Católicos Online

     ||  Início  ->  O pão da vida e o pão do estômago

O pão da vida e o pão do estômago (26-07-2015)

Primeira Leitura:
HISTÓRICO: Segundo Livro dos Reis (2Rs), capítulo 4
(42) Veio um homem de Baalsalisa, que trazia ao homem de Deus, à guisa de primícias, vinte pães de cevada e trigo novo no seu saco. Dá-os a esses homens, disse Eliseu, para que comam. (43) Seu servo respondeu: Como poderei dar de comer a cem pessoas com isto? Dá-os a esses homens, repetiu Eliseu, para que comam. Eis o que diz o Senhor: Comerão e ainda sobrará. (44) E deu-os ao povo. Comeram e ainda sobrou, como o Senhor tinha dito.

Segunda Leitura:
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Epístola aos Efésios (Ef), capítulo 4
(1) Exorto-vos, pois, - prisioneiro que sou pela causa do Senhor -, que leveis uma vida digna da vocação à qual fostes chamados, (2) com toda a humildade e amabilidade, com grandeza de alma, suportando-vos mutuamente com caridade. (3) Sede solícitos em conservar a unidade do Espírito no vínculo da paz. (4) Sede um só corpo e um só espírito, assim como fostes chamados pela vossa vocação a uma só esperança. (5) Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo. (6) Há um só Deus e Pai de todos, que atua acima de todos, por todos e em todos.
ASS EVANGELHOS: Evangelho segundo São João (Jo), capítulo 6
(1) Depois disso, atravessou Jesus o lago da Galiléia (que é o de Tiberíades.)
(2) Seguia-o uma grande multidão, porque via os milagres que fazia em beneficio dos enfermos.
(3) Jesus subiu a um monte e ali se sentou com seus discípulos.
(4) Aproximava-se a Páscoa, festa dos judeus.
(5) Jesus levantou os olhos sobre aquela grande multidão que vinha ter com ele e disse a Filipe: Onde compraremos pão para que todos estes tenham o que comer?
(6) Falava assim para o experimentar, pois bem sabia o que havia de fazer.
(7) Filipe respondeu-lhe: Duzentos denários de pão não lhes bastam, para que cada um receba um pedaço.
(8) Um dos seus discípulos, chamado André, irmão de Simão Pedro, disse-lhe:
(9) Está aqui um menino que tem cinco pães de cevada e dois peixes... mas que é isto para tanta gente?
(10) Disse Jesus: Fazei-os assentar. Ora, havia naquele lugar muita relva. Sentaram-se aqueles homens em número de uns cinco mil.
(11) Jesus tomou os pães e rendeu graças. Em seguida, distribuiu-os às pessoas que estavam sentadas, e igualmente dos peixes lhes deu quanto queriam.
(12) Estando eles saciados, disse aos discípulos: Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca.
(13) Eles os recolheram e, dos pedaços dos cinco pães de cevada que sobraram, encheram doze cestos.
(14) À vista desse milagre de Jesus, aquela gente dizia: Este é verdadeiramente o profeta que há de vir ao mundo.
(15) Jesus, percebendo que queriam arrebatá-lo e fazê-lo rei, tornou a retirar-se sozinho para o monte.
Homilia do : Padre Paulo Ricardo
Homilia do Padre Miguel:---
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético
Ver Homilia de Dom Henrique Soares
Ver Homilia de Mons. José Maria
Ver Homilia do Pe. Françoá Costa
Canção Nova: Homilia

17º Domingo do Tempo Comum - O toque da humanidade de Cristo na Comunhão

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
(Jo 6, 1-15)

O milagre da multiplicação dos pães fez uma grande impressão nos primeiros cristãos porque está nos quatro Evangelhos, e o Evangelho de São Mateus e São Marcos chegam a falar duas vezes desse episódio.

Por que essa impressão? Não tanto pelo milagre em si mesmo, mas pela mensagem eucarística por trás desse portento. Assim como fez na noite da Última Ceia, Jesus, antes de multiplicar os pães, "tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos que estavam sentados" (v. 11).

O Evangelho começa dizendo que "Jesus foi para o outro lado do mar da Galileia" (v. 1). Os Santos Padres veem nessa passagem – evidenciada pela informação de que "estava próxima a Páscoa" (v. 3), que quer dizer "passagem" (cf. Ex 12, 11) – um sinal do desapego do mundo que todo cristão deve fazer [1]. Antigamente, os pregadores cristãos deixavam bem clara a maldade da mentalidade mundana e a necessidade de converter-se, de não se conformar com as coisas deste século (cf. Rm12, 2). Infelizmente, hoje em dia, alguns charlatães, dentro da própria Igreja, têm flertado com o mundo, chegando a dizer que seria a Igreja quem precisaria aprender com a modernidade: aceitando, por exemplo, a Comunhão para recasados, os "casais" homossexuais, a masturbação, a pornografia etc. Ora, não é estranho que justamente essa geração – que não crê mais no amor, que está visivelmente apegada ao dinheiro (seja por parte dos capitalistas, seja por parte dos socialistas), que mata os próprios filhos no ventre de suas mães – queira julgar os santos do passado? Não é muita inconveniência e arrogância dos homens de nosso século, que queiram medir os santos com sua régua torta e viciada?

Estando já na montanha – prossegue o Evangelista –, Jesus age "levantando os olhos e vendo que uma grande multidão estava vindo ao seu encontro" (v. 5). Santo Tomás de Aquino, ao comentar este trecho, faz notar a circunspecção de Nosso Senhor, que não desviava o Seu olhar para um lugar ou outro, mas permanecia atento aos Seus discípulos, a quem ensinava [2].

Jesus pergunta, então, a Filipe: "Onde vamos comprar pão para que eles possam comer?" (v. 5). O Evangelista deixa claro que Nosso Senhor questiona o Seu discípulo "para pô-lo à prova (πειράζων)" (v. 6). A palavra grega em questão pode ser traduzida tanto como "tentação" quanto como "provação". Como, porém, "Deus não pode ser tentado pelo mal e tampouco tenta a alguém" (Tg 1, 13), o que Cristo faz aqui é pôr à prova a fé dos Seus discípulos, a fim de aumentar-lhes o amor.

À pergunta de Cristo, responde rudemente Filipe: "Nem duzentas moedas de prata bastariam para dar um pedaço de pão a cada um" (v. 7). As suas palavras estão baseadas em um raciocínio puramente humano, pois ele não vê outra saída para a situação senão com a compra de mais pães.

André, por outro lado, demonstra ter uma fé mais madura, como faz notar o Doutor Angélico:

"André parece ter diante de si o milagre que está prestes a ser realizado. Talvez ele tivesse na memória o sinal que Eliseu havia feito com os pães de cevada, quando saciou cem homens com vinte pães (cf. 2 Rs 4, 42ss), e por isso disse: 'Está aqui um menino com cinco pães de cevada'. Ainda assim, porém, ele não podia supor que Cristo fizesse um milagre maior que o de Eliseu. Na verdade, ele estimava que menos pães seriam milagrosamente produzidos de menos, e mais de um número maior. Por isso, acrescentou: 'Mas o que é isto para tanta gente?', como se dissesse: ainda que esses pães fossem multiplicados como Eliseu multiplicou, não seria o suficiente. No entanto, Ele, a quem não é necessária nenhuma matéria prima, podia saciar facilmente as multidões seja com muitos seja com poucos pães." [3]

Diz, em seguida, Nosso Senhor: "Fazei sentar as pessoas (discumbere)" (v. 10). Na verdade, à época de Cristo, as pessoas comiam estando deitadas. "Os antigos tomavam suas refeições deitados em leitos, de onde se difundiu o costume de usar a palavra discumbere a quem se sentava para comer. Misticamente, isso significa aquela quietude necessária à perfeição da sabedoria, como diz o Autor Sagrado: 'Quem diminui suas correrias, esse é que se encherá de Sabedoria' (Eclo 38, 25)" [4]. O próprio São João Evangelista ficou lembrado como aquele que reclinou a cabeça sobre o peito de Jesus (cf. Jo 13, 25), indicando a atitude com que todo cristão deve proceder na ação de graças depois da Eucaristia.

Aqui, cabe um exame de consciência sobre a forma como nos temos aproximado da Sagrada Comunhão. Se é verdade que por meio desse divino sacramento, Nosso Senhor nos toca com a Sua humanidade, a sua recepção só terá fruto se O recebermos com fé e com as devidas disposições interiores. Caso contrário, seremos como aquela multidão curiosa e distraída que acotovelava Jesus no caminho da casa de Jairo, sem todavia receber a Sua graça (cf. Mc 5, 21-24). De fato, de todas as pessoas que tocaram no Divino Mestre, somente a hemorroíssa foi beneficiada desse contato, porque foi a única pessoa que se aproximou d'Ele com fé (cf. Jo 5, 25-34). Do mesmo modo, quem se senta na relva (v. 10), nos "prados e campinas verdejantes" (Sl 22, 2), e reclina a cabeça no peito de Nosso Senhor depois da Comunhão, vai notar o toque suave e sutil da graça divina em toda a sua vida.

São João prossegue dizendo que o próprio "Jesus tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos que estavam sentados" (v. 11), diferentemente dos Evangelhos sinóticos, nos quais são os Apóstolos quem distribuem os pães à multidão (cf., Mt 14, 19; Mc 6, 41; Lc 9, 16). Comentando essa discordância entre os evangelistas, Santo Tomás escreve que "aqui é dito que Ele distribuiu, porque se considera que é Ele mesmo quem realiza aquilo que faz por meio de outros. Mas, no sentido místico, ambas as frases são verdadeiras: porque só Ele refaz desde dentro, enquanto os outros o fazem desde fora e como ministros" [5]. Portanto, é o próprio Cristo quem distribui a Comunhão pelas mãos de Seus sacerdotes.

Por fim, depois de todos satisfeitos, os discípulos "recolheram os pedaços e encheram doze cestos (cophinos) com as sobras dos cinco pães" (v. 13). O Aquinate faz notar que o cesto em questão, chamado cophinus, "é um vaso rústico feito para o ofício dos camponeses", e conclui: "Assim, os doze cestos significam os doze Apóstolos e os seus imitadores, que, ainda que sejam desprezados nesta vida, são todavia repletos interiormente das riquezas dos sacramentos espirituais. Dizem-se que são doze porque foram enviados para pregar a fé da Santíssima Trindade às quatro partes do mundo" [6].

O Evangelista conclui narrando que, "quando notou que estavam querendo levá-lo para proclamá-lo rei, Jesus retirou-se de novo, sozinho, para o monte" (v. 15). De fato, as pessoas ainda não tinham entendido que o Seu reino não é deste mundo (cf. Jo 18, 36: "Regnum meum non est de mundo hoc"). Cabe fazer, ao fim desta reflexão, um último exame de consciência, pois, talvez, muitos de nós ainda não tenhamos entendido quem seja verdadeiramente Jesus Cristo. Infelizmente, muitos continuamos na mesma miséria dos homens do tempo de Cristo, querendo que Ele resolva os nossos problemas terrenos e imanentes e esquecendo-nos do maior dom que Ele nos veio trazer: o Reino dos céus. Lá, um dia, Ele vai alimentar-nos para sempre com o pão definitivo da visão beatífica. Essa é a nossa esperança.

Referências

  1. Cf. Santo Tomás de Aquino, Comentário ao Evangelho de São João, VI, 1, 846: "Quisquis pane divini verbi et corpore et sanguine domini desiderat refici, debet transire de vitiis ad virtutes – Quem quer que deseje refazer-se com o pão do Verbo divino e o corpo e sangue do Senhor, deve passar dos vícios às virtudes."
  2. Cf. Ibid., 848.
  3. Ibid., 853.
  4. Ibid., 856.
  5. Ibid., 861.
  6. Ibid., 865.
Padre Paulo Ricardo

O pão da vida e o pão do estômago

Salta à vista o tema do pão na liturgia de hoje: ele aparece claramente na primeira leitura e no evangelho e, de modo implícito, está presente também no salmo. Na tradição bíblia, o pão recorda duas coisas importantíssimas. Lembra-nos, primeiramente, que não somos auto-suficientes, não possuímos a vida de modo absoluto: devemos sempre renová-la, lutar por ela. O homem não se basta a si próprio; precisa do pão de cada dia. E aqui, um segundo importante aspecto: o homem não pode, sozinho, prover-se de pão: é Deus quem faz a chuva cair, quem torna o solo fecundo, quem dá vigor à semente. Assim, a vida humana está continuamente na dependência do Senhor. Portanto, meus caros, todos necessitamos do pão nosso de cada dia – e este é dom de Deus. “O que tens tu, ó homem, que não tenhas recebido? E, se recebeste, do que, então, te glorias?”

Desse modo, caríssimos irmãos em Cristo, Jesus, ao multiplicar os pães, apresenta-se como aquele que dá vida, que nos sacia com o sentido da existência – sim, porque não há vida de verdade para quem vive sem saber o sentido do viver! – Dá-nos, Jesus a vida física, a vida saudável, mas dá-nos, mais que tudo, a razão verdadeira de viver uma vida que valha a pena!

Mas, acompanhemos com mais detalhes a narrativa do Quarto Evangelho. Jesus, num lugar deserto, estando próxima a Páscoa, Festa dos judeus, manda o povo sentar-se sobre a relva verde, toma uns pães e uns peixes, dá graças, parte, e os distribui… multiplicando os pães e os peixes. Todos comeram e ficaram saciados. Não aparece no evangelho deste Domingo, mas sabemos, pela continuação do texto de São João, que o povo, após o milagre, foi à procura do Senhor e ele recriminou duramente a multidão: “Vós me procurais não porque vistes os sinais, mas porque comestes pão e ficastes saciados!” Que sinal o povo deveria ter visto? Recordemos que no final do trecho que escutamos no evangelho o povo exclama: “Este é verdadeiramente o profeta que devia vir ao mundo”. Eis: o povo até que começou a discernir o sentido do milagre de Jesus; mas, logo depois, fascinado simplesmente pelo pão material, pelas necessidades de cada dia, esquece o sinal. Insistimos: que sinal? Primeiro, que Jesus é o Novo Moisés, aquele profeta que o próprio Moisés havia anunciado em Dt 11,18: “O Senhor Deus suscitará no vosso meio um profeta como eu”. Pois bem: como Moisés, Jesus reúne o povo num lugar deserto, como Moisés, sacia o povo com o pão… Mas, Jesus é mais que Moisés: ele é o Deus-Pastor que faz o rebanho repousar em verdes pastagens (“Havia muita relva naquele lugar… Jesus mandou que o povo se sentasse…”) e lhe prepara uma mesa. Era isso que o povo deveria ter compreendido; foi isso que não compreendeu…

E nós, compreendemos os sinais de Cristo em nossa vida? Somos capazes de descortinar o sentido dos seus gestos, seja na alegria seja na tristeza, seja na luz seja na treva? Os gestos de Jesus na multiplicação dos pães é também prenúncio da Eucaristia. Os quatro gestos por ele realizados – tomou o pão, deu graças, partiu e deu – são os gestos da Última Ceia e de todas as ceias que celebram o sacrifício eucarístico do Senhor: na apresentação das ofertas tomamos o pão, na grande oração eucarística (do prefácio à doxologia – “Por Cristo, com Cristo…”) damos graças, no “Cordeiro de Deus” partimos e na comunhão distribuímos. Eis a Missa: o tornar-se presente dos gestos salvíficos do Senhor, dado em sacrifício e recebido em comunhão.

Vivendo intensamente esse Mistério, nos tornamos realmente membros do corpo de Cristo, que é a Igreja. Cumprem-se em nós, de modo real, as palavras do Apóstolo: “Há um só Corpo e um só Espírito, como também é uma só a esperança a que fostes chamados. Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, que reina sobre todos, age por meio de todos e permanece em todos”. Eis, caríssimos! Que o bendito Pão do céu, neste sinal tão pobre e humilde do pão e do vinho eucarísticos, nos faça compreender e acolher a constante presença do Senhor entre nós e nos dê a graça de vivermos de verdade a vida de Igreja, sendo um sinal seu no meio do mundo. Amém.

D. Henrique Soares