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Eu quero, fica curado! (15-02-2015)

Primeira Leitura:
PENTATEUCO: Livro do Levítico (Lv), capítulo 13
(1) O Senhor disse a Moisés e a Aarão: (2) “Quando um homem tiver um tumor, uma inflamação ou uma mancha branca na pele de seu corpo, e esta se tornar em sua pele uma chaga de lepra, ele será levado a Aarão, o sacerdote, ou a um dos seus filhos sacerdotes.
PENTATEUCO: Livro do Levítico (Lv), capítulo 13
(43) O sacerdote o examinará. Se o tumor da chaga for de um branco-avermelhado na parte calva posterior ou dianteira, tendo o aspecto da lepra da pele do corpo, esse homem é leproso, (44) é impuro, a sua lepra está na cabeça. (45) Todo homem atingido pela lepra terá suas vestes rasgadas e a cabeça descoberta. Cobrirá a barba e clamará: Impuro! Impuro! (46) Enquanto durar o seu mal, ele será impuro. É impuro, habitará só, e a sua habitação será fora do acampamento.”

Segunda Leitura:
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Primeira Epístola aos Coríntios (1Cor), capítulo 10
(31) Portanto, quer comais quer bebais ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus. (32) Não vos torneis causa de escândalo, nem para os judeus, nem para os gentios, nem para a Igreja de Deus. (33) Fazei como eu: em todas as circunstâncias procuro agradar a todos. Não busco os meus interesses próprios, mas os interesses dos outros, para que todos sejam salvos.
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Primeira Epístola aos Coríntios (1Cor), capítulo 11
(1) Tornai-vos os meus imitadores, como eu o sou de Cristo.
ASS EVANGELHOS: Evangelho segundo São Marcos (Mc), capítulo 1
(40) Aproximou-se dele um leproso, suplicando-lhe de joelhos: 'Se queres, podes limpar-me.'
(41) Jesus compadeceu-se dele, estendeu a mão, tocou-o e lhe disse: 'Eu quero, sê curado.'
(42) E imediatamente desapareceu dele a lepra e foi purificado.
(43) Jesus o despediu imediatamente com esta severa admoestação:
(44) Vê que não o digas a ninguém, mas vai, mostra-te ao sacerdote e apresenta, pela tua purificação, a oferenda prescrita por Moisés para lhe servir de testemunho.
(45) Este homem, porém, logo que se foi, começou a propagar e divulgar o acontecido, de modo que Jesus não podia entrar publicamente numa cidade. Conservava-se fora, nos lugares despovoados, e de toda parte vinham ter com ele.
Homilia do : Padre Paulo Ricardo
Homilia do Padre Miguel:---
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético
Ver Homilia de Dom Henrique Soares
Canção Nova: Homilia

6º Domingo do Tempo Comum - A penitência por amor a Deus

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo Marcos 
(Mc
 1, 40-45)

O Evangelho deste Domingo conclui o primeiro capítulo da narrativa de São Marcos. Depois deexpulsar um demônio e curar a sogra de São Pedro, Nosso Senhor cura um homem de lepra.

São Beda, o Venerável, comentando essa sequência apresentada pelo Evangelista, escreve que,

"Depois de calada a língua da serpente dos demônios e curada a mulher, que foi seduzida primeiro, em terceiro lugar, foi curado da lepra de seu erro o homem, que escutou os maus conselhos da mulher, a fim de que a ordem de restauração no Senhor fosse como a ordem da queda em nossos primeiros pais" [1].

Este comentário de Beda – alegórico, mas de importante valor espiritual – indica o que Cristo veio fazer em relação a nós, e que Zacarias canta no Benedictus: "salvar-nos do poder dos inimigos" [2]. E, assim como a sogra de Pedro, depois de ser curada, começou a servir ao Senhor e aos Apóstolos, Cristo nos liberta para que "a ele nós sirvamos sem temor em santidade e em justiça diante dele, enquanto perdurarem nossos dias" [3].

É verdade que o leproso do Evangelho tinha muitas razões para não aproximar-se do Senhor. Diante da primeira leitura deste Domingo, tirada do livro do Levítico, segundo a qual "se o homem estiver leproso é impuro" e, "sendo impuro, deve ficar isolado e morar fora do acampamento", a sua atitude de chegar perto de Jesus chega a ser escandalosa. Mas, quando ele diz a Cristo: "Se queres, tens o poder de curar-me (em grego, καθαρίσαι, que significa, literalmente, purificar)", e Nosso Senhor realmente o livra de sua lepra, acontece uma maravilha: ao invés de Ele ser contaminado pela impureza do leproso, é o leproso quem é purificado por Sua santidade.

Por isso, a narrativa deste Domingo incita-nos à confiança em Deus. Nós também, com nossas misérias e pecados, talvez tenhamos milhares de razões para não nos aproximarmos de Cristo; para dizermos, com São Pedro: "Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um pecador!" [4]. A cura do leproso, todavia, mostra que em Cristo há um poder e uma graça capazes de libertar-nos de nossa sujeira. Também na Última Ceia, quando Se reclina para limpar os pés de Seus discípulos, Nosso Senhor já indica o que vai fazer na Cruz: lavar o que temos de mais sujo, que é a nossa alma.

Às portas da Quaresma, tempo propício para a penitência, importa refletir com que espírito os fiéis devem escolher as mortificações que farão neste período. Muitas pessoas acham que as penitências quaresmais são uma coisa mágica, como se bastasse fazer alguns atos de jejum e outros de abstinência para viver uma boa Quaresma. Mas, não adianta simplesmente fazer jejum. Se fome fosse sinal de santidade, a África seria o continente mais santo do mundo. Não é o simples passar fome o que nos purifica, mas o amor. E é isto o que está por trás da virtude da penitência.

Quem olha para o mundo animal nota que os animais podem ser contrariados – quando sua fome, sua sede ou seus instintos não podem ser satisfeitos. Eles não podem, porém, contrariar-se. Só o ser humano é capaz de fazê-lo e é por isso que ele pode amar. O amor é a capacidade de contrariar as próprias vontades e caprichos para amar o outro – no caso, Deus. Nesta Quaresma, urge que façamos penitência com espírito de compunção, isto é, tomando consciência da tremenda ingratidão a Deus que está em todo pecado. A Deus, que tanto nos amou, até a morte de Cruz.

A penitência, pois, está relacionada ao amor. Não se trata de um complexo de culpa. Este nasce do orgulho. A pessoa começa a se perguntar: Nossa, como "eu", o maravilhoso "eu", foi capaz de fazer isso? Ela está mais preocupada com a sua imagem, que foi ferida, que com o coração de Deus, ferido pela sua ingratidão. A verdadeira penitência, ao contrário, é aquela que nasce do arrependimento. No Missal Romano, existe uma oração – antigamente chamada pro petitione lacrymarum – que pede a Deus a compunção do coração (compuntionem cordis): "Omnípotens et mitíssime Deus, qui sitienti pópulo fontem viventis aquæ de petra produxísti: educ de cordis nostri durítia lácrimas compunctiónis; ut peccata nostra plángere valeámus, remissionémque eorum, te miseránte, mereámur accípere." [5]

Nesta bela súplica, a pedra do deserto, da qual Deus tirou uma fonte de água viva para o povo de Israel, é comparada à dureza do nosso coração, da qual devem sair, agora, lágrimas de compunção. Estas, então, alcançam de Deus a remissão dos nossos pecados.

É claro que Jesus perdoa os nossos pecados gratuitamente. Mesmo assim, existe uma ligação entre os nossos atos de contrição e o perdão do Senhor. Quando, por exemplo, aquela mulher pecadora lava os pés de Cristo com suas lágrimas, Ele diz: "Os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados, pois ela mostrou muito amor" [6]. Na verdade, para esta mulher, Jesus não era um desconhecido. Ela certamente já havia entrado em contato com Ele, já tinha recebido o Seu perdão. Quem sabe não foi ela a mesma mulher pêga em adultério, a qual os escribas e fariseus queriam apedrejar [7]? Quando percebe, então, o grande amor de Jesus para consigo, ela corresponde com amor.

Eis, pois, o espírito da Quaresma. Em gratidão a Deus, respondamos com amor ao grande amor com que fomos amados.

Referências:

  1. Cf. Sanctus Thomas Aquinas, Catena Aurea in Marcum, 1, 13
  2. Lc 1, 71
  3. Lc 1, 74-75
  4. Lc 5, 8
  5. Missale Romanum, Missae et orationes pro variis necessitatibus vel ad diversa, 38, Pro remissione peccatorum, B, Aliae orationes, Collecta. "Deus todo-poderoso e misericordiosíssimo, que ao povo sequioso fizestes surgir da pedra uma fonte de água viva, tirai da dureza de nossos corações lágrimas de compunção, para que possamos chorar os nossos pecados e mereçamos receber, suplicantes, a sua remissão." (tradução nossa)
  6. Lc 7, 47
  7. Cf. Jo 8, 1-11
Padre Paulo Ricardo

Eu quero, fica curado!

Para nos guiar na meditação da Palavra de Deus deste hoje, tomemos o Evangelho que acabamos de ouvir. “Um leproso chegou perto de Jesus”. No tempo de Cristo, toda doença na pele que oferecesse perigo de contágio era considerada um tipo de lepra; tornava a pessoa impura. Ouvimos na primeira leitura: “O homem atingido por esse mal andará com as vestes rasgadas, os cabelos em desordem e a barba coberta, gritando: ‘Impuro! Impuro!’ Durante todo o tempo em que estiver leproso será impuro; e, sendo impuro, deve ficar isolado e morar fora do acampamento”. Eis! É alguém assim que se aproxima de Jesus: ferido, excluído do convívio da Assembléia de Israel, colocado fora da Cidade, um morto-vivo… Um leproso não podia tocar as pessoas: elas se tornariam impuras como ele; um leproso não convivia com sua família, não podia entrar na Casa do Senhor para rezar com seus irmãos: era um ninguém: “Impuro! Impuro!” – ele gritava, com a barba coberta em sinal de luto e profunda tristeza…

É um homem assim que se aproxima de Jesus; tem a ousadia de chegar junto dele, sem medo de ser repelido, repreendido, desprezado. E, do fundo de sua miséria, ele suplica: “Se queres, tens o poder de curar-me”. Quanta confiança, quanta esperança! Que oração brotada do mais profundo da dor! O que fará Jesus? Sua reação é absolutamente inesperada: ele faz algo que a Lei proibia: “Jesus, cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou nele, e disse: ‘Eu quero: fica curado!’” Notai, irmãos! O Senhor estendeu a mão, o Senhor tocou o leproso! Não precisava fazê-lo, não deveria fazê-lo! Segundo a Lei, Jesus deveria ficar impuro também, ao menos até o entardecer… Por que tocou o leproso? Não poderia tê-lo curado sem tocá-lo? O próprio Evangelho explica: ele teve compaixão! Quis estar próximo daquele miserável, quis que ele se sentisse amado, acolhido! Jesus não nos ama de longe, não vê de modo indiferente a nossa miséria: ele se faz próximo, ele nos toca, ele compartilha nossa dor! Assim Deus faz conosco! E, para nossa surpresa, ao invés da impureza contagiar Jesus, é Jesus que contagia o leproso com a sua pureza! Eis! O Reino chegou: em Jesus, Deus vai libertando a humanidade de toda sua lepra, da lepra do seu pecado! Na ação de Jesus, compreendemos que o amor é mais forte que o egoísmo, que a luz é mais forte que a treva, que o bem é mais forte que o mal, que a graça é mais poderosa que o pecado, que a vida é capaz de vencer a morte! “No mesmo instante a lepra desapareceu e ele ficou curado”.Eis o bem, eis a graça, eis a salvação que o Senhor nos veio trazer! O Profeta Isaías, havia anunciado: “Ele tomou sobre si as nossas dores, ele carregou-se com os nossos pecados! Era nossas enfermidades que ele levava sobre si, as nossas dores que ele carregava (Is 53,4-5). Jesus curou o leproso e o Evangelho diz que ele“não podia mais entrar publicamente numa cidade: ficava fora, em lugares desertos.” Vede bem que, com essa linguagem, o Evangelho deseja afirmar que Cristo, curando o leproso, assumiu o seu lugar: agora, o homem que antes vivia nos lugares desertos, entra na cidade, volta a ser alguém; quanto a Jesus, fica fora, assume o lugar do homem: tomou sobre si as nossas dores!

Caríssimos, um grande mal da nossa época, uma grande ilusão, é achar que não temos pecado, pensar que somos maduros e integrados. Não somos capazes de reconhecer nossas lepras, somos incapazes de suplicar, de joelhos: “Senhor, se queres, podes curar-me!” E por que isso? Porque somos auto-suficientes: olhamo-nos, examinamo-nos não à luz do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, mas à luz de nós mesmos. Pensamos que somos senhores do bem e do mal, do certo e do errado! É tão comum vivermos de modo contrário à vontade do Senhor e ainda, cheios de orgulho e soberba, dizermos que estamos certos… É tão comum querermos moldar Jesus e a sua Palavra à nossa vontade… É tão freqüente a ilusão que podemos jogar na lata do lixo o ensinamento da Igreja, sobretudo no campo moral… E assim, vamos construindo nossa vidinha do nosso modo, modo de pecado, modo de lepra, modo de doença: doença da ida, da descrença, da indiferença, da falta de fé!

Reconheçamo-nos pecadores, meus caros! Mostremos ao Senhor a nossa lepra? Como fazê-lo? Primeiramente, deixando que sua Palavra nos fale e nos mostre nossos erros, nossas manhas, nossos males. Depois, à luz da Palavra do Senhor, façamos, com freqüência, o sincero exame de consciência e tenhamos a coragem de olhar de frente o que pensamos, falamos e fazemos contrário ao Senhor. Finalmente, sinceramente arrependidos, procuremos o Senhor no sacramento da Confissão e, confessando nossos pecados, busquemos o perdão, a cura do Cristo, nosso Deus. Quantas vezes evitamos a Confissão! Quantas vezes fugimos na tal da Confissão comunitária, desobedecendo às normas da Igreja, que só a permitem em casos raros e graves. A Confissão, então é inválida e acrescentamos aos pecados cometidos, mais estes: a desobediência à norma de Igreja e a soberba de nos julgar auto-suficientes. Deveríamos aprender do Salmista, na missa de hoje: “Eu confessei, afinal, meu pecado, e minha falta vos fiz conhecer. Disse: ‘Eu irei confessar meu pecado!’ E perdoastes, Senhor, minha falta!” Mas, não! Teimamos em não levar a sério nosso próprio pecado! Julgamo-nos juízes de Deus e da Igreja! Terminamos, então por comungar indignamente, esquecendo que a Eucaristia, se traz vida para quem a recebe bem, traz também morte para quem não a recebe com as devidas disposições…

Caros meus em Cristo, chega de um cristianismo morno, chega da falta de coragem de nos olharmos de frente! Senhor, cura-nos! Senhor, somos leprosos, somos pecadores, nossos pecados mancham não a nossa pele, mas o nosso coração, o mais profundo da nossa alma! Senhor, de joelhos, como o leproso do Evangelho, te suplicamos: cura-nos e seremos curados! Dá-nos a graça de reconhecer nossos pecados; reconhecendo-os, dá-nos a coragem e sinceridade de confessá-los; confessando-os, dá-nos a graça de experimentar teu perdão, de cumprir generosamente a penitência e de procurar com responsabilidade emendar a nossa vida! Tem piedade de nós, ó Autor da graça e Doador do perdão! A ti a glória para sempre! Amém.

Dom Henrique Soares da Costa