível. (20) Para os judeus fiz-me judeu, a fim de ganhar os judeus. Para os que estão debaixo da lei, fiz-me como se eu estivesse debaixo da lei, embora o não esteja, a fim de ganhar aqueles que estão debaixo da lei. (21) Para os que não têm lei, fiz-me como se eu não tivesse lei, ainda que eu não esteja isento da lei de Deus - porquanto estou sob a lei de Cristo -, a fim de ganhar os que não têm lei. (22) Fiz-me fraco com os fracos, a fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, a fim de salvar a todos. (23) E tudo isso faço por causa do Evangelho, para dele me fazer participante.
ASS EVANGELHOS: Evangelho segundo São Marcos (Mc), capítulo 1
(29) Assim que saíram da sinagoga, dirigiram-se com Tiago e João à casa de Simão e André.
(30) A sogra de Simão estava de cama, com febre, e sem tardar, falaram-lhe a respeito dela.
(31) Aproximando-se ele, tomou-a pela mão e levantou-a, imediatamente a febre a deixou e ela pôs-se a servi-los.
(32) À tarde, depois do pôr-do-sol, levaram-lhe todos os enfermos e possessos do demônio.
(33) Toda a cidade estava reunida diante da porta.
(34) Ele curou muitos que estavam oprimidos de diversas doenças, e expulsou muitos demônios. Não lhes permitia falar, porque o conheciam.
(35) De manhã, tendo-se levantado muito antes do amanhecer, ele saiu e foi para um lugar deserto, e ali se pôs em oração.
(36) Simão e os seus companheiros saíram a procurá-lo.
(37) Encontraram-no e disseram-lhe: 'Todos te procuram.'
(38) E ele respondeu-lhes: 'Vamos às aldeias vizinhas, para que eu pregue também lá, pois, para isso é que vim.'
(39) Ele retirou-se dali, pregando em todas as sinagogas e por toda a Galiléia, e expulsando os demônios.
Homilia do : Padre Paulo Ricardo
Homilia do Padre Miguel:---
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético
Ver Comentário Exegético
Ver Homilia de Dom Henrique Soares
Ver Homilia de Mons. José Maria
Ver Homilia do Pe. Françoá Costa
Canção Nova: Homilia

5º Domingo do Tempo Comum - O maior milagre de Cristo

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo Marcos
(Mc
 1, 29-39)

No Evangelho deste Domingo, Nosso Senhor vai à casa de Simão e André, cura a sogra de São Pedro de uma febre e, à tarde, depois do pôr do sol, cura muitas pessoas de diversas doenças e expulsa muitos demônios. Tratam-se de alguns dos inúmeros milagres operados por Jesus.

Todos esses fatos relatados nos Evangelhos realmente aconteceram. Hoje, infeliz e desgraçadamente, certas teologias racionalistas tendem a reputar os milagres de Cristo como "mitos". O protestante Rudolf Bultmann, por exemplo, falava da "demitologização" do Evangelho: a modernidade, tão acostumada a avanços científicos e tecnológicos, não poderia aceitar a linguagem e o conceito de mundo expressos nas Escrituras. Seria, pois, necessário filtrá-las, para que se adaptassem ao homem contemporâneo.

O fato, porém, é que a incredulidade em relação aos milagres sempre foi uma constante na história da humanidade. O ser humano – algumas gerações mais, outras menos – sempre teve dureza de coração e dificuldade para crer nestas coisas.

Para que, então, Jesus realizava milagres? Santo Tomás de Aquino, em sua Summa contra Gentiles, ensina o seguinte:

"Costuma-se chamar de milagres [miracula] as coisas que às vezes acontecem fora da ordem constante da natureza, pois ficamos admirados de um fato quando, vendo um efeito, desconhecemos a causa, e porque uma mesma causa é às vezes conhecida por uns e desconhecida por outros, acontece que, ao verem o mesmo efeito, uns ficam admirados e outros, não. Por exemplo: o astrônomo não se admira quando vê o eclipse do sol, porque conhece a sua causa, mas quem desconhece astronomia fica admirado, porque desconhece a causa. Assim, o eclipse é para este algo admirável, mas não o é para aquele. Por isso, é admirável aquilo que tem a sua causa simplesmente oculta."

"E é isto que justamente quer dizer o termo milagre: o que por si mesmo é capaz de causar admiração a todos. Ora, a causa simplesmente oculta para todos os homens é Deus, pois, como acima foi provado, nenhum homem, no estado da vida presente, pode aprendê-lo pelo intelecto. Por isso devem ser ditos propriamente milagres os fatos acontecidos fora da ordem comum que se vê nas coisas [quae divinitus fiunt praeter ordinem communiter observatum in rebus]."

"Há diversos graus e ordens nestes milagres. Com efeito, no supremo grau dos milagres estão aqueles nos quais algo é feito por Deus e que a natureza jamais pode fazer, como por exemplo, estarem dois corpos ocupando o mesmo lugar; o sol retroceder ou parar; o mar dividir-se para possibilitar a passagem dos transeuntes. Nestes milagres, há ainda a se considerar uma ordem. Com efeito, quanto maiores são as coisas operadas por Deus e quanto mais remotas as capacidades da natureza, tanto maior é o milagre, como maior é o milagre de o sol retroceder do que o de dividirem-se as águas. No segundo grau dos milagres estão aqueles nos quais Deus faz algo que a natureza pode fazer, mas não por aquele modo. Assim, é obra natural que um animal viva, veja e ande; mas que, após a morte, viva; após a cegueira, veja, e após o coxear, ande – isto a natureza não pode fazer. Deus, porém, às vezes o faz milagrosamente. Deve-se ainda considerar que há nestes milagres uma graduação na medida em que o que é feito distancia-se da capacidade da natureza. O terceiro grau dos milagres consiste em Deus fazer o que é comumente feito por obra da natureza, sem, no entanto, os princípios da natureza atuarem, como, por exemplo, quando a virtude divina cura alguém de uma febre naturalmente curável, ou quando chove sem interferência das causas naturais da chuva." [1]

Os milagres narrados no Evangelho deste Domingo podem ser identificados, então, de acordo com as observações de Santo Tomás, como de segundo e terceiro graus. De todos os prodígios realizados por Cristo, porém, o maior de todos é fazer que o ser humano – cheio de egoísmo, misérias e pecados – ame com amor sobrenatural. Este é um milagre de "supremo grau" – muito maior que ressuscitar um morto ou curar um paralítico –, pois dá ao homem a vida divina, fazendo-o chegar a uma caridade perfeita, pela qual ele ama mais a Deus que a si mesmo.

Foi o que experimentaram os mártires, quando preferiram entregar a sua vida a perder a graça divina. Se é natural que o ser humano ame a Deus com suas forças naturais – encontrando "as perfeições invisíveis de Deus (...) através de suas obras" [2] –, não é natural, porém, que ele ame ao Senhor acima de si próprio e de todas as coisas, como fizeram, por exemplo, o japonês São Paulo Miki e seus outros 25 companheiros mártires – cuja memória se celebrou no último dia 6 de fevereiro. O relato de seus martírios conta que uma criança, vendo-os serem crucificados e decapitados, se enchia de uma alegria sobrenatural e cantava de alegria por saber que, morrendo, eles podiam ver Jesus.

Então, é admirável que o cego de nascença seja curado em Siloé, mas muito mais admirável é que nós, cegos e incapazes de ver a verdade de Deus, enxerguemos; é admirável que Lázaro seja ressuscitado, depois de quatro dias morto, mas muito maior é que nós, em nosso egoísmo e pecado, sejamos elevados à vida divina; é maravilhoso alimentar com cinco pães uma multidão de cinco mil homens, porém mais maravilhoso ainda é que sejamos alimentados pelo próprio Deus na Eucaristia. Recorrendo ao Evangelho deste Domingo, também é admirável que Nosso Senhor cure os enfermos e expulse os demônios; muito maior, porém – e tão extraordinário quanto "o sol retroceder ou parar" ou "o mar dividir-se para possibilitar a passagem dos transeuntes" –, é que o homem seja elevado acima de sua própria natureza e ame a Deus divinamente.

Cristo opera todos os milagres narrados no Evangelho a fim de despertar o homem para o sobrenatural. Assim, quando multiplica os pães, Ele aponta para a Eucaristia; e, quando ressuscita Lázaro, aponta para a ressurreição espiritual que acontece em todo sacramento do Batismo e da Confissão. Sem negar a existência e a historicidade dos milagres de Nosso Senhor, é possível olhar os seus prodígios e portentos com os olhos dos santos: muito maior que a multiplicação dos pães e que a ressurreição de Lázaro é o milagre extraordinário da vida de Deus no coração do homem.

Por isso, neste Domingo, não percamos de vista a razão pela qual Jesus operava milagres. Ele o fazia não só para tornar credível a Sua pregação, mas também para levar os homens ao amor. De nada adiantam bens e saúde neste mundo, se estivermos mortos espiritualmente, sem poder amar e viver a vida divina.

Referências:

  1. Summa contra Gentiles, III, CI
  2. Rm 1, 20
Padre Paulo Ricardo

A humanidade doente precisa de Jesus Cristo

Iniciemos nossa meditação da Palavra de Deus pela primeira leitura. O livro de Jó, de modo dramático, mostra a vida humana: “Não é acaso uma luta a vida do homem sobre a terra? Seus dias não são como dias de um mercenário? Tive por ganho meses de decepção, e couberam-me noites de sofrimentos. Se me deito, penso: quando poderei levantar-me? E, ao amanhecer, espero novamente a tarde… Meus dias correm mais rápido do que a lançadeira do tear e se consomem sem esperança. Lembra-te de que minha vida é apenas um sopro e meus olhos não voltarão a ver a felicidade”. Eis, caríssimos, não são palavras negativas, desesperadas, essas de Jó. São, antes uma reflexão realista sobre o mistério da vida humana, uma reflexão cheia de esperança, porque feita à luz de Deus. Uma coisa é pensar nas realidades negativas de nossa existência simplesmente contando com nossas forças. Que desespero, que desilusão, que vazio de sentido! Outra, bem diferente, é encarar a vida também com seus trevas, à luz de Deus, o amor eterno e onipotente! Que esperança que não decepciona, que paz que invade o coração, mesmo na dor!

Notem, irmãos: num mundo como o nosso, que cultua o corpo, o físico sarado, a saúde e o vigor físicos e presta tão pouca atenção ao sofrimento, à dor, ao fracasso… Num mundo que tem medo de pensar na morte e de assumir que todos morreremos, num mundo que não sabe o que fazer com o sofrimento, com a doença, com a decadência física, com a deformidade do corpo, estas palavras de Jó, convidam-nos a colocar os pés no chão. Repito: não são palavras pessimistas porque aquele que chora e busca o sentido da existência, fá-lo diante de Deus. Recordem como terminam as palavras da leitura – são comoventes: “Lembra-te de que minha vida é apenas um sopro e meus olhos não voltarão a ver a felicidade”. São uma oração! O triste na vida não é sofrer, não é chorar, não é morrer… Triste e miserável é sofrer e chorar e morrer sem Deus, sem este Parceiro cheio de doce ternura que dá sentido à nossa existência!

Por isso mesmo veio Jesus, nosso senhor! É isto que o Evangelho nos mostra hoje. Cristo nosso Deus, tomando pela mão a sogra de Pedro e erguendo-a do seu leito, revela que vem nos tomar pela mão – a nós, feridos e doentes de tantas doenças, fraquezas e medos! Este é o Evangelho, a Boa notícia: em Jesus, Deus revela o sentido de nossa existência porque se revela como Deus próximo, Deus de compaixão, Deus capaz de dar um sentido às nossas dores e até à nossa morte. Cristo nos toma pela mão, Cristo toma sobre si as nossas dores. Não precisamos fingir que não envelhecemos, que não adoeceremos, que não morreremos… Sabemos que nem a vida nem a morte nos podem afastar do amor de Cristo; sabemos que nele, tudo se enche de novo sentido… Por isso todos o procuram, porque procuram um sentido para a existência!

O grande dom que Cristo nos faz não é milagres nem curas nem solução de problemas. Deixemos essa visão miserável, mesquinha e pagã para os pagãos e os que enganam e ganham dinheiro e poder em nome de Cristo. Nosso modo de ver é outro, é aquele mesmo que o Cristo nos ensinou e do qual ele mesmo nos deu o exemplo pela sua vida e pela sua morte! O Santo Padre Bento XVI, quando ainda era Cardeal Ratzinger, assim escreveu: “Uma visão do mundo que não pode dar um sentido também à dor e não consegue torná-la preciosa, não serve para nada. Tal visão fracassa exatamente ali, onde deveria aparecer a questão mais decisiva da existência. Aqueles que sobre a dor não têm nada mais a dizer a não ser que se deve combatê-la, enganam-se. Certamente, é necessário fazer tudo para aliviar a dor de tantos inocentes e limitar o sofrimento. Mas, uma vida humana sem dor não existe e quem não é capaz de aceitar a dor, foge daquelas purificações que são as únicas a nos tornar maduros. Na comunhão com Cristo, a dor torna-se plena de significado, não somente para mim mesmo, como processo de purificação, no qual Deus tira de mim as escórias que obscurecem a sua imagem, mas também, para além de mim mesmo, é útil para o todo, de modo que, todos nós podemos dizer como São Paulo: ‘Agora eu me alegro nos sofrimentos que suporto por vós, e completo na minha carne o que falta dos padecimentos do Cristo pelo seu corpo que é a Igreja’ (Cl 1,24)… A vida vai além da nossa existência biológica. Onde não há mais motivo pelo qual vale a pena morrer, também não há motivo que faça valer a pena viver.”

Caríssimos, para isso Jesus veio – “foi para isso que eu vim!”, diz o Senhor hoje. Veio para anunciar o Reino e expulsar tudo aquilo que demoniza a nossa existência. E nada nos inferniza mais que viver sem sentido!

Cristãos, não vivamos como os pagãos, que vão sendo levados pela existência, fugindo da realidade e refugiando-se nas ilusões. Quanto excesso de divertimento, de eventos esportivos, de programas turísticos, de sonhos de consumo, de lazer e diversão… Se tudo isso numa justa medida é saudável, com o excesso que hoje se vê, é prejudicial, é sinal de uma humanidade doente, que tem medo de enfrentar as verdadeiras e profundas questões da existência! É que sem uma relação vive e íntima com o Senhor, é impossível enfrentar a nossa dura realidade! É neste sentido que o cristianismo nos apresenta um Evangelho, uma Boa Notícia: porque nos dá o Sentido, que aparece em Cristo Jesus!

Abramo-nos para o Senhor; nele apostemos nossa existência e tornemo-nos para os outros sinais de esperança e de vida, como São Paulo que se sentia devedor do Evangelho a todos. Que seja o Senhor Jesus consolo de nosso pranto, força no nosso caminho, alívio de nossas dores e prêmio de vida eterna. Amém.

Dom Henrique Soares da Costa