Católicos Online

     ||  Início  ->  Quem é o pobre da Bíblia?

Quem é o pobre da Bíblia? (12-06-2016)

Primeira Leitura:
HISTÓRICO: Segundo Livro de Samuel (2Sm), capítulo 12
(7) Natã disse então a Davi: Tu és esse homem. Eis o que diz o Senhor Deus de Israel: ungi-te rei de Israel, salvei-te das mãos de Saul, (8) dei-te a casa do teu senhor e pus as suas mulheres nos teus braços. Entreguei-te a casa de Israel e de Judá e, se isso fosse ainda pouco, eu teria ajuntado outros favores. (9) Por que desprezaste o Senhor, fazendo o que é mau aos seus olhos? Feriste com a espada Urias, o hiteu, para fazer de sua mulher a tua esposa, e o fizeste perecer pela espada dos amonitas. (10) Por isso, jamais se afastará a espada de tua casa, porque me desprezaste, tomando a mulher de Urias, o hiteu, para fazer dela a tua esposa. (11) Eis o que diz o Senhor: vou fazer com que se levantem contra ti males vindos de tua própria casa. Sob os teus olhos, tomarei as tuas mulheres e dá-las-ei a um outro que dormirá com elas à luz do sol! (12) Porque agiste em segredo, mas eu o farei diante de todo o Israel e diante do sol. (13) Davi disse a Natã: Pequei contra o Senhor. Natã respondeu-lhe: O Senhor perdoa o teu pecado, não morrerás.

Segunda Leitura:
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Epístola aos Gálatas (Gl), capítulo 2
(16) sabemos, contudo, que ninguém se justifica pela prática da lei, mas somente pela fé em Jesus Cristo. Também nós cremos em Jesus Cristo, e tiramos assim a nossa justificação da fé em Cristo, e não pela prática da lei. Pois, pela prática da lei, nenhum homem será justificado. (17) Pois, se nós, que aspiramos à justificação em Cristo, retornamos, todavia, ao pecado, seria porventura Cristo ministro do pecado? Por certo que não! (18) Se torno a edificar o que destruí, confesso-me transgressor. (19) Na realidade, pela fé eu morri para a lei, a fim de viver para Deus. Estou pregado à cruz de Cristo. (20) Eu vivo, mas já não sou eu, é Cristo que vive em mim. A minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim. (21) Não menosprezo a graça de Deus, mas, em verdade, se a justiça se obtém pela lei, Cristo morreu em vão.
EVANGELHOS: Evangelho segundo São Lucas (Lc), capítulo 7
(36) Um fariseu convidou Jesus a ir comer com ele. Jesus entrou na casa dele e pôs-se à mesa.
(37) Uma mulher pecadora da cidade, quando soube que estava à mesa em casa do fariseu, trouxe um vaso de alabastro cheio de perfume,
(38) e, estando a seus pés, por detrás dele, começou a chorar. Pouco depois suas lágrimas banhavam os pés do Senhor e ela os enxugava com os cabelos, beijava-os e os ungia com o perfume.
(39) Ao presenciar isto, o fariseu, que o tinha convidado, dizia consigo mesmo: Se este homem fosse profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que o toca, pois é pecadora.
(40) Então Jesus lhe disse: Simão, tenho uma coisa a dizer-te. Fala, Mestre, disse ele.
(41) Um credor tinha dois devedores: um lhe devia quinhentos denários e o outro, cinqüenta.
(42) Não tendo eles com que pagar, perdoou a ambos a sua dívida. Qual deles o amará mais?
(43) Simão respondeu: A meu ver, aquele a quem ele mais perdoou. Jesus replicou-lhe: Julgaste bem.
(44) E voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não me deste água para lavar os pés, mas esta, com as suas lágrimas, regou-me os pés e enxugou-os com os seus cabelos.
(45) Não me deste o ósculo, mas esta, desde que entrou, não cessou de beijar-me os pés.
(46) Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta, com perfume, ungiu-me os pés.
(47) Por isso te digo: seus numerosos pecados lhe foram perdoados, porque ela tem demonstrado muito amor. Mas ao que pouco se perdoa, pouco ama.
(48) E disse a ela: Perdoados te são os pecados.
(49) Os que estavam com ele à mesa começaram a dizer, então: Quem é este homem que até perdoa pecados?
(50) Mas Jesus, dirigindo-se à mulher, disse-lhe: Tua fé te salvou, vai em paz.

EVANGELHOS: Evangelho segundo São Lucas (Lc), capítulo 8
(1) Depois disso, Jesus andava pelas cidades e aldeias anunciando a boa nova do Reino de Deus.
(2) Os Doze estavam com ele, como também algumas mulheres que tinham sido livradas de espíritos malignos e curadas de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios,
(3) Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes, Susana e muitas outras, que o assistiram com as suas posses.
Homilia do : Padre Paulo Ricardo
Homilia do Padre Miguel:---
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético
Ver Homilia de Dom Henrique Soares
Ver Homilia de Mons. José Maria
Ver Homilia do Pe. Françoá Costa
Canção Nova: Homilia

11.º Domingo do Tempo Comum - A ousadia de uma pecadora

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 7, 36-8, 3)

Naquele tempo, um fariseu convidou Jesus para uma refeição em sua casa. Jesus entrou na casa do fariseu e pôs-se à mesa.

Certa mulher, conhecida na cidade como pecadora, soube que Jesus estava à mesa, na casa do fariseu. Ela trouxe um frasco de alabastro com perfume, e, ficando por detrás, chorava aos pés de Jesus; com as lágrimas começou a banhar-lhe os pés, enxugava-os com os cabelos, cobria-os de beijos e os ungia com perfume.

Vendo isso, o fariseu que o havia convidado ficou pensando: "Se este homem fosse um profeta, saberia que tipo de mulher está tocando nele, pois é uma pecadora".

Jesus disse então ao fariseu: "Simão, tenho uma coisa para te dizer". Simão respondeu: "Fala, Mestre!"

"Certo credor tinha dois devedores; um lhe devia quinhentas moedas de prata, o outro, cinquenta. Como não tivessem com que pagar, o homem perdoou os dois. Qual deles o amará mais?"

Simão respondeu: "Acho que é aquele ao qual perdoou mais". Jesus lhe disse: "Tu julgaste corretamente".

Então Jesus virou-se para a mulher e disse a Simão: "Estás vendo esta mulher? Quando entrei em tua casa, tu não me ofereceste água para lavar os pés; ela, porém, banhou meus pés com lágrimas e enxugou-os com os cabelos. Tu não me deste o beijo de saudação; ela, porém, desde que entrei, não parou de beijar meus pés. Tu não derramaste óleo na minha cabeça; ela, porém, ungiu meus pés com perfume.

Por esta razão, eu te declaro: os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados porque ela mostrou muito amor. Aquele a quem se perdoa pouco, mostra pouco amor". E Jesus disse à mulher: "Teus pecados estão perdoados".

Então, os convidados começaram a pensar: "Quem é este que até perdoa pecados?"

Mas Jesus disse à mulher: "Tua fé te salvou. Vai em paz!"

Depois disso, Jesus andava por cidades e povoados, pregando e anunciando a Boa-nova do Reino de Deus. Os doze iam com ele; e também algumas mulheres que haviam sido curadas de maus espíritos e doenças: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios; Joana, mulher de Cuza, alto funcionário de Herodes; Susana, e várias outras mulheres que ajudavam a Jesus e aos discípulos com os bens que possuíam.

*

A passagem proclamada na liturgia de hoje constitui, sem dúvida, uma das cenas mais belas dos Evangelhos. A imagem que nos é colocada pelo Evangelho de São Lucas representa o que acontece conosco em cada comunhão eucarística: ainda que possamos tocar a humanidade santíssima de Cristo que se esconde sob as espécies do pão e do vinho, o sentimento que usualmente nos sobrevém — se não estamos contaminados pela arrogância — é o de uma profunda miséria e indignidade, pelo que, assim como a pecadora do Evangelho, a única coisa que conseguimos fazer é "banhar-lhe os pés" a Cristo, reconhecendo a nossa pequenez diante da Sua misericórdia redentora. Oxalá sempre repetíssemos em nossas comunhões esta belíssima narração que escutamos no dia de hoje!

A riqueza de detalhes com que São Lucas relata esse episódio suscita um questionamento importante. Diz o Evangelho que a mulher "trouxe um frasco de alabastro com perfume e, ficando por detrás, chorava aos pés de Jesus", e que "com as lágrimas começou a banhar-lhe os pés, enxugava-os com os cabelos, cobria-os de beijos e os ungia com perfume" (v. 37-38). Esta é uma imagem esponsal, de uma expressão íntima de amor. A pergunta é: o que levou aquela mulher, "conhecida na cidade como pecadora", a tamanha ousadia? Se sabia de sua condição e conhecia de quem se aproximava, como se atreveu a tanto?

A resposta deve ser encontrada na , fé bem concreta que aquela mulher tinha no amor salvífico de Deus, e que a justificou. Como diz a segunda leitura deste domingo, de fato, "ninguém é justificado por observar a Lei de Moisés, mas por crer em Jesus Cristo" (Gl 2, 16). Simão, o fariseu, embora externamente parecesse justo, não teve fé em Jesus: quando ouviu Ele perdoar os pecados àquela mulher, somou sua voz à dos outros convidados e perguntou, escandalizado, quem era aquele homem. Aquela pecadora pública, no entanto, sequer se teria aproximado de Cristo se não acreditasse que Ele era muito mais que um simples homem.

O objeto específico de sua fé, como dito, é o amor de Deus, que "nos amou primeiro" (1 Jo 4, 19). A salvação humana é, pois, de iniciativa divina, mas não se efetiva sem a virtude da . Essa é uma verdade que pode ser observada não só na teologia, mas também nas relações humanas: uma pessoa só se dá conta do amor que recebe de outrem porque sua inteligência é capaz de abstrair dos gestos concretos captados por seus sentidos físicos. Se, per absurdum, alguém sacrificasse a própria vida por seu cãozinho de estimação, agiria em vão: desprovidos de intelecto, o máximo que os animais podem perceber são afetos sensíveis; não são capazes de receber amor, mas tão somente "carinho".

No caso do amor de Deus, que ultrapassa o alcance de nossa inteligência, é preciso que a Sua graça venha em nosso socorro. Por isso, a fé cristã não é algo meramente humano, mas uma virtude teologal. Sem o auxílio divino, de fato, seria impossível aceitarmos o fato de um Deus que ama tanto as Suas criaturas a ponto de tomar a forma de uma delas para salvá-las; o máximo a que conseguiríamos chegar seria uma heresia como o jansenismo.

Com a Encarnação da segunda Pessoa da Trindade, porém, fica claro que o amor de Deus não é uma teoria abstrata, um ideal platônico ou utópico: o amor divino tem um lugar, que é o Sagrado Coração de Jesus. "O Verbo se fez carne" e tomou um coração de carne humana para Se entregar por nós. Por isso, quando recebemos o Seu corpo, não recebemos um corpo qualquer, mas um corpo dilacerado; quando recebemos o Seu sangue, não é um sangue qualquer, mas um sangue derramado; quando recebemos o Seu coração, recebemo-lo traspassado; Suas mãos, chagadas; e, do mesmo modo, todas as partes de Sua humanidade.

Diante desse mistério tão grandioso, a única resposta possível é a da pecadora arrependida do Evangelho: a gratidão. Prostrada aos pés do Senhor, aquela mulher é "eucaristia viva": todos os seus atos são uma ação de graças pelo perdão que ela recebeu. "Os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados porque ela mostrou muito amor. Aquele a quem se perdoa pouco, mostra pouco amor" (v. 47).

Assim como esta mulher, possamos também nós oferecer a Deus a nossa ação de graças, unindo os nossos gestos à reparação infinita que o próprio Cristo oferece na Cruz. Neste fim de semana em quetambém celebramos a memória do Anjo de Portugal, rezemos com fé a oração que ele ensinou aos três pastorinhos de Fátima: "Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e não Vos amam."

Padre Paulo Ricardo


Sou Pobre ou sou Rico?

Convém iniciar a meditação sobre a Palavra do Senhor deste Domingo recordando a primeira e principal das Bem-aventuranças; aquela que resume todas as demais: “Bem-aventurados os pobres de espírito porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,3).

O Evangelho de hoje afirma que “Jesus andava por cidades e povoados, pregando e anunciando a Boa-nova do Reino de Deus”. Que Boa-nova é esta, que Jesus pregava? Que nele, Deus se revelava como Pai cheio de amor e misericórdia, que se volta para o homem, inclina-se em direção a ele, para acolhê-lo, perdoá-lo, e caminhar com ele. Este anúncio requer uma decisão nossa: a conversão, isto é, um coração aberto à Boa-nova de Jesus; um coração capaz de acolher a presença salvífica de Deus e, cheio do amor do Senhor, abrir-se também para os outros, sobretudo para os pobres sejam de que pobrezas forem. E por que Jesus afirma que é dos pobres o Reino dos Céus? Esta pergunta é a chave para compreender as leituras de hoje. Vejamos.

Quem é o pobre na Bíblia? De que pobre Jesus está falando? Pobre é todo aquele que se encontra numa situação extrema, situação de fraqueza e impotência; pobre é todo aquele que se encontra numa situação limite na vida. O gravemente doente é um pobre, o que não tem casa e comida é um pobre, o discriminado e perseguido é um pobre, o que se sente só e sem amor é um pobre, o aidético, o que foi derrotado, o que foi incompreendido, o que foi pisado pelo peso da existência… Notemos que a pobreza em si não é um bem. E por que Jesus proclama os pobres bem-aventurados, dizendo ser deles o Reino dos Céus? Porque o pobre, na sua pobreza, toca o que a vida humana é realmente: precária, débil, incerta, dependente de Deus. Normalmente, nossa tendência é esquecer essa realidade, procurando mil muletas, mil apoios, mil ilusões: bens materiais, saúde, prestígio, amigos, ninho afetivo, poder… e julgamo-nos auto-suficientes, senhores de nós mesmos, perdendo a atitude de criança simples e confiante diante de Deus. Assim, auto-suficiente, ricos para nós mesmos, não nos achamos necessitados de um Salvador, fechamo-nos para o Reino que Jesus veio anunciar. Só o pobre pode, com toda verdade, tocar a debilidade da vida com toda crueza e verdade e, assim, os pobres têm muito mais possibilidades de abrir-se para o Reino.

As leituras deste Domingo ilustram-nos esta realidade. Primeiro, a pobreza de Davi que, apesar de forte militarmente e rei de Israel, não hesita em reconhecer seu pecado com toda humildade diante do profeta do Senhor: “Pequei contra o Senhor” – diz o rei. Davi não usa máscara, não procura justificar-se com desculpas esfarrapadas. Reconhece-se pequeno, frágil, limitado… humilha-se ante o Senhor. A resposta do Senhor é imediata: “De sua parte, o Senhor perdoou o teu pecado, de modo que não morrerás”. Depois, as duas figuras contrapostas do Evangelho: de um lado Simão, cheio de si, de sua própria justiça, seguro de si próprio, julgando-se em dia com Deus e com seus preceitos e, por isso mesmo, fechado para a misericórdia e a delicadeza para com os outros. Jesus o desmascara: “Quando entrei na tua casa, tu não me ofereceste água para lavar os pés… Tu não me deste o beijo de saudação… Tu não derramaste óleo na minha cabeça”. Simão, cheio de si, nunca pensou de verdade que precisasse de um Salvador e, por isso, não foi aberto para Jesus e para o Reino. Recebeu Jesus exteriormente, mas não aderiu a ele interiormente, de todo coração! Por outro lado, a mulher pecadora, adúltera pública, derrama as lágrimas e o coração aos pés de Jesus, com toda simplicidade, com toda sinceridade, do fundo de sua miséria… Reconhece-se pecadora, quebrada, infiel; sem máscara nenhuma, mostra-se ao Senhor e suplica sua misericórdia. Por isso, pode ouvir: “Teus pecados estão perdoados. Vai e paz!”

Somente quando experimentamos, de fato, esta pobreza, podemos verdadeiramente acolher Deus que nos vem em Jesus como Salvador. Caso contrário, diremos que cremos nele, mas somente creremos de fato em nós e em nossas mil riquezas econômicas, afetivas, sociais, psicológicas, espirituais… Assim, do alto da nossa auto-suficiência, tornamo-nos incapazes de acolher de verdade o Reino. Não é este o drama do mundo? Com nossa ciência, com nosso divertimento, com nossa liberação total, com nossos bens de consumo… quem precisa de um Salvador? Temos tudo, somos ricos, estamos bem assim e, sozinhos, nos bastamos!

Pois bem: faz parte do núcleo da convicção cristã que não nos bastamos, que somos pobres e, sozinhos, jamais nos realizaremos plenamente. É o que são Paulo exprime na segunda leitura da Missa: aos cristãos de origem judaica, ele recordava que a salvação não vem das obras da Lei de Moisés, de nossa própria bondade, mas unicamente da fé em Jesus, presente de Deus, misericórdia de Deus para nós. É esta, muitas vezes, a nossa dificuldade: compreender que somos todos pobres diante de Deus; precisamos dele, a ele devemos abrir nossa mente, nosso coração, nossa vida. Aí, sim, o Reino de Deus começará a acontecer e Deus em Cristo reinará de verdade na nossa vida e, através de nós, na vida do mundo.

Que nos perguntemos: sou pobre ou sou rico? Reconheço devedor e dependente de Deus, realmente? Tenho-o como meu Salvador e minha riqueza? Aposto nele a minha vida? Tenho consciência que a vida não é minha de modo absoluto, mas é um do qual deverei prestar contas ao doador? O Senhor nos ajude e ilumine nosso coração e nossa mente!

Dom Henrique Soares