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Tu me amas? (10-04-2016)

Primeira Leitura:
ATOS: Atos dos Apóstolos (At), capítulo 5
(27) Trouxeram-nos e os introduziram no Grande Conselho, onde o sumo sacerdote os interrogou, dizendo: (28) Expressamente vos ordenamos que não ensinásseis nesse nome. Não obstante isso, tendes enchido Jerusalém de vossa doutrina! Quereis fazer recair sobre nós o sangue deste homem! (29) Pedro e os apóstolos replicaram: Importa obedecer antes a Deus do que aos homens. (30) O Deus de nossos pais ressuscitou Jesus, que vós matastes, suspendendo-o num madeiro. (31) Deus elevou-o pela mão direita como Príncipe e Salvador, a fim de dar a Israel o arrependimento e a remissão dos pecados. (32) Deste fato nós somos testemunhas, nós e o Espírito Santo, que Deus deu a todos aqueles que lhe obedecem. (33) Ao ouvirem essas palavras, enfureceram-se e resolveram matá-los. (34) Levantou-se, porém, um membro do Grande Conselho. Era Gamaliel, um fariseu, doutor da lei, respeitado por todo o povo. (35) Mandou que se retirassem aqueles homens por um momento, e então lhes disse: Homens de Israel, considerai bem o que ides fazer com estes homens. (36) Faz algum tempo apareceu um certo Teudas, que se considerava um grande homem. A ele se associaram cerca de quatrocentos homens: foi morto e todos os seus partidários foram dispersados e reduzidos a nada. (37) Depois deste, levantou-se Judas, o galileu, nos dias do recenseamento, e arrastou o povo consigo, mas também ele pereceu e todos quantos o seguiam foram dispersados. (38) Agora, pois, eu vos aconselho: não vos metais com estes homens. Deixai-os! Se o seu projeto ou a sua obra provém de homens, por si mesma se destruirá, (39) mas se provier de Deus, não podereis desfazê-la. Vós vos arriscaríeis a entrar em luta contra o próprio Deus. Aceitaram o seu conselho. (40) Chamaram os apóstolos e mandaram açoitá-los. Ordenaram-lhes então que não pregassem mais em nome de Jesus, e os soltaram. (41) Eles saíram da sala do Grande Conselho, cheios de alegria, por terem sido achados dignos de sofrer afrontas pelo nome de Jesus.

Segunda Leitura:
APOCALIPSE: Apocalipse de São João (Ap), capítulo 5
(11) Na minha visão ouvi também, ao redor do trono, dos Animais e dos Anciãos, a voz de muitos anjos, em número de miríades de miríades e de milhares de milhares, (12) bradando em alta voz: Digno é o Cordeiro imolado de receber o poder, a riqueza, a sabedoria, a força, a glória, a honra e o louvor. (13) E todas as criaturas que estão no céu, na terra, debaixo da terra e no mar, e tudo que contêm, eu as ouvi clamar: Àquele que se assenta no trono e ao Cordeiro, louvor, honra, glória e poder pelos séculos dos séculos. (14) E os quatro Animais diziam: Amém! Os Anciãos prostravam-se e adoravam.
EVANGELHOS: Evangelho segundo São João (Jo), capítulo 21
(1) Depois disso, tornou Jesus a manifestar-se aos seus discípulos junto ao lago de Tiberíades. Manifestou-se deste modo:
(2) Estavam juntos Simão Pedro, Tomé (chamado Dídimo), Natanael (que era de Caná da Galiléia), os filhos de Zebedeu e outros dois dos seus discípulos.
(3) Disse-lhes Simão Pedro: Vou pescar. Responderam-lhe eles: Também nós vamos contigo. Partiram e entraram na barca. Naquela noite, porém, nada apanharam.
(4) Chegada a manhã, Jesus estava na praia. Todavia, os discípulos não o reconheceram.
(5) Perguntou-lhes Jesus: Amigos, não tendes acaso alguma coisa para comer? Não, responderam-lhe.
(6) Disse-lhes ele: Lançai a rede ao lado direito da barca e achareis. Lançaram-na, e já não podiam arrastá-la por causa da grande quantidade de peixes.
(7) Então aquele discípulo, que Jesus amava, disse a Pedro: É o Senhor! Quando Simão Pedro ouviu dizer que era o Senhor, cingiu-se com a túnica (porque estava nu) e lançou-se às águas.
(8) Os outros discípulos vieram na barca, arrastando a rede dos peixes (pois não estavam longe da terra, senão cerca de duzentos côvados).
(9) Ao saltarem em terra, viram umas brasas preparadas e um peixe em cima delas, e pão.
(10) Disse-lhes Jesus: Trazei aqui alguns dos peixes que agora apanhastes.
(11) Subiu Simão Pedro e puxou a rede para a terra, cheia de cento e cinqüenta e três peixes grandes. Apesar de serem tantos, a rede não se rompeu.
(12) Disse-lhes Jesus: Vinde, comei. Nenhum dos discípulos ousou perguntar-lhe: Quem és tu?, pois bem sabiam que era o Senhor.
(13) Jesus aproximou-se, tomou o pão e lhos deu, e do mesmo modo o peixe.
(14) Era esta já a terceira vez que Jesus se manifestava aos seus discípulos, depois de ter ressuscitado.
(15) Tendo eles comido, Jesus perguntou a Simão Pedro: Simão, filho de João, amas-me mais do que estes? Respondeu ele: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Apascenta os meus cordeiros.
(16) Perguntou-lhe outra vez: Simão, filho de João, amas-me? Respondeu-lhe: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Apascenta os meus cordeiros.
(17) Perguntou-lhe pela terceira vez: Simão, filho de João, amas-me? Pedro entristeceu-se porque lhe perguntou pela terceira vez: Amas-me?, e respondeu-lhe: Senhor, sabes tudo, tu sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Apascenta as minhas ovelhas.
(18) Em verdade, em verdade te digo: quando eras mais moço, cingias-te e andavas aonde querias. Mas, quando fores velho, estenderás as tuas mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não queres.
(19) Por estas palavras, ele indicava o gênero de morte com que havia de glorificar a Deus. E depois de assim ter falado, acrescentou: Segue-me!
Homilia do : Padre Paulo Ricardo
Homilia do Padre Miguel:---
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético
Ver Homilia de Dom Henrique Soares
Ver Homilia de Mons. José Maria
Ver Homilia do Pe. Françoá Costa
Canção Nova: Homilia

3.º Domingo da Páscoa - Jesus nos espera do outro lado

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
(Jo
21, 1-19)

Naquele tempo, Jesus apareceu de novo aos discípulos, à beira do mar de Tiberíades. A aparição foi assim: Estavam juntos Simão Pedro, Tomé, chamado Dídimo, Natanael de Caná da Galileia, os filhos de Zebedeu e outros dois discípulos de Jesus.

Simão Pedro disse a eles: "Eu vou pescar". Eles disseram: "Também vamos contigo".

Saíram e entraram na barca, mas não pescaram nada naquela noite. Já tinha amanhecido, e Jesus estava de pé na margem. Mas os discípulos não sabiam que era Jesus. Então Jesus disse: "Moços, tendes alguma coisa para comer?" Responderam: "Não".

Jesus disse-lhes: "Lançai a rede à direita da barca, e achareis". Lançaram pois a rede e não conseguiam puxá-la para fora, por causa da quantidade de peixes. Então, o discípulo a quem Jesus amava disse a Pedro: "É o Senhor!" Simão Pedro, ouvindo dizer que era o Senhor, vestiu sua roupa, pois estava nu, e atirou-se ao mar. Os outros discípulos vieram com a barca, arrastando a rede com os peixes. Na verdade, não estavam longe da terra, mas somente a cerca de cem metros. Logo que pisaram a terra, viram brasas acesas, com peixe em cima, e pão. Jesus disse-lhes: "Trazei alguns dos peixes que apanhastes".

Então Simão Pedro subiu ao barco e arrastou a rede para a terra. Estava cheia de cento e cinquenta e três grandes peixes; e apesar de tantos peixes, a rede não se rompeu.

Jesus disse-lhes: "Vinde comer". Nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar quem era ele, pois sabiam que era o Senhor. Jesus aproximou-se, tomou o pão e distribuiu-o por eles. E fez a mesma coisa com o peixe.

Esta foi a terceira vez que Jesus, ressuscitado dos mortos, apareceu aos discípulos. Depois de comerem, Jesus perguntou a Simão Pedro: "Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?"

Pedro respondeu: "Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo". Jesus disse: "Apascenta os meus cordeiros". E disse de novo a Pedro: "Simão, filho de João, tu me amas?" Pedro disse: "Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo". Jesus lhe disse: "Apascenta as minhas ovelhas". Pela terceira vez, perguntou a Pedro: "Simão, filho de João, tu me amas?"

Pedro ficou triste, porque Jesus perguntou três vezes se ele o amava. Respondeu: "Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo". Jesus disse-lhe: "Apascenta as minhas ovelhas.

Em verdade, em verdade te digo: quando eras jovem, tu cingias e ias para onde querias. Quando fores velho, estenderás as mãos e outro te cingirá e te levará para onde não queres ir". Jesus disse isso, significando com que morte Pedro iria glorificar a Deus. E acrescentou: "Segue-me".

*

Santo Tomás de Aquino, comentando essa terceira aparição de Cristo Ressuscitado aos Apóstolos, contrapõe-na àquela aparição em que acontece a primeira pesca milagrosa (cf. Lc 5, 1-11). Antes, Ele estava no barco para, agora, aparecer de manhã e na margem. Que sentido místico trazem consigo essas diferenças?

"Mane autem iam facto, diz o Evangelho. 'Já ia a amanhecer'. Misticamente, pela manhã se entende a glória da ressurreição: 'De tarde sobrevem o pranto e, de manhã, a alegria' (Sl 29, 6), e também o estado da vida eterna: 'Pela manhã vos invoco e espero' (Sl 5, 5).

Todavia, quando realizou antes da paixão o mesmo milagre, Ele não ficou no litoral, mas dentro do barco. Por que depois da paixão Ele fica de pé na margem? A razão disso é que o mar significa a agitação do século presente, enquanto o litoral é o término do mar: 'Está posta a areia como término do mar, preceito sempiterno, que ele não ultrapassará' (Jr 5, 22). Assim, antes da paixão, Cristo ficou no mar, porque possuía um corpo mortal, mas, depois da ressurreição, já tinha vencido a corrupção da carne, pelo que ficou na margem." [1]

Essa leitura mística é importante para dar à nossa fé um impulso de esperança: Cristo está na barca de nossa vida em meio aos ventos e tempestades deste mundo e, ao mesmo tempo, Ele nos aguarda no litoral e tem preparado para nós um banquete, assim como preparou um para os Seus discípulos.

Antes disso, porém, Jesus pergunta aos discípulos se eles têm algo para comer. O significado místico desse gesto é indicado novamente por Santo Tomás: o Senhor pede de comer porque quer ser consolado por Seus discípulos [2] — consolação que acontece de fato por meio da nossa obediência aos mandamentos de Deus, que é justamente o motor dessa segunda pesca milagrosa. Depois de uma noite inteira lançando por sua própria iniciativa as redes, os discípulos só têm sucesso quando, assistidos pelo Senhor, lançam as redes impulsionados por Sua palavra.

Já em terra firme, o Evangelho diz que Jesus prepara três coisas para os Apóstolos: "Logo que pisaram a terra, viram brasas acesas, com peixe em cima, e pão" (v. 9). É o Doutor Angélico, novamente, quem nos dá o significado dessas realidades:

"Por isso nos é dado a entender, de certo modo, o que é preparado por Cristo para o banquete espiritual. E se tomamos alegoricamente esse banquete como aquele da Igreja, Cristo também prepara estas três coisas.

Primeiro, as brasas acesas da caridade: 'Agindo deste modo, brasas de fogo amontoarás sobre a sua cabeça' (Pr 25, 21); 'Enche a mão com brasas de fogo' (Ez 10, 2). Tais brasas Cristo trouxe do Céu à terra, como Ele mesmo diz: 'Dou-vos um novo mandamento, que vos ameis uns aos outros' (Jo 13, 34), e ainda: 'Fogo vim trazer à terra' (Lc 12, 49).

Segundo, prepara sobre as brasas um peixe, que é Ele mesmo: porque o peixe assado é Cristo padecente (piscis assus Christus passus), que é posto sobre a brasa quando, em um incêndio de caridade, por nós é imolado na cruz, como diz S. Paulo: 'Sede imitadores de Deus como filhos caríssimos, e andai no amor, assim como Cristo nos amou e se entregou por nós a Deus como oblação e hóstia em odor de suavidade' (Ef 5, 1-2).

Prepara, por fim, os pães que nos refazem, pães que são Ele próprio. De fato, enquanto está escondido por Sua divindade, é chamado de peixe, cuja propriedade é esconder-se sob as águas: 'És verdadeiramente um Deus escondido' (Is 45, 15), mas, enquanto nos refaz por Sua doutrina e também nos dá o Seu corpo como alimento, Ele é verdadeiro pão: 'Eu sou o pão da vida descido do céu' (Jo 6, 51); 'O pão dos frutos da tua terra será farto e abundante' (Is 30, 23)." [3]

Este é, pois, como que o quadro geral deste Evangelho: depois de uma noite trabalhando sem pescar nada, imagem do cansaço da labuta desta vida, Jesus espera-nos do outro lado, na margem, pronto para dar-nos a Si mesmo em alimento: o peixe, representando a Sua divindade, e o pão, a Sua humanidade — o Cristo todo, em suma.

Lancemos um olhar, agora, às diferentes reações dos Apóstolos, ainda sob a direção do Aquinate:

"João, perspicaz em conhecer, de imediato reconhece o Cristo e diz a Pedro, que ele amava mais do que os outros e que também era o primeiro entre todos: 'É o Senhor'. Fê-lo movido pela pesca milagrosa, pois está escrito: 'Tu dominas os mares com poder' (Sl 88, 10), e ainda: 'O Senhor faz tudo aquilo que quer, no céu e na terra, no mar e em todos os abismos' (Sl 134, 6). Disse ainda, 'É o Senhor', porque com esse nome estavam acostumados a chamá-Lo, como atesta o próprio Jesus: 'Vós me chamais mestre e senhor' (Jo 13, 13).

Pedro, porém, é retratado fervoroso no agir, fervor que aparece,

(1.º) em sua prontidão: 'Simão Pedro, ouvindo dizer que era o Senhor, vestiu sua roupa, pois estava nu, e atirou-se ao mar. Os outros discípulos vieram com a barca'. Tão logo ouve, Simão Pedro não hesita e corre de imediato em direção ao Senhor: 'Não demores nem adies dia após dia em converter-te ao Senhor' (Eclo 5, 8).

(2.º) em sua reverência em relação a Cristo: por pudor ele vestiu a sua túnica, porque estava nu, tanto por causa do calor daquele lugar, quanto para facilitar o seu ofício. Isso dá a entender que aqueles que se aproximam de Cristo devem despir-se do homem velho e vestir-se com o novo, que é criado segundo Deus na fé: 'O vencedor será revestido com as vestes da salvação, e não apagarei o seu nome do livro da vida' (Ap 3, 5).

(3.º) em sua segurança: porque, cheio de amor e não querendo seguir com o barco, que demorava, lançou-se ao mar, a fim de alcançar prontamente o Cristo.
Em um sentido místico, o mar indica a tribulação do tempo presente. De onde aqueles que desejam alcançar o Cristo deverem lançar-se ao mar, sem se refugiarem das tribulações deste mundo, como está escrito: 'Por muitas tribulações entraremos no reino de Deus' (At 14, 21), e ainda: 'Filho, se queres entrar para o serviço do Senhor, permanece firme na justiça e no temor, e prepara a tua alma para a provação' (Eclo 2, 1). Pedro, porém, se lançou ao mar e saiu ileso ao encontro de Cristo, mostrando que os servos de Cristo saem ilesos e seguros do meio das tribulações: 'Abriste no mar uma via e um caminho firmíssimo entre as ondas' (Sb 14, 3).

Aqui é posta, como diz São João Crisóstomo, a ótima condição de João e Pedro: aquele superior quanto ao intelecto, e este mais fervoroso quanto ao afeto." [4]

As reações dos discípulos também podem ser medidas pela régua das três virtudes teologais, na ordem mesma em que são apresentadas por São Paulo (cf. 1 Cor 13, 13): primeiro, manifesta-se a de São João, que reconhece o Senhor a partir de Seu poder; segundo, manifesta-se a esperança de São Pedro, que se lança devotamente ao mar para chegar depressa à Sua presença; por fim, resplandece a caridade dos discípulos, que levam a Cristo os peixes que apanharam, imagem das almas que a Sua Igreja deve apresentar-lhe no fim dos tempos.

Essa mesma virtude da caridade fica patente na profissão de São Pedro, que reitera três vezes amar o Senhor — virtude que o próprio príncipe dos Apóstolos procura inculcar em seus irmãos presbíteros (também de três modos!), quando escreve a sua Primeira Carta canônica:

"Aos anciãos entre vós, exorto eu, ancião como eles e testemunha dos sofrimentos de Cristo, participante da glória que está para se revelar: sede pastores do rebanho de Deus, confiado a vós; cuidai dele, (i) não por coação, mas de coração generoso; (ii) não por torpe ganância, mas livremente; (iii) não como dominadores daqueles que vos foram confiados, mas antes, como modelos do rebanho. Assim, quando aparecer o pastor supremo, recebereis a coroa imperecível da glória." (1 Pd 5, 1-4)

A meta final da Igreja é encontrar o Cristo na margem do além, na glória do Céu. Ainda estamos na barca da Igreja, mas, quando nos pomos a escutar com fé a Palavra de Deus e a colocamos em prática, já entramos em contato com o Senhor Ressuscitado que nos espera. Lancemo-nos com devoção ao mar conturbado deste mundo, certos de que "os servos de Cristo saem ilesos e seguros do meio das tribulações".

Subsídio

Referências

  1. Comentário ao Evangelho de São João, XXI, 1, n. 2584-2585.
  2. Ibid., n. 2588.
  3. Id., 2, n. 2599.
  4. Id., 2, n. 2593-2594.

Padre Paulo Ricardo


Tu me amas?

A liturgia, neste santo tempo pascal, concentra nossa atenção naquele que por nós morreu e ressuscitou; na glória que ele agora possui, como Senhor do céu e da terra: “O Cordeiro imolado é digno de receber o poder, a riqueza, a sabedoria e a força, a honra, a glória e o louvor. Ao que está sentado no trono e ao Cordeiro, o louvor e a honra, a glória e o poder para sempre!” Estejamos atentos, porém: afirmar a glória de Cristo, não é algo de folclórico ou triunfalístico, mas é uma proclamação convicta e clara do seu senhorio sobre nós, sobre nossa pobre vida, sobre a vida da Igreja, sobre o mundo e sobre toda a história. A Igreja e cada cristão vivem desta certeza: Jesus ressuscitou dos mortos, é o Vivente, é o Senhor; nós existimos nele e para ele; ele é o referencial último absoluto de nossa existência!

É este Jesus vitorioso, que vem ao encontro dos seus às margens do Mar da Galiléia; é este Senhor nosso que os apóstolos experimentam no evangelho de hoje. Cada detalhe deste texto de João é cheio de significado. Vejamos: os apóstolos pescam e nada conseguem apanhar… A pescaria é imagem da ação missionária da Igreja. Sem Jesus, estamos sozinhos, sem Jesus a pescaria é estéril, as tentativas são vãs… Sem Jesus, pescamos na noite escura.. Mas, pela manhã, Jesus vem ao encontro dos seus. Notemos que os discípulos não conseguem reconhecer o Senhor ressuscitado. Somente quando Cristo se dá a conhecer é que os seus conseguem compreender e experimentar sua presença viva e atuante. E Jesus dá-se a conhecer sempre na Palavra e no Pão partido, na refeição em comum, isto é, na Celebração Eucarística. É aqui, é agora, nesta Eucaristia sagrada, que o Senhor nos fala e parte o Pão conosco. Toda Celebração eucarística é celebração pascal, é encontro com o ressuscitado! Como seria bom que, a cada Domingo, revivêssemos esta experiência, esta certeza da presença do Senhor vivo entre nós!

Os discípulos ainda não haviam reconhecido Jesus. Este lhes ordenou: “Lançai a rede!” Eles lançaram-na e já“não conseguiam puxá-la para fora, por causa da quantidade de peixes”. Notem: o Discípulo Amado, diante do sinal, reconhece o Ressuscitado: “É o Senhor!” Mas, é Simão Pedro – sempre ele, o chefe do grupo, o chefe da Comunidade dos discípulos, o que comanda a pescaria – faz-se ao mar, para encontrar Jesus. Jesus ordena que arrastem a rede para a terra. Notemos: o barco é um só, como uma só é a Igreja de Cristo; também a rede é uma só, como única é a obra da evangelização; e quem comanda a pescaria é Pedro, sob a ordem de Jesus! E a rede não se rompe, apesar de cheia de 150 peixes grandes. O número é exagerado, significando a plenitude da obra evangelizadora. E, então, Jesus repete, diante dos discípulos, os gestos da Eucaristia: “tomou o pão e distribuiu entre eles”.

Depois, três vezes, o Ressuscitado pergunta a Pedro – e pergunta aos sucessores de Pedro, os Bispos de Roma, pergunta a João Paulo II: “Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?” Pedro responde que sim, e abandona-se no Senhor: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que te amo!” Senhor, antes coloquei minha confiança em minhas próprias forças, em meu próprio amor e terminei te traindo… Tu disseste que oravas por mim para que minha fé não desfalecesse, mas fui presunçoso, e contei mais com minhas forças que com tua oração… Mas, agora, te digo: “Tu sabes tudo; tu sabes que te amo”, apesar de minha fraqueza! É naquilo que tu sabes, que tu podes, que tu em mim realizas que te digo: te amo! – E três vezes, Jesus o incumbe, diante dos outros, de uma missão toda particular: “Apascenta as minhas ovelhas!” Que ninguém duvide – a menos que deseje fazer pouco da vontade do Senhor nosso – que Pedro é o primeiro pastor do rebanho de Cristo. O rebanho é de Cristo, o Bom Pastor, e Cristo o confiou a Pedro! Quem não está em comunhão com o Sucessor de Pedro, certamente, age de modo contrário ao que Cristo desejou para a sua Igreja e para seus discípulos. Pouco adianta uma Bíblia debaixo do braço, se contrariando a Palavra de Deus, se nega a presença real do Cristo na Eucaristia (cf. Jo 6,53-57), o papel materno de Maria Virgem junto a cada discípulo amado do Senhor (cf. Jo 19,25-27), a indissolubilidade do matrimônio (cf. Mc 10,1-12) , a sucessão apostólica e o papel de Pedro e seus sucessores na Igreja de Cristo (cf. Mt 16,13-20)! Estejamos atentos: não é a Pedro super-homem que o Senhor confia a sua Igreja; mas a Pedro frágil, a Pedro que o negou, a Pedro humilhado… a Pedro que pode servir até de pedra de tropeço (cf. Mt 16,23). Pedro é a pedra da Igreja, mas a Rocha inabalável é somente Cristo! E Cristo o convida a segui-lo até o martírio, até levantar as mãos na cruz…

Assim foi com Pedro, assim com os discípulos, assim, agora, conosco… Não tenhamos medo! É possível que muitas vezes nos sintamos sozinhos, desamparados, pescando numa pescaria estéril de noite escura… Coragem: o Senhor está conosco: é ele quem nos manda à pesca, é ele quem pode encher nossas redes e dá-lhes consistência para que não se rompam, é ele quem nos revela sua presença e nos enche de coragem! Recordemos dos nossos primórdios, da coragem dos santos apóstolos que se sentiam “contentes por terem sido considerados dignos de injúrias por causa do nome de Jesus”. É que eles sabiam por experiência que o Senhor estava vivo, que o Senhor caminhava com eles. Também nós, hoje, podemos escutá-lo nas Escrituras e reconhecê-lo entre nós no Pão partido da Eucaristia. É este Jesus que nos envia à pesca, é este Jesus que caminhará sempre com sua Igreja, nossa Mãe católica, até o fim dos tempos!

A ele a glória e o louvor, a adoração, a riqueza e a sabedoria, a força e a honra para sempre. Amém.

Dom Henrique Soares