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Não tenhais medo! (07-08-2016)

Primeira Leitura:
SAPIENCIAL: Livro da Sabedoria (Sb), capítulo 18
(6) Esta mesma noite tinha sido conhecida de antemão por nossos pais, para que, conhecendo bem em que juramentos confiavam, ficassem cheios de coragem. (7) Assim vosso povo esperava tanto a salvação dos justos como a perdição dos ímpios, (8) e pelo mesmo fato de terdes destruído nossos inimigos, vós nos convidastes a ser vossos e nos honrastes. (9) Por isso, os santos filhos dos justos ofereciam secretamente um sacrifício, de comum acordo estabeleciam o pacto divino: que os santos participariam dos mesmos bens e correriam os mesmos perigos, e entoavam já os hinos de seus pais,

Segunda Leitura:
HEBREUS: Epístola aos Hebreus (Hb), capítulo 11
(1) A fé é o fundamento da esperança, é uma certeza a respeito do que não se vê. (2) Foi ela que fez a glória dos nossos, antepassados. (3) Pela fé reconhecemos que o mundo foi formado pela palavra de Deus e que as coisas visíveis se originaram do invisível. (4) Pela fé Abel ofereceu a Deus um sacrifício bem superior ao de Caim, e mereceu ser chamado justo, porque Deus aceitou as suas ofertas. Graças a ela é que, apesar de sua morte, ele ainda fala. (5) Pela fé Henoc foi arrebatado, sem ter conhecido a morte: e não foi achado, porquanto Deus o arrebatou, mas a Escritura diz que, antes de ser arrebatado, ele tinha agradado a Deus (Gn 5,24). (6) Ora, sem fé é impossível agradar a Deus, pois para se achegar a ele é necessário que se creia primeiro que ele existe e que recompensa os que o procuram. (7) Pela fé na palavra de Deus, Noé foi avisado a respeito de acontecimentos imprevisíveis, cheio de santo temor, construiu a arca para salvar a sua família. Pela fé ele condenou o mundo e se tornou o herdeiro da justificação mediante a fé. (8) Foi pela fé que Abraão, obedecendo ao apelo divino, partiu para uma terra que devia receber em herança. E partiu não sabendo para onde ia. (9) Foi pela fé que ele habitou na terra prometida, como em terra estrangeira, habitando aí em tendas com Isaac e Jacó, co-herdeiros da mesma promessa. (10) Porque tinha a esperança fixa na cidade assentada sobre os fundamentos (eternos), cujo arquiteto e construtor é Deus. (11) Foi pela fé que a própria Sara cobrou o vigor de conceber, apesar de sua idade avançada, porque acreditou na fidelidade daquele que lhe havia prometido. (12) Assim, de um só homem quase morto nasceu uma posteridade tão numerosa como as estrelas do céu e inumerável como os grãos de areia da praia do mar. (13) Foi na fé que todos (nossos pais) morreram. Embora sem atingir o que lhes tinha sido prometido, viram-no e o saudaram de longe, confessando que eram só estrangeiros e peregrinos sobre a terra (Gn 23,4). (14) Dizendo isto, declaravam que buscavam uma pátria. (15) E se se referissem àquela donde saíram, ocasião teriam de tornar a ela... (16) Mas não. Eles aspiravam a uma pátria melhor, isto é, à celestial. Por isso, Deus não se dedigna de ser chamado o seu Deus, de fato, ele lhes preparou uma cidade. (17) Foi pela sua fé que Abraão, submetido à prova, ofereceu Isaac, seu único filho, (18) depois de ter recebido a promessa e ouvido as palavras: Uma posteridade com o teu nome te será dada em Isaac (Gn 21,12). (19) Estava ciente de que Deus é poderoso até para ressuscitar alguém dentre os mortos. Assim, ele conseguiu que seu filho lhe fosse devolvido. E isso é um ensinamento para nós!
EVANGELHOS: Evangelho segundo São Lucas (Lc), capítulo 12
(32) Não temais, pequeno rebanho, porque foi do agrado de vosso Pai dar-vos o Reino.
(33) Vendei o que possuís e dai esmolas, fazei para vós bolsas que não se gastam, um tesouro inesgotável nos céus, aonde não chega o ladrão e a traça não o destrói.
(34) Pois onde estiver o vosso tesouro, ali estará também o vosso coração.
(35) Estejam cingidos os vossos rins e acesas as vossas lâmpadas.
(36) Sede semelhantes a homens que esperam o seu senhor, ao voltar de uma festa, para que, quando vier e bater à porta, logo lha abram.
(37) Bem-aventurados os servos a quem o senhor achar vigiando, quando vier! Em verdade vos digo: cingir-se-á, fá-los-á sentar à mesa e servi-los-á.
(38) Se vier na segunda ou se vier na terceira vigília e os achar vigilantes, felizes daqueles servos!
(39) Sabei, porém, isto: se o senhor soubesse a que hora viria o ladrão, vigiaria sem dúvida e não deixaria forçar a sua casa.
(40) Estai, pois, preparados, porque, à hora em que não pensais, virá o Filho do Homem.
(41) Disse-lhe Pedro: Senhor, propões esta parábola só a nós ou também a todos?
(42) O Senhor replicou: Qual é o administrador sábio e fiel que o senhor estabelecerá sobre os seus operários para lhes dar a seu tempo a sua medida de trigo?
(43) Feliz daquele servo que o senhor achar procedendo assim, quando vier!
(44) Em verdade vos digo: confiar-lhe-á todos os seus bens.
(45) Mas, se o tal administrador imaginar consigo: Meu senhor tardará a vir, e começar a espancar os servos e as servas, a comer, a beber e a embriagar-se,
(46) o senhor daquele servo virá no dia em que não o esperar e na hora em que ele não pensar, e o despedirá e o mandará ao destino dos infiéis.
(47) O servo que, apesar de conhecer a vontade de seu senhor, nada preparou e lhe desobedeceu será açoitado com numerosos golpes.
(48) Mas aquele que, ignorando a vontade de seu senhor, fizer coisas repreensíveis será açoitado com poucos golpes. Porque, a quem muito se deu, muito se exigirá. Quanto mais se confiar a alguém, dele mais se há de exigir.
Homilia do : Padre Paulo Ricardo
Homilia do Padre Miguel:---
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético
Ver Comentário Exegético
Ver Homilia de Dom Henrique Soares
Ver Homilia de Mons. José Maria
Ver Homilia do Pe. Françoá Costa
Canção Nova: Homilia

19.º Domingo do Tempo Comum - A natureza do sacerdócio

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc
 12, 32-48)

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: "Não tenhais medo, pequenino rebanho, pois foi do agrado do Pai dar a vós o Reino. Vendei vossos bens e dai esmola. Fazei bolsas que não se estraguem, um tesouro no céu que não se acabe; ali o ladrão não chega nem a traça corrói. Porque, onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.

Que vossos rins estejam cingidos e as lâmpadas acesas. Sede como homens que estão esperando seu senhor voltar de uma festa de casamento, para lhe abrirem, imediatamente, a porta, logo que ele chegar e bater.

Felizes os empregados que o Senhor encontrar acordados quando chegar. Em verdade eu vos digo: Ele mesmo vai cingir-se, fazê-los sentar à mesa e, passando, os servirá. E caso ele chegue à meia-noite ou às três da madrugada, felizes serão, se assim os encontrar.

Mas ficai certos: se o dono da casa soubesse a hora em que o ladrão iria chegar, não deixaria que arrombasse a sua casa. Vós também, ficai preparados! Porque o Filho do Homem vai chegar na hora em que menos o esperardes".

Então Pedro disse: "Senhor, tu contas esta parábola para nós ou para todos?"

E o Senhor respondeu: "Quem é o administrador fiel e prudente, que o senhor vai colocar à frente do pessoal de sua casa, para dar comida a todos na hora certa? Feliz o empregado que o patrão, ao chegar, encontrar agindo assim! Em verdade eu vos digo: o senhor lhe confiará a administração de todos os seus bens. Porém, se aquele empregado pensar: 'Meu patrão está demorando', e começar a espancar os criados e as criadas, e a comer, a beber e a embriagar-se, o senhor daquele empregado chegará num dia inesperado e numa hora imprevista, ele o partirá ao meio e o fará participar do destino dos infiéis. Aquele empregado que, conhecendo a vontade do Senhor, nada preparou, nem agiu conforme a sua vontade, será chicoteado muitas vezes. Porém, o empregado que não conhecia essa vontade e fez coisas que merecem castigo, será chicoteado poucas vezes. A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido!"

Na Liturgia deste domingo, a Igreja convida seus filhos a meditar com um pouco mais de vagar a natureza e a dignidade do sacerdócio católico. O Evangelho que hoje nós é proclamado contém a este respeito duas parábolas: na primeira, o Senhor se refere em geral seus discípulos e discípulas, "empregados e empregadas", que aguardam ansiosos a sua vinda gloriosa; na segunda, fala do "administrador fiel e prudente" (ὁ πιστὸς οἰκονόμος ὁ φρόνιμος), isto é, dos responsáveis por tomar conta da casa de seu Senhor, da Igreja.

Antes, porém, de considerarmos a essência do sacerdócio ministerial e hierárquico, exercido unicamente pelos Bispos e presbíteros, precisamos ter em mente que há um só verdadeiro e eterno sacerdote, Jesus Cristo, "único mediador entre Deus e os homens" (1Tm 2, 5). Ora, dado que todos os fiéis tornam-se, por seu Batismo, membros do Corpo de Cristo, que é a Igreja, segue-se que todos eles participam de algum modo do único sacerdócio de sua divina Cabeça. Por isso, diz oCatecismo (§1546),

Toda a comunidade dos crentes, como tal, é uma comunidade sacerdotal. Os fiéis exercem o seu sacerdócio baptismal através da participação, cada qual segundo a sua vocação própria, na missão de Cristo, sacerdote, profeta e rei. É pelos sacramentos do Batismo e da Confirmação que os fiéis são "consagrados para serem [...] um sacerdócio santo".

No entanto, é apenas a alguns que, escolhidos especialmente por Deus, cabe a missão e o dever de guardar, edificar e guiar a Igreja de Cristo; são eles que, por mandato divino, são postos "à frente do pessoal de sua casa" para dar de comer "a todos na hora certa". Trata-se pois de ministros no sentido forte do termo, quer dizer, de homens que agem, não em seu próprio nome, mas na pessoa (in persona) que deles se serve, que os envia, que lhes atribui certa função e a capacidade necessária para realizá-la. Diferentemente do fiel leigo, com efeito, o padre recebe do Senhor o encargo de, com o poder e a autoridade que dEle derivam, agir em sua pessoa, tornando-O visível e presente no meio da comunidade dos crentes.

Ao serem mais intimamente configurados a Cristo no dia de sua ordenação, os sacerdotes se tornam instrumentos, vivos e reais, nas mãos de Deus; daí, portanto, a necessidade de Lhe serem dóceis e fiéis, de serem vazios de si mesmos e todos entregues aos desejos do seu Senhor. O padre não é ordenado para proveito pessoal, mas para pôr-se a serviço da salvação eterna das almas que lhe são confiadas, deixando de lado seus caprichos e preferências, vivendo segundo o modelo de Jesus, que, embora fosse Rei, por amor se fez o último dos escravos (cf. Mc 10, 43ss; 1Pd 5, 3).

É São Paulo, de resto, quem o expressa com clareza: "Portanto, desempenhamos o encargo de embaixadores em nome de Cristo, e é Deus mesmo que exorta por nosso intermédio" (2Cor 5, 20); e noutro lugar: "Que os homens nos considerem, pois, como simples operários [ὑπηρέτας] de Cristo e administradores dos mistérios de Deus" (1Cor 4, 1). O padre deve anular-se, esquecer-se de si, deixar-se como que diluir na Pessoa amável que dele quer-se servir; deve, numa palavra, saber imitar o exemplo de São João Maria Vianney, cuja memória, celebrada faz poucos dias, a Igreja conserva e propõe a todos quantos foram chamados a ser embaixadores em nome de Cristo Jesus.

Padre Paulo Ricardo


Não tenhais medo!

Quando o Evangelho não nos é exigente? Quando a Palavra de Deus não nos questiona? A Escritura diz que “a Palavra de Deus é viva e eficaz, mais penetrante do qualquer espada de dois gumes; penetra até dividir alma e espírito, junturas e medulas. Ele julga as disposições e intenções do coração” (Hb 4,12). A cada Domingo, fazemos experiência dessa exigência viva e eficaz da Palavra do Senhor em nossa vida. É o caso também deste hoje.

Comecemos com a advertência consoladora e carinhosa do Senhor Jesus: “Não tenhais medo, pequenino rebanho, pois foi do agrado do vosso Pai dar-vos o Reino”. Tão atual e necessária esta palavra! A fé cristã e a Igreja são tão combatidas atualmente, tão incompreendidas! Cada vez mais nossa sociedade se paganiza, cada vez mais rejeita o cristianismo, cada vez mais fortemente apostata da fé na qual foi plasmada e cada vez menos compreende o Evangelho e suas exigências. Com quanta força se contesta a moral cristã; com quanta ênfase se ressalta e propaga a fraqueza desse ou daquele membro da Igreja, sobretudo do clero… O interesse é um só: desmoralizar a Igreja como porta-voz do Evangelho. Desmoraliza-se a Igreja para calar-se e desmoralizar-se a moral cristã e suas exigências. Olhem o Crucificado, pensem nas suas exigências e recordem o que o mundo pensa e diz: “Não queremos que ele reine sobre nós!” Pois a nós, pequeno rebanho – rebanho cada vez menor -, o Senhor exorta: “Não tenhais medo, pequenino rebanho!” Não temais o mundo pagão, não temais os escândalos, não temais vossas próprias infidelidades e fraquezas, não temais os sábios da sabedoria deste mundo, que não podem compreender as coisas de Deus (cf. 1Cor 1,21) e crucificaram e crucificam ainda o Senhor da Glória (cf. 1Cor 2,8). Não temais ante as dificuldades da vida!

Mas, como é possível resistir? É tão grande o combate; é tão dramática a batalha! As leituras da Missa de hoje dão-nos uma resposta emocionante. O Livro da Sabedoria nos recorda a noite da saída do Egito. Israel era um povinho, um bando de escravos, menos que nada, menos que ninguém… Como suportou o sofrimento? Como se conservou fiel a Deus? Como resistiu? Como não se dispersou? Resistiu porque colocou somente em Deu sua esperança: “A noite da libertação fora predita a nossos pais, para que, sabendo a que juramento tinham dado crédito, se conservassem intrépidos”. O povo de Deus, escravo no Egito, não duvidou da promessa que Deus fizera a Abraão; o povo esperou contra toda esperança e esperou no julgamento de Deus:“Os piedosos filhos dos bons fizeram este pacto divino: que os santos participariam solidariamente dos mesmos bens e dos mesmos perigos”. Um povo unido pela esperança e pela fé na Palavra de Deus.

A segunda leitura, da Carta aos Hebreus, também nos responde: a fé, mãe da esperança, foi a forçados amigos de Deus. “A fé é um modo de já possuir o que ainda se espera, a convicção acerca de realidades que não se vêem”. Na fé, já possuímos; na fé, já tocamos com as mãos aquilo que o Senhor nos prometeu e nos preparou. Foi pela fé que nossos antepassados partiram, deixaram tudo; pela fé tiveram a coragem de viver errantes, morando em tendas, daqui para ali… Pela fé, viveram como estrangeiros nesse mundo, colocando toda esperança em Deus, que nos prepara uma Pátria melhor no céu; pela fé, Abraão, nosso pai, foi capaz de sacrificar seu filho único… Pela fé deles “Deus não se envergonha deles, ao ser chamado o seu Deus”.

Vejam, irmãos: o caminho que o Senhor nos propõe nunca foi fácil… Somente aqueles que tiveram a coragem de se deixar, de se abandonar, de se entregar, perseveraram até o fim. É o que o Senhor nosso, Jesus Cristo, nos propõe hoje: “Vendei vossos bens e dai esmola… Fazei bolsas que não se estraguem, um tesouro no céu… Que vossos rins estejam cingidos e as lâmpadas acesas, como homens esperando seu senhor voltar. Ficai preparados!” Todas essas palavras nos convidam ao desapego, à vigilância, à atitude de disponibilidade, de entrega e esperança diante de Deus. E como tudo isso é difícil, num mundo que propõe como ideal de vida o conforto, a fartura de bens, o individualismo, a confiança somente no que se vê, a dispersão interior e exterior! Digam: como as crianças podem ter amor a Deus passando horas e horas diante dos filmes e desenhos animados pagãos? Como os adultos podem prender o coração às coisas de Deus, empanturrando-se de dispersão, de novelas e de futilidades mundanas? Como rezar bem se nos apegamos ao conforto desmesurado? Como manteremos nosso fervor dispersos em mil bobagens? Como seremos realmente fortes na fé sem combater nossos vícios? Como estaremos prontos para levar cruz na doença, nas dificuldades da vida conjugal, no desafio da educação dos filhos, na luta do combate aos vícios, na busca sincera de sermos retos, decentes e honestos por amor de Cristo? Como viver tudo isso sem a vigilância? Como permanecer firmes na fé católica sem a oração e a procura das coisas de Deus? O Senhor virá na noite desse mundo: “E caso chegue à meia-noite ou às três da madrugada, felizes serão” se nos encontrar vigilantes! Vigiemos, portanto!

Caríssimos, esta advertência é para todos, e de modo especial, para nós, pastores do rebanho, a quem o Senhor constituiu “administrador fiel e prudente”. Que não caiamos na ilusão de pensar: “Meu patrão está demorando” e nos entreguemos à infidelidade! Não temamos; vigiemos, sejamos fiéis até o fim! Não reneguemos o Evangelho! – Eis o apelo do Senhor hoje!

Esta palavra vale também para os pais, servos que o Senhor colocou à frente de sua família. Que sejam conscientes da missão que receberam e transmitam aos seus filhos o testemunho de uma fé robusta e dos verdadeiros valores humanos e cristãos. E possam receber a recompensa dos servos bons e fiéis, aqui e por toda a eternidade. Amém

Dom Henrique Soares