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Mestre, que eu veja! (25-10-2015)

Primeira Leitura:
PROFETAS MAIORES: Livro de Jeremias (Jr), capítulo 31
(7) Porque isto diz o Senhor: Lançai gritos de júbilo por causa de Jacó. Aclamai a primeira das nações. E fazei retumbar vossos louvores, exclamando: O Senhor salvou o seu povo, o resto de Israel. (8) Eis que os trago da terra do norte, e os reúno dos confins da terra. O cego e o coxo estarão entre eles, e também a mulher grávida e a que deu à luz. Será imensa a multidão que há de voltar, (9) e que voltará em lágrimas. Conduzi-la-ei em meio às suas preces, levá-la-ei à beira de águas correntes, por caminhos em que não tropeçarão, porque sou para com Israel qual um pai, e Efraim é o meu primogênito.

Segunda Leitura:
HEBREUS: Epístola aos Hebreus (Hb), capítulo 5
(1) Em verdade, todo pontífice é escolhido entre os homens e constituído a favor dos homens como mediador nas coisas que dizem respeito a Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados. (2) Sabe compadecer-se dos que estão na ignorância e no erro, porque também ele está cercado de fraqueza. (3) Por isso, ele deve oferecer sacrifícios tanto pelos próprios pecados quanto pelos pecados do povo. (4) Ninguém se apropria desta honra, senão somente aquele que é chamado por Deus, como Aarão. (5) Assim também Cristo não se atribuiu a si mesmo a glória de ser pontífice. Esta lhe foi dada por aquele que lhe disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei (Sl 2,7), (6) como também diz em outra passagem: Tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedec (Sl 109,4).
ASS EVANGELHOS: Evangelho segundo São Marcos (Mc), capítulo 10
(46) Chegaram a Jericó. Ao sair dali Jesus, seus discípulos e numerosa multidão, estava sentado à beira do caminho, mendigando, Bartimeu, que era cego, filho de Timeu.
(47) Sabendo que era Jesus de Nazaré, começou a gritar: 'Jesus, filho de Davi, em compaixão de mim!'
(48) Muitos o repreendiam, para que se calasse, mas ele gritava ainda mais alto: 'Filho de Davi, tem compaixão de mim!'
(49) Jesus parou e disse: 'Chamai-o' Chamaram o cego, dizendo-lhe: 'Coragem! Levanta-te, ele te chama.'
(50) Lançando fora a capa, o cego ergueu-se dum salto e foi ter com ele.
(51) Jesus, tomando a palavra, perguntou-lhe: 'Que queres que te faça? Rabôni, respondeu-lhe o cego, que eu veja!
(52) Jesus disse-lhe: Vai, a tua fé te salvou.' No mesmo instante, ele recuperou a vista e foi seguindo Jesus pelo caminho.
Homilia do : Padre Paulo Ricardo
Homilia do Padre Miguel:---
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético
Ver Comentário Exegético
Ver Homilia de Dom Henrique Soares
Ver Homilia de Mons. José Maria
Canção Nova: Homilia

30.º Domingo do Tempo Comum - Deixando as obras da carne

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
(Mc 
10, 46-52)

Naquele tempo, Jesus saiu de Jericó, junto com seus discípulos e uma grande multidão. O filho de Timeu, Bartimeu, cego e mendigo, estava sentado à beira do caminho. Quando ouviu dizer que Jesus, o Nazareno, estava passando, começou a gritar: "Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!"

Muitos o repreendiam para que se calasse. Mas ele gritava mais ainda: "Filho de Davi, tem piedade de mim!"

Então Jesus parou e disse: "Chamai-o". Eles o chamaram e disseram: "Coragem, levanta-te, Jesus te chama!"

O cego jogou o manto, deu um pulo e foi até Jesus. Então Jesus lhe perguntou: "O que queres que eu te faça?" O cego respondeu: "Mestre, que eu veja!"

Jesus disse: "Vai, a tua fé te curou". No mesmo instante, ele recuperou a vista e seguia Jesus pelo caminho.

"Jesus saiu de Jericó" (v. 46) e começou a subida à Jerusalém, para ser crucificado. A esse respeito, comenta São Jerônimo: "O nome da cidade de Jericó corresponde à paixão do Senhor que se aproxima. Esse nome significa, de fato, lua ou anátema, indicando que o fracasso da carne de Cristo é preparação para a Jerusalém celeste" [1]. Para nós, a saída de Jericó também adquire um sentido moral, pois aponta para a íngreme subida que todos têm que trilhar para deixar a vida de "anátema" na carne e no pecado.

"Quando ouviu dizer que Jesus, o Nazareno, estava passando..." (v. 47). Primeiro, então, Bartimeu "ouve dizer". Nele, de fato, assim como em todos os que começam a crer, a audição precede a fé –fides ex auditu (Rm 10, 17). O que acontece, porém, é que a palavra que os ouvidos escutam (revelação externa) junta-se a uma outra, que já toca todos os corações humanos desde dentro (revelação interna), de modo que, quando alguém acolhe a pregação do Evangelho, é como se recebesse aquilo por que já esperava silenciosamente durante toda a sua vida. Quando essas duas revelações entram em sintonia, quando o ser humano, assistido pela graça de Deus, dá com a sua vontade o passo da fé, a primeira coisa a fazer é rezar, ainda que rude e simploriamente, como fez o cego Bartimeu: "Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!" (v. 47).

Quando Nosso Senhor o chamou, diz o Evangelho, "o cego jogou o manto, deu um pulo e foi até Jesus" (v. 50). Essa atitude alude a um dos primeiros efeitos da virtude da fé, que é a purificação do coração – de que fala não só Santo Tomás de Aquino [2], mas o próprio Cristo, no Sermão da Montanha (cf. Mt 5, 8). O manto aqui jogado por Bartimeu consiste, portanto, nos vícios da carne, que cegam a mente e embotam o sentido, como ensina o mesmo Aquinate:

"Os vícios carnais, isto é, a gula e a luxúria, consistem nos prazeres do tato, isto é, nos da mesa e dos atos sexuais; estes são os prazeres mais violentos entre todos os prazeres do corpo. Por isso, por esses vícios, a intenção do homem aplica-se principalmente às coisas corporais e consequentemente sua atividade intelectual se debilita, mais pela luxúria do que pela gula, pois os prazeres sexuais são mais veementes do que os da mesa. Portanto, da luxúria nasce a cegueira da mente que exclui quase totalmente o conhecimento dos bens espirituais; e da gula nasce o embotamento do sentido, que torna o homem débil com respeito às realidades inteligíveis. Ao contrário, as virtudes opostas, isto é, a abstinência e a castidade, dispõem muito bem o homem para a perfeição da atividade intelectual, de onde a palavra de Dn 1, 17: 'Deus deu a estes meninos – isto é, aos que particam a abstinência e a castidade – a ciência e conhecimentos de todas as letras e da sabedoria'." [3]

Quando se fala de pureza, porém, é preciso considerar a radicalidade do que ensina Jesus: "Todo aquele que olhar para uma mulher com o desejo de possui-la, já cometeu adultério com ela em seu coração" (Mt 5, 28). Como ensina a moral tradicional da Igreja, não há parvidade de matéria no que diz respeito ao sexto mandamento [4]. Também os pecados aparentemente pequenos são graves e precisam ser extirpados através de um combate ferrenho e perseverante: não deve haver trégua para o mínimo pensamento impuro ou olhar curioso. Sem essa luta interior e exterior, sem esse "jogar o manto", torna-se praticamente impossível dar o pulo de Bartimeu e correr em direção a Cristo.

"Então Jesus lhe perguntou: 'O que queres que eu te faça?' O cego respondeu: 'Mestre, que eu veja!'" (v. 51). Domine, ut videam!: o pedido de Bartimeu é o mesmo pedido que fazia São Josemaría Escrivá, em seus anos de seminário, antes de fundar o Opus Dei. Trata-se de uma oração importante para crescer na vida interior, cujo cume consiste justamente em ver, em conhecer a Deus pela fé. Nesse processo, é possível distinguir alguns graus:

  1. primeiro, vem o sensível – quando a alma ainda está apegada a certas consolações interiores;
  2. depois, começa a usar-se com mais frequência os sentidos internos, i.e., a imaginação e a memória;
  3. mais adiante, reina a vontade de fazer o que Deus quer, mesmo à custa de contrariedades (que foi o que fez Bartimeu, seguindo Jesus pelo caminho, depois da cura);
  4. por fim, chega-se ao degrau da inteligência, no qual a alma passa a viver puramente de fé – e desabrocha nela, de modo maravilhoso, o dom do entendimento.

Nessa caminhada, é importante atentar para o fato de que uma etapa não necessariamente exclui a anterior. Afinal, Deus deu-nos a sensibilidade, bem como a fantasia, para que O servíssemos também com essas potências. O que não se pode fazer é ficar preso aos estágios inferiores, quando Deus nos chama a ir para águas mais profundas (cf. Lc 5, 4).

Que o itinerário de conversão do cego do Evangelho, portanto, seja também o nosso: primeiro, acolhamos a Palavra; depois, deixemos as obras da carne; e, por fim, cresçamos na fé, até atingirmos a estatura de Cristo (cf. Ef 4, 13).

Referências

  1. Catena Aurea in Marcum, 10, 8.
  2. Cf. Suma Teológica, II-II, q. 7, a. 2.
  3. Suma Teológica, II-II, q. 15, a. 3.
  4. Cf., v.g., MARIN, Antonio Royo. Teología moral para Seglares. Biblioteca de Autores Cristianos: Madrid, 2012, p. 529s.
Padre Paulo Ricardo

Mestre, que eu veja!

Comecemos nossa meditação da Palavra de Deus com a primeira leitura. Muitas vezes, na sua história, o povo de Deus experimentou a escravidão, o exílio e a opressão. Muitas vezes Israel experimentou-se como um nada e viu-se numa escuridão tremenda. Parecia que o povo iria acabar-se! Assim, por exemplo, em 722 aC, quando os assírios varreram do mapa o reino do Norte, o Reino de Israel e, em 597 e 587 aC, quando os israelitas do Reino de Judá foram levados para o exílio em Babilônia. É quase um escândalo, mas é verdade: a história do povo de Deus é uma história de dor e de angústia! Pois bem, é no meio de tal angústia e escuridão que o Profeta fala hoje e diz palavras de esperança, de ânimo e de alegria: “Exultai de alegria, aclamai a primeira entre as nações!

Eis que os trarei do país do Norte e os reunirei desde as extremidades da terra”. No meio da desgraça, Deus consola o seu povo: irá salvá-lo, reuni-lo, fazê-lo reviver. Mas, quem é esse povo? No que se tornou? Quem somos nós, povo de Deus? “Entre eles há cegos e aleijados, mulheres grávidas e parturientes. Eles chegarão entre lágrimas e eu os receberei entre preces, eu os conduzirei por torrentes d’água por um caminho reto onde não tropeçarão… tornei-me um pai para Israel e Efraim é o meu primogênito”. O Israel que vai experimentar a salvação de Deus é um povo pobre, capenga, humilde… um povo que não conta nada aos olhos do mundo! Como não recordar as palavras de São Paulo aos coríntios? “Vede quem sois, irmãos, vós que recebestes o chamado de Deus; não há entre vós muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de família prestigiosa. Mas o que é loucura no mundo, Deus o escolheu para confundir os sábios; e, o que é fraqueza no mundo, Deus o escolheu para confundir o que é forte; e o que no mundo é vil e desprezado, o que não é, Deus escolheu para reduzir a nada o que é” (1Cor 1,26-28).

Quando pensamos na nossa civilização atual, nos nossos valores, exaltando a eficiência, a riqueza, o conforto, o bem-estar, o vigor e forma física, a saúde… Como os critérios de Deus são diferentes! Israel é imagem da Igreja e é imagem de cada um de nós, membro do povo de Deus da nova Aliança. À medida que descobrirmos nossas pobrezas pessoais e eclesiais, podemos também ter certeza que o Senhor não nos abandona: ele nos chama, ele nos reúne, ele nos salva: “Entre eles há cegos e aleijados, mulheres grávidas e parturientes”, gente fraca, gente sem força, gente incapaz de se defender… Mas, Deus é nossa defesa: defesa da Igreja, defesa de cada um de nós! Se caminharmos, muitas vezes, chorando, semeando com lágrimas o caminho de nosso seguimento de Cristo, haveremos de voltar cantando, na força e na graça do Senhor: “Mudai a nossa sorte, ó Senhor, como torrentes no deserto. Os que lançam as sementes entre lágrimas, ceifarão com alegria. Chorando de tristeza sairão, espalhando suas sementes; cantando de alegria voltarão, carregando os seus feixes”. Somente pode experimentar isso aqueles que sabem e experimentam que são pobres diante de Deus, aqueles que sentem sua própria fraqueza! Esta é a experiência que o cristão deve fazer sempre na sua vida, seja pessoalmente, seja como Igreja! Somos pobres, mas Deus é nossa riqueza; somos fracos, mas Deus é nossa força!

Agora podemos deter-nos no Evangelho de hoje, que mostra de modo maravilhoso essa experiência cristã de ser salvo por Deus em Jesus Cristo. Jesus está saindo de Jericó, já está perto de Jerusalém, onde morrerá. Uma multidão o acompanha: barulho, empurra-empurra, aglomeração, aperreio… À beira do caminho, havia um cego mendigo… Ele era ninguém, nem nome tinha… Marcos só diz que era o “bar-Timeu”, o filho de Timeu… Cego, incapaz de caminhar sozinho, esmolando, sentado à margem do caminho de Jericó e da vida. Este cego é a humanidade; este cego é cada um de nós! Mas, ele ouve o rumor, a confusão no caminho e quando ouviu dizer que Jesus estava passando, não perde tempo; é a chance de sua vida! Ele grita alto: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!” Repreendem o cego, mas ele grita com voz mais forte! Ele sabe que é a chance da sua vida. Santo Agostinho dizia: “Eu temo o Cristo que passa”… É preciso não perder a chance, é preciso gritar… não deixar o Cristo passar em vão no caminho da nossa existência!

O grito do cego é já um grito de fé. Chamando Jesus “filho de Davi”, o Bartimeu está dizendo que crê que Jesus é o messias: “Filho de Davi, tem piedade de mim!” Repreendem o cego… como o mundo quer nos repreender, quer nos impedir e ridicularizar quando nos reconhecemos cegos, pobres e coxos e gritamos por Jesus: “Filho de Davi, tem piedade de mim!” Mas o cego insiste; grita mais alto ainda! Então, apesar da distância, apesar da multidão, apesar do empurra-empurra, Jesus escuta o clamor do cego! Como não recordar, comovidos, as palavras do salmo 129? “Das profundezas eu clamo a vós, Senhor; escutai a minha súplica!” Ninguém grita pelo Senhor do fundo da sua miséria e fica sem ser ouvido! “Então, Jesus parou e disse: ‘Chamai-o’. O cego jogou o manto, deu um pulo e foi até Jesus”. Cego esperto, esse: não perde tempo, dá um pulo, deixa tudo, desembaraça-se do manto e corre para Jesus! Ele segue o conselho do Autor da Carta aos Hebreus: “Também nós, rejeitando todo fardo e o pecado que nos envolve, corramos com perseverança para a corrida que nos é proposta, com os olhos fixos naquele que é o Autor e Realizador da fé, Jesus” (12,1s). Quem dera, fizéssemos assim também: largássemos tudo, deixássemos nossas tralhas e bagulhos, nossos apegos e quinquilharias e corrêssemos para Jesus!

E Jesus? Que delicadeza! Não vai logo curando, como esses curadores de televisão, os falsos profetas da telinha, os RR Soares e Edir Macedos da vida! O Senhor deseja encontrar as pessoas, ouvi-las, com todo respeito: “O que queres que eu te faça?” O pedido do cego é comovente; é o nosso pedido: “’Mestre, que eu veja!’ Jesus disse: ‘Vai, a tua fé te curou’”. Este deve ser o nosso pedido, mas, para isso é necessário ter a humildade de se reconhecer cego, pobre, necessitado! “Senhor, eu sou o cego do caminho! Cura-me, eu te quero ver!”

O cego foi curado… “e seguia Jesus pelo caminho”. Curado, iluminado por Jesus, agora seguia Jesus como discípulo, caminhando com ele para Jerusalém, para com ele morrer e com ele ressuscitar. Esta é a nossa vocação, este deve ser o nosso itinerário, a nossa experiência de fé!

“Senhor, tua Igreja, peregrina no mundo, é um povo de pobres, de frágeis seres humanos. Mas confiamos em ti! Não queremos colocar nossas força ou esperança no nosso prestígio, ou nas riquezas ou nos amigos poderosos o nos elogios do mundo. Não! Tu somente és nossa força! Salva-nos, Senhor! Reúne-nos, Senhor! Ilumina-nos, Senhor! Dá-nos a graça de reconhecer que somente na tua luz poderemos ver a luz! O mundo chama luz, sabedoria e esperteza a coisas que são inaceitáveis aos teus olhos! Senhor, abre nossos olhos para caminharmos na tua luz até a cruz, até a ressurreição, até à vida. Senhor, arranca-nos da nossa cegueira. Amém”.

D. Henrique Soares