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O Deus que vem (27-11-2016)

Primeira Leitura:
PROFETAS MAIORES: Livro de Isaías (Is), capítulo 2
(1) Visão de Isaías, filho de Amós, acerca de Judá e Jerusalém. (2) No fim dos tempos acontecerá que o monte da casa do Senhor estará colocado à frente das montanhas, e dominará as colinas. Para aí acorrerão todas as gentes, (3) e os povos virão em multidão: Vinde, dirão eles, subamos à montanha do Senhor, à casa do Deus de Jacó: ele nos ensinará seus caminhos, e nós trilharemos as suas veredas. Porque de Sião deve sair a lei, e de Jerusalém, a palavra do Senhor. (4) Ele será o juiz das nações, o governador de muitos povos. De suas espadas forjarão relhas de arados, e de suas lanças, foices. Uma nação não levantará a espada contra outra, e não se arrastarão mais para a guerra. (5) Casa de Jacó, vinde, caminhemos à luz do Senhor.

Segunda Leitura:
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Epístola de São Paulo aos Romanos (Rm), capítulo 13
(11) Isso é tanto mais importante porque sabeis em que tempo vivemos. Já é hora de despertardes do sono. A salvação está mais perto do que quando abraçamos a fé. (12) A noite vai adiantada, e o dia vem chegando. Despojemo-nos das obras das trevas e vistamo-nos das armas da luz. (13) Comportemo-nos honestamente, como em pleno dia: nada de orgias, nada de bebedeira, nada de desonestidades nem dissoluções, nada de contendas, nada de ciúmes. (14) Ao contrário, revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não façais caso da carne nem lhe satisfaçais aos apetites.
EVANGELHOS: Evangelho segundo São Mateus (Mt), capítulo 24
(37) Assim como foi nos tempos de Noé, assim acontecerá na vinda do Filho do Homem.
(38) Nos dias que precederam o dilúvio, comiam, bebiam, casavam-se e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca.
(39) E os homens de nada sabiam, até o momento em que veio o dilúvio e os levou a todos. Assim será também na volta do Filho do Homem.
(40) Dois homens estarão no campo: um será tomado, o outro será deixado.
(41) Duas mulheres estarão moendo no mesmo moinho: uma será tomada a outra será deixada.
(42) Vigiai, pois, porque não sabeis a hora em que virá o Senhor.
(43) Sabei que se o pai de família soubesse em que hora da noite viria o ladrão, vigiaria e não deixaria arrombar a sua casa.
(44) Por isso, estai também vós preparados porque o Filho do Homem virá numa hora em que menos pensardes.
Homilia do : Padre Paulo Ricardo
Homilia do Padre Miguel:---
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético
Ver Comentário Exegético
Ver Homilia de Dom Henrique Soares
Ver Homilia de Mons. José Maria
Ver Homilia do Pe. Françoá Costa
Canção Nova: Homilia

1.º Domingo do Advento - Como viver bem o tempo do Advento?

Comentando o Evangelho deste domingo, Padre Paulo Ricardo apresenta-nos um verdadeiro itinerário de conversão para o tempo do Advento. Como ficarmos atentos ao Deus que nos visita hoje com a sua graça? Que penitências podemos fazer neste breve período de preparação para o Natal do Senhor? Assista conosco a mais este Testemunho de Fé e saiba como preparar o seu coração para celebrar o nascimento de Cristo!


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt
 24, 37-44)

Naquele tempo, Jesus disse aos seus discípulos: "A vinda do Filho do Homem será como no tempo de Noé. Pois nos dias, antes do dilúvio, todos comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca. E eles nada perceberam, até que veio o dilúvio e arrastou a todos. 

Assim acontecerá também na vinda do Filho do Homem. Dois homens estarão trabalhando no campo: um será levado e o outro será deixado. Duas mulheres estarão moendo no moinho: uma será levada e a outra será deixada. 

Portanto, ficai atentos, porque não sabeis em que dia virá o Senhor. Compreendei bem isto: se o dono da casa soubesse a que horas viria o ladrão, certamente vigiaria e não deixaria que a sua casa fosse arrombada. Por isso, também vós ficai preparados! Porque, na hora em que menos pensais, o Filho do Homem virá".

É uma constante do discurso escatológico de Jesus: ao falar com os seus discípulos sobre o futuro, Nosso Senhor sempre retorna a fatos passados e profecias contidas já no Antigo Testamento. No Evangelho de hoje, por exemplo, Ele compara sua segunda vinda, no fim dos tempos, ao episódio do dilúvio. Não descreve em detalhes nem como nem quando será; limita-se a usar imagens já reveladas por Deus para ilustrar o seu ensinamento. A razão profunda dessa pedagogia é explicada pelo Papa Bento XVI em sua obra Jesus de Nazaré:

"Falar do futuro com palavras do passado subtrai desse discurso qualquer ligação cronológica. Não se trata de uma formulação nova da descrição do futuro, como o seria de esperar em videntes, mas trata-se de inserir a visão do futuro na Palavra de Deus que já nos foi dada e cuja estabilidade, por um lado, e potencialidades abertas, por outro, se tornam assim evidentes. Fica claro que a Palavra divina de então ilumina o futuro, no seu significado essencial; mas não dá uma descrição do futuro; mostra-nos apenas hoje o caminho justo para esse momento e para amanhã.

As palavras apocalípticas de Jesus nada têm a ver com a adivinhação. Querem precisamente afastar-nos de uma curiosidade superficial pelas coisas visíveis (cf. Lc17, 20) e conduzir-nos ao essencial: à vida alicerçada na Palavra de Deus, que Jesus nos dá; ao encontro com Ele, a Palavra viva; à responsabilidade diante do Juiz dos vivos e dos mortos." [1]

Ao mesmo tempo, a exortação de Cristo à vigilância, também ela presente no Evangelho deste domingo, "não é sair do presente, especular sobre o futuro, esquecer o tempo atual; antes, pelo contrário, vigilância significa fazer aqui e agora o que é justo e cumpri-lo como se estivéssemos na presença de Deus" [2]. Essa lição deve fazer-nos lembrar de um famoso sermão de São Bernardo de Claraval, no qual ele fala de uma vinda "intermediária" do Senhor, entre a sua Encarnação e aParusia:

"Conhecemos uma tríplice vinda do Senhor. Entre a primeira e a última há uma vinda intermediária. Aquelas são visíveis, mas esta, não. Na primeira vinda o Senhor apareceu na terra e conviveu com os homens. Foi então, como ele próprio declara, que viram-no e não o quiseram receber. Na última, 'todo homem verá a salvação de Deus' (Lc 3, 6) e 'olharão para aquele que transpassaram' (Zc 12, 10). A vinda intermediária é oculta e nela somente os eleitos o vêem em si mesmos e recebem a salvação. Na primeira, o Senhor veio na fraqueza da carne; na intermediária, vem espiritualmente, manifestando o poder de sua graça; na última, virá com todo o esplendor da sua glória." [3]

À luz dessas palavras, procuremos evitar em nossa vida inquietar-nos com o passado ou distrair-nos com o futuro. Coloquemo-nos antes na presença de Deus, a cada instante, vivendo com intensidade o presente, pois é no hoje, e não no ontem ou no amanhã, que a graça divina vem visitar-nos.

Mas, se Cristo de fato "vem espiritualmente" à nossa alma, "manifestando o poder de sua graça", por que muitas vezes não O notamos e, insensíveis, deixamos passar em vão a sua visita?

A resposta se encontra na comparação de que se serve o Senhor na passagem deste domingo: assim como nos dias de Noé "todos comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento", nos dias de hoje estão os homens igualmente hipnotizados com o vício da gula e da luxúria [4]. Esses dois pecados, mais que quaisquer outros, cegam o entendimento e enfraquecem a vontade, tornando praticamente impossível ao homem o cultivo da vida espiritual [5]. Para usar a expressão da primeira leitura, extraída do profeta Isaías, quem está preocupado com as ninharias desta terra, quem põe o seu coração nas coisas baixas deste mundo, não conseguirá ascender "ao monte do Senhor, à casa do Deus de Jacó, para que ele nos mostre seus caminhos e nos ensine a cumprir seus preceitos" (Is 2, 3).

Por isso, neste Advento, é muito importante que nos empenhemos em um duplo trabalho.

Em primeiro lugar, é preciso que abandonemos de vez as obras da carne, conforme a exortação do Apóstolo: "Nada de glutonerias e bebedeiras, nem de orgias sexuais e imoralidades, nem de brigas e rivalidades" (Rm 13, 13). Se porventura há muito tempo não nos confessamos, aproximemo-nos depressa do tribunal da misericórdia de Deus e aproveitemos este tempo de penitência para verdadeiramente chorarmos os nossos pecados. As leituras deste período de preparação para o Natal também nos exortam à vigilância, motivo pelo qual são muito recomendáveis as mortificações relacionadas ao sono, tais como acordar no meio da noite para uma oração ou levantar mais cedo da cama. Nesse quesito, o amor pode suscitar ainda muitas outras práticas que, não prejudicando o decorrer do nosso dia e o cumprimento de nossos deveres de estado, deixem o nosso coração em alerta constante para obedecer com prontidão à vontade de Deus.

Deixando então os bens perecíveis deste mundo, podemos atender, em segundo lugar, à outra palavra do Apóstolo: "Revesti-vos do Senhor Jesus Cristo" (Rm 13, 14). O Verbo eterno de Deus fez-se carne, tornou-se homem, a fim de que nós vivêssemos, em nosso existir humano, a própria vida divina. Assim, quando nos depararmos com alguma situação de sofrimento, incompreensão, doença ou necessidade material, lembremo-nos do que o filho de Maria passou, desde o seu humilde casebre de Nazaré até a árdua subida do monte Calvário, tudo a fim de inspirar-nos confiança quando experimentássemos dramas semelhantes. Brotará então de nosso peito uma profunda gratidão a Deus, porque "não temos um sumo sacerdote incapaz de se compadecer de nossas fraquezas, pois ele mesmo foi provado em tudo, à nossa semelhança, sem todavia pecar" (Hb 4, 15).

Referências

  1. Papa Bento XVI, Jesus de Nazaré: da entrada em Jerusalém até a ressurreição (trad. de Bruno Bastos Lins), São Paulo: Planeta, 2011, p. 57.
  2. Ibid., p. 54.
  3. São Bernardo, Sermo 5 in Adventu Domini, 1: Opera omnia, Edit. cisterc. 4 [1966], 188s.
  4. Cf. Santo Tomás de Aquino, Comentário ao Evangelho de São Mateus, c. 24, l. 4: "O homem não espera o advento futuro de Cristo porque, voltado para os cuidados da carne, anda conforme suas concupiscências: 'Fazeis banquetes sobre a terra, e com luxúrias alimentais os vossos corações' (Tg 5, 5). A isso também se dá o nome de lascívia, a qual é dividida em duas partes, a saber, 'glutonerias e bebedeiras' e 'orgias e imoralidades' (Rm 13, 13). Quanto à primeira, diz o Senhor que 'todos comiam e bebiam' não porque seja pecado comer e beber, senão colocar nessas coisas o próprio fim. Quanto à segunda, diz Ele que 'casavam-se e davam-se em casamento'."; Rábano, in Catena Aurea in Matthaeum, c. 24, l. 11: "Aqui não são condenados, como no erro de Marcião e de Maniqueu, o casamento e os alimentos, já que de um e de outro dependem a conservação da espécie e da natureza, respectivamente; o que se condena é o uso imoderado dessas coisas que, em si mesmas, são lícitas."
  5. Cf. Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q. 15, a. 3.

Padre Paulo Ricardo


O Deus que vem

Com esta santa Eucaristia, estamos iniciando o novo ano litúrgico de 2010. É este o primeiro Domingo do Advento, o tempo de quatro semanas que nos prepara para o Natal do Senhor. Tudo, na Liturgia nos ajudará nessa santa preparação, na santa espera, cheia de esperança: o roxo significa a vigilância de quem aguarda, a moderação das flores ajuda-nos a concentrar nossa atenção naquele que vem, o “Glória” não cantado prepara-nos para cantá-lo como novidade na Noite Santa do Natal. Os sentimentos do nosso coração devem ser a vigilância, a piedade humilde de Maria Virgem, de José, dos pastores, de Simeão, Zacarias e Isabel, o espírito de conversão anunciado por João Batista, o sonho de um mundo “cheio da sabedoria do Senhor como as águas enchem o mar” (Is 11,9), como Isaías profetizou… Aproveitemos essas quatro semanas tão doces, que recordam a espera de Israel e da humanidade pelo Messias!

Nos textos bíblicos que a Igreja hoje nos propõe, o Senhor sonda as angústias e saudades do coração humano e nos fala precisamente da esperança: ele é o Deus que vem ao encontro dos nossos anseios mais profundos… Mas também nos exorta a vigiar, a nos preparar para acolher o Dom esperado. Aliás, é esta a miséria do mundo atual: busca a paz, procura a vida, mas não busca naquele que é a saciedade do nosso coração e a salvação da nossa existência. O homem tem sede e Deus, misericordiosamente envia-lhe a água, que é o Messias… e o nosso mundo não o reconhece; antes, renega-o! Vejamos se não é assim; recordemos a palavra do Profeta: “Acontecerá nos últimos tempos que o monte da casa do Senhor estará firmemente estabelecido no ponto mais alto das montanhas. A ele acorrerão todas as nações, para lá irão povos numerosos.. porque de Sião provém a lei e de Jerusalém, a Palavra do Senhor”. Vejamos bem: de Israel, Deus prepara uma salvação, uma luz, uma direção para toda a humanidade. O homem sozinho não encontra o caminho, por mais que teime em se julgar grande e auto-suficiente. À nossa pobreza, o Senhor vem com uma promessa tão grande. E, se o coração da humanidade acolher a salvação que vem, a luz que brilha, então, encontrará a paz: “Ele há de julgar as nações e argüir numerosos povos; estes transformarão suas espadas em arados e suas lanças em foices: não pegaram em armas uns contra os outros em não mais travarão combate”.Eis a promessa de Deus: dá-nos a salvação; eis o sonho do Senhor: encontrar uma humanidade que acolha o Salvador, dele bebendo a paz!

No nosso mundo, ferido, cansado, incerto… mundo que já não mais crê de verdade em nada, a promessa do Senhor é como um alento. Acreditemos, irmãos! Quão triste o mundo se os cristãos viverem sem esperança, sem certeza, sem ânimo, como os pagãos… Este Tempo do sagrado Advento quer levantar nosso ânimo: o Senhor, cujo Natal celebraremos dentro de quatro semanas, é o mesmo que virá um dia, na sua manifestação gloriosa! Nossa vida tem rumo e sentido. Vigiemos: “Vós sabeis em que tempo estamos! Já é hora de despertas. Agora a salvação está mais perto de nós do que quando abraçamos a fé. A noitedeste mundo já vai adiantada, o Dia vem chegando” – o Dia é Cristo, Salvação que Deus nos prometeu e nos preparou! Então:“Despojemo-nos das ações das trevas e vistamos as armas da luz. Procedamos honestamente, como em pleno dia” – como quem vive já agora, durante a noite deste mundo, no Dia, que é Cristo-Deus: “nada de glutonerias e bebedeiras, nem de orgias sexuais e imoralidades, nem de brigas e rivalidades. Pelo contrário: revesti-vos do Senhor Jesus”. Eis o modo de vigiar na noite deste mundo, eis o modo de testemunhar que esperamos, na vigilância, o Salvador que nos foi prometido e virá. É oportuno recordar que este texto da Carta aos Romanos, foi o que provocou a conversão de Santo Agostinho, lá no distante século V. A Palavra de Deus é sempre um apelo gritante e forte para nós! Que ela nos converta também agora!

A grande tentação para os discípulos de Cristo, hoje, é conformar-se com o marasmo do pecado do mundo, é viver burguesamente, uma vida cômoda e sem uma fé verdadeira e operante, sem aquela atitude de alegre expectativa por aquilo que o Senhor nos prometeu. Vamos nos ocupando e distraindo com uma vida fútil, dispersa em mil bobagens, esquecendo daquilo que realmente importa! Vale para nós a advertência seríssima do Senhor Jesus: “A vinda do Filho do Homem será como no tempo de Noé”: Naquele então, todos vivam tranquilamente: “comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento, até que Noé entrou na arca e eles nada perceberam…” Como agora: vive-se na farra do paganismo, do consumismo, do relaxamento moral, de tantos absurdos contrários ao Evangelho… e não percebemos que haverá um juízo decisivo de Deus para nós e para o mundo, um juízo no qual o bem e o mal, o santo e o pecador, serão separados: “um será levado e o outro será deixado”… Triste de quem for deixado, triste de quem perder a companhia do Senhor, nossa paz! Pois bem: logo neste iniciozinho de Advento, a advertência do Senhor é dramática: “Ficai atentos, porque não sabeis em que dia virá o Senhor! Na hora em que menos pensais, o Filho do homem virá!”

Então, enquanto o mundo dorme no seu pecado, na sua auto-satisfação, elevemos, humildemente nosso olhar e nosso coração para Aquele que vem: “A vós, meu Deus, elevo a minha alma. Confio em vós, que eu não seja envergonhado! Não se riam de mim meu inimigos, pois não será desiludido quem em vós espera!” – Marana thá! Vem, Senhor Jesus!

Dom Henrique Soares