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A conversão do bom ladrão (20-11-2016)

Primeira Leitura:
HISTÓRICO: Segundo Livro de Samuel (2Sm), capítulo 5
(1) Todas as tribos de Israel vieram ter com Davi em Hebron e disseram,-lhe: Vê: não somos nós teus ossos e tua carne? (2) Já antes, quando Saul era nosso rei, eras tu que dirigias os negócios de Israel. O Senhor te disse: és tu que apascentarás o meu povo e serás o chefe de Israel. (3) Vieram, pois, todos os anciãos de Israel ter com o rei em Hebron. Davi fez com eles um tratado diante do Senhor e eles sagraram-no rei de Israel.

Segunda Leitura:
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Epístola aos Colossenses (Cl), capítulo 1
(12) Sede contentes e agradecidos ao Pai, que vos fez dignos de participar da herança dos santos na luz. (13) Ele nos arrancou do poder das trevas e nos introduziu no Reino de seu Filho muito amado, (14) no qual temos a redenção, a remissão dos pecados. (15) Ele é a imagem de Deus invisível, o Primogênito de toda a criação. (16) Nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as criaturas visíveis e as invisíveis. Tronos, dominações, principados, potestades: tudo foi criado por ele e para ele. (17) Ele existe antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem nele. (18) Ele é a Cabeça do corpo, da Igreja. Ele é o Princípio, o primogênito dentre os mortos e por isso tem o primeiro lugar em todas as coisas. (19) Porque aprouve a Deus fazer habitar nele toda a plenitude (20) e por seu intermédio reconciliar consigo todas as criaturas, por intermédio daquele que, ao preço do próprio sangue na cruz, restabeleceu a paz a tudo quanto existe na terra e nos céus.
EVANGELHOS: Evangelho segundo São Lucas (Lc), capítulo 23
(35) A multidão conservava-se lá e observava. Os príncipes dos sacerdotes escarneciam de Jesus, dizendo: Salvou a outros, que se salve a si próprio, se é o Cristo, o escolhido de Deus!
(36) Do mesmo modo zombavam dele os soldados. Aproximavam-se dele, ofereciam-lhe vinagre e diziam:
(37) Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo.
(38) Por cima de sua cabeça pendia esta inscrição: Este é o rei dos judeus.
(39) Um dos malfeitores, ali crucificados, blasfemava contra ele: Se és o Cristo, salva-te a ti mesmo e salva-nos a nós!
(40) Mas o outro o repreendeu: Nem sequer temes a Deus, tu que sofres no mesmo suplício?
(41) Para nós isto é justo: recebemos o que mereceram os nossos crimes, mas este não fez mal algum.
(42) E acrescentou: Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino!
(43) Jesus respondeu-lhe: Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso.
Homilia do : Padre Paulo Ricardo
Homilia do Padre Miguel:---
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético
Ver Comentário Exegético
Ver Homilia de Dom Henrique Soares
Ver Homilia de Mons. José Maria
Ver Homilia do Pe. Françoá Costa
Canção Nova: Homilia

Solenidade de Cristo Rei - A conversão de São Dimas

Concluindo o Ano da Misericórdia, o Evangelho deste domingo põe diante de nossos olhos um homem que foi atingido em cheio pela misericórdia de Deus: São Dimas, o "bom ladrão".

Para ser aclamado hoje como santo, porém, este malfeitor passou por uma verdadeira transformação interior: de criminoso que era, morreu humilhado e professando, sincera e publicamente, a sua fé em Cristo Rei. Como isso aconteceu, e de que modo a conversão dele pode impulsionar a nossa, é o que você vai descobrir neste Testemunho de Fé!


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc
23, 35-43)

Naquele tempo, os chefes zombavam de Jesus dizendo: "A outros ele salvou. Salve-se a si mesmo, se, de fato, é o Cristo de Deus, o Escolhido!" Os soldados também caçoavam dele; aproximavam-se, ofereciam-lhe vinagre, e diziam: "Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo!" Acima dele havia um letreiro: "Este é o Rei dos Judeus". Um dos malfeitores crucificados o insultava, dizendo: "Tu não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!"

Mas o outro o repreendeu, dizendo: "Nem sequer temes a Deus, tu que sofres a mesma condenação? Para nós, é justo, porque estamos recebendo o que merecemos; mas ele não fez nada de mal". E acrescentou: "Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reinado".

Jesus lhe respondeu: "Em verdade eu te digo: ainda hoje estarás comigo no Paraíso".

Neste domingo em que se findam o Ano Litúrgico e o Jubileu da Misericórdia proclamado pelo Papa Francisco, o Evangelho de São Lucas narra-nos o famoso episódio do bom ladrão, que foi crucificado juntamente com o Salvador e que recebeu, ao termo de sua vida, a salvação eterna, conforme promessa do próprio Jesus: "Ainda hoje estarás comigo no Paraíso".

A conversão deste malfeitor é precedida, no entanto, por um verdadeiro coro de incredulidade. Primeiro os chefes dos judeus, depois os soldados romanos e, por fim, o mau ladrão, todos repetem ao Cristo, em uníssono, o mesmo refrão: "Salva-te a ti mesmo!", de modo que a zombaria dessas personagens constitui uma verdadeira antítese do ato de fé realizado por São Dimas. Humanamente falando, de fato, parecia não haver razões para crer: o galileu que tão bem pregou e tantos milagres fez agora padecia, à vista de todos, a morte de um criminoso; em questão de algumas horas, tornar-se-ia um cadáver e, juntamente com ele, tendo seus discípulos já covardemente fugido, sepultada estaria também a sua mensagem. O que os olhos da carne não podem contemplar, todavia, a é capaz de enxergar. De fato, é movido por essa virtude sobrenatural que o ladrão arrependido diz a Cristo: "Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reinado". Em meio às trevas da ignorância e da malícia, brilha reluzente a fé em Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo.

Para que desse esse passo e fosse justificado às portas da morte, porém, São Dimas teve de reconhecer o seu pecado: "Para nós, é justo, porque estamos recebendo o que merecemos", ele diz, repreendendo o seu companheiro de infortúnio. O "bom ladrão" — como tradicionalmente é chamado — não tentou justificar o seu erro; não procurou escusar-se do mal que fez; não disse: "Eu me encontrava em condições concretas que não me permitiam agir de maneira diferente". Foi ladrão, mas converteu-se, sem tentar tornar boa a ladroagem de que tinha participado.

Com isso, aprendemos que, para sermos atingidos pela misericórdia salvífica de Cristo, é preciso que antes tomemos consciência de nossa miséria. Não entrará no Reino da misericórdia quem não passar por esta porta, a porta da humilhação, a porta do rebaixamento, a porta de quem se sabe pecador e necessitado da graça de Deus. Também nisso se confirma a passagem da Escritura que diz: "Deus resiste aos soberbos, mas dá a sua graça aos humildes" (Tg 4, 6).

Isso é para todos nós, porque "todos pecaram e estão privados da glória de Deus" (Rm 3, 23). Não importa o tipo de pecado que tenhamos cometido — perjúrio, roubo, adultério ou homicídio —, nem mesmo a quantidade de vezes em que caímos, se nos arrependermos e nos voltarmos para Deus, seremos acolhidos por Ele e recebidos de volta em sua casa, como acontece na famosa parábola do Filho Pródigo. O grande problema do mundo de hoje é que, não contentes em querer comer a lavagem dos porcos, as pessoas chafurdam no lamaçal do chiqueiro, "divertem-se" no pecado e gabam-se da vida imunda e miserável que levam. Ora, como poderá experimentar o abraço misericordioso do Pai quem não se dá minimamente por incomodado de invejar as porcarias deste mundo?

Humildade e , portanto, são as duas primeiras virtudes com as quais solidificamos a base de nosso edifício espiritual. Humildade, para reconhecermos as nossas faltas: "Eu reconheço toda a minha iniquidade, o meu pecado está sempre à minha frente" (Sl 50, 5). Fé, para vermos na humanidade santíssima de Cristo Redentor o instrumento por meio do qual Deus quer estabelecer o seu reinado entre os homens: "Palavra do Senhor ao meu Senhor: Assenta-te ao meu lado direito até que eu ponha os inimigos teus como escabelo por debaixo de teus pés!" (Sl 109, 1). Vivendo assim, esperamos ouvir um dia da boca do Salvador as mesmas palavras que Ele pronunciou ao malfeitor penitente: "Em verdade eu te digo: ainda hoje estarás comigo no Paraíso". Amém.

Padre Paulo Ricardo


A conversão do bom ladrão

É este o último Domingo do Ano da Igreja. Na corrida, na fiada de dias iniciada no Advento do ano passado, contemplamos o Cristo que se fez homem por nós, por nós anunciou e tornou presente o Reino do Pai e, para nos dar esse Reino de modo definitivo, por nós entregou-se na cruz, morreu e ressuscitou, dando-nos de modo definitivo o seu Espírito Santo. Pois bem: depois de termos contemplado todo este mistério, chegamos ao fim e proclamamos o Senhor Jesus como Reino do Universo. Como afirma o Apocalipse, “Jesus Cristo fez de nós um reino e sacerdotes para Deus, seu Pai. A ele a glória e o poder pelos séculos dos séculos!”

Mas, que significa afirmar esta realeza de Cristo Jesus? Pensando bem, é um título problemático, esse dado ao Senhor… Ele é Rei mesmo? Rei do quê? Rei num mundo que o rejeita, Rei de um Ocidente que cada vez mais lhe volta as costas? Rei de uma humanidade de coração fechado para o seu senhorio? Não seria mais lógico, mais realista afirmar que os reis de hoje são os Ronaldinhos, o Paulo Coelho, o Bush e os heróis de plantão? Será que celebrar o Senhor Jesus com este título portentoso, “Rei do Universo”, não é mais uma prova de que os cristãos estão delirando, apegados a um passado glorioso, quando a sociedade era cristã e a Igreja tinha poder?

Quando os cristãos confessamos que Cristo é Rei, de que reinado estamos falando? A que Reino estamos nos referindo? Nós realmente acreditamos com todo o coração e confessamos com toda convicção que Jesus Cristo – e só ele! – é Rei: Rei do universo, Rei da história, Rei da humanidade, Rei da vida de cada pessoa humana, cristã ou não-cristã. Ele é Rei porque é Deus feito homem, é, como diz a Escritura, aquele “através de quem e para quem todas as coisas foram criadas, no céu e na terra… Tudo foi criado através dele e para ele… Ele é o Primogênito dentre os mortos” (Cl 1,1518).

No entanto, é necessário compreender a natureza do reinado de Jesus. A Liturgia de hoje coloca como antífona de entrada do Missal romano uma frase do Apocalipse que é surpreendente: “O Cordeiro que foi imolado é digno de receber o poder, a divindade, a sabedoria, a força e a honra. A ele a glória e poder através dos séculos!” Frase surpreendente, sim! Quem é Aquele que proclamamos Rei? O Cordeiro; e Cordeiro imolado. Cordeiro evoca mansidão, paz, fragilidade… Nosso Rei não é aquele que faz e acontece, aquele que passa por cima feito trator… Nosso Rei é o Cordeiro que foi esmagado na cruz, Aquele que foi imolado pelo Pecado do mundo. O mundo passou e passa por cima do nosso Rei, refuta seu Evangelho, desdenha de sua Palavra, ridiculariza seus preceitos, calunia sua Igreja… Esse Rei é Aquele que foi crucificado, que foi derrotado e terminou sozinho, é o homem de dores prenunciado por Isaías. No Evangelho escutamos que zombaram e zombam dele: “A outros ele salvou. Salve-se a si mesmo, se de fato é o Cristo de Deus, o Escolhido! Tu não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!” (Lc 23,35.39)

Não! Decididamente, Jesus não é Rei nos moldes dos reis da terra. Não podemos imaginar os reis, presidentes e manda-chuvas deste mundo, para depois enquadrar Cristo nesses modelos. O reinado de Cristo somente pode ser compreendido a partir da lógica do próprio Cristo: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos” (Mc 10,45). Eis o modo que Cristo tem de reinar: servindo, dando vida e entregando a própria vida. Tão diferente dos reis da terra, dos políticos e líderes de ontem de hoje: “Sabeis que aqueles que vemos governar as nações as dominam, e os seus grandes as tiranizam. Entre vos não será assim…” (Mc 10,42s). Cristo é Rei porque se fez solidário conosco ao fazer-se um de nós, é Rei porque tomou nossa vida sobre seus ombros, é Rei porque passou entre nós servindo, até o maior serviço: entregar-se totalmente na cruz. É rei porque, agora, no céu, Deus e homem verdadeiro, é Cabeça e Princípio de uma nova criação, de uma nova humanidade, de uma nova história, que se consumará na plenitude final. A festa de Cristo Rei recorda-nos uma outra: a do Domingo de Ramos, quando, com palmas nas mãos, cantamos o reinado de Cristo, que entrava em Jerusalém num burrico – animal de carga de serviço – para ser coroado de espinhos, morrer e ressuscitar.

Tudo isto nos coloca em crise, pois este Rei-Messias olha para nós, cristãos, seus discípulos, e nos convida a segui-lo por esse caminho: não o da glória, mas da humildade; não o do sucesso a qualquer custo, mas da fidelidade a todo preço; não o das honras, mas do serviço; não o da imposição, mas da proposta humilde. Quantas vezes os cristãos pensaram o reinado de Cristo de modo demasiado humano, quantas vezes a Igreja pensou que o Reino do Senhor estava mais presente quando ela era honrada, reverenciada, presente nos corredores dos palácios ou nos palanques dos grandes do mundo… Quantas vezes vemos o reinado do Senhor quando tudo sai bem para nós… Ilusão; tentação diabólica! Nosso verdadeiro reinado, nossa real serviço, nossa inalienável dignidade é unir-se a Cristo no seu caminho de humilde serviço ao Evangelho, seguindo os passos do nosso Senhor: “Fiel é esta palavra: Se com ele morremos, com ele viveremos. Se com ele sofremos, com ele reinaremos” (2Tm 2,11). Todas as vezes que esquecemos isso, fomos infiéis e indignos de reinar com Cristo. Houve tempos gloriosos na nossa história de Igreja de Cristo: já fomos perseguidos pelos romanos, já fomos perseguidos em tantos lugares da terra: já nos mataram, torturaram, pisaram, discriminaram… Houve tempos tristes: quando perseguimos, torturamos e discriminamos… pensando, assim, manifestar o Reino de Cristo! Que engano! Que ilusão!

Hoje, temos uma nova chance. Nos países muçulmanos e budistas, somos cidadãos de segunda classe, perseguidos e mortos (ninguém divulga isso!), na China, somos colocados na prisão e nossos Bispos são condenados a trabalhos forçados e, aqui, no nosso Brasil, somos chamados de reacionários, medievais, obscurantistas, anacrônicos, contrários à ciência e ao progresso… porque não aceitamos o aborto, a eutanásia, o assassinato de deficientes, a dissolução da família… É, mais uma vez, a chance de testemunhar o reinado de Cristo, de permanecermos firmes no combate, com a humildade que é capaz de dialogar e ouvir, mas também com a firmeza que não arreda o pé da fidelidade ao Senhor: “Vós sois os que permanecestes constantemente comigo em minhas tribulações; também eu disponho para vós o Reino, como meu Pai o dispôs para mim, a fim de que comais e bebais à minha mesa em meu Reino” (Lc 22,28-30). Que missão, que chance, que desafio, que graça! Com serenidade e firmeza, na palavra, na vida e na morte, testemunhemos: Jesus Cristo é Rei e Senhor, Princípio e Fim de todas as coisas.

Humildemente, elevemos, cheios de confiança, o nosso olhar para ele, e como o Bom Ladrão, supliquemos: “Jesus, lembra-te de mim, lembra-te de nós, quando entrares no teu Reino!” Só a ti a glória, pelos séculos dos séculos. Amém.

Dom Henrique Soares