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O Pastor Perfeito (26-04-2015)

Primeira Leitura:
ATOS: Atos dos Apóstolos (At), capítulo 4
(8) Então Pedro, cheio do Espírito Santo, respondeu-lhes: Chefes do povo e anciãos, ouvi-me: (9) se hoje somos interrogados a respeito do benefício feito a um enfermo, e em que nome foi ele curado, (10) ficai sabendo todos vós e todo o povo de Israel: foi em nome de Jesus Cristo Nazareno, que vós crucificastes, mas que Deus ressuscitou dos mortos. Por ele é que esse homem se acha são, em pé, diante de vós. (11) Esse Jesus, pedra que foi desprezada por vós, edificadores, tornou-se a pedra angular. (12) Em nenhum outro há salvação, porque debaixo do céu nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual devamos ser salvos.

Segunda Leitura:
EPISTOLAS CATÓLICAS: Primeira Epístola de São João (1Jo), capítulo 3
(1) Considerai com que amor nos amou o Pai, para que sejamos chamados filhos de Deus. E nós o somos de fato. Por isso, o mundo não nos conhece, porque não o conheceu. (2) Caríssimos, desde agora somos filhos de Deus, mas não se manifestou ainda o que havemos de ser. Sabemos que, quando isto se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porquanto o veremos como ele é.
ASS EVANGELHOS: Evangelho segundo São João (Jo), capítulo 10
(11) Eu sou o bom pastor. O bom pastor expõe a sua vida pelas ovelhas.
(12) O mercenário, porém, que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, quando vê que o lobo vem vindo, abandona as ovelhas e foge, o lobo rouba e dispersa as ovelhas.
(13) O mercenário, porém, foge, porque é mercenário e não se importa com as ovelhas.
(14) Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem a mim,
(15) como meu Pai me conhece e eu conheço o Pai. Dou a minha vida pelas minhas ovelhas.
(16) Tenho ainda outras ovelhas que não são deste aprisco. Preciso conduzi-las também, e ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só pastor.
(17) O Pai me ama, porque dou a minha vida para a retomar.
(18) Ninguém a tira de mim, mas eu a dou de mim mesmo e tenho o poder de a dar, como tenho o poder de a reassumir. Tal é a ordem que recebi de meu Pai.
Homilia do : Padre Paulo Ricardo
Homilia do Padre Miguel:---
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético
Ver Homilia de Dom Henrique Soares
Ver Homilia de Mons. José Maria
Ver Homilia do Pe. Françoá Costa
Canção Nova: Homilia

Domingo do Bom Pastor - O êxodo, experiência fundamental da vocação

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo João 
(Jo10, 11-18)

Em sua mensagem para o 52º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, celebrado neste Domingo do Bom Pastor, o Papa Francisco fala do êxodo como experiência fundamental da vocação cristã. De fato, a própria palavra "apóstolo" (do grego: ἀπόστολος) carrega este significado: saindo da própria comodidade e de seus projetos pessoais, o discípulo de Cristo é enviado para longe, ao encontro da missão designada por Deus.

Mas o que este tema tem a ver com a liturgia deste Domingo? Ora, o "bom pastor" de que fala o Evangelho é também o pastor retratado pelo Evangelho de São Lucas (15, 1-7), que, perdendo uma de suas ovelhas, "deixa as noventa e nove no deserto e vai atrás daquela que se perdeu, até encontrá-la". A chave de leitura desta passagem é o próprio Jesus, que sai do Céu para resgatar as Suas ovelhas do vale da sombra da morte (cf. Sl 22, 4). Ao contrário do mercenário, que, vendo o lobo chegar, "abandona as ovelhas e foge", e o lobo, então, "as ataca e dispersa", o bom pastor permanece com suas ovelhas e se expõe, ele mesmo, aos ataques do lobo, disposto que está a entregar a própria vida.

Antes, porém, de dar a sua vida, o bom pastor precisa sair de sua comodidade. O Papa Francisco cita, em sua mensagem, um trecho da encíclica Deus Caritas Est, do Papa Bento XVI, dizendo que a vocação cristã provoca um "êxodo permanente do eu fechado em si mesmo para a sua libertação no dom de si e, precisamente dessa forma, para o reencontro de si mesmo, mais ainda para a descoberta de Deus" [1].

Êxodo permanente do eu fechado em si mesmo. Na época de Cristo, era uma característica básica dos pastores que eles fossem nômades itinerantes, à procura de pastagens para o seu rebanho. Se ficasse parado em um só lugar, suas ovelhas morreriam de fome. Ele estava, pois, em "êxodo permanente". No caso das vocações, é preciso que elas realizem essa saída "do eu fechado em si mesmo". Neste dia especial de oração, é preciso pedir a Deus jovens que se inquietem consigo mesmos, que não fiquem ensimesmados em suas vaidades, mas queiram viver o sacerdócio em santidade, como viveram os grandes sacerdotes da história da Igreja. Jovens que saiam de seus planos egoístas de autorrealização e estejam dispostos a fazer a vontade do Outro, que é Deus. Que descubram, assim como o teólogo Hans Urs von Balthasar descobriu, que eles não têm nada para escolher; antes, eles já foram escolhidos [2].

Para a sua libertação no dom de si. Se o povo de Israel saiu do Egito para a Terra Prometida, o coração do vocacionado é chamado a sair "do eu fechado em si mesmo para a sua libertação no dom de si". Essas são as duas terras, no meio das quais há um deserto, uma peregrinação necessária. Sem ela, não é possível ser feliz, já que a felicidade consiste justamente em que a pessoa cumpra em sua vida a vontade de Deus a seu respeito. Só assim se dá, nas palavras de Bento XVI, o reencontro de si mesmo. Paradoxalmente, é justamente quando o homem sai à procura de Deus que ele se encontra consigo próprio, enquanto o pecado, fechando o ser humano em seu egoísmo, leva-o para bem longe de si.

Em última instância, o êxodo da vocação é feito para a descoberta de Deus, para que se entre em comunhão com Ele. Volta-se, então, à ideia do Evangelho deste Domingo. "Eu sou o bom pastor", diz Jesus. "Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem. (...) Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil: também a elas devo conduzir; elas escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor". No redil de Cristo, há um só Pastor, que é Ele mesmo. No fundo, todos os outros pastores são ovelhas, que também precisam ouvir a voz do Pastor para, assim, se tornarem imagens d'Ele.

Em sua analogia, Nosso Senhor também dá a conhecer um novo conceito de sacerdócio. O pastor que "dá a vida por suas ovelhas" é, ao mesmo tempo, sacerdote e vítima: não é simplesmente o sujeito que recebe o poder apostólico, mas também aquele que se entrega. Por isso, é triste que muitos padres e seminaristas queiram inventar um novo modelo de sacerdócio, adaptando-se a uma vida cômoda, querendo estar sempre "na moda" e reduzindo o seu serviço a uma rotina empresarial. Um clérigo assim pode até ser sucessor dos Apóstolos; sua vida, porém, não reflete o "êxodo permanente" que eles viveram, deixando tudo – suas redes, famílias e projetos – para ir aonde não queriam ir (cf. Jo 21, 18) e dar a vida pelo rebanho do Senhor.

"Ninguém tira a minha vida, eu a dou por mim mesmo; tenho poder de entregá-la e tenho poder de recebê-la novamente; essa é a ordem que recebi de meu Pai", diz o Senhor. Sejamos também nós capazes de dar a vida, de sair espontânea, livre e amorosamente ao encontro do Pai, dispostos a ser pisados como o trigo que cai na terra e dá muito fruto (cf. Jo 12, 24-26).

Referência:

  1. Papa Bento XVI, Carta Encíclica Deus Caritas Est (25 de Dezembro de 2005), n. 6.
  2. Cf. Hans Urs von Balthasar, Porquoi je me suis fait prêtre. Témoignages recueillis par Jorge et Ramón Sans Vila (Tournai, 1961), 21: "Mesmo agora, trinta anos depois, ainda poderia ir àquele via longínqua na Floresta Negra, não muito longe da Basileia, e encontrar novamente a árvore debaixo da qual fui atingido como que por um raio... E, então, não era nem a teologia nem o sacerdócio o que vinha, em um flash, à minha mente. Era simplesmente isto: você não tem nada a escolher, você foi chamado. Você não vai servir, você vai ser levado ao serviço. Você não tem planos a fazer, você é apenas uma pedrinha em um mosaico que já está pronto há muito tempo. Tudo o que eu precisava fazer era 'deixar tudo e segui-Lo', sem fazer planos, sem desejos ou insights. Tudo o que eu precisava era permanecer ali, esperar e ver para o que eu seria precisado."

 

Padre Paulo Ricardo

O Pastor Perfeito

Este Quarto Domingo da Páscoa é conhecido como Domingo do Bom Pastor, pois nele se lê sempre um trecho do capítulo 10 de São João, onde Jesus se revela como o Bom Pastor. Mas, o que isso tem a ver com o tempo litúrgico que ora estamos vivendo? A resposta, curta e graciosa, encontra-se na antífona de comunhão que o Missal Romano traz: “Ressuscitou o Bom Pastor, que deu a vida pelas ovelhas e quis morrer pelo rebanho!” Aqui está tudo!

“Eu sou o bom pastor” – disse Jesus. O adjetivo grego usado para “bom” significa mais que bom: é belo, perfeito, pleno, bom. Jesus é, portanto, o pastor por excelência, aquele pastor que o próprio Deus sempre foi. Pela boca de Ezequiel profeta, Deus tinha prometido que ele próprio apascentaria o seu rebanho: “Eu mesmo cuidarei do meu rebanho e o procurarei. Eu mesmo apascentarei o meu rebanho, eu mesmo lhe darei repouso” (34,11.15). Pois bem: Jesus apresenta-se como o próprio Deus pastor do seu povo!

Mas, por que ele é o Belo, o Perfeito, o Pleno Pastor? Escutemo-lo, caríssimos: O bom pastor dá a vida por suas ovelhas. É por isso que o Pai me ama: porque dou a minha vida, para depois recebê-la novamente. Ninguém tira a minha vida; eu a dou por mim mesmo! Tenho o poder de entregá-la e o poder de retomá-la novamente; esse é o preceito que recebi do meu Pai”. Amados irmãos, são palavras de intensidade inexaurível, essas! Jesus é o pastor perfeito porque é capaz de dar a vida pelas ovelhas: ele as conhece, ou seja, é íntimo delas, as ama, e está disposto a dar-se totalmente pelo rebanho, por nós! E, mesmo na dor, faz isso livremente, em obediência amorosa à vontade do Pai por nós! Por amor, morre pelo rebanho; por amor ressuscita para nos ressuscitar! Nós jamais poderemos compreender totalmente este mistério! Jesus diz que conhece suas ovelhas como o Pai o conhece e ele conhece o Pai! É impossível penetrar em tão grande mistério! Conhecer, na Bíblia, quer dizer, ter uma intimidade profunda, uma total comunhão de vida. A comunhão de vida entre o Pai e o Filho é total, é plena. Pois bem, Jesus diz que essa mesma comunhão ele tem com suas ovelhas. E é verdade! No batismo, deu-nos o seu Espírito Santo, que é sua própria vida de ressurreição; na eucaristia, dá-se totalmente a nós, morto e ressuscitado, pleno desse mesmo Espírito, como vida da nossa vida! De tal modo é a união, de tal grandeza é a comunhão, de tal profundidade é a intimidade, que ele está em nós e nós estamos mergulhados, enxertados e incorporados nele! De tal modo, que somos uma só coisa com ele, seja na vida seja na morte! De tal sorte ele nos deu o seu Espírito de Filho, que São João afirma na segunda leitura de hoje: “Somos chamados filhos de Deus. E nós o somos!” Compreendamos, irmãos: somos filhos de verdade, não só figurativamente! Somos filhos porque temos em nós a mesma vida, o mesmo Espírito Santo que agora plenifica o Filho ressuscitado! E São João continua, provocante: “Se o mundo não nos conhece, é porque não conheceu o Pai!” Ou seja: se, para o mundo, nós somos apenas uns tolos, uns nada, se o mundo não consegue compreender essa maravilhosa realidade – que somos filhos de Deus – é porque também não experimentou, não conheceu que Deus é o Pai de Jesus, o Filho eterno, o Bom Pastor, que nos faz filhos como ele é o Filho único, agora tornado primogênito de muitos irmãos! Mas, a Palavra de Deus nos consola e anima: “Quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é!” Este é o destino da humanidade, este é o nosso destino: ser como Jesus ressuscitado, trazer sua imagem bendita, participar eternamente da sua glória! Para isso Deus nos criou desde o princípio! Não chegar a ser como Jesus ressuscitado, não ressuscitar com ele – nesta vida já pelos sacramentos, e na outra, na plenitude da glória – é frustrar-se. E isso vale para todo ser humano, pois “em nenhum outro há salvação, pois não existe debaixo do céu outro nome dado aos homens, pelo qual possamos ser salvos!” Por isso mesmo, Jesus afirma hoje, pensando nos não-cristãos: “Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil. Também a elas devo conduzir; elas escutarão a minha voz e haverá um só rebanho e um só pastor!”

Caríssimos, voltemos o nosso olhar para Aquele que foi entregue por nós e por nós ressuscitou. Olhemos seu lado aberto, suas mãos chagadas. Quanto nos ama, quanto se deu a nós! Agora, escutemo-lo dizer: “”Eu sou o bom pastor! Eu conheço as minhas ovelhas! Eu dou a minha vida pelas ovelhas!” Num mundo de tantas vozes, sigamos a voz de Jesus! Num mundo de tantas pastagens venenosas, deixemos que o Senhor nos conduza às pastagens verdadeiras, que nos dão vida plena e sacia nosso coração! Num mundo que nos tenta seduzir com tantos amores, amemos de todo coração Aquele que nos amou e por nós se entregou ao Pai!

Hoje é também jornada mundial de oração pelas vocações sacerdotais e religiosas. Peçamos ao Senhor, Bom Pastor, que dê à Igreja e ao mundo pastores segundo o seu coração, pastores que, nele e com ele, estejam dispostos a fazer da vida uma total entrega pelo rebanho; pastores que tenham sempre presente qual a única e imprescindível condição para pastorear o rebanho do Bom Pastor: “Simão, tu me amas? Apascenta as minhas ovelhas!” (Jo 21,15s). Eis a condição: amar o Pastor! Quem não é apaixonado por Jesus não pode ser pastor do seu rebanho! Não se trata de competência, de eficiência, de vedetismo ou brilhantismo; trata-se de amor! Se tu amas, então apascenta! Como dizia Santo Agostinho, “apascentar é ofício de quem ama”.

Que o Senhor nos dê os pastores que sejam viva imagem dele; que Cristo nos faça verdadeiras ovelhas do seu rebanho. Amém.

Dom Henrique Soares da Costa