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As Tentações de Cristo (14-02-2016)

Primeira Leitura:
PENTATEUCO: Livro do Deuteronômio (Dt), capítulo 26
(4) O sacerdote, recebendo o cesto de tua mão depô-lo-á diante. do altar do Senhor, teu Deus. (5) Dirás então em presença do Senhor, teu Deus: meu pai era um arameu prestes a morrer, que desceu ao Egito com um punhado de gente para ali viverem como forasteiros, mas tornaram-se ali um povo grande, forte e numeroso. (6) Os egípcios afligiram-nos e oprimiram-nos, impondo-nos uma penosa servidão. (7) Clamamos então ao Senhor, o Deus de nossos pais, e ele ouviu nosso clamor, e viu nossa aflição, nossa miséria e nossa angústia. O Senhor tirou-nos do Egito com sua mão poderosa e o vigor de seu braço, (8) operando prodígios e portentosos milagres. (9) Conduziu-nos a esta região e deu-nos esta terra que mana leite mel. (10) Por isso trago agora as primícias dos frutos do solo que me destes, ó Senhor. Dito isto, deporás o cesto diante do Senhor, teu Deus, prostrando-te em sua presença.

Segunda Leitura:
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Epístola de São Paulo aos Romanos (Rm), capítulo 10
(8) Que diz ela, afinal? A palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração (Dt 30,14). Essa é a palavra da fé, que pregamos. (9) Portanto, se com tua boca confessares que Jesus é o Senhor, e se em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. (10) É crendo de coração que se obtém a justiça, e é professando com palavras que se chega à salvação. (11) A Escritura diz: Todo o que nele crer não será confundido (Is 28,16). (12) Pois não há distinção entre judeu e grego, porque todos têm um mesmo Senhor, rico para com todos os que o invocam, (13) porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo (Jl 3,5).
EVANGELHOS: Evangelho segundo São Lucas (Lc), capítulo 4
(1) Cheio do Espírito Santo, voltou Jesus do Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto,
(2) onde foi tentado pelo demônio durante quarenta dias. Durante este tempo ele nada comeu e, terminados estes dias, teve fome.
(3) Disse-lhe então o demônio: Se és o Filho de Deus, ordena a esta pedra que se torne pão.
(4) Jesus respondeu: Está escrito: Não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra de Deus (Dt 8,3).
(5) O demônio levou-o em seguida a um alto monte e mostrou-lhe num só momento todos os reinos da terra,
(6) e disse-lhe: Dar-te-ei todo este poder e a glória desses reinos, porque me foram dados, e dou-os a quem quero.
(7) Portanto, se te prostrares diante de mim, tudo será teu.
(8) Jesus disse-lhe: Está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e a ele só servirás (Dt 6,13).
(9) O demônio levou-o ainda a Jerusalém, ao ponto mais alto do templo, e disse-lhe: Se és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo,
(10) porque está escrito: Ordenou aos seus anjos a teu respeito que te guardassem.
(11) E que te sustivessem em suas mãos, para não ferires o teu pé nalguma pedra (Sl 90,11s.).
(12) Jesus disse: Foi dito: Não tentarás o Senhor teu Deus (Dt 6,16).
(13) Depois de tê-lo assim tentado de todos os modos, o demônio apartou-se dele até outra ocasião.
Homilia do : Padre Paulo Ricardo
Homilia do Padre Miguel:---
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético
Ver Homilia de Dom Henrique Soares
Ver Homilia de Mons. José Maria
Ver Homilia do Pe. Françoá Costa
Canção Nova: Homilia

1.º Domingo da Quaresma - Uma Quaresma para mudar a sua vida

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc
 4, 1-13)

Naquele tempo, Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão, e, no deserto, ele era guiado pelo Espírito. Ali foi tentado pelo diabo durante quarenta dias. Não comeu nada naqueles dias e, depois disso, sentiu fome. O diabo disse, então, a Jesus: "Se és Filho de Deus, manda que esta pedra se mude em pão". Jesus respondeu: "A Escritura diz: 'Não só de pão vive o homem'"

O diabo levou Jesus para o alto, mostrou-lhe por um instante todos os reinos do mundo e lhe disse: "Eu te darei todo este poder e toda a sua glória, porque tudo isto foi entregue a mim e posso dá-lo a quem quiser. Portanto, se te prostrares diante de mim em adoração, tudo isso será teu".

Jesus respondeu: "A Escritura diz: 'Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás'".

Depois o diabo levou Jesus a Jerusalém, colocou-o sobre a parte mais alta do Templo e lhe disse: "Se és Filho de Deus, atira-te daqui abaixo! Porque a Escritura diz: 'Deus ordenará aos seus anjos a teu respeito, que te guardem com cuidado!' E mais ainda: 'Eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra'".

Jesus, porém, respondeu: "A Escritura diz: 'Não tentarás o Senhor teu Deus'".

Terminada toda a tentação, o diabo afastou-se de Jesus, para retornar no tempo oportuno.

*

É do brilhante comentário do Doutor Angélico à passagem da tentação de Cristo (cf. Suma Teológica, III, q. 41) que foram retiradas as pérolas para esta meditação. A todos que puderem e quiserem ler as suas próprias palavras, na íntegra, remetemos as conhecidas palavras do Papa Pio XI, em sua encíclica Studiorum Ducem: "Ide a Tomás".

O Evangelho deste domingo carrega um traço característico da pena de São Lucas, que é a sua constante referência ao Espírito Santo. Também quando vai ao deserto para ser tentado, Jesus é "guiado pelo Espírito" (v. 1). São João Crisóstomo explica essa ligação dizendo que:

"Não só Cristo foi levado pelo Espírito ao deserto, mas o são também todos os filhos de Deus, que têm o Espírito Santo. Estes não se contentam em ficar ociosos, mas o Espírito Santo os urge a empreender grandes obras; e isso, para o diabo, é estar no deserto, onde não há a injustiça com que ele se compraz. Toda boa obra também é deserto para a carne e para o mundo, já que contraria a vontade tanto de uma quanto de outro." [1]

Note-se a menção que São João Crisóstomo faz dos três inimigos da alma. Quem quer que tenha rompido com os dois primeiros, abandonando as obras da carne e a mentalidade mundana, é guiado pelo Espírito ao deserto, onde deve combater contra o demônio. Trata-se do grande desafio de quem quer aderir ao #ProjetoSegundaMorada e avançar na vida interior. "Não há dúvida de que a alma passa aqui por grandes sofrimentos – adverte Santa Teresa d'Ávila –, em particular quando, por seus costumes e condições, o demônio percebe que ela pode avançar muito no caminho de Deus. Todo o inferno se juntará para obrigá-­la a sair dessa morada" [2]. A razão disso é que quem se esforça "para chegar ao auge da perfeição (...) nunca vai sozinho ao céu, levando sempre muita gente consigo" [3].

Alguém pode pensar que, se é para ser assaltado pelo demônio, melhor é nem entrar no deserto e deixar tudo como está. Acontece que quem decide fugir desse combate espiritual, na verdade, já se alistou para as fileiras do inimigo. O diabo nem se preocupa mais em tentar essas pessoas, uma vez que elas já lhe entregaram a alma. Trata-se, pois, de uma falsa paz, essa de quem cruza os braços e se contenta com a ociosidade.

Ao contrário, aqueles que se determinam a fazer a vontade de Deus são realmente atazanados pelo maligno. Por isso, Cristo, guiado pelo Espírito Santo, vai para o deserto como um atleta [4], como um combatente que se dirige ao "campo de batalha" (S. Th., III, q. 41, a. 2), a fim de dar-nos o exemplo.

Ele também o faz para nos trazer auxílio contra as tentações. "Não era indigno de nosso Redentor – ensina São Gregório Magno – que quisesse ser tentado, ele que veio para ser morto; ele quis vencer as nossas tentações com as suas, assim como venceu com a sua a nossa morte" [5]. Há, portanto, uma dimensão redentora nas tentações sofridas por Cristo: vencendo o diabo com a Sua carne, Ele ajuda os homens a vencerem-no também.

De fato, a Sua vitória é alcançada pela Sua humanidade, conforme explicam os Santos Padres, porque "o diabo devia ser vencido não pelo poder de Deus, mas por sua justiça" [6], ao que acrescenta São Leão Magno: "Cristo assim agiu não só para mais honrar o homem, mas também para mais punir o adversário, uma vez que o inimigo do gênero humano seria vencido não como por Deus, mas como pelo próprio homem" [7].

Há, por fim, uma última dimensão a ser considerada sobre essa passagem da vida de Cristo. No mesmo Evangelho de S. Lucas (22, 31-32), Nosso Senhor diz a São Pedro: "Simão, Simão! Satanás pediu permissão para peneirar-vos, como se faz com o trigo. Eu, porém, orei por ti, para que tua fé não desfaleça. E tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos". Depois de auxiliar-nos nas tentações, Cristo quer que também nós ajudemos o próximo a vencê-las. Ele ora por nós, e nós, uma vez confirmados, devemos constituir uma família espiritual e gerar a salvação para os outros.

Ninguém se espante que a sentença de Cristo a Pedro possa ser aplicada também a cada um de nós. Como ensina o Papa Pio XII em sua encíclica Mystici Corporis, "ele, pela visão beatífica de que gozou apenas concebido no seio da Mãe Santíssima, tem continuamente presente todos os membros do seu corpo místico e a todos abraça com amor salvífico" (n. 75). Ele não amou a humanidade genérica, mas a cada um, individualmente; permite que todos sejam tentados, mas, ao mesmo tempo, intercede continuamente para que não desfaleçamos; pede que todos anunciemos a Sua boa nova e confirmemos os nossos irmãos.

Vivamos, pois, esta Quaresma para responder generosamente a esse amor tão grande de Deus por cada um de nós. A Sua graça verdadeiramente opera em nossas almas, mas depende de que nós cooperemos com ela. Que esses quarenta dias de oração e de penitência sejam um marco em nossas vidas e um tempo de verdadeira ascensão espiritual. Cristo está conosco e intercede por nós. Maria Santíssima, que esmaga com seus pés a cabeça da serpente, também nos precede no deserto (cf. Ap 12, 6).

Referências

  1. Obra imperf. sobre S. Mateus, 5, super 4, 1 (PG 56, 662-663).
  2. Moradas, II, 5.
  3. Livro da Vida, 11, 4.
  4. Orígenes, Homilias sobre o Evangelho de S. Mateus, 31, super 4, 9 (PG 13, 1879B).
  5. Sermões sobre os Evangelhos, I, 16, 1 (PL 76, 1135C).
  6. Santo Agostinho, Da Trindade, XIII, 13 (PL 42, 1026).
  7. Sermões, 39, 3 (PL 54, 265A).
Padre Paulo Ricardo

As Tentações de Cristo

Neste início de Quaresma, a liturgia faz-nos pensar na Páscoa. Isto porque o tempo quaresmal não é um fim em si mesmo, mas é caminho de luta e combate espiritual para bem celebrarmos, com o coração dilatado, a Páscoa do Senhor, maior de todas as festas cristãs.

Na primeira leitura, o Deuteronômio apresenta-nos o rito de oferta das primícias da colheita: ao apresentar ao Senhor Deus o fruto da terra, o israelita piedoso confessava que pertencia a um povo de estrangeiros e peregrinos, vindos do Pai Jacó, que não passava de um arameu errante. O israelita fiel recordava diante de Deus a história de Israel, história de escravidão e de libertação: “Meu pai era um arameu errante, que desceu ao Egito… Ali se tornou um povo grande, forte e numeroso. Os egípcios nos oprimiram. Clamamos ao Senhor… e o Senhor ouviu a nossa voz e viu a nossa opressão… E o Senhor nos tirou do Egito… E conduziu-nos a este lugar e nos deu esta terra… Por isso eu trago os primeiros frutos da terra que tu me deste, Senhor”. Éramos ninguém e o Senhor nos libertou, deu-nos uma vida nova – eis o resumo da história e da experiência de Israel! Esta também é a nossa experiência, como Igreja, Novo Israel: “Se com a tua boca confessares Jesus como Senhor e, no teu coração creres que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo”. Também a nossa história é de libertação: éramos escravos, todos nós, do grande Faraó, o Pecado que nos destrói e destrói o mundo. Mas Deus enviou o seu Filho numa carne de pecado (numa natureza sujeita às conseqüências do pecado): ele desceu a este mundo e entrou na nossa miséria, até a morte, a nossa morte. Deus o arrancou da morte; ressuscitou-o e fez dele Senhor e Cristo e quem nele crer e confessá-lo como Senhor na sua vida, encontra a salvação; encontra um novo modo de viver, encontra a paz, encontra já agora a comunhão com Deus e, depois, a Vida eterna! Assim, Israel nasceu da Páscoa do deserto; a Igreja nasceu da Páscoa de Cristo. Israel era escravo, atravessou o mar e o deserto e tornou-se um povo livre para o Senhor. Nós éramos escravos, éramos ninguém, atravessamos as águas do Batismo com Cristo, e ainda que caminhemos neste deserto da vida, somos um povo livre para o Senhor nosso Deus.

O tempo da Quaresma prepara-nos para celebrar este mistério tão grande! Recordemos que a ressurreição de Cristo é causa da nossa ressurreição, é motivo da nossa comunhão com Deus é a razão da nossa fé cristã! Há apenas dois domingos, São Paulo dizia abertamente: “Se Cristo não ressuscitou, vã é a vossa fé, ainda estais em vossos pecados!” (1Cor 15,17). Pois bem, neste sagrado tempo quaresmal, a Igreja nos quer preparar para a santa Páscoa, para que revivamos em nós, pessoal e comunitariamente, a libertação que Cristo nos trouxe com a sua vitória. Por isso, a Quaresma é um tempo de combate espiritual e de luta contra o pecado. É um tempo de seríssimo exame de consciência e de reorientação de nossa adesão ao Cristo Jesus. Só assim, atravessaremos o deserto dos quarenta dias rumo à Terra Prometida da Páscoa de Cristo, que se torna nossa Páscoa. Nosso caminho quaresmal recorda e celebra tantas quaresmas: a do dilúvio, quando durante quarenta dias e quarenta noites o Senhor Deus purificou a terra e a humanidade; a de Moisés, que durante quarenta dias e quarenta noites jejuou e orou sobre o Sinai para encontrar o Senhor que lhe daria a Lei; a de Israel, que caminhou no deserto durante quarenta anos; a de Elias profeta, que caminhou quarenta dias pelo deserto rumo ao Horeb, monte de Deus; a quaresma de Jesus, que antes de iniciar publicamente seu ministério, jejuou e orou quarenta dias e quarenta noites. Eis o caminho de Deus, eis o nosso caminho: caminho de combate espiritual, de busca de Deus, de luta interior, de conversão! Sem Quaresma ninguém celebra verdadeiramente a Páscoa do Senhor!

O evangelho de hoje, apresentando-nos as tentações de Jesus, nos ensina a combater: ele venceu Satanás ali, onde Israel fora vencido: Israel pecou contra Deus murmurando por pão; Jesus abandonou-se ao Pai e venceu; Israel pecou adorando o bezerro de ouro; Jesus venceu recusando dobrar os joelhos diante da proposta de Satanás; Israel pecou tentando a Deus em Massa e Meriba; Jesus rejeitou colocar Deus à prova. Nas tentações de Cristo estão simbolizadas as nossas tentações: a concupiscência da carne (o prazer e a satisfação desregrada dos sentidos), a concupiscência dos olhos (a riqueza e o apego aos bens materiais) e a soberba da vida (o poder e o orgulho auto-suficiente e dominador). Ora, Jesus foi tentado como nós, tentado por nossa causa, por amor de nós. Ele foi tentado como nós, para que nós vençamos como ele! Ele foi tentado não somente naqueles quarenta dias. O evangelho diz que “terminada toda a tentação, o diabo afastou-se de Jesus, para retornar no tempo oportuno”. A tentação de Jesus foi até a cruz, quando ele, no combate final, colocou toda a vida nas mãos do Pai e pelo Pai foi ressuscitado, tornando-se causa de vida e ressurreição para nós, que nele cremos, que o seguimos, com ele combatemos e o proclamamos Senhor ressuscitado.

Caminhemos neste santo tempo rumo à Páscoa; usemos como armas de combate no caminho quaresmal a oração, a penitência e a esmola do amor fraterno para que, ao final do caminho, sejamos mais conformes à imagem bendita do Cristo Jesus ressuscitado, nosso Senhor e Deus, vencedor do Maligno e da morte, a quem seja a glória pelos séculos. Amém.

Dom Henrique Soares