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O fogo do amor divino (14-08-2016)

Primeira Leitura:
PROFETAS MAIORES: Livro de Jeremias (Jr), capítulo 38
(4) Disseram, então, os chefes ao rei: Seja esse homem eliminado, pois que desencoraja o que resta de guerreiros na cidade em todo o povo, proferindo semelhantes palavras. Não procura ele a salvação do povo mas a sua perdição. (5) Respondeu-lhes o rei Sedecias: 'Ele está em vossas mãos. O rei nada vos pode recusar. (6) Tomaram então Jeremias e, por meio de cordas, o fizeram descer na cisterna de Melquias, o príncipe real, a qual se encontrava no pátio do cárcere. Não havia água na cisterna, havia, porém, lodo, onde Jeremias se atolou. (7) Um eunuco etíope do palácio real, chamado Abdemelec, soube, porém, que haviam lançado Jeremias na cisterna. Como estivesse o rei nesse momento assentado à porta de Benjamim, (8) saiu ele do palácio para ir encontrá-lo. (9) Ó rei, meu Senhor, disse-lhe o eunuco, andaram mal esses homens, tratando assim o profeta Jeremias e lançando-o na cisterna. Morrerá de fome, pois que não há mais pão na cidade. (10) Respondeu-lhe então o rei com esta ordem: Leva daqui contigo trinta homens e faze com que retirem o profeta Jeremias da cisterna, antes que morra.

Segunda Leitura:
HEBREUS: Epístola aos Hebreus (Hb), capítulo 12
(1) Desse modo, cercados como estamos de uma tal nuvem de testemunhas, desvencilhemo-nos das cadeias do pecado. Corramos com perseverança ao combate proposto, com o olhar fixo no autor e consumador de nossa fé, Jesus. (2) Em vez de gozo que se lhe oferecera, ele suportou a cruz e está sentado à direita do trono de Deus. (3) Considerai, pois, atentamente aquele que sofreu tantas contrariedades dos pecadores, e não vos deixeis abater pelo desânimo. (4) Ainda não tendes resistido até o sangue, na luta contra o pecado.
EVANGELHOS: Evangelho segundo São Lucas (Lc), capítulo 12
(49) Eu vim lançar fogo à terra, e que tenho eu a desejar se ele já está aceso?
(50) Mas devo ser batizado num batismo, e quanto anseio até que ele se cumpra!
(51) Julgais que vim trazer paz à terra? Não, digo-vos, mas separação.
(52) Pois de ora em diante haverá numa mesma casa cinco pessoas divididas, três contra duas, e duas contra três,
(53) estarão divididos: o pai contra o filho, e o filho contra o pai, a mãe contra a filha, e a filha contra a mãe, a sogra contra a nora, e a nora contra a sogra.
Homilia do : Padre Paulo Ricardo
Homilia do Padre Miguel:---
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético
Ver Homilia de Mons. José Maria
Canção Nova: Homilia

20.º Domingo do Tempo Comum - A família querida por Deus

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 12, 49-53)

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Eu vim para lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso! Devo receber um batismo, e como estou ansioso até que isto se cumpra! Vós pensais que eu vim trazer a paz sobre a terra? Pelo contrário, eu vos digo, vim trazer divisão. Pois, daqui em diante, numa família de cinco pessoas, três ficarão divididas contra duas e duas contra três; ficarão divididos: o pai contra o filho e o filho contra o pai; a mãe contra a filha e a filha contra a mãe; a sogra contra a nora e a nora contra a sogra".

Para entender a passagem de difícil interpretação que a liturgia da Igreja proclama neste domingo — falando de "divisões" que Cristo viria trazer no seio das famílias —, é necessário entendermos em que consiste a família natural tal como criada por Deus, o que aconteceu com ela após a Queda do homem e, por fim, como se deu, na pessoa do Verbo encarnado, a restauração desse jardim onde Deus quis que desabrochassem novas vidas para o Céu.

Comecemos pelo substrato biológico da família. Desde o princípio, o Criador fez homem e mulher para que, complementando-se, eles pudessem dar perpetuidade à geração humana. Essa realidade nós a compartilhamos com os outros animais: também eles, por meio da união entre macho e fêmea, se reproduzem e preservam a sua espécie. O ser humano, no entanto, possui algo mais importante, que é a sua alma. Para além dos laços de sangue, o vínculo mais forte a unir as famílias deve ser, portanto, de natureza espiritual.

O drama da Queda frustrou, porém, o projeto divino para a sexualidade humana, fazendo entrar no mundo o egoísmo e os vícios. A sociedade dos homens, destinada desde o princípio à convivência com o próprio Deus, viu-se obrigada a enfrentar o problema do mal. Sobre o homem e a mulher passaram a recair verdadeiras maldições (cf. Gn 3, 16-19), decorrentes de seu pecado, e até hoje podemos experimentar quão insossas ou amargas se tornam as famílias quando apartadas de seu fim último.

Foi necessário que o próprio Deus descesse dos céus, na pessoa de seu divino Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, para que essa comunidade de amor fosse resgatada e elevada à sua verdadeira vocação. É nesse contexto que se inserem as palavras de Jesus no Evangelho de hoje: "Eu vim para lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso! Devo receber um batismo, e como estou ansioso até que isto se cumpra!" (v. 49-50). De fato, que deseja o Senhor, ao encarnar-se, senão infundir em nossos corações o seu amor e batizá-los com o Espírito Santo e com fogo (cf. Mt3, 11), como anteviu o profeta São João Batista? Que quer a família trinitária, ao enviar ao mundo Um dos seus, senão "que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade" (1Tm 2, 4)?

No entanto, ai de nós, homens, dos quais muitos haveremos de rejeitar o convite para participar do banquete nupcial do Cordeiro! O drama da recusa de Deus não terá apenas repercussões eternas, mas já se fará sentir nesta mesma vida terrena. "Vós pensais que eu vim trazer a paz sobre a terra?", pergunta o Senhor. "Pelo contrário, eu vos digo, vim trazer divisão. Pois, daqui em diante, numa família de cinco pessoas, três ficarão divididas contra duas e duas contra três; ficarão divididos: o pai contra o filho e o filho contra o pai; a mãe contra a filha e a filha contra a mãe; a sogra contra a nora e a nora contra a sogra" (v. 51-53).

À luz da história da salvação, é mais fácil entendermos essas palavras do Mestre. Embora seja o seu desejo ver todos os homens "participantes da natureza divina" (2Pd 1, 4), nem todos aceitarão integrar a família de Deus: alguns tragicamente preferirão, à sadia guerra que vive a Igreja militante nesta terra, a falsa paz do mundo; renunciarão à gloriosa missão de educar filhos para a eternidade só para manter os confortos passageiros desta vida terrena; submeter-se-ão de bom grado aos caprichos mundanos de seus parentes e amigos, ao invés de honrar ao Pai celeste, de onde provém tudo o que têm e são.

Felizes serão aqueles, porém, que acolherem o convite de Cristo e integrarem a família divina, que é a sua Igreja: terão o seu amor meramente humano elevado às alturas do Céu. Quando um homem e uma mulher se unem, de fato, para serem imagem do amor com que Cristo amou a sua Igreja, acontece então o verdadeiro sacramento do Matrimônio: os dois não só se fazem uma só carne, como também se tornam, um para o outro, caminho de santidade — caminho este que se vai alargando na pessoa dos filhos, o maior bem do casamento cristão (cf. Casti Connubii, 12-13).

Todos os dias, portanto, ao abrir a porta de nossas casas, lembremo-nos de amar as pessoas que estão ali como se estivéssemos a amar Cristo no Santíssimo Sacramento do altar — ainda que nossos familiares não sejam as melhores pessoas do mundo, afinal, quando Jesus morreu por nós, tampouco nós éramos alguma coisa. Só acreditando e agindo realmente dessa forma será possível vivermos a restauração que Deus veio trazer às famílias e experimentar o fogo ardente de caridade que Ele veio lançar à terra.

Padre Paulo Ricardo


O fogo do amor divino

O fogo aparece frequentemente na Sagrada Escritura como símbolo do Amor de Deus, que purifica os homens de todas as suas impurezas. O amor, como fogo, nunca diz basta, tem a força das chamas e ateia-se no trato com Deus: Ardia-me o coração dentro do peito, ateava-se o fogo na minha meditação, exclama o Salmista… No dia de Pentecostes, o Espírito Santo – o Amor Divino- derrama-se sobre os Apóstolos sob a forma de línguas de fogo que lhes purificam o coração, os inflamam e os preparam para a missão de estender o Reino de Cristo por todo o mundo.

Jesus diz-nos hoje no Evangelho da Missa: Vim trazer fogo à terra e que hei de querer senão que arda? Em Cristo, o amor divino alcança a sua máxima expressão: Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu o seu Filho Unigênito. Jesus entrega voluntariamente a sua vida por nós, e ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos. Por isso confidencia-nos também a impaciência santa que o domina enquanto não vir cumprido o seu batismo, a sua própria morte na Cruz pela qual nos redime e nos eleva: Tenho que ser batizado com um batismo, e como me sinto ansioso enquanto não se realizar!

O Senhor quer que o seu amor se ateie no nosso coração e provoque um incêndio que o invada por completo. Ama-nos com um amor pessoal e individual, como se cada um de nós fosse o único objeto da sua caridade. Em nenhum instante cessou de amar-nos, de ajudar-nos, de proteger-nos, de comunicar-se conosco; não só quando correspondíamos às suas graças, mas também quando nos afastávamos dEle, entregues à pior de todas as ingratidões que é o pecado. O Senhor sempre nos mostrou a sua benevolência.

O amor reclama amor, e este demonstra-se por meio de obras, pelo empenho diário em chegar ao trato íntimo com Deus e por identificar a vontade própria com a dEle. A segunda leitura anima-nos a esta luta diária, sabendo que estamos rodeados por uma tão grande nuvem de testemunhas: os santos, que presenciam o nosso combate, e todos aqueles que temos ao nosso lado e a quem tanto podemos ajudar com o nosso exemplo. Sacudindo todo o lastro que nos detém e o pecado que nos envolve- continua a Leitura-, corramos com perseverança pelo caminho que nos é proposto pondo os olhos no autor e consumador da fé, Jesus. É nEle que cravamos os olhos, como o corredor que, uma vez começada a corrida , não se deixa distrair por nada que lhe desvie a atenção da mete; assim, afastaremos com decisão e energia toda e qualquer ocasião de pecado, pois ainda não resististes até o sangue , combatendo contra o pecado. Temos de chegar até esse ponto, se for preciso, mesmo que se trate apenas de não cometer um simples pecado venial. É melhor morrer do que ofender a Deus, por mais leve que seja a ofensa.

Temos que dizer sim ao Amor; temos que dar-lhe uma resposta afirmativa nas mil pequenas situações diárias: ao negarmo-nos a nós mesmos para servir os que convivem ou trabalham conosco, na mortificação pequena, que nos ajuda a dominar a impaciência e a irritação; na pontualidade em todos os nossos compromissos espirituais e humanos; no esforço com que procuramos melhorar o recolhimento interior nos tempos dedicados à oração mental; na aceitação alegre dos contratempos, quando a vontade de Deus não confirma os nossos planos ou o nossos querer…Assim se forjam as pequenas vitórias que Deus espera todos os dias daqueles que o amam. Mas também por amor temos que dizer não muitas vezes: à curiosidade da vista; ao corpo que pede mais conforto e menos sacrifício; ao desejo de encerrar o expediente antes da hora… Muitas são as sugestões, as moções do Espírito Santo que nos convidam a corresponder a esse Amor infinito com que Jesus nos ama.

O amor expressa-se na dor dos pecados, na contrição, pois  tantas vezes- sem o percebermos- dizemos não ao amor e sim aos nossos caprichos… São ocasiões para fazermos um ato de dor mais profundo pelas coisas em que não soubemos corresponder, e para desejarmos muito essa confissão frequente na qual sempre encontramos a Misericórdia divina e o remédio para os nossos males. “Quem não se arrepende de verdade não ama de verdade; é evidente que, quanto mais estimamos um pessoa, tanto mais nos dói tê-la ofendido. É este ,pois, mais um dos efeitos do amor”, diz São Tomás de Aquino.

Nós, cristãos, devemos ser fogo que queime os outros, como Jesus abrasou os seus discípulos. Ninguém que nos tenha conhecido deverá permanecer indiferente; o nosso amor tem de ser fogo vivo que converta em pontos de ignição, em outras fontes de amor e de apostolado, todos aqueles com quem convivemos. O Espírito Santo soprará, através de nós, em muitos que pareciam apagados, e do seu rescaldo de vida cristã sairão chamas que se propagarão em ambientes que de outro modo teriam permanecidos frios e mortos.

Pouco importa que pareça que valemos pouco, que não podemos fazer quase nada, que não sabemos, que nos falta formação. O Senhor só quer contar totalmente com cada um. Não esqueçamos que uma faísca minúsculas pode dar início a uma grande fogueira. Como é grato ao Senhor que lhe digamos na intimidade da nossa alma que somos inteiramente dEle, que pode contar com o pouco que somos!

O verdadeiro amor a Deus manifesta-se imediatamente numa intensa atividade apostólica , em desejos de que muitos outros conheçam e amem a Jesus Cristo. “Com a maravilhosa normalidade do divino, a alma contemplativa expande-se em ímpetos de ação apostólica: Ardia-me o coração dentro do peito, ateava-se o fogo na minha meditação. Que fogo é este, senão o mesmo de que fala Cristo: Fogo vim trazer à terra e que hei de querer senão que arda? Fogo de apostolado, que se robustece na oração, no trato íntimo com Cristo.

É aí que se alimentam as ânsias apostólicas, Junto do Sacrário, teremos luz e forças; falaremos a Jesus dos filhos, dos pais, dos irmãos, dos amigos, dos colegas da Universidade ou do colégio, daquela pessoa que acabamos de conhecer, das que encontraremos hoje por motivos profissionais ou nos pequenos acasos da vida diária.   Nenhuma pessoa deverá partir de mãos vazias; a todas, de um modo ou e outro, com a palavra, com o exemplo, com a oração, deveremos anunciar-lhes Cristo que as procura, que as espera e que se serve de nós como instrumentos.

“Ainda ressoa do mundo aquele clamor divino: Vim trazer fogo à terra, e que quero senão que arda?- E bem vês: quase tudo está apagado…

“Não te animas a propagar o incêndio?”

Dizemos a Jesus que conte conosco, com as nossas poucas forças e os nossos escassos talentos: aqui me tens porque me chamaste. E pedimos a Santa Maria, que saibamos ser audazes nesta tarefa de dar a conhecer o amor de Cristo.

Mons. José Maria Pereira