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O tempo da Quaresma (22-02-2015)

Primeira Leitura:
PENTATEUCO: Livro do Gênesis (Gn), capítulo 9
(8) Disse também Deus a Noé e as seus filhos: (9) “Vou fazer uma aliança convosco e com vossa posteridade, (10) assim como com todos os seres vivos que estão convosco: as aves, os animais domésticos, todos os animais selvagens que estão convosco, desde todos aqueles que saíram da arca até todo animal da terra. (11) Faço esta aliança convosco: nenhuma criatura será destruída pelas águas do dilúvio, e não haverá mais dilúvio para devastar a terra.” (12) Deus disse: “Eis o sinal da aliança que eu faço convosco e com todos os seres vivos que vos cercam, por todas as gerações futuras: (13) Ponho o meu arco nas nuvens, para que ele seja o sinal da aliança entre mim e a terra. (14) Quando eu tiver coberto o céu de nuvens por cima da terra, o meu arco aparecerá nas nuvens, (15) e me lembrarei da aliança que fiz convosco e com todo ser vivo de toda espécie, e as águas não causarão mais dilúvio que extermine toda criatura.

Segunda Leitura:
EPISTOLAS CATÓLICAS: Primeira Epístola de São Pedro (1Pd), capítulo 3
(18) Pois também Cristo morreu uma vez pelos nossos pecados - o Justo pelos injustos - para nos conduzir a Deus. Padeceu a morte em sua carne, mas foi vivificado quanto ao espírito. (19) É neste mesmo espírito que ele foi pregar aos espíritos que eram detidos no cárcere, àqueles que outrora, nos dias de Noé, tinham sido rebeldes, (20) quando Deus aguardava com paciência, enquanto se edificava a arca, na qual poucas pessoas, isto é, apenas oito se salvaram através da água. (21) Esta água prefigurava o batismo de agora, que vos salva também a vós, não pela purificação das impurezas do corpo, mas pela que consiste em pedir a Deus uma consciência boa, pela ressurreição de Jesus Cristo. (22) Esse Jesus Cristo, tendo subido ao céu, está assentado à direita de Deus, depois de ter recebido a submissão dos anjos, dos principados e das potestades.
ASS EVANGELHOS: Evangelho segundo São Marcos (Mc), capítulo 1
(12) E logo o Espírito o impeliu para o deserto.
(13) Aí esteve quarenta dias. Foi tentado pelo demônio e esteve em companhia dos animais selvagens. E os anjos o serviam.
(14) Depois que João foi preso, Jesus dirigiu-se para a Galiléia. Pregava o Evangelho de Deus, e dizia:
(15) Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo, fazei penitência e crede no Evangelho.
Homilia do : Padre Paulo Ricardo
Homilia do Padre Miguel:---
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético
Ver Comentário Exegético
Ver Homilia de Dom Henrique Soares
Ver Homilia de Mons. José Maria
Ver Homilia do Pe. Françoá Costa
Canção Nova: Homilia

1º Domingo da Quaresma - Contrariar-se por amor ao Outro

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo Marcos
(Mc 
1, 12-15)

No Evangelho deste Domingo, assim como em todo 1º Domingo da Quaresma, Nosso Senhor vai para o deserto. À imitação de Cristo – e do povo de Israel, que, para entrar na Terra Prometida, permaneceu quarenta anos no deserto –, também nós precisamos passar por esta realidade, a fim de entrarmos no Amor.

A grande passagem de Cristo, porém, mais que o deserto, foram a Sua morte e ressurreição, que constituem o cume de Seu grande amor por nós. Na verdade, todo amor comporta uma certamorte. Diferentemente dos animais que, não tendo liberdade e agindo por mero instinto, são incapazes de se contrariar – e, por conseguinte, não podem amar –, o ser humano, mesmo com fome e tendo diante de si uma comida saborosa, é capaz de renunciar a isso por amor a alguém. As mães mesmo fazem atos desse tipo o tempo todo, por causa de seus filhos. O amor, pois, consiste justamente nisto: em contrariar-se, dizer "não" às próprias vontades, caprichos e veleidades, por causa do outro.

Infelizmente, esta realidade humana do amor foi degradada com a queda de nossos primeiros pais. A partir do pecado original, o ser humano foi colocado de cabeça para baixo. Deixando que os seus instintos animais o governassem e procurando a felicidade nos endereços errados, ele foi, de alguma forma, degradando a sua capacidade de amar.

Nesta Quaresma, o Senhor – que, por meio de Seu Filho, não só restaurou a humanidade, mas deu-lhe poder viver a caridade sobrenatural, isto é, o amor em Deuspor causa d'Ele – refaz a nós o convite do amor. É este, pois, o sentido dos jejuns, penitências e orações tão pedidos pela Igreja neste tempo. Não adianta simplesmente jejuar, se a isso não estiver unida a virtude da caridade. Passar fome, por si só, não santifica ninguém. Se assim fosse, a África seria o continente mais santo do mundo. O que santifica o homem é o amor, é o contrariar sábia e prudentemente os próprios instintos por causa de um Outro, que é Deus.

No mundo animal, distinguem-se dois instintos (ou apetites): o primeiro é a concupiscência (ouapetite concupiscível), pela qual as criaturas buscam o prazer e a gratificação; e o segundo, a ira(ou apetite irascível), pela qual elas reagem quando são contrariadas. O homem, sendo um animal, também possui esses apetites; sendo, porém, racional, e contando com a graça divina, é chamado a governar os seus instintos e conduzi-los a Deus – assim como um cavaleiro precisa domar um cavalo chucro para levá-lo aonde quer. Para tanto, a alma, explica Santo Tomás de Aquino, deve agir "politicamente" [1]: não deve castrar as energias do corpo, mas dominá-las aos poucos, de forma sábia e com cuidado. Afinal, não somos anjos. Se Deus nos criou com um corpo, este pode – e deve – ser-nos útil.

De forma bem prática, é importante lutar contra duas tentações básicas, mormente as contra acastidade e as contra a paciência, já que estão diretamente ligadas aos apetites concupiscível e irascível. Primeiro, viver a castidade, lutando contra o sexo desordenado e dando a vida pelos outros, seja no matrimônio, seja no celibato; segundo, exercitar a paciência, suportando as contrariedades do dia a dia e também contrariando a nós mesmos, voluntariamente, por amor de Deus. De fato, dentro de nós existe como que um "pequeno deus", que diz: Seja feita a minha vontade. Quando as coisas não acontecem do jeito que queremos, somos tentados a ficar emburrados e com raiva, como crianças mal educadas. A nossa atitude, porém, deve ser madura e virtuosa: quando surgem as contrariedades, que bela oportunidade temos de amar a Deus!

Quanto às penitências específicas a escolher, não há uma medida única para todas as pessoas. Cada pessoa deve discernir – talvez junto com o seu diretor espiritual – a prática adequada para si. O que importa é que todas as coisas sejam feitas com generosidade. Diz Nosso Senhor que "o Reino dos Céus é arrebatado à força e são os violentos que o conquistam" [2]. O Reino dos Céus é das pessoas que tomam a vida espiritual de assalto e se decidem seriamente a amar, com determinação.

Nesta Quaresma, dirijamo-nos com Jesus ao deserto e, na prática do jejum, da oração e da esmola, cresçamos cada vez mais na caridade.

Referências:

  1. Cf. Summa Theologiae, I, q. 81, a. 3, ad 2
  2. Mt 11, 12

 

Padre Paulo Ricardo

O tempo da Quaresma

Chegaram, para nós, os sagrados dias da Quaresma: dias de oração, penitência, esmola, combate aos vícios e leitura espiritual. Esses dias tão intensos nos preparam para as alegrias da Santa Páscoa do Senhor. Estejamos atentos, pois não celebrará bem a Páscoa da Ressurreição quem não combater bem nos dias roxos da Quaresma.

A Palavra que o Senhor nos dirige já neste Primeiro Domingo é uma séria advertência neste sentido. A leitura do Gênesis nos mostrou como Deus é cheio de boas intenções e bons sentimentos em relação a nós: depois de haver lavado todo pecado da terra pelo dilúvio, misericordiosamente, o Senhor nosso Deus fez aliança com toda a humanidade e com todas as criaturas: “Eis que vou estabelecer minha aliança convosco e com todos os seres vivos! Nunca mais criatura alguma será exterminada pelas águas do dilúvio.” E, de modo poético, comovente, o Senhor colocou no céu o seu arco, o arco-íris, como sinal de paz, de ponte que liga a criatura ao Criador: “Ponho meu arco nas nuvens, como sinal de aliança entre mim e a terra!” Com esta imagem tão sugestiva, a Escritura Sagrada nos diz que os pensamentos do Senhor em relação a nós são de paz e salvação. Podemos rezar como o Salmista: “Mostrai-me, ó Senhor, vossos caminhos; sois o Deus da minha salvação! Recordai, Senhor, meu Deus, vossa ternura e a vossa salvação, que são eternas! O Senhor é piedade e retidão, e reconduz ao bom caminho os pecadores!”

Ora, caríssimos, se já a aliança após o dilúvio revelava a benignidade do coração de Deus, é em Cristo que tal bondade, tal misericórdia, tal compaixão se nos revelam totalmente: “Cristo morreu, uma vez por todas, por causa dos pecados, o justo pelos injustos, a fim de nos conduzir a Deus!” Não é este Mistério tão grande que vamos celebrar na Santa Páscoa? Nosso Senhor, morto na sua natureza humana, isto é, morto na carne, foi justificado, ressuscitado pelo Pai no Espírito Santo para nos dar a salvação definitiva, selando conosco a aliança eterna, da qual aquela de Noé era apenas uma prefiguração. Deus nos salvou em Cristo, dando-nos o seu Espírito Santo, recebido por nós nas águas do Batismo, que purificam mais que aquelas outras, do dilúvio! Nunca esqueçamos: fomos lavados, purificados, gerados de novo, no santo Batismo. Somos membros do povo da aliança nova e eterna, somos uma humanidade nova, nascida “não da vontade do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1,12). Somos o povo santo de Deus, povo resgatado pelo sangue de Cristo, povo que vive no Espírito Santo que o Ressuscitado derramou sobre nós. Uma grande miséria dos cristãos destes tempos nossos é terem perdido a consciência que somos um povo sagrado, vivendo entre os outros povos do mundo. Brasileiros, argentinos, mexicanos, estadunidenses, europeus, asiáticos, africanos… não importa: aqueles que crêem em Cristo e nele foram batizados, são a sua Igreja, são o povo santo de Deus, congregado no Corpo do Senhor Jesus, para formar um só templo santo no Espírito de Cristo! Somos um povo que vive entre os pagãos, um povo que vive espalhado por toda a terra, Igreja dispersa pelo mundo inteiro, que deve viver no mundo sem ser do mundo! A miséria nossa é querermos ser como todo mundo, viver como todo mundo, pensar e agir como todo mundo. Isso é trair a nossa vocação de povo sagrado, povo sacerdotal, povo que deve, com a vida e a boca cantar as maravilhas daquele que nos chamou das trevas para a sua luz admirável! (cf. 2Pd 2,9) Convertamo-nos! Sejamos dignos da nossa vocação!

Eis o tempo da Quaresma! Somos convidados nestes dias a retomar a consciência de ser este povo santo. E como fazê-lo? Como Jesus, o Santo de Deus, que passou quarenta dias no deserto em combate espiritual, sendo tentado por Satanás. A Quaresma é um tempo de deserto, de provação, de combate espiritual contra Satanás, o Pai da mentira, o enganador da humanidade. Sem combate não há vitória e não há vida cristã de verdade! A Igreja, dá-nos as armas para o combate: a oração, a penitência e a esmola. A Igreja nos pede neste tempo, que combatamos nossos vícios com mais atenção e empenho; a Igreja nos recomenda a leitura da Sagrada Escritura e de livros edificantes, que unjam o nosso coração. Deixemos a preguiça, cuidemos do combate espiritual! Que cada um programe o que fazer a mais de oração. Há tantas possibilidades: rezar um salmo todos os dias, rezar todo o saltério ao longo da Quaresma, rezar a via-sacra às quartas e sextas-feiras. Quanto à penitência, não enganemos o Senhor! Que cada um tire generosamente algo da comida durante todos os dias da Quaresma (exceto aos domingos); que se abstenha da carne às sextas-feiras, como sempre pediu a tradição ascética da Igreja, que tire também algo das conversas inúteis, dos pensamentos levianos, dos programas de TV tão nocivos à saúde da alma! E a esmola, isto é, a caridade fraterna? Há tanto que se pode fazer: acolher melhor quem bate à nossa porta, aproximar-nos de quem necessita de nossa ajuda, reconciliarmo-nos com aqueles de quem nos afastamos, visitar os doentes e presos… No Brasil, a Igreja procura também dá um tema e uma direção comunitária à caridade fraterna, com a Campanha da Fraternidade. Assim, os Bispos pedem que, neste ano, nossa caridade comunitária esteja atenta ao problema da segurança pública e sua causas. Que nós estejamos mais atentos aos problemas ligados à segurança, recordando sempre que a paz verdadeira e duradoura é fruto da justiça: justiça como obediência ao Senhor Deus e justiça como reto comportamento em relação ao próximo, que significa respeito pela dignidade do outro, espírito de partilha e de solidariedade que socorre nas necessidades. Quanto ao combate dos vícios, que cada um veja um vício dominante e cuida de combatê-lo com afinco nesses dias! Escolha também uma leitura espiritual para o tempo quaresmal, leitura que alimente a mente e o coração. Esta leitura, mais que um estudo, deve ser uma oração, um refrigério para o coração, uma leitura edificante, que nos faça tomar mais gosto pelas coisas de Deus… Vamos! Deixemos a preguiça, combatamos o combate da nossa salvação! Finalmente, que ninguém esqueça a confissão sacramental, para celebrar dignamente a Páscoa sagrada. Se alguém não puder se confessar por se encontrar em situação irregular perante Cristo e a Igreja, que não se sinta excluído! Procure o sacerdote para uma direção espiritual, uma revisão de vida e peça uma bênção, que, certamente, não lhe será negada. Não é a confissão, não permite o acesso à comunhão sacramental, mas é também um modo medicinal de aliviar o coração e ajudar no caminho do Senhor!

O importante, caríssimos, em Cristo, é que ninguém fique indiferente a mais essa oportunidade que a misericórdia do Senhor nos concede! Notem que somente depois do combate no deserto é que Jesus nosso Senhor saiu para anunciar a Boa Nova do Reino. Também cada um de nós e a Igreja como um todo, somente poderá testemunhar o Reino que Cristo nos trouxe se tiver a coragem de enfrentar o deserto interior e combater o combate da fé! Não recebamos em vão a graça de Deus! Que ele, na sua imensa misericórdia, nos conceda uma santa Quaresma! Amém.

Dom Henrique Soares da Costa