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Jesus dá vida aos surdos e mudos (06-09-2015)

Primeira Leitura:
PROFETAS MAIORES: Livro de Isaías (Is), capítulo 35
(4) Dizei àqueles que têm o coração perturbado: Tomai ânimo, não temais! Eis o vosso Deus! Ele vem executar a vingança. Eis que chega a retribuição de Deus: ele mesmo vem salvar-vos. (5) Então se abrirão os olhos do cego. E se desimpedirão os ouvidos dos surdos, (6) então o coxo saltará como um cervo, e a língua do mudo dará gritos alegres. Porque águas jorrarão no deserto e torrentes, na estepe. (7) A terra queimada se converterá num lago, e a região da sede, em fontes. No covil dos chacais crescerão caniços e papiros.

Segunda Leitura:
EPISTOLAS CATÓLICAS: Epístola de São Tiago (Tg), capítulo 2
(1) Meus irmãos, na vossa fé em nosso glorioso Senhor Jesus Cristo, guardai-vos de toda consideração de pessoas. (2) Suponde que entre na vossa reunião um homem com anel de ouro e ricos trajes, e entre também um pobre com trajes gastos, (3) se atenderdes ao que está magnificamente trajado, e lhe disserdes: Senta-te aqui, neste lugar de honra, e disserdes ao pobre: Fica ali de pé, ou: Senta-te aqui junto ao estrado dos meus pés, (4) não é verdade que fazeis distinção entre vós, e que sois juízes de pensamentos iníquos? (5) Ouvi, meus caríssimos irmãos: porventura não escolheu Deus os pobres deste mundo para que fossem ricos na fé e herdeiros do Reino prometido por Deus aos que o amam?
ASS EVANGELHOS: Evangelho segundo São Marcos (Mc), capítulo 7
(31) Ele deixou de novo as fronteiras de Tiro e foi por Sidônia ao mar da Galiléia, no meio do território da Decápole.
(32) Ora, apresentaram-lhe um surdo-mudo, rogando-lhe que lhe impusesse a mão.
(33) Jesus tomou-o à parte dentre o povo, pôs-lhe os dedos nos ouvidos e tocou-lhe a língua com saliva.
(34) E levantou os olhos ao céu, deu um suspiro e disse-lhe: Éfeta!, que quer dizer abre-te!
(35) No mesmo instante os ouvidos se lhe abriram, a prisão da língua se lhe desfez e ele falava perfeitamente.
(36) Proibiu-lhes que o dissessem a alguém. Mas quanto mais lhes proibia, tanto mais o publicavam.
(37) E tanto mais se admiravam, dizendo: Ele fez bem todas as coisas. Fez ouvir os surdos e falar os mudos!
Homilia do : Padre Paulo Ricardo
Homilia do Padre Miguel:---
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético
Ver Comentário Exegético
Ver Homilia de Dom Henrique Soares
Ver Homilia de Mons. José Maria
Ver Homilia do Pe. Françoá Costa
Canção Nova: Homilia

23º Domingo do Tempo Comum - Quando os ouvidos surdos são os da alma

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
(Mc 
7, 31-37)

Naquele tempo, Jesus saiu de novo da região de Tiro, passou por Sidônia e continuou até o mar da Galileia, atravessando a região da Decápole.

Trouxeram então um homem surdo, que falava com dificuldade, e pediram que Jesus lhe impusesse a mão. Jesus afastou-se com o homem, para fora da multidão; em seguida, colocou os dedos nos seus ouvidos, cuspiu e com a saliva tocou a língua dele. Olhando para o céu, suspirou e disse: "Efatá!", que quer dizer: "Abre-te!"

Imediatamente seus ouvidos se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade.

Jesus recomendou com insistência que não contassem a ninguém. Mas, quanto mais ele recomendava, mais eles divulgavam.

Muito impressionados, diziam: "Ele tem feito bem todas as coisas: Aos surdos faz ouvir e aos mudos falar".

*

O Evangelho deste Domingo tem uma ligação especial com a vida de cada cristão batizado. A passagem em questão está associada, na liturgia da Igreja, à celebração do Batismo. Em um rito chamado "Rito do Efatá", o sacerdote repete nos catecúmenos o gesto de Jesus ao curar aquele surdo do Evangelho, significando com isso "a necessidade da graça, para que alguém possa escutar a palavra de Deus e professá-la em ordem à salvação" [1].

A narrativa de São Marcos situa Jesus e os Seus discípulos na região da Decápole, aonde "trouxeram então um homem surdo, que falava com dificuldade, e pediram que Jesus lhe impusesse a mão" (v. 32). É intrigante essa informação – sublinhada pelo uso do singular "a mão" (τὴν χεῖρα), ao invés de um plural genérico –, quando se sabe que Nosso Senhor não precisava tocar as pessoas para curá-las: na famosa passagem do non sum dignus (cf. Mt 8, 5-13), por exemplo, bastou a palavra de Jesus para que o servo do centurião fosse milagrosamente curado. Por que, então, pedir que Jesus impusesse a mão sobre o surdo?

"Mesmo podendo curar com a palavra, Jesus colocou os dedos no seu ouvido – ensina São João Crisóstomo – para mostrar que o Seu corpo unido à divindade estava enriquecido com a virtude divina, bem como as Suas obras" [2]. Podendo curar de muitos modos o gênero humano, Deus convenientemente escolheu para isso o sacramento universal da humanidade de Cristo, a ponto de os primeiros cristãos formularem o princípio de que "caro salutis est cardo – a carne é o eixo da salvação" [3]. Explica, ainda a esse respeito, o Doutor Angélico: "Cristo veio salvar o mundo não somente pelo poder divino, mas também pelo mistério da própria encarnação. Por isso muitas vezes ao curar os doentes não somente se servia do poder divino, curando com uma ordem, mas também aplicando algo pertencente à própria humanidade" [4].

De fato, os atos de Jesus contados nesta passagem estão carregados de uma corporeidade que pode parecer inclusive vulgar para o homem contemporâneo. Diz a Escritura que Ele "colocou os dedos nos seus ouvidos, cuspiu e com a saliva tocou a língua dele" (v. 33).

O que, com essa descrição, poderia parecer um mero "ritual mágico", todavia, é complementado pela informação de que Cristo, "olhando para o céu, suspirou e disse: 'Efatá!', que quer dizer: 'Abre-te!'" (v. 34).

Esse suspirar de Jesus, designado pelo termo grego ἐστέναξεν, poderia ser melhor traduzido como um gemido, como se uma força estivesse saindo de dentro de Si. São Lucas atesta que, na verdade, "dele saía uma força que curava a todos" (Lc 6, 19), ao que comenta o Aquinate que, diferentemente dos outros profetas, "Cristo fazia os milagres por um poder próprio", demonstrando, com isso, que Ele "tinha um poder igual ao de Deus Pai" [5].

Os atos de Cristo realizados durante esse milagre também prefiguram aquilo que será feito de modo máximo em Sua Páscoa: o olhar para o Céu indica a Sua entrega no banquete eucarístico; o suspiro profundo, o momento em que Ele entregou o espírito, na Cruz; e o Efatá, por fim, prenuncia o glorioso milagre da Sua ressurreição.

Na verdade, essa intercessão do Filho pelos homens é uma realidade perene, que continua acontecendo na eternidade, como diz o Autor Sagrado: "Ele tem poder ilimitado para salvar aqueles que, por seu intermédio, se aproximam de Deus, já que está sempre vivo para interceder por eles (semper vivens ad interpellandum pro eis)" (Hb 7, 25). Muitas vezes, ao dirigir-se a Cristo na oração, as pessoas se esquecem que Jesus também reza por elas, exercendo o Seu sacerdócio eterno junto de Deus Pai, e que, ainda hoje, é a humanidade de Nosso Senhor o sacramento que cura e leva os homens ao Céu.

Na passagem em questão, a cura operada por Cristo diz respeito à surdez física, mas é preciso reconhecer a existência de uma doença muito pior, relacionada às coisas espirituais: neste gênero de surdez, ao invés de nada escutar, o que acontece à pessoa é que, aturdida pelo barulho do diabo, do mundo e da carne, os ouvidos da sua alma se tornam incapazes de escutar a Palavra de Deus. Para sair dessa terrível condição, é preciso que nos retiremos – assim como "Jesus afastou-se com o homem, para fora da multidão" (v. 33) – e deixar que o Senhor devolva a saúde aos nossos ouvidos, com o Seu toque poderoso.

Uma boa recomendação para quem quer começar a curar-se dessa surdez do coração é reservar um momento específico do seu dia para elevar a mente a Deus. Dizia Santa Teresa de Jesus, a quem ainda não tinha vida de oração: "Peço aos que ainda não começaram que, por amor a Deus, não se privem de tanto bem" [6].

Atendamos já ao suave sussurro da graça em nossos corações. Escutemos logo os divinos apelos do Verbo e vivamos tão somente para Aquele que faz bem todas as coisas. Afinal, é esse o verdadeiro sentido e o único fim de nossas existências.

Referências

  1. Ritual Romano, Iniciação Cristã dos Adultos, n. 200. 2. ed. Conferência Episcopal Portuguesa, 2000, p. 122.
  2. Catena Aurea in Marcum, VII, 4.
  3. Tertuliano, De carnis resurrectione, VIII, 3 (PL 2, 806).
  4. Suma Teológica, III, q. 44, a. 3, ad 2.
  5. Ibid., III, q. 43, a. 4.
  6. Livro da Vida, VIII, 5.
Padre Paulo Ricardo

Jesus dá vida aos surdos e mudos

Caríssimos em Cristo, hoje a santa Palavra do Senhor nos fala de um Deus que vem. E ele vem sempre, amados! Vem porque está entre nós na potência do seu Santo Espírito, que age constantemente nos sacramentos da Igreja, que proclamam a Palavra da Salvação e tornam realidade essa Palavra salvífica! Eis, portanto, nosso Deus vem, vem sempre no seu Filho Jesus pleno do Santo Espírito. E quando ele vem, a nossa sorte muda: “Criai ânimo, não tenhais medo! Vede, é vosso Deus: é ele que vem para vos salvar! Abrir-se-ão os olhos dos cegos e se descerrarão os ouvidos dos surdos. O coxo saltará como um cervo e se desatará a língua dos mudos… brotarão águas no deserto e jorrarão torrentes no ermo. A terra árida se transformará em lago, e a região sedenta, em fontes d’água”. Ó caros! Não é coxo o mundo atual, não é cego, não é seco? Vede ao redor em que tem se tornado a nossa existência! Tanto mais o homem se feche para Deus, tanto menos vive, tanto menos se realiza, tanto menos é feliz… E, no entanto, se nos abrirmos, se nos deixarmos curar, o Senhor transformará a nossa pobre vida: nossa surdez será curada e escutaremos a doce voz do Senhor que nos guia, nossa mudez transformar-se-á em canto de exultação e da sequidão do nosso coração sem vida, a água fresca e vivificante brotará em abundância! Humanidade dura e teimosa, a nossa, que procura vida sem Deus e não encontra a não ser desilusão! Pois bem, caríssimos, é de paz, é de vida, é de felicidade que o Senhor nos fala hoje, nos fala sempre nos anúncios dos profetas! E o que eles anunciaram para os tempos do Messias, tempos de salvação, o Senhor Jesus realiza em plenitude: hoje, no Evangelho que ouvimos, ele coloca os dedos nos ouvidos dum surdo-mudo e, com a saliva, toca-lhe a língua. Que significa esse gesto? A saliva, para os judeus, era o ar feito líquido. Assim, Jesus dá seu Sopro, seu Espírito ao homem. Agora aquele zé-ninguém, aquele surdo-mudo de vida semi-humana é homem novo: pode ouvir o Senhor, pode proclamar suas maravilhas! Mas, não é isso que somos? Não é isso que devemos testemunhar com a nossa vida?

Recordam, irmãos amados, do rito batismal, quando o sacerdotes traçou o sinal da cruz nos nossos ouvidos e nos nossos lábios, repetindo o gesto de Jesus? Recordam quando ele exclamou: “Efatá!”, como o próprio Jesus, naquele tempo? Recordam? Surdos curados por Jesus, é o que somos; mudos libertados pelo Senhor, é a nossa realidade! Agora curados, aprendamos a escutar realmente a palavra e os apelos daquele que nos curou; agora libertos, proclamemos ante o mundo incréu as maravilhas daquele que nos livrou e nos chamou das trevas para a sua luz admirável! Somos novos em Cristo, somos novas criaturas! Externemos essa realidade com nossa vida pessoal e comunitária! Ó cristão, quantas vezes será necessário exortar-te a viver de acordo com aquilo que tu és? Por que és frouxo, por que covarde, por que sem entusiasmo, por que omisso, por que és duro e surdo para a voz do teu Senhor? Por que, caríssimos meus, o nosso modo de viver não impressiona? Por que nosso testemunho do Senhor não contagia os outros? Por que nossas ações não iluminam o mundo em trevas? Porque fugimos do Senhor, porque não deixamos que ele nos toque, nos cure, nos liberte! Sufocamos a graça recebida no batismo! E como a sufocamos? Pela vida frouxa, pela existência displicente, que não leva a sério realmente a ação libertadora do Senhor em nós!

Somos novos de uma nova vida! Novos, cada um de nós; novos, nós todos como Igreja! Somos a comunidade dos que experimentam essa vida nova, dos que vivem já neste mundo o sonho de um novo modo de existir. Não se trata, meus caros, de um ideal sociológico ou simplesmente humanístico: o motivo da vida nova é o Cristo de Deus que, nos dando o seu Santo Espírito, faz-nos criaturas novas, capazes de viver no seu amor e do seu amor. A Igreja é isso: uma comunhão brotada do amor do Cristo – e este amor é o Santo Espírito. Uma comunidade que vive neste Espírito, que não é o do mundo, que não é o da esquerda festiva ou da direita egoísta, do centro omisso ou dos extremos exaltados… Nossa vida, nossa inspiração, nossa força é o Espírito no qual o Pai e o Filho se amam e se dão! Pois bem! Uma comunidade que vive nesse Espírito não admite discriminações injustas, não admite o desprezo de uns pelos outros, sobretudo dos seus membros mais frágeis e pobres. Uma comunidade “espiritual” julga segundo os critérios do Evangelho e descobre que aquilo que para o mundo é frágil, é perdido, é sem valor, na verdade é o que há de mais precioso aos olhos de Deus: “Meus queridos irmãos, escutai: não escolheu Deus os pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que o amam?” Aqui não se trata de bom-mocismo, de uma filantropia meramente humana; trata-se, antes, de uma consciência que brota da contemplação do próprio modo de agir de Deus: ele ama o miserável porque é misericordioso, ele se volta para o pobre, de qualquer pobreza que seja, porque nos ama gratuitamente, e lhe apraz retirar o pobrezinho do monturo e elevá-lo com os nobres do seu povo! Neste sentido, São Tiago nos chama atenção para uma realidade bem concreta, palpável em cada geração: são os pobres, os débeis, os fracos que mais têm fé, que mais se abandonam no Senhor. Quem enche nossas igrejas? Quem é mais generoso para com Deus? Quem mais se esforça para levar a sério os preceitos do Senhor? Quem mais teme a Deus? Em geral, os pobres, os sofredores, os desvalidos! E por quê? Porque ali, na humana miséria, podemos ver sem máscaras aquilo que somos o tempo todo: pobres! Ainda que não queiramos admitir, somos todos pobres, todos necessitados, todos dependentes diante de Deus. Precisamente aqui está a grande bem-aventurança: ser pobre diante de Deus. E são os pobres do mundo e os pobres de nossas comunidades quem melhor nos lembram isso! Olhemos os pobres e vejamos o que somos; sirvamos e honremos os pobres, e serviremos e honraremos aquele por quem e para quem somos!

Neste sentido, a segunda leitura deste hoje é um sério convite a que nos perguntemos sobre como nossa comunidade e nossa casa se comportam em relação aos pobres e carentes do mundo. Damos-lhe atenção? Preocupamo-nos com eles? Uma comunidade cristã – a de casa, da paróquia ou do grupo e movimento de Igreja – que não abra o coração para os pobres, não é comunidade cristã! É incômodo isso que eu digo; mas, é a verdade da Palavra de Deus, que não pode ser maquiada nem domesticada! Nosso comportamento em relação aos pobres definirá nossa situação para sempre diante de Cristo no Último Dia! Disso não tenhamos a mínima dúvida! Portanto, ouçamos e tremamos!

Caríssimos, calem no coração as palavras que o Senhor hoje nos dirigiu. E que esta Eucaristia cure nossa surdez, desate nossa língua e converta o nosso coração. Amém.

D. Henrique Soares