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Homilia do Quarto Domingo da Quaresma: O Cego de Nascença (03/04/2011)

Primeira Leitura:
HISTÓRICO: Primeiro Livro de Samuel (1Sm), capítulo 16
(1) O Senhor disse-lhe: Até quando chorarás tu Saul, tendo-o eu rejeitado da realeza de Israel? Enche o teu corno de óleo. Vai, envio-te a Isaí de Belém, porque escolhi um rei entre os seus filhos. (2) Samuel respondeu: Como hei de ir? Se Saul souber, matar-me-á. O Senhor disse: Levarás contigo uma novilha e dirás que vais oferecer um sacrifício ao Senhor. (3) Convidarás Isaí ao sacrifício, e eu te mostrarei o que deverás fazer. Ungirás para mim aquele que eu mandar. (4) Fez Samuel como o Senhor queria. Ao chegar a Belém, os anciãos da cidade vieram-lhe ao encontro, inquietos: É de paz a tua vinda?, perguntaram-lhe. (5) Sim, disse ele, venho oferecer um sacrifício ao Senhor, purificai-vos para a cerimônia. Ele mesmo purificou Isaí e seus filhos e os convidou ao sacrifício. (6) Logo que entraram, Samuel viu Eliab e pensou consigo: Certamente é esse o ungido do Senhor. (7) Mas o Senhor disse-lhe: Não te deixes impressionar pelo seu belo aspecto, nem pela sua alta estatura, porque eu o rejeitei. O que o homem vê não é o que importa: o homem vê a face, mas o Senhor olha o coração. (8) Isaí chamou Abinadab e fê-lo passar diante de Samuel. Não é tampouco este, pensou Samuel, que o Senhor escolheu. (9) Isaí fez passar Sama. Não é ainda este que escolheu o Senhor, pensou Samuel. (10) Isaí mandou vir assim os seus sete filhos diante do profeta, que lhe disse: O Senhor não escolheu nenhum deles. (11) E ajuntou: Estão aqui todos os teus filhos? Resta ainda o mais novo, confessou Isaí, que está .pastoreando as ovelhas. Samuel ordenou a Isaí: Manda buscá-lo, pois não nos poremos à mesa antes que ele esteja aqui. (12) E Isaí mandou buscá-lo. Ele era louro, de belos olhos e mui formosa aparência. O Senhor disse: Vamos, unge-o: é ele. (13) Samuel tomou o corno de óleo e ungiu-o no meio dos seus irmãos. E, a partir daquele momento, o Espírito do Senhor apoderou-se de Davi. Samuel, porém, retomou o caminho de Ramá.
Segunda Leitura:
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Epístola aos Efésios (Ef), capítulo 5
(8) Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor: comportai-vos como verdadeiras luzes. (9) Ora, o fruto da luz é bondade, justiça e verdade. (10) Procurai o que é agradável ao Senhor, (11) e não tenhais cumplicidade nas obras infrutíferas das trevas, pelo contrário, condenai-as abertamente. (12) Porque as coisas que tais homens fazem ocultamente é vergonhoso até falar delas. (13) Mas tudo isto, ao ser reprovado, torna-se manifesto pela luz. (14) E tudo o que se manifesta deste modo torna-se luz. Por isto (a Escritura) diz: Desperta, tu que dormes! Levanta-te dentre os mortos e Cristo te iluminará (Is 26,19, 60,1)!
EVANGELHOS: Evangelho segundo São João (Jo), capítulo 9
(1) Caminhando, viu Jesus um cego de nascença.
(2) Os seus discípulos indagaram dele: Mestre, quem pecou, este homem ou seus pais, para que nascesse cego?
(3) Jesus respondeu: Nem este pecou nem seus pais, mas é necessário que nele se manifestem as obras de Deus.
(4) Enquanto for dia, cumpre-me terminar as obras daquele que me enviou. Virá a noite, na qual já ninguém pode trabalhar.
(5) Por isso, enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo.
(6) Dito isso, cuspiu no chão, fez um pouco de lodo com a saliva e com o lodo ungiu os olhos do cego.
(7) Depois lhe disse: Vai, lava-te na piscina de Siloé (esta palavra significa emissário). O cego foi, lavou-se e voltou vendo.
(8) Então os vizinhos e aqueles que antes o tinham visto mendigar perguntavam: Não é este aquele que, sentado, mendigava?
(9) Respondiam alguns: É ele. Outros contestavam: De nenhum modo, é um parecido com ele. Ele, porém, dizia: Sou eu mesmo.
(10) Perguntaram-lhe, então: Como te foram abertos os olhos?
(11) Respondeu ele: Aquele homem que se chama Jesus fez lodo, ungiu-me os olhos e disse-me: Vai à piscina de Siloé e lava-te. Fui, lavei-me e vejo.
(12) Interrogaram-no: Onde está esse homem? Respondeu: Não o sei.
(13) Levaram então o que fora cego aos fariseus.
(14) Ora, era sábado quando Jesus fez o lodo e lhe abriu os olhos.
(15) Os fariseus indagaram dele novamente de que modo ficara vendo. Respondeu-lhes: Pôs-me lodo nos olhos, lavei-me e vejo.
(16) Diziam alguns dos fariseus: Este homem não é o enviado de Deus, pois não guarda sábado. Outros replicavam: Como pode um pecador fazer tais prodígios? E havia desacordo entre eles.
(17) Perguntaram ainda ao cego: Que dizes tu daquele que te abriu os olhos? É um profeta, respondeu ele.
(18) Mas os judeus não quiseram admitir que aquele homem tivesse sido cego e que tivesse recobrado a vista, até que chamaram seus pais.
(19) E os interrogaram: É este o vosso filho? Afirmais que ele nasceu cego? Pois como é que agora vê?
(20) Seus pais responderam: Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego.
(21) Mas não sabemos como agora ficou vendo, nem quem lhe abriu os olhos. Perguntai-o a ele. Tem idade. Que ele mesmo explique.
(22) Seus pais disseram isso porque temiam os judeus, pois os judeus tinham ameaçado expulsar da sinagoga todo aquele que reconhecesse Jesus como o Cristo.
(23) Por isso é que seus pais responderam: Ele tem idade, perguntai-lho.
(24) Tornaram a chamar o homem que fora cego, dizendo-lhe: Dá glória a Deus! Nós sabemos que este homem é pecador.
(25) Disse-lhes ele: Se esse homem é pecador, não o sei... Sei apenas isto: sendo eu antes cego, agora vejo.
(26) Perguntaram-lhe ainda uma vez: Que foi que ele te fez? Como te abriu os olhos?
(27) Respondeu-lhes: Eu já vo-lo disse e não me destes ouvidos. Por que quereis tornar a ouvir? Quereis vós, porventura, tornar-vos também seus discípulos?...
(28) Então eles o cobriram de injúrias e lhe disseram: Tu que és discípulo dele! Nós somos discípulos de Moisés.
(29) Sabemos que Deus falou a Moisés, mas deste não sabemos de onde ele é.
(30) Respondeu aquele homem: O que é de admirar em tudo isso é que não saibais de onde ele é, e entretanto ele me abriu os olhos.
(31) Sabemos, porém, que Deus não ouve a pecadores, mas atende a quem lhe presta culto e faz a sua vontade.
(32) Jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença.
(33) Se esse homem não fosse de Deus, não poderia fazer nada.
(34) Responderam-lhe eles: Tu nasceste todo em pecado e nos ensinas?... E expulsaram-no.
(35) Jesus soube que o tinham expulsado e, havendo-o encontrado, perguntou-lhe: Crês no Filho do Homem?
(36) Respondeu ele: Quem é ele, Senhor, para que eu creia nele?
(37) Disse-lhe Jesus: Tu o vês, é o mesmo que fala contigo!
(38) Creio, Senhor, disse ele. E, prostrando-se, o adorou.
(525) Homilia do Padre Paulo Ricardo:PLAYER AQUI
Para que sejamos curados de nossa cegueira, precisamos admiti-la. Os fariseus negam esta verdade e por isto permanecem em seus pecados. A misericórdia de Deus está sempre à nossa disposição. Somos nós que podemos nos fechar a ela, caindo no "pecado contra o Espírito Santo".
O CEGO DE NASCENÇA
4º domingo da quaresma, 03/04/2011
Catequese Bíblico-Missionária

Os textos de hoje nos falam da arrogância dos que tentam se evadir dos desígnios de Deus. Na primeira leitura, temos a confirmação de que o menor, aquele em que ninguém pensara, se converte no justo e no eleito de Deus, que supera todos os irmãos maiores. "O olhar de Deus não é como o olhar do homem, pois o homem olha as aparências, mas o Senhor olha o coração."

Paulo nos conclama a sermos filhos da luz e darmos frutos de bondade, justiça e verdade. E ele afirma que a esterilidade dos que se escondem nas trevas deve ser denunciada: "O que esta gente faz em segredo, é vergonhoso até dizê-lo."

O evangelho nos mostra que o cego de nascença não pede a Jesus que lhe conceda a visão, nem Jesus lhe pergunta se quer ver. Ele apenas evidencia como a ação de Deus se deve manifestar. E, a partir da sua cura, um processo lento e progressivo se desencadeia até que reconheça Aquele que o libertou das trevas. Todos os demais, fariseus, pais e mestres da Lei, permanecem nas trevas e o expulsam da sinagoga.

O detalhe mais vital desta narrativa é que aquele-que-era-cego só reconhece Jesus quando se torna como Ele, um proscrito. Com todas as suas amarras sociais e religiosas rompidas, o cego é capaz de proclamar: "Creio Senhor." Ele participa da verdade mais profunda do outro, de sua fragilidades e esperanças. Ele, que agora vê, pode caminhar na lealdade da vida e do projeto histórico de Jesus. Aquele que declarou que veio para os pecadores e doentes nos revela que só os proscritos pelo mundo é que terão condição de reconhecê-Lo e caminhar, lado a lado, com Ele. Os que trazem o sinal da proscrição, como Jesus, serão sempre Caim para os homens e Abel para Deus.

Pe. Paulo Botas, mts