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O Carpinteiro das Almas (19-07-2015)

Primeira Leitura:
PROFETAS MAIORES: Livro de Jeremias (Jr), capítulo 23
(1) Ai dos pastores que deixam perder-se e dispersar-se o rebanho miúdo de minha pastagem! - oráculo do Senhor. (2) Por isso, assim fala o Senhor, Deus de Israel, acerca dos pastores que apascentam o meu povo: Dispersastes o meu rebanho e o afugentastes, sem dele vos ocupar. Eu, porém, vou ocupar-me à vossa custa da malícia de tal procedimento - oráculo do Senhor. (3) Reunirei o que restar das minhas ovelhas, espalhadas pelos países em que as exilei e as trarei para as pastagens em que se hão de multiplicar. (4) Escolherei para elas pastores que as apascentarão, de sorte que não tenham receios nem temores, e já nenhuma delas se extravie - oráculo do Senhor. (5) Dias virão - oráculo do Senhor - em que farei brotar de Davi um rebento justo que será rei e governará com sabedoria e exercerá na terra o direito e a eqüidade. (6) Sob seu reinado será salvo Judá, e viverá Israel em segurança. E eis o nome com que será chamado: Javé-nossa-justiça!

Segunda Leitura:
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Epístola aos Efésios (Ef), capítulo 2
(13) Agora, porém, graças a Jesus Cristo, vós que antes estáveis longe, vos tornastes presentes, pelo sangue de Cristo. (14) Porque é ele a nossa paz, ele que de dois povos fez um só, destruindo o muro de inimizade que os separava, (15) abolindo na própria carne a lei, os preceitos e as prescrições. Desse modo, ele queria fazer em si mesmo dos dois povos uma única humanidade nova pelo restabelecimento da paz, (16) e reconciliá-los ambos com Deus, reunidos num só corpo pela virtude da cruz, aniquilando nela a inimizade. (17) Veio para anunciar a paz a vós que estáveis longe, e a paz também àqueles que estavam perto, (18) porquanto é por ele que ambos temos acesso junto ao Pai num mesmo espírito.
ASS EVANGELHOS: Evangelho segundo São Marcos (Mc), capítulo 6
(30) Os apóstolos voltaram para junto de Jesus e contaram-lhe tudo o que haviam feito e ensinado.
(31) Ele disse-lhes: Vinde à parte, para algum lugar deserto, e descansai um pouco. Porque eram muitos os que iam e vinham e nem tinham tempo para comer.
(32) Partiram na barca para um lugar solitário, à parte.
(33) Mas viram-nos partir. Por isso, muitos deles perceberam para onde iam, e de todas as cidades acorreram a pé para o lugar aonde se dirigiam, e chegaram primeiro que eles.
(34) Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e compadeceu-se dela, porque era como ovelhas que não têm pastor. E começou a ensinar-lhes muitas coisas.
Homilia do : Padre Paulo Ricardo
Homilia do Padre Miguel:---
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético
Ver Homilia de Dom Henrique Soares
Ver Homilia de Mons. José Maria
Ver Homilia do Pe. Françoá Costa
Canção Nova: Homilia

16º Domingo do Tempo Comum - O Divino Carpinteiro das almas

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos (Mc 6, 30-34)

O Evangelho deste Domingo diz que, "ao desembarcar, Jesus viu uma numerosa multidão e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor."

Para entender a dimensão do problema que é errar "como ovelhas sem pastor", é preciso compreender o que significa o pastoreio na Igreja Católica. Para tanto, importa descobrir a íntima ligação que existe entre o sacerdócio católico e a realidade dos Sacramentos: sem estes, de fato, não é possível entender por que os católicos tanto veneram a figura dos padres, a ponto de beijar-lhes as mãos e honrá-los como verdadeiros pais espirituais.

Comece-se por considerar o tratamento dada pelo culto católico à humanidade de Cristo. Por conta do mistério da união hipostática, segundo o qual as naturezas divina e humana de Nosso Senhor estão admiravelmente associadas entre si, sem confundir-se, nem separar-se [1], é possível não sóvenerar a Sua humanidade redentora (dulia), mas prestar-lhe um verdadeiro culto de adoração (latria). Na explicação de Santo Tomás de Aquino:

"A adoração da humanidade de Cristo pode ser compreendida de duas maneiras. Em primeiro lugar, enquanto lhe é própria como ao que é adorado. Nesse sentido,adorar a carne de Cristo nada mais é do que adorar o Verbo de Deus encarnado; por exemplo, adorar a roupa do rei nada mais é do que adorar o rei que a veste. Deste ponto de vista, a adoração da humanidade de Cristo é adoração de latria."

"A segunda maneira de entender a adoração da humanidade de Cristo é a que se faz em razão da humanidade de Cristo, enquanto foi aperfeiçoada com todos os dons de graças. Sob esse ponto de vista, a adoração da humanidade de Cristo não é adoração de latria, mas de dulia. De maneira que a mesma e única pessoa de Cristo é adorada com adoração de latria por causa de sua divindade, e com adoração de dulia por causa da perfeição de sua humanidade." [2]

Para salvar o homem, pois, Deus Se serve da humanidade de Cristo como instrumento. Nosso Senhor, por sua vez, para aplicar a Sua graça redentora a todos os homens, instituiu os Sacramentos, que são como que as ferramentas usadas pelo carpinteiro divino para trabalhar as nossas almas. Na Cruz, Ele verdadeiramente nos remiu de uma vez por todas, mas, como "o cálice da salvação humana", "útil a todos", "se não for bebido, não cura" [3], assim também, para que a humanidade de Cristo toque nos homens, eles devem entrar neste rio caudaloso que brota do lado aberto de Cristo (cf. Jo 19, 34). Preleciona novamente o Doutor Angélico:

"É, pois, evidente, que a força dos sacramentos da Igreja provém especialmente da paixão de Cristo; a recepção dos sacramentos, por sua vez, como que nos põe em comunicação com a força da paixão de Cristo. Como sinal dessa conexão, do lado de Cristo pendente na cruz fluíram água e sangue: a água se refere ao batismo, o sangue à Eucaristia, que são os principais sacramentos." [4]

É claro que Deus, sendo onipotente e não estando limitado pelas realidades que Ele mesmo instituiu, pode salvar uma pessoa sem os Sacramentos; estes, porém, constituem o meio ordináriopelo qual as pessoas entram no Reino dos céus. Na carpintaria do Verbo encarnado, Cristo pode trabalhar diretamente na madeira, com as Suas mãos; no entanto, Ele não prescinde de suas ferramentas, com as quais talha a sua divina imagem nas almas.

Para entender como os Sacramentos podem agir no interior do homem, a passagem evangélica da hemorroíssa pode servir como guia (cf. Mc 5, 25-34). Não basta acercar-se de Cristo como o apertava de um lado para o outro a multidão. Só quem toca n'Ele com fé, com a devida disposição interior, pode receber a graça que cura. Para que os Sacramentos façam efeito em nossa alma, para que os sacerdotes e o povo fiel colham frutos da recepção dos sagrados mistérios, convém que se aproximem deles dignamente e com devoção, não como quem se aproxima de um mero "símbolo humano". Diferentemente dos símbolos que os homens criam – ensina Santo Tomás de Aquino –, de fato, "os sacramentos da nova Lei não só significam, mas causam a graça" [5].

Destas verdades provém a fé da Igreja no mistério sacerdotal. O sacerdote é aquele homem, retirado do meio do povo de Deus, para dispensar o sangue de Cristo aos fiéis. Configurados ao Redentor, os próprios sacerdotes são um mistério. E é para que as pessoas reverenciem a nobreza desse ministério que servem certos ritos, normas e prescrições da Igreja, como a piedade na celebração da Santa Missa, a necessidade do uso de paramentos na liturgia ou a importância do hábito eclesiástico para os padres.

Crentes no mistério da vida sacerdotal, lembremo-nos sempre de rezar pelas vocações, atendendo ao conselho do próprio Senhor: "A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi, pois, ao Senhor da colheita que envie trabalhadores para a sua colheita!" (Mt 9, 37-38). Depois, serão esses mesmos operários os responsáveis por "implorar (...) a misericórdia divina para o povo" [6] a eles confiado e administrar-lhes os Sacramentos da salvação. É deste virtuoso círculo de oração que se alimenta a Santa Igreja, até a vinda definitiva do único Pastor das almas, Jesus Cristo, Nosso Senhor.

Referências

  1. Cf. HIA. 14 – Concílio de Calcedônia.
  2. Suma Teológica, III, q. 25, a. 2.
  3. Sínodo de Quiercy, 853 (DS 624).
  4. Suma Teológica, III, q. 62, a. 5.
  5. Ibid., III, q. 62, a. 1.
  6. Pontifical Romano, Ordenação do Bispo, dos Presbíteros e Diáconos. 3. ed. Conferência Episcopal Portuguesa, p. 77.

 

Padre Paulo Ricardo

O Bom Pastor

Se pensarmos bem, caríssimos em Cristo, tudo quanto a Igreja tem para dizer ao mundo é Jesus: ele é a Palavra viva do Pai, ele é o Salvador e a Salvação, é a ele que a Igreja dirige continuamente o olhar e o coração, para contemplá-lo, escutá-lo e nele beber das fontes da vida e da paz! Pois bem: é de Jesus que a Palavra santa hoje nos fala – de Jesus Bom Pastor!

Em Israel, pastores do povo eram seus dirigentes: reis, aristocracia, sacerdotes, escribas, profetas. Infelizmente, de modo freqüente, esses eram pastores maus e infiéis, pois não faziam o que era de se esperar de quem apascenta: não amavam o rebanho, dele não cuidavam, com ele não se preocupavam. Faziam como os políticos brasileiros de agora, esses mesmos que irão mostrar a cara lisa no programa eleitoral gratuito, enganando, mentindo e fazendo-se passar por bons, sem, no entanto, terem outra preocupação que o próprio bem-estar e os próprios poder e prestígio… Dos maus pastores, Santo Agostinho dizia que procuram somente o leite e a lã das ovelhas, sem com elas se preocuparem. O leite simboliza os bens materiais; a lã, o prestígio e os aplausos. Pobres ovelhas, o povo brasileiro, que mais uma vez serão assaltadas por cruéis ataques de pastores maus: mensaleiros, sanguessugas e gatunos de todos os níveis e especialidades. Que Deus ajude esse povo a discernir políticos de politiqueiros e os poucos preocupados com o bem comum, dos muitos ocupados com o próprio bem!

Contudo, não devemos esquecer de modo algum que os pastores do povo de Deus, que é a Igreja, são os ministros de Cristo: Bispos, padres e diáconos. A eles também o Senhor repreende neste hoje e a eles exorta a que se convertam e sejam pastores de verdade. Mas, quem é pastor de verdade na Igreja? Quem se deixa plasmar pelo verdadeiro Pastor, pelo único Pastor, aquele que é a própria justiça, a própria santidade de Deus: “Este é o nome com que o chamarão: ‘Senhor, nossa Justiça’”. Falamos de Jesus Cristo.

Ante os maus pastores da Israel, que infestaram todo o tempo do Antigo Testamento, o Senhor prometeu, da Casa de Davi, um novo pastor: “Eis que virão dias em que farei nascer um descendente de Davi; reinará e será sábio, fará valer a justiça e a retidão na terra”. Aqui Deus fala do Messias; e esse Messias é a própria presença de Deus apascentando o seu povo: “Eu reunirei o resto de minhas ovelhas de todos os países para onde forem expulsas, e as farei voltar a seus campos, e elas se reproduzirão e multiplicarão”. Eis, portanto: um messias, presença do próprio Deus, Pastor do seu povo, cuidador do seu rebanho… É precisamente assim que o evangelho de hoje nos apresenta Jesus: “Ao desembarcar, Jesus viu uma numerosa multidão e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor. Começou, pois, a ensinar-lhes muitas coisas”. Que imagem sublime, que cena tão doce! Jesus cansado, pensando em algo tão humano, tão legítimo: um dia de descanso em companhia dos Doze. E quando chega ao local escolhido para o merecido repouso, lá estava a multidão cansada e acabrunhada, sedenta de luz, sedenta de vida, sedenta de verdes pastagens, desorientada, como ovelhas sem pastor… E Jesus, Bom Pastor, esquece de si mesmo, deixa de lado seu cansaço e, cheio de compaixão, vai cuidar das ovelhas… Por isso mesmo, ele é o Pastor por excelência, o Belo, Perfeito, Pleno Pastor! Ele ama o rebanho, preocupa-se com ele, dele se compadece e por ele vai dando, derramando, diariamente, a própria vida. Nunca se viu Jesus poupar-se, nunca se testemunhou Jesus fazendo um milagre em benefício próprio, nunca se apanhou o Senhor buscando algum favor para si. Não! Toda a sua vida foi vida vivida para o rebanho por amor ao Pai, vida dada, vida doada, entregue de modo total… até a morte e morte de cruz. Tem razão São Paulo, quando diz aos Efésios, na segunda leitura de hoje: “Agora, em Cristo, vós que outrora estáveis longe, vos tornastes próximos, pelo sangue de Cristo. Ele, de fato é a nossa paz!” Eis, caríssimos! O Bom Pastor, entregando a vida pela humanidade, nos atraiu, abrindo um novo caminho, suscitando uma nova esperança para judeus e pagãos, reunindo-os todos no seu aconchego, no seu coração de Pastor, dando-nos a paz e fazendo de nós a sua Igreja!

Igreja aqui reunida, em torno deste Altar, tu nasceste da dedicação do teu Pastor; tu és fruto da sua vida entregue amorosa e dolorosamente! O Apóstolo afirma, de modo profundo e comovente que Cristo “quis reconciliá-los, judeus e pagãos, com Deus, ambos em um só corpo, por meio da cruz; assim ele destruiu em si mesmo a inimizade”. Prestai bem atenção: na carne de Cristo, no corpo ferido de Cristo, na vida dilacerada de Cristo, deu-se a nossa paz! – Ó Senhor Jesus, que tu mesmo, de corpo e alma, de sonho e de dor és o nosso repouso, és nossa segurança! Tu mesmo és a nossa paz! E quão alto foi o preço dessa paz! E tudo isso para que, no teu Santo Espírito, tivéssemos acesso Àquele a quem tu chamas de Pai, fonte de toda vida!

Caríssimos, tanto para nós, pastores, quanto para vós, ovelhas, o exemplo de Cristo é motivo de questionamento e chamado à conversão. Para nós, pastores, é forte apelo a que sejamos como ele, sejamos presença dele no meio do rebanho, tendo seus sentimentos, suas atitudes, participando de sua entrega total. Pastores que não apascentam em Cristo, que não vivem a vida de Cristo na carne de sua vida, não são pastores de fato; são maus pastores, ladrões e salteadores, como aqueles do Antigo Testamento. E para vós, ovelhas, que apelos o Bom Pastor hoje vos faz? Ele que se deu todo a vós como pastor, vos convida a que vos entregueis totalmente a ele como ovelhas. Como a ovelha do Salmo da Missa de hoje, que confia totalmente no seu pastor, ainda mesmo que passe pelo vale tenebroso, porque sabe que o pastor é fiel, que o pastor haverá de defendê-la, assim também nós, ovelhas do seu pasto, confiemo-nos ao Senhor, sigamo-lo, nele coloquemos a nossa existência. E que ele, cheio de amor e misericórdia, nos conduza às campinas verdejantes, nos faça descansar, restaure nossas forças, guie-nos no caminho mais seguro, nos prepare a mesa eucarística, unja-nos com o suave óleo do seu Espírito, faça transbordar a taça da nossa exultação e nos dê habitação na sua casa pelos tempos infinitos. Amem.

D. Henrique Soares