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Os Discípulos (04-09-2016)

Primeira Leitura:
SAPIENCIAL: Livro da Sabedoria (Sb), capítulo 9
(13) Que homem, pois, pode conhecer os desígnios de Deus, e penetrar nas determinações do Senhor? (14) Tímidos são os pensamentos dos mortais, e incertas as nossas concepções, (15) porque o corpo corruptível torna pesada a alma, e a morada terrestre oprime o espírito carregado de cuidados. (16) Mal podemos compreender o que está sobre a terra, dificilmente encontramos o que temos ao alcance da mão. Quem, portanto, pode descobrir o que se passa no céu? (17) E quem conhece vossas intenções, se vós não lhe dais a Sabedoria, e se do mais alto dos céus vós não lhe enviais vosso Espírito Santo? (18) Assim se tornaram direitas as veredas dos que estão na terra, os homens aprenderam as coisas que vos agradam e pela sabedoria foram salvos.

Segunda Leitura:
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Epístola a Filêmon (Fm), capítulo 1
(9) prefiro fazer apenas um apelo à tua caridade. Eu, Paulo, idoso como estou, e agora preso por Jesus Cristo, (10) venho suplicar-te em favor deste filho meu, que gerei na prisão, Onésimo. (11) Ele poderá ter sido de pouca serventia para ti, mas agora será muito útil tanto a ti como a mim. (12) Torno a enviá-lo para junto de ti, e é como se fora o meu próprio coração. (13) Quisera conservá-lo comigo, para que em teu nome ele continuasse a assistir-me nesta minha prisão pelo Evangelho. (14) Mas, sem o teu consentimento, nada quis resolver, para que tenhas ocasião de praticar o bem (em meu favor), não por imposição, mas sim de livre vontade. (15) Se ele se apartou de ti por algum tempo, foi sem dúvida para que o pudesses reaver para sempre. (16) Agora, não já como escravo, mas bem mais do que escravo, como irmão caríssimo, meu e sobretudo teu, tanto por interesses temporais como no Senhor. (17) Portanto, se me tens por amigo, recebe-o como a mim.
EVANGELHOS: Evangelho segundo São Lucas (Lc), capítulo 14
(25) Muito povo acompanhava Jesus. Voltando-se, disse-lhes:
(26) Se alguém vem a mim e não odeia seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos, suas irmãs e até a sua própria vida, não pode ser meu discípulo.
(27) E quem não carrega a sua cruz e me segue, não pode ser meu discípulo.
(28) Quem de vós, querendo fazer uma construção, antes não se senta para calcular os gastos que são necessários, a fim de ver se tem com que acabá-la?
(29) Para que, depois que tiver lançado os alicerces e não puder acabá-la, todos os que o virem não comecem a zombar dele,
(30) dizendo: Este homem principiou a edificar, mas não pode terminar.
(31) Ou qual é o rei que, estando para guerrear com outro rei, não se senta primeiro para considerar se com dez mil homens poderá enfrentar o que vem contra ele com vinte mil?
(32) De outra maneira, quando o outro ainda está longe, envia-lhe embaixadores para tratar da paz.
(33) Assim, pois, qualquer um de vós que não renuncia a tudo o que possui não pode ser meu discípulo.
Homilia do : Padre Paulo Ricardo
Homilia do Padre Miguel:---
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético
Ver Comentário Exegético
Ver Homilia de Dom Henrique Soares
Ver Homilia de Mons. José Maria
Ver Homilia do Pe. Françoá Costa
Canção Nova: Homilia

23.º Domingo do Tempo Comum - Se não vos desapegardes, não podeis ser meus discípulos!

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc
 14, 25-33)

Naquele tempo, grandes multidões acompanhavam Jesus. Voltando-se, ele lhes disse: "Se alguém vem a mim, mas não se desapega de seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo.

Com efeito, qual de vós, querendo construir uma torre, não se senta primeiro e calcula os gastos, para ver se tem o suficiente para terminar? Caso contrário, ele vai lançar o alicerce e não será capaz de acabar. E todos os que virem isso começarão a caçoar, dizendo: 'Este homem começou a construir e não foi capaz de acabar!'

Ou ainda: Qual o rei que, ao sair para guerrear com outro, não se senta primeiro e examina bem se com dez mil homens poderá enfrentar o outro que marcha contra ele com vinte mil? Se ele vê que não pode, enquanto o outro rei ainda está longe, envia mensageiros para negociar as condições de paz.

Do mesmo modo, portanto, qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo!"

Alguns domingos atrás, nós tivemos a oportunidade de meditar sobre a "determinada determinação" de Cristo — para usar uma expressão teresiana —, que se resolve a tomar o caminho de Jerusalém a fim de beber o cálice que o Pai lhe tinha reservado.

O Evangelho de hoje se passa exatamente nesse contexto de subida. Resoluto, Nosso Senhor toma o íngreme caminho para Jerusalém, mas, aparentemente, os que sobem com Ele não se dão conta do que O espera. Acompanham o Mestre, mas são incapazes de medir as reais consequências do seguimento; seguem-nO, é verdade, mas ainda não estão prontos para "pagar o preço" de serem autênticos discípulos.

Por isso, Cristo, compadecido das multidões, interrompe sua caminhada, volta-se para elas e lança-lhes um importante apelo. "Se não vos desapegardes", Ele repete várias vezes, "não podeis ser meus discípulos!"

As palavras do Mestre evidentemente não são pronunciadas apenas aos homens de sua época. Graças aos Evangelhos, somos capazes de receber o eco deste ensinamento e também dentro de nós ele deve causar profundo impacto, provocando-nos a uma séria reflexão. Ser cristão, afinal, é coisa séria e não pode gloriar-se de levar esse nome quem não se dispõe a tomar sobre os ombros o madeiro da Cruz.

 

Padre Paulo Ricardo


Os Discípulos

“naquele tempo” do Evangelho que escutamos, prolonga-se neste tempo que se chama hoje. “Naquele tempo, grandes multidões acompanhavam Jesus”. Eram muitos os que o admiravam, muitos os que o escutavam… como hoje. Mas, Jesus voltando-se, lhes disse – e diz aos que o querem acompanhar hoje -, com toda franqueza, quais as condições para serem aceitos como seus discípulos: “Se alguém vem a mim, mas não se desapega e seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo”. É impressionante a sinceridade do Senhor nosso! Olhemos bem que não são todos os que podem ser seus discípulos! É certo que todos são chamados, pois “o desejo de Deus é que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,4), mas também é certo que nem todos estão dispostos a escutar de verdade o convite do Senhor e a aceitar suas exigências. E Jesus é claríssimo: ele somente aceita como discípulo – somente pode ser seu discípulo – quem se dispõe, com sinceridade, a caminhar atrás dele, seguindo seus passos no caminho! É ele quem dá as cartas, é ele quem dita as normas, é ele quem mostra o caminho e quem diz o que é certo e o que é errado! Que palavra tão difícil para cada um de nós, para o mundo atual, que se julga maduro e sábio o bastante para fazer seu próprio caminho e até para julgar os caminhos de Deus! Quem assim age, permanecendo fechado em si mesmo – diz Jesus -, “não pode ser meu discípulo!”

E o que é ser discípulo? É colocar-se no caminho dele, é renunciar a decidir por si mesmo que rumo dar à sua vida, para seguir o caminho do Mestre, colocando os pés nos seus passos; ser discípulo é se renunciar para ser em Jesus, pensando como ele, vivendo como ele, agindo como ele… Ser discípulo é fazer de Jesus o tudo, o fundamento da própria existência: “Qualquer um de vós, se não renunciar a tudo que tem, a tudo que é, à sua própria segurança, ao seu próprio modo de pensar, não pode ser meu discípulo!”

É preciso que compreendamos que esta exigência tão radical do Senhor não é por capricho, não é arbitrária, não é humilhante ou desumana para nós. O Senhor é tão exigente porque nos quer libertar de nós mesmos, de nosso horizonte fechado e limitado à nossa própria razão, ao nosso próprio modo de ver e pensar as coisas e o mundo. O Senhor nos quer libertar da ilusão de que somos auto-suficientes e sábios, de que somos deuses! Como têm razão, as palavras do Livro da Sabedoria: “Qual é o homem que pode conhecer os desígnios de Deus? Ou quem pode imaginar o desígnio do Senhor? Quem, portanto, investigará o que há nos céus?” O homem, sozinho, é incapaz de compreender o mistério da vida, que somente é conhecido pelo coração de Deus! Isto valia para ontem, e continua valendo para hoje e valerá ainda para amanhã, mesmo com todo o desenvolvimento da ciência e com toda a ilusão de que nos bastamos a nós mesmos e podemos por nós mesmos decidir o que é certo e o que é errado. O homem, fechado em si mesmo, jamais poderá compreender de verdade o mistério de sua existência e o sentido profundo da realidade. É preciso ter a coragem de abrir-se, de ser discípulo, de seguir aquele que veio do Pai para ser nosso Caminho, nossa Verdade e nossa Vida! “Na verdade, os pensamentos dos mortais são tímidos e nossas reflexões, incertas… Mal podemos conhecer o que há na terra e, com muito custo compreendemos o que está ao alcance de nossas mãos”. É por isso que o Salmista hoje nos faz pedir com humildade: “Ensinai-nos a contar os nossos dias, e dai ao nosso coração sabedoria!”

Só quando nos renunciarmos, só quando colocarmos o Senhor como o centro de nossa vida, do nosso modo de pensar e de agir, somente quando ele for realmente o nosso Tudo, seremos discípulos de verdade. Então mudaremos de vida, de valores, de modo de agir. É o que São Paulo propõe a Filêmon, cristão, proprietário do escravo Onésimo. O Apóstolo recorda ao rico Filêmon que ser discípulo de Cristo comporta exigências e mudança de mentalidade: o escravo deve agora ser tratado como irmão no Senhor. Não podemos ser cristãos, apegados à nossa lógica e às coisas próprias do homem velho! Não podemos ser cristãos fazendo política como o mundo faz, tendo uma vida sexual como o mundo tem, pensando em questões como o divórcio, o aborto, o adultério como o mundo pensa, não podemos ser cristãos comportando-nos como o mundo se comporta e fazendo o que o mundo faz! Querer seguir o Senhor sem deixar-se, sem colocá-lo como eixo e prumo da vida, é como construir uma torre sem dinheiro: não se chegará ao fim; é como ir para uma guerra sem exército suficiente: seremos derrotados!“Do mesmo modo, portanto, qualquer um de vós, se não renunciar a tudo que tem, não pode ser meu discípulo!”

Que o mundo não compreenda esta linguagem, é de se esperar… Afinal, o homem psíquico – homem entregue somente à sua própria razão – não pode mesmo compreender as coisas do Espírito de Deus (cf. 1Cor 2,14). O triste mesmo é que os cristãos, isto é, nós, tenhamos a pretensão de ser discípulos sem procurar sinceramente nos renunciar, mortificando nossas tendências desordenadas, educando nossos instintos desatinados e deixando que a luz do Evangelho ilumine nossa razão e nosso modo de pensar…

Cuidemos bem, para que, no fim de tudo, o nosso cristianismo não seja inacabado, tão inútil quanto uma torre deixada pela metade ou uma guerra na qual a derrota é certa. Que nos valha a misericórdia de nosso Senhor e nos ajude a viver da sua Palavra, porque, como disse hoje o Autor sagrado, dirigindo-se a Deus, “só assim se tornaram retos os caminhos dos que estão na terra e os homens aprenderam o que te agrada, e pela Sabedoria foram salvos”. Que nos salve o Cristo, Sabedoria de Deus. Amém.

Dom Henrique Soares