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Domingo de ramos e da Paixão (20-03-2016)

Primeira Leitura:
PROFETAS MAIORES: Livro de Isaías (Is), capítulo 50
(4) O Senhor Deus deu-me a língua de um discípulo para que eu saiba reconfortar pela palavra o que está abatido. Cada manhã ele desperta meus ouvidos para que escute como discípulo, (5) (o Senhor Deus abriu-me o ouvido) e eu não relutei, não me esquivei. (6) Aos que me feriam, apresentei as espáduas, e as faces àqueles que me arrancavam a barba, não desviei o rosto dos ultrajes e dos escarros. (7) Mas o Senhor Deus vem em meu auxílio: eis por que não me senti desonrado, enrijeci meu rosto como uma pedra, convicto de não ser desapontado.

Segunda Leitura:
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Epístola aos Filipenses (Fl), capítulo 2
(6) Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, (7) mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. (8) E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz. (9) Por isso Deus o exaltou soberanamente e lhe outorgou o nome que está acima de todos os nomes, (10) para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho no céu, na terra e nos infernos. (11) E toda língua confesse, para a glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é Senhor.
EVANGELHOS: Evangelho segundo São Lucas (Lc), capítulo 19
(28) Depois destas palavras, Jesus os foi precedendo no caminho que sobe a Jerusalém.
(29) Chegando perto de Betfagé e de Betânia, junto do monte chamado das Oliveiras, Jesus enviou dois dos seus discípulos e disse-lhes:
(30) Ide a essa aldeia que está defronte de vós. Entrando nela, achareis um jumentinho atado, em que nunca montou pessoa alguma, desprendei-o e trazei-mo.
(31) Se alguém vos perguntar por que o soltais, responder-lhe-eis assim: O Senhor precisa dele.
(32) Partiram os dois discípulos e acharam tudo como Jesus tinha dito.
(33) Quando desprendiam o jumentinho, perguntaram-lhes seus donos: Por que fazeis isto?
(34) Eles responderam: O Senhor precisa dele.
(35) E trouxeram a Jesus o jumentinho, sobre o qual deitaram seus mantos e fizeram Jesus montar.
(36) À sua passagem, muitas pessoas estendiam seus mantos no caminho.
(37) Quando já se ia aproximando da descida do monte das Oliveiras, toda a multidão dos discípulos, tomada de alegria, começou a louvar a Deus em altas vozes, por todas as maravilhas que tinha visto.
(38) E dizia: Bendito o rei que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória no mais alto dos céus!
(39) Neste momento, alguns fariseus interpelaram a Jesus no meio da multidão: Mestre, repreende os teus discípulos.
(40) Ele respondeu: Digo-vos: se estes se calarem, clamarão as pedras!

ASS EVANGELHOS: Evangelho segundo São Lucas (Lc), capítulo 22
(14) Chegada que foi a hora, Jesus pôs-se à mesa, e com ele os apóstolos.
(15) Disse-lhes: Tenho desejado ardentemente comer convosco esta Páscoa, antes de sofrer.
(16) Pois vos digo: não tornarei a comê-la, até que ela se cumpra no Reino de Deus.
(17) Pegando o cálice, deu graças e disse: Tomai este cálice e distribuí-o entre vós.
(18) Pois vos digo: já não tornarei a beber do fruto da videira, até que venha o Reino de Deus.
(19) Tomou em seguida o pão e depois de ter dado graças, partiu-o e deu-lho, dizendo: Isto é o meu corpo, que é dado por vós, fazei isto em memória de mim.
(20) Do mesmo modo tomou também o cálice, depois de cear, dizendo: Este cálice é a Nova Aliança em meu sangue, que é derramado por vós...
(21) Entretanto, eis que a mão de quem me trai está à mesa comigo.
(22) O Filho do Homem vai, segundo o que está determinado, mas ai daquele homem por quem ele é traído!
(23) Perguntavam então os discípulos entre si quem deles seria o que tal haveria de fazer.

ASS EVANGELHOS: Evangelho segundo São Lucas (Lc), capítulo 23
(1) Levantou-se a sessão e conduziram Jesus diante de Pilatos,
(2) e puseram-se a acusá-lo: Temos encontrado este homem excitando o povo à revolta, proibindo pagar imposto ao imperador e dizendo-se Messias e rei.
(3) Pilatos perguntou-lhe: És tu o rei dos judeus? Jesus respondeu: Sim.
(4) Declarou Pilatos aos príncipes dos sacerdotes e ao povo: Eu não acho neste homem culpa alguma.
(5) Mas eles insistiam fortemente: Ele revoluciona o povo ensinando por toda a Judéia, a começar da Galiléia até aqui.
(6) A estas palavras, Pilatos perguntou se ele era galileu.
(7) E, quando soube que era da jurisdição de Herodes, enviou-o a Herodes, pois justamente naqueles dias se achava em Jerusalém.
(8) Herodes alegrou-se muito em ver Jesus, pois de longo tempo desejava vê-lo, por ter ouvido falar dele muitas coisas, e esperava presenciar algum milagre operado por ele.
(9) Dirigiu-lhe muitas perguntas, mas Jesus nada respondeu.
(10) Ali estavam os príncipes dos sacerdotes e os escribas, acusando-o com violência.
(11) Herodes, com a sua guarda, tratou-o com desprezo, escarneceu dele, mandou revesti-lo de uma túnica branca e reenviou-o a Pilatos.
(12) Naquele mesmo dia, Pilatos e Herodes fizeram as pazes, pois antes eram inimigos um do outro.
(13) Pilatos convocou então os príncipes dos sacerdotes, os magistrados e o povo, e disse-lhes:
(14) Apresentastes-me este homem como agitador do povo, mas, interrogando-o eu diante de vós, não o achei culpado de nenhum dos crimes de que o acusais.
(15) Nem tampouco Herodes, pois no-lo devolveu. Portanto, ele nada fez que mereça a morte.
(16) Por isso, soltá-lo-ei depois de o castigar.
(17) [Acontecia que em cada festa ele era obrigado a soltar-lhes um preso.]
(18) Todo o povo gritou a uma voz: À morte com este, e solta-nos Barrabás.
(19) (Este homem fora lançado ao cárcere devido a uma revolta levantada na cidade, por causa de um homicídio.)
(20) Pilatos, porém, querendo soltar Jesus, falou-lhes de novo,
(21) mas eles vociferavam: Crucifica-o! Crucifica-o!
(22) Pela terceira vez, Pilatos ainda interveio: Mas que mal fez ele, então? Não achei nele nada que mereça a morte, irei, portanto, castigá-lo e, depois, o soltarei.
(23) Mas eles instavam, reclamando em altas vozes que fosse crucificado, e os seus clamores recrudesciam.
(24) Pilatos pronunciou então a sentença que lhes satisfazia o desejo.
(25) Soltou-lhes aquele que eles reclamavam e que havia sido lançado ao cárcere por causa do homicídio e da revolta, e entregou Jesus à vontade deles.
(26) Enquanto o conduziam, detiveram um certo Simão de Cirene, que voltava do campo, e impuseram-lhe a cruz para que a carregasse atrás de Jesus.
(27) Seguia-o uma grande multidão de povo e de mulheres, que batiam no peito e o lamentavam.
(28) Voltando-se para elas, Jesus disse: Filhas de Jerusalém, não choreis sobre mim, mas chorai sobre vós mesmas e sobre vossos filhos.
(29) Porque virão dias em que se dirá: Felizes as estéreis, os ventres que não geraram e os peitos que não amamentaram!
(30) Então dirão aos montes: Caí sobre nós! E aos outeiros: Cobri-nos!
(31) Porque, se eles fazem isto ao lenho verde, que acontecerá ao seco?
(32) Eram conduzidos ao mesmo tempo dois malfeitores para serem mortos com Jesus.
(33) Chegados que foram ao lugar chamado Calvário, ali o crucificaram, como também os ladrões, um à direita e outro à esquerda.
(34) E Jesus dizia: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. Eles dividiram as suas vestes e as sortearam.
(35) A multidão conservava-se lá e observava. Os príncipes dos sacerdotes escarneciam de Jesus, dizendo: Salvou a outros, que se salve a si próprio, se é o Cristo, o escolhido de Deus!
(36) Do mesmo modo zombavam dele os soldados. Aproximavam-se dele, ofereciam-lhe vinagre e diziam:
(37) Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo.
(38) Por cima de sua cabeça pendia esta inscrição: Este é o rei dos judeus.
(39) Um dos malfeitores, ali crucificados, blasfemava contra ele: Se és o Cristo, salva-te a ti mesmo e salva-nos a nós!
(40) Mas o outro o repreendeu: Nem sequer temes a Deus, tu que sofres no mesmo suplício?
(41) Para nós isto é justo: recebemos o que mereceram os nossos crimes, mas este não fez mal algum.
(42) E acrescentou: Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino!
(43) Jesus respondeu-lhe: Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso.
(44) Era quase à hora sexta e em toda a terra houve trevas até a hora nona.
(45) Escureceu-se o sol e o véu do templo rasgou-se pelo meio.
(46) Jesus deu então um grande brado e disse: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. E, dizendo isso, expirou.
(47) Vendo o centurião o que acontecia, deu glória a Deus e disse: Na verdade, este homem era um justo.
(48) E toda a multidão dos que assistiam a este espetáculo e viam o que se passava, voltou batendo no peito.
(49) Os amigos de Jesus, como também as mulheres que o tinham seguido desde a Galiléia, conservavam-se a certa distância, e observavam estas coisas.
(50) Havia um homem, por nome José, membro do conselho, homem reto e justo.
(51) Ele não havia concordado com a decisão dos outros nem com os atos deles. Originário de Arimatéia, cidade da Judéia, esperava ele o Reino de Deus.
(52) Foi ter com Pilatos e lhe pediu o corpo de Jesus.
(53) Ele o desceu da cruz, envolveu-o num pano de linho e colocou-o num sepulcro, escavado na rocha, onde ainda ninguém havia sido depositado.
(54) Era o dia da Preparação e já ia principiar o sábado.
(55) As mulheres, que tinham vindo com Jesus da Galiléia, acompanharam José. Elas viram o túmulo e o modo como o corpo de Jesus ali fora depositado.
(56) Elas voltaram e prepararam aromas e bálsamos. No dia de sábado, observaram o preceito do repouso.
Homilia do : Padre Paulo Ricardo
Homilia do Padre Miguel:---
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético
Ver Homilia de Dom Henrique Soares
Ver Homilia de Mons. José Maria
Ver Homilia do Pe. Françoá Costa
Canção Nova: Homilia

Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo Lucas

A festa da Páscoa, que está às portas, é a passagem da morte de Cristo, celebrada neste Domingo da Paixão, à Sua nova vida, lembrada no Domingo da Ressurreição. O marco dessa passagem é oescândalo da Cruz (cf. 1 Cor 1, 23), que, na liturgia deste ano, é narrado pelo evangelista São Lucas.

A Paixão segundo Lucas possui algumas características especiais, que não foram anotadas pelos outros evangelistas, e sobre as quais vale a pena nos determos neste programa.

1. Jesus chora sobre Jerusalém. "Quando Jesus se aproximou de Jerusalém e viu a cidade, começou a chorar. E disse: 'Se tu também compreendesses hoje o que te pode trazer a paz! Agora, porém, está escondido aos teus olhos! (...) Não reconheceste o tempo em que foste visitada (καιρὸν τῆς ἐπισκοπῆς)." (Lc 19, 41-42.44)

O que viu o Senhor quando chorou sobre a Cidade Santa? Ele anteviu aquela que seria a verdadeira Jerusalém, a Igreja, e começou já ali a sofrer pelos seus membros indignos, que somos nós. Sofreu voluntariamente, escolheu passar pelos mais variados tipos de dores e torturas, fez-Se frágil de modo inefável: tudo, a fim de remir completamente cada ser humano, com todas as potências de sua alma e com todos os seus sentimentos e paixões. Ninguém tira a Sua vida, o Cristo mesmo Se entrega livremente (cf. Jo 10, 18), experimentando a Sua Paixão (do verbo latino pati, que significa, lit., "passar por algo", "sofrer", "padecer") para purificar as nossas paixões.

2. Jesus é assistido por um anjo e sua sangue no Horto das Oliveiras. "Apareceu-lhe um anjo do céu, que o fortalecia. (...) Seu suor tornou-se como gotas de sangue que caíam no chão." (Lc 22, 43-44)

Santa Teresinha do Menino Jesus, doutora da Igreja, faz um belo comentário a essa passagem em uma poesia sobre a vida de Cristo. Ela diz ao Senhor:

"Lembra-te de que na noite de tua agonia,
Ao teu sangue, misturaram-se as lágrimas.
Orvalho de amor, o seu infinito valor
Fez germinar flores virginais.
Um Anjo, mostrando-te esta colheita escolhida,
Fez renascer a alegria em tua Face bendita." [1]

As flores que nascem no jardim divino, germinadas pelo sangue e pelas lágrimas do Redentor, são as almas eleitas de Deus. É a visão delas, oferecida pelo anjo, que consola Jesus agonizante no Horto. Por isso, cada um de nós pode dizer: assim como Cristo suou sangue vendo o meupecado, Ele também Se alegrou vendo a minha conversão. Ao entregar-Se, de fato, Jesus não remiu o gênero humano de modo genérico, mas individualmente, e, assim como teve diante de si os pecados pessoais de cada um dos que remiu, não exultou simplesmente com a salvação geral dos eleitos, mas com a mudança de vida de cada homem em particular. Há alegria na alma de Cristo — diz também São Lucas — por um só pecador que se converte (cf. Lc 15, 7). Por isso, unamo-nos ao anjo do Horto e consolemos também nós o Senhor, com nossos atos de amor e pequenas mortificações!

3. Jesus rezava enquanto era crucificado. "Quando chegaram ao lugar chamado Calvário, ali crucificaram Jesus e os malfeitores: um à sua direita e outro à sua esquerda. Jesus dizia: 'Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!'" (Lc 23, 33-34)

Cristo orante não pretendia apenas servir de exemplo para nós, mas também pedir eficazmente a Deus pela nossa salvação. É graças à Sua intercessão que somos verdadeiramente remidos. Isso fica muito claro quando Ele diz a Pedro: "Simão! Simão! Satanás pediu permissão para peneirar-vos, como se faz com o trigo. Eu, porém, orei por ti, para que tua fé não desfaleça" (Lc 22, 31-32). Ao olhar para o apóstolo e pronunciar estas palavras, Ele Se dirigia também a cada um de nós. Quando as Suas benditas mãos eram cravadas no madeiro da Cruz e Ele pedia perdão aos que O matavam — o original grego sugere que Cristo rezava continuamente, de modo repetido, como uma súplica —, era por nós que Ele suplicava. Como não pedir o perdão de Deus, quando Jesus pede perdão por nós? Como ficar indiferente a Jesus que perde perdão por mim, no meu lugar?

4. Jesus acolhe o ladrão arrependido. "Um dos malfeitores crucificados o insultava, dizendo: 'Tu não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!' Mas o outro o repreendeu, dizendo: 'Nem sequer temes a Deus, tu que sofres a mesma condenação? Para nós, é justo, porque estamos recebendo o que merecemos; mas ele não fez nada de mal'. E acrescentou: 'Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reinado'. Jesus lhe respondeu: 'Em verdade eu te digo: ainda hoje estarás comigo no Paraíso'." (Lc 23, 39-43)

Ao lado de Cristo são crucificados dois malfeitores, ambos os quais também morreram. Um deles, porém, arrependido dos seus crimes, diferentemente do ladrão impenitente que blasfemava e se juntava aos escarnecedores de Cristo, faz um sublime ato de fé. Ele se volta para Cristo e, mesmo vendo um quase cadáver diante de si, não se engana com os olhos da carne: crê em seu coração que Ele é um rei e pede-lhe para ter parte no Seu reino. Jesus, por Sua vez, promete a esse homem o paraíso. A sua justificação, porém, torna o seu interior, já antes da morte, o jardim das delícias de Deus (cf. Pr 8, 31) — assim é chamada por Santa Teresa d'Ávila a alma do justo que ama a Deus [2]. Façamos também a oração do bom ladrão, pedindo ao Senhor que Se lembre de nós, apesar de nosso esquecimento e de nossa ingratidão, e venha habitar em nosso coração. "Se alguém me ama, (...) meu Pai o amará, nós viremos e faremos nele a nossa morada" (Jo 14, 23).

5. Jesus entrega o espírito. "Jesus deu um forte grito: 'Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito'. Dizendo isso, expirou." (Lc 23, 46)

Por fim, assim como o filho pródigo se lança ao abraço de seu pai, Cristo abandona-se inteiramente nos braços do Pai do Céu. Com isso, Ele nos mostra com que atitude devemos nos aproximar de Si: contritos, mas também confiantes; arrependidos, mas também esperando o Seu perdão.

Nesta Semana Santa, imitemos os gestos de amor daquela pecadora pública que se põe aos pés do Redentor e, chorando, lava os Seus pés (cf. Lc 7, 36-50). Conhecendo, pela Paixão de Cristo, quanto Deus nos ama, sejamos incentivados a amá-Lo também, completando a obra da nossa salvação [3].

Referências

  1. Poesias, XXIV, 21. In: TERESA DO MENINO JESUS, Santa. Obras completasescritos e últimos colóquios. São Paulo: Paulus, 2002, p. 575.
  2. Cf. Santa Teresa de Jesus, Primeiras Moradas, 1, 1. In: Escritos de Teresa de Ávila. São Paulo: Loyola, 2001, p. 441.
  3. Suma Teológica, III, q. 46, a. 3.

Padre Paulo Ricardo


Domingo de Ramos e da Paixão

Para a procissão de Ramos:

Lc 19,28-40

Este Domingo sagrado celebra dois mistérios: (1) a Entrada solene do Senhor Jesus em Jerusalém para viver sua Passagem do mundo para o Pai e (2) o Mistério de sua Paixão, Morte e Sepultura. Daí o título deste dia: Domingo de Ramos e da Paixão. A procissão é de ramos; a missa é da paixão.

Que significa a entrada de Jesus em Jerusalém hoje? Ele é o descendente de Davi, o Filho de Davi e, portanto, o Messias prometido por Deus e esperado por Israel. Por isso o povo grita: “Bendito o Rei, que vem em nome do Senhor!” Jesus é saudado como o Rei de Israel, novo Davi, Messias que chega à Cidade de Davi! E Jesus, de fato, é Rei, é Messias! A festa de hoje é, em certo sentido, uma festa de Cristo Rei, Rei-Messias! É uma festa de exultação! Mas, estejamos atentos: ele entra na Cidade Santa montado não num cavalo, que simboliza poder e força, mas entra num jumentinho, usado pelos pobres nos serviços mais humildes e duros. Isto tem muito a nos dizer: Jesus é o Messias, mas um messias pobre, um messias servo, que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos” (Mc 10,45). O seu serviço é um só: “dar a vida em resgate por muitos”. Ele é o Messias-Servo Sofredor, do qual fala o profeta Isaías na primeira leitura da missa de hoje:“Ofereci as costas para me baterem e as faces para me arrancarem a barba; não desviei o rosto de bofetões e cusparadas… Mas o senhor Deus é meu Auxiliador, por isso sei que não serei humilhado”. Ele é aquele que tomará sobre si as nossas faltas e será ferido pelas nossas feridas… Pois bem, é com este propósito que Jesus entra em Jerusalém hoje.

Quanto a nós, vamos com ele! Os ramos que trazemos nas mãos significam que reconhecemos Jesus como o Messias de Israel, prometido por Deus. Significam também que nos dispomos a segui-lo como o Servo que dá a vida na cruz. Levaremos estes ramos para casa. Devemos guardá-los num lugar visível durante todo o ano, para recordar nosso compromisso de seguir o Cristo num caminho de humildade e despojamento; segui-lo ainda quando não compreendermos bem os desígios de Deus para nós… Seguir o Cristo, que confia no Pai até a morte e não se cansa de fazer da vida um serviço de amor. Seguir hoje em procissão com os ramos na mão significa proclamar diante do mundo que cremos nesse Jesus fraco, humilde, silencioso, crucificado… loucura para o mundo, mas sabedoria de Deus; fraqueza para o mundo, mas força de Deus!

Rejeitemos, então, por amor de Cristo, toda visão de um cristianismo de procura de curas, milagres, solução de problemas… um cristianismo que trai o Evangelho e renega a cruz de nosso Senhor Jesus Cristo… um cristianismo falso, que enche templos e esvazia o escândalo da cruz! Lembremo-nos de Jesus Cristo! “Fiel é esta palavra: se com ele morremos, com ele viveremos. Se com ele sofremos, com ele reinaremos!” (2Tm 2,11s).

Que tenhamos a coragem de proclamar com a vida e as palavras esse Jesus, porque se nos calarmos “as pedras gritarão”…

Para a Missa da Paixão do Senhor

Is 50,4-7
Sl 21
Fl 2,6-11
Lc 22,14 – 23,56

Com esta Santa Eucaristia, iniciamos a Grande Semana. Tomemos três frases da Paixão que acabamos de ouvir. Elas são suficientes para inspirar-nos hoje.

Primeira palavra: “Desejei ardentemente comer convosco esta Páscoa antes de sofrer”. Esta frase do Senhor, saída do seu coração, é dirigida também a nós; é um convite a celebrarmos sua Páscoa, participando na liturgia desta semana Santa e na vida da todo dia, de suas dores para também participarmos de sua vitória, de sua Ressurreição. Comer com Cristo a santa Páscoa é nos dispor a participar de sua sorte, de seu caminho rumo à cruz e à ressurreição. Nunca esqueçamos: “ele esvaziou-se de si mesmo… fazendo-se obediente até a morte e morte de cruz. Por isso Deus o exaltou acima de tudo”. Este é o caminho pascal de Jesus e nosso. Disponhamo-nos, portanto, a caminhar com ele. Aceitemos o seu convite para comer com ele esta Páscoa sagrada. Participemos ativa e piedosamente dos santos mistérios celebrados nestes dias e estejamos também dispostos a vivê-los na nossa vida.

Segunda palavra: “Quem vai me trair é aquele que comigo põe a mão no prato”. Que afirmação tão dolorosa: um de nós, um que come com o Senhor, um que participa da sua Mesa, o entregou! Esta advertência de Jesus deve ser sempre recordada por cada um de nós, que participamos de sua Eucaristia! E que ninguém seja presunçoso como Pedro! Que humildemente nos perguntemos: “Mestre, serei eu?” Traímos Jesus como Judas quando buscamos nossos interesses, nossa lógica, nossas paixões, desprezando Aquele que nos convida a segui-lo.. deixamo-lo, fugimos, buscando as facilidades de uma vida mundana, de valores mundanos, de uma lógica mundana… Seguimo-lo de longe, como Pedro, quando pretendemos ser cristãos sem nos comprometermos com ele, sem por ele a nada renunciarmos, sem nele empenharmos nossa vida! Não o reneguemos como Pedro; não lhe demos o beijo de Judas! Que possamos escutar, um dia, a afirmação do Senhor: “Vós ficastes comigo em minhas provações!”

Terceira palavra: “Eu estou no meio de vós como aquele que serve”. Nesta frase do Senhor está o sentido do que celebraremos durante esta santíssima Semana. Ele mesmo disse que veio para servir e dar a vida em resgate da multidão (cf. Mc 10,45). É assim que ele está em nosso meio: como aquele que dá a vida por nós, que se entrega por amor. Aquilo que ele realizou na sua existência toda, acolhendo, perdoando, curando, restaurando a esperança… isto é, entregando-se a nós e por nós, agora ele vai consumar até a morte e morte de cruz! Acolher esse serviço é reconhecer que Cristo morreu por nós, por nós entregou sua vida… e, assim, ser-lhe grato de todo o coração, como Paulo, que exclamava: “Ele me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20). Sejamos-lhe gratos: vivamos também nós por ele!

Caríssimos, estejamos de coração atento para vivenciar, nestes dias sagrados, tão grande mistério! Não recebamos em vão a graça de Deus: que aprendendo os ensinamentos de sua paixão, ressuscitemos com ele em sua glória. Amém.

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos, porque pela vossa santa cruz remistes o mundo.

Dom Henrique Soares