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Das trevas até a luz (21-02-2016)

Primeira Leitura:
PENTATEUCO: Livro do Gênesis (Gn), capítulo 15
(5) E, conduzindo-o fora, disse-lhe: “Levanta os olhos para os céus e conta as estrelas, se és capaz... Pois bem, ajuntou ele, assim será a tua descendência.” (6) Abrão confiou no Senhor, e o Senhor lho imputou para justiça. (7) E disse-lhe: “Eu sou o Senhor que te fiz sair de Ur da Caldéia para dar-te esta terra.” (8) “O Senhor Javé, como poderei saber se a hei de possuir?” (9) “Toma uma novilha de três anos, respondeu-lhe o Senhor, uma cabra de três anos, um cordeiro de três anos, uma rola e um pombinho.” (10) Abrão tomou todos esses animais, e dividiu-os pelo meio, colocando suas metades uma defronte da outra, mas não cortou as aves. (11) Vieram as aves de rapina e atiraram-se sobre os cadáveres, mas Abrão as expulsou. (12) E eis que, ao pôr-do-sol, veio um profundo sono a Abrão, ao mesmo tempo que o assaltou um grande pavor, uma espessa escuridão. (13) O Senhor disse-lhe: “Sabe que teus descendentes habitarão como peregrinos uma terra que não é sua, e que nessa terra eles serão escravizados e oprimidos durante quatrocentos anos. (14) Mas eu julgarei também o povo ao qual estiverem sujeitos, e sairão em seguida dessa terra com grandes riquezas. (15) Quanto a ti, irás em paz juntar-se aos teus pais, e serás sepultado numa ditosa velhice. (16) Somente à quarta geração os teus descendentes voltarão para aqui, porque a iniqüidade dos amorreus não chegou ainda ao seu cúmulo.” (17) Quando o sol se pôs, formou-se uma densa escuridão, e eis que um braseiro fumegante e uma tocha ardente passaram pelo meio das carnes divididas. (18) Naquele dia, o Senhor fez aliança com Abrão: “Eu dou, disse ele, esta terra aos teus descendentes, desde a torrente do Egito até o grande rio Eufrates:

Segunda Leitura:
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Epístola aos Filipenses (Fl), capítulo 3
(17) Irmãos, sede meus imitadores, e olhai atentamente para os que vivem segundo o exemplo que nós vos damos. (18) Porque há muitos por aí, de quem repetidas vezes vos tenho falado e agora o digo chorando, que se portam como inimigos da cruz de Cristo, (19) cujo destino é a perdição, cujo deus é o ventre, para quem a própria ignomínia é causa de envaidecimento, e só têm prazer no que é terreno. (20) Nós, porém, somos cidadãos dos céus. É de lá que ansiosamente esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, (21) que transformará nosso mísero corpo, tornando-o semelhante ao seu corpo glorioso, em virtude do poder que tem de sujeitar a si toda criatura.
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Epístola aos Filipenses (Fl), capítulo 4
(1) Portanto, meus muito amados e saudosos irmãos, alegria e coroa minha, continuai assim firmes no Senhor, caríssimos.
EVANGELHOS: Evangelho segundo São Lucas (Lc), capítulo 9
(28) Passados uns oitos dias, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, e subiu ao monte para orar.
(29) Enquanto orava, transformou-se o seu rosto e as suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura.
(30) E eis que falavam com ele dois personagens: eram Moisés e Elias,
(31) que apareceram envoltos em glória, e falavam da morte dele, que se havia de cumprir em Jerusalém.
(32) Entretanto, Pedro e seus companheiros tinham-se deixado vencer pelo sono, ao despertarem, viram a glória de Jesus e os dois personagens em sua companhia.
(33) Quando estes se apartaram de Jesus, Pedro disse: Mestre, é bom estarmos aqui. Podemos levantar três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias!... Ele não sabia o que dizia.
(34) Enquanto ainda assim falava, veio uma nuvem e encobriu-os com a sua sombra, e os discípulos, vendo-os desaparecer na nuvem, tiveram um grande pavor.
(35) Então da nuvem saiu uma voz: Este é o meu Filho muito amado, ouvi-o!
Homilia do : Padre Paulo Ricardo
Homilia do Padre Miguel:---
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético
Ver Homilia de Dom Henrique Soares
Ver Homilia de Mons. José Maria
Ver Homilia do Pe. Françoá Costa
Canção Nova: Homilia

2.º Domingo da Quaresma - Nossa meta é a glória do Céu

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc
9, 28-35)

Naquele tempo, Jesus levou consigo Pedro, João e Tiago, e subiu à montanha para rezar. Enquanto rezava, seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou muito branca e brilhante.

Eis que dois homens estavam conversando com Jesus: eram Moisés e Elias. Eles apareceram revestidos de glória e conversavam sobre a morte, que Jesus iria sofrer em Jerusalém.

Pedro e os companheiros estavam com muito sono. Ao despertarem, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com ele.

E, quando estes dois homens se iam afastando, Pedro disse a Jesus: "Mestre, é bom estarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias". Pedro não sabia o que estava dizendo.

Ele estava ainda falando, quando apareceu uma nuvem que os cobriu com sua sombra. Os discípulos ficaram com medo ao entrarem dentro da nuvem.
Da nuvem, porém, saiu uma voz que dizia: "Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutai o que ele diz!"

Enquanto a voz ressoava, Jesus encontrou-se sozinho. Os discípulos ficaram calados e naqueles dias não contaram a ninguém nada do que tinham visto.

*

A transfiguração do Senhor, narrada por São Lucas Evangelista neste domingo, precede o início da subida de Jesus a Jerusalém para ser crucificado. Trata-se realmente de uma preparação para a Sua entrega sacrifical, e a conveniência desse episódio é explicada de modo completo por Santo Tomás de Aquino:

"Depois de anunciar aos discípulos a sua paixão, o Senhor os convidou a que o seguissem. Ora, para caminhar retamente, a pessoa deve saber de algum modo para onde vai, assim como o arqueiro, antes de lançar a flecha, deve mirar o alvo. Foi o que disse Tomé: 'Senhor, não sabemos para onde vais; como podemos conhecer o caminho?' (Jo 14, 5). Isso é particularmente necessário quando o caminho é difícil e áspero, a jornada trabalhosa e a meta agradável. Cristo, com a paixão, devia alcançar a glória não só da alma, esta a possuía desde o início de sua concepção, mas também do corpo, como está escrito: 'Era necessário que o Messias sofresse essas coisas e assim entrasse em sua glória' (Lc 24, 26). A essa glória Cristo conduz os que seguem as pegadas de sua paixão, como diz At 14, 21: 'É necessário passar por muitos sofrimentos para entrar no Reino dos céus'. Por isso era conveniente que Cristo mostrasse aos discípulos a glória de sua claridade (e isto é ser transfigurado), à qual há de configurar os que o seguem, como diz Fl 3, 21: 'Transformará o nosso pobre corpo tornando-o semelhante ao seu corpo glorioso'. Comentando o Evangelho de São Marcos, diz Beda: 'Saboreando por alguns instantes, por pia providência, o gozo definitivo, os discípulos haveriam de suportar com mais fortaleza as adversidades'." (S. Th., III, q. 45, a. 1)

Neste tempo da Quaresma, a transfiguração é um lembrete muito importante: lembra que os jejuns e mortificações desses quarenta dias no deserto só têm sentido por causa da glória do Céu. Caso contrário, a religião cristã não passaria de masoquismo e idolatria à dor. Jesus Se transfigura diante de Seus discípulos para mostrar a finalidade da Cruz: o ingresso na vida celeste, primeiro Cristo, como "primogênito entre os mortos" (cf. Cl 1, 18), depois nós, como membros de Seu corpo.

Outra importante consideração do Aquinate é a comparação entre esse episódio da transfiguração com o evento do batismo do Senhor no rio Jordão. Curiosamente, são os únicos momentos da vida de Cristo em que o próprio Pai dá testemunho da filiação do Verbo encarnado. Eis o porquê:

"A adoção de filhos de Deus se dá pela conformidade da imagem com o Filho de Deus por natureza. E isso de dois modos: primeiro, pela graça do caminho, que é uma conformidade imperfeita; segundo, pela glória, que é a conformidade perfeita, como está em 1 Jo 3, 2: 'Desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos. Sabemos que, quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é'. Portanto, uma vez que pelo batismo alcançamos a graça, e na transfiguração nos foi mostrada a claridade da glória futura, era conveniente manifestar, tanto no batismo, como na transfiguração, a filiação natural de Cristo pelo testemunho do Pai, uma vez que ele é o único que tem consciência perfeita daquele perfeita geração, juntamente com o Filho e o Espírito Santo." (S. Th., III, q. 45, a. 4)

A conexão entre a graça e a glória, entre o nosso nascimento como cristãos e o nosso nascimento para a vida definitiva, é uma constante no ensinamento dos santos e do Magistério. O bem-aventurado John Henry Newman dizia, por exemplo, que "grace is glory in exile and glory is grace at home – a graça é a glória no exílio e a glória é a graça em casa".

Se o fim da vida cristã é a glória celeste, a identidade e missão da Igreja não podem ser outras senão levar os homens a essa comunhão com Deus. A atual crise que assola a sociedade deve-se, em grande parte, ao fato de as pessoas terem perdido a bússola que deve orientar as suas vidas – e à omissão da Igreja em anunciar aos homens o que lhes pode trazer à paz. A religião cristã católica não é uma ONG ou uma "pedagogia espiritualista" para construir um mundo melhor. A finalidade da Igreja não é este mundo, mas o vindouro.

É claro que, no esforço por chegar ao Céu, também as realidades terrenas ganham um novo sabor. Basta pensar no trabalho de tantos santos e santas de Deus que, esquecendo-se de si mesmos e das coisas deste mundo, elevaram a humanidade e transformaram o ambiente à sua volta. Mas isso é apenas a consequência de quem trabalha tendo em vista o sobrenatural. Quem vive pensando tão somente no poder e no prazer terrenais, termina convertendo tudo à sua volta em inferno. Foi o que fizeram os nazifascistas na Europa, e os comunistas, por onde quer que tenham passado.

Resgatemos a nossa identidade, e tenhamos os olhos fixos no Reino dos céus, colocando todo o nosso empenho em fazer a vontade de Deus – mesmo que, para isso, devamos renunciar à nossa. Assim como Cristo "obedeceu até a morte, e morte de cruz" (Fl 2, 8), sigamos também nós o caminho da obediência, crucificando o nosso egoísmo para, um dia, chegarmos também nós ao Tabor da transfiguração.

Padre Paulo Ricardo


Das trevas até a luz

Antes de tudo, duas observações: (1) A Palavra de Deus, neste Domingo, apresenta-nos um contraste muito forte entre escuridão e luz: escuridão da noite do Pai Abraão e luz do Cristo transfigurado; (2) chama atenção, num tempo tão austero como a Quaresma um evangelho tão esfuziante como o da Transfiguração. Não cairia melhor na Páscoa, este texto? Por que a Igreja o coloca aqui, no início do tempo quaresmal?
Comecemos pela primeira leitura. Aí, Abraão nos é apresentado numa profunda crise; Deus tinha lhe prometido uma descendência e uma terra e, quase vinte e cinco anos após sua saída de seu pátria e de sua família, o Senhor ainda não lhe dera nada, absolutamente nada! Numa noite escura, noite da alma, Abraão, não mais se conteve e perguntou: “Meu Senhor Deus, que me darás?” (Gn 15,2) Deus, então, “conduziu Abrão para fora e disse-lhe: ‘Olha para o céu e conta as estrelas, se fores capaz! Assim será a tua descendência!” Deus tira Abraão do seu mundozinho, de seu modo de ver estreito, da sua angústia, e convida-o a ver e sentir com os olhos e o coração do próprio Deus. “Abrão teve fé no Senhor”. Abraão esperou contra toda esperança, creu contra toda probabilidade, apostando tudo no Senhor, apoiando nele todo seu futuro, todo o sentido de sua existência! Abraão creu! Por isso Deus o considerou seu amigo, “considerou isso como justiça!” E, como recompensa Deus selou uma aliança com nosso Pai na fé: “’Traze-me uma novilha, uma cabra, um carneiro, além de uma rola e uma pombinha’. Abrão trouxe tudo e dividiu os animais ao meio. Aves de rapina se precipitaram sobre os cadáveres, mas Abrão as enxotou. Quando o sol ia se pondo, caiu um sono profundo sobre Abrão e ele foi tomado de grande e misterioso terror”. Abrão entra em crise: no meio da noite – noite cronológica, atmosférica; noite no coração de Abrão – no meio da noite, as aves de rapina ameaçam, e o sono provocado pelo desânimo e a tristeza, rondam nosso Pai na fé… Deus demora, Deus parece ausente, Deus parece brincar com Abraão! Tudo é noite, como muitas vezes na nossa vida e na vida do mundo! Mas, ele persevera, vigia, luta contra as aves rapineiras e o torpor… E, no meio da noite e da desolação, Deus passa, como uma tocha luminosa: “quando o sol se pôs e escureceu, apareceu um braseiro fumegante e uma tocha de fogo… Naquele dia, o Senhor fez aliança com Abrão”. Observemos o mistério: Deus passou, iluminou a noite; a noite fez-se dia: “Naquele dia, Deus fez aliança com Abrão!” Abraão, nosso Pai, esperou, creu, combateu, vigiou e a escuridão fez-se luz, profecia da luz que é Cristo, cumprimento da aliança prometido pelo Senhor! “O Senhor é minha luz e salvação; de quem eu terei medo? O Senhor é a proteção da minha vida; perante quem tremerei?” Eis o cumprimento da Aliança com Abraão: Cristo, que é luz, Cristo que hoje aparece transfigurado sobre o Tabor!
Fixemos a atenção no evangelho, sejamos atentos aos detalhes: Jesus estava rezando – “subiu à montanha para rezar” – e, portanto, aberto para o Pai, disponível, todo orientado para o Senhor Deus: Cristo subiu para encontrar seu Deus e Pai! E o Pai o transfigura. Sim, o Pai! Recordemos que é a voz do Pai que sai da nuvem e apresenta Aquele que brilha em luz puríssima:“Este é o meu Filho, o Escolhido!” E a Nuvem que o envolve é sinal do Espírito de Deus, aquela mesma glória de Deus que desceu sobre a Montanha do Sinai (cf. Ex Ex 19,16), sobre a Tenda de Reunião no deserto (cf. Ex 40,34-38), sobre o Templo, quando foi consagrado (cf. 1Rs 8,10-13) e sobre Maria, a Virgem (cf. Lc 1,35). É no Espírito Santo que o Pai transfigura o Filho! Na voz, temos o Pai; no Transfigurado, o Filho; na Nuvem luminosa, o Espírito! E aparecem Moisés e Elias, simbolizando a Lei e os Profetas. Aqui, não nos percamos em loucas divagações e ignóbeis conclusões, como os espíritas, que de modo louco, querem provar com este texto que os mortos se comunicam com os vivos! Trata-se, aqui, de uma visão sobrenatural, não de uma aparição fantasmagórica e natural! Moisés e Elias, que “estavam conversando com Jesus… sobre a morte, que Jesus iria sofrer em Jerusalém”. Aqui é preciso compreender! Um pouco antes – Lucas diz que oito dias antes (cf. 9,28) – Jesus tinha avisado que iria sofrer muito e morrer; os discípulos não compreendiam tal linguagem! Agora, sobre o monte, eles vêem que a Lei (Moisés) e os Profetas (Elias) davam testemunho da morte de Jesus, de sua Páscoa! Sua paixão e morte vão conduzi-lo à glória da Ressurreição, glória que Jesus revela agora, de modo maravilhoso! Assim, a fé dos discípulos, que dormiam como Abraão, é fortalecida, como o foi a de Abraão, ao passar a glória do Senhor na tocha de fogo! A verdadeira tocha, a verdadeira luz que ilumina nossas noites sombrias e nossas dúvidas tão persistentes é Jesus!
Mas, por que este evangelho logo no início da Quaresma? Precisamente porque estamos caminhando para a Páscoa: a de 2004 e a da Eternidade. Atravessando a noite desta vida e o combate quaresmal, estamos em tempo de oração, vigilância e penitência! A Igreja, como Mãe, carinhosa e sábia, nos anima, revelando-nos qual o nosso objetivo, qual a nossa meta, o nosso destino: trazer em nós a imagem viva do Cristo ressuscitado, transfigurado pelo Espírito Santo do Pai. Escutemos São Paulo:“Nós somos cidadãos do céu. De lá esperamos o nosso Salvador, o Senhor Jesus Cristo. Ele transformará o nosso corpo humilhado e o tornará semelhante ao seu corpo glorioso. Assim, meus irmãos, continuai firmes no Senhor!” Compreendem? Se mantivermos o olhar firme naquilo que nos aguarda – a glória de Cristo –, teremos força para atravessar a noite desta vida e o combate da Quaresma. Somos convidados à perseverança de Abraão, ao seu combate na noite, à vigilância e à esperança, somos convidados a não sermos “inimigos da cruz de Cristo, que só pensam nas coisas terrenas”, somos convidados a viver de fé, a combater na fé! Este é o combate da Quaresma, este é o combate da vida: passar da imagem do homem velho, com seus velhos raciocínios e sentimentos, ao homem novo, imagem do Cristo glorioso! Se formos fiéis, poderemos celebrar a Páscoa deste ano mais assemelhados ao Cristo transfigurado pela glória da Ressurreição e, um dia, seremos totalmente transfigurados à imagem bendita do Filho de Deus, que com o Pai e o Espírito Santo vive e reina na glória imperecível. Amém!

 

Dom Henrique Soares