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Vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus (19-02-2017)

Primeira Leitura:
PENTATEUCO: Livro do Levítico (Lv), capítulo 19
(1) O Senhor disse a Moisés: (2) “Dirás a toda a assembléia de Israel o seguinte: sede santos, porque eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo. (3) Cada um de vós respeite a sua mãe e o seu pai, e guarde os meus sábados. Eu sou o Senhor, vosso Deus. (4) Não vos volteis para os ídolos, e não façais para vós deuses de metal fundido. Eu sou o Senhor, vosso Deus. (5) Quando oferecerdes ao Senhor um sacrifício pacífico, oferecê-lo-eis de maneira que seja aceito. (6) Comer-se-á a vítima no mesmo dia ou no dia seguinte, o que sobrar no terceiro dia será queimado no fogo. (7) Se se comer dela no terceiro dia, será uma abominação: o sacrifício não será aceito. (8) Quem o comer levará sua iniqüidade, porque terá profanado o que é consagrado ao Senhor: esse será cortado do seu povo. (9) Quando fizerdes a ceifa em vossa terra, não cortareis as espigas até os limites de vosso campo, e não recolhereis o que resta a respigar de vossas colheitas. (10) Não respigareis tampouco a vossa vinha, nem colhereis os grãos caídos no campo, deixá-los-eis para o pobre e o estrangeiro. Eu sou o Senhor, vosso Deus. (11) Não furtareis, não usareis de embustes nem de mentiras uns para com os outros. (12) Não jurareis falso em meu nome, porque profanaríeis o nome de vosso Deus. Eu sou o Senhor. (13) Não oprimirás o teu próximo, e não o despojarás. O salário do teu operário não ficará contigo até o dia seguinte. (14) Não amaldiçoarás um surdo, não porás algo como tropeço diante do cego, mas temerás o teu Deus. Eu sou o Senhor. (15) Não sereis injustos em vossos juízos: não favorecerás o pobre nem terás complacência com o grande, mas segundo a justiça julgarás o teu próximo. (16) Não semearás a difamação no meio de teu povo, nem te apresentarás como testemunha contra a vida do teu próximo. Eu sou o Senhor. (17) Não odiarás o teu irmão no teu coração. Repreenderás o teu próximo para que não incorras em pecado por sua causa. (18) Não te vingarás, não guardarás rancor contra os filhos de teu povo. Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor.

Segunda Leitura:
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Primeira Epístola aos Coríntios (1Cor), capítulo 3
(16) Não sabeis que sois o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? (17) Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá. Porque o templo de Deus é sagrado - e isto sois vós. (18) Ninguém se engane a si mesmo. Se alguém dentre vós se julga sábio à maneira deste mundo, faça-se louco para tornar-se sábio, (19) porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus, pois (diz a Escritura) ele apanhará os sábios na sua própria astúcia (Jó 5,13). (20) E em outro lugar: O Senhor conhece os pensamentos dos sábios, e ele sabe que são vãos (Sl 93,11). (21) Portanto, ninguém ponha sua glória nos homens. Tudo é vosso: (22) Paulo, Apolo, Cefas, o mundo, a vida, a morte, o presente e o futuro. Tudo é vosso! (23) Mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus.
EVANGELHOS: Evangelho segundo São Mateus (Mt), capítulo 5
(38) Tendes ouvido o que foi dito: Olho por olho, dente por dente.
(39) Eu, porém, vos digo: não resistais ao mau. Se alguém te ferir a face direita, oferece-lhe também a outra.
(40) Se alguém te citar em justiça para tirar-te a túnica, cede-lhe também a capa.
(41) Se alguém vem obrigar-te a andar mil passos com ele, anda dois mil.
(42) Dá a quem te pede e não te desvies daquele que te quer pedir emprestado.
(43) Tendes ouvido o que foi dito: Amarás o teu próximo e poderás odiar teu inimigo.
(44) Eu, porém, vos digo: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos [maltratam e] perseguem.
(45) Deste modo sereis os filhos de vosso Pai do céu, pois ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos.
(46) Se amais somente os que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem assim os próprios publicanos?
(47) Se saudais apenas vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não fazem isto também os pagãos?
(48) Portanto, sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito.
Homilia do : Padre Paulo Ricardo
Homilia do Padre Miguel:---
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético
Ver Homilia de Dom Henrique Soares
Ver Homilia de Mons. José Maria
Ver Homilia do Pe. Françoá Costa
Canção Nova: Homilia

 7.º Domingo do Tempo Comum - Como amar os nossos inimigos?

No Evangelho deste domingo, dia 19 de fevereiro, Nosso Senhor manda a seus discípulos que rezem por seus perseguidores e ofereçam-lhes a outra face. Mas o que significam verdadeiramente essas palavras de Cristo? Estaria Ele falando literalmente ou apenas "fazendo poesia"? Será realmente possível amar os próprios inimigos?

É o que Padre Paulo Ricardo examina nesta meditação imperdível sobre o Sermão da Montanha.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt
 5, 38-48)

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: "Vós ouvistes o que foi dito: 'Olho por olho e dente por dente!' Eu, porém, vos digo: Não enfrenteis quem é malvado! Pelo contrário, se alguém te dá um tapa na face direita, oferece-lhe também a esquerda! Se alguém quiser abrir um processo para tomar a tua túnica, dá-lhe também o manto! Se alguém te forçar a andar um quilômetro, caminha dois com ele! Dá a quem te pedir e não vires as costas a quem te pede emprestado.

Vós ouvistes o que foi dito: 'Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo!' Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem! Assim, vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz nascer o sol sobre maus e bons, e faz cair a chuva sobre justos e injustos. Porque, se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Os cobradores de impostos não fazem a mesma coisa? E se saudais somente os vossos irmãos, o que fazeis de extraordinário? Os pagãos não fazem a mesma coisa? Portanto, sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito!"

Para a passagem do Evangelho de hoje, em que Cristo nos manda amar os nossos inimigos e fazer o bem aos que nos perseguem, os teólogos normalmente apresentam duas interpretações extremas: há os que, de um lado, entendem que esses ensinamentos do Senhor devam ser aplicados em todos os âmbitos da vida humana, inclusive no convívio civil — o que equivaleria, na prática, à abolição do direito criminal ou, em última instância, da própria Justiça; e há aqueles, por outro lado, como Martinho Lutero, que imaginam que Nosso Senhor estava simplesmente a "fazer poesia" com suas palavras, pois as exigências do Sermão da Montanha seriam inatingíveis para o homem pós-lapsário.

Entre esses dois opostos, figura o próprio Jesus, o qual, ao ser esbofeteado por um dos servos do sumo sacerdote, não ofereceu a outra face, mas perguntou: "Se falei mal, prova-o, mas se falei bem, por que me bates?" (Jo 18, 23). Com isso, Nosso Senhor sinalizava para a importância da virtude da justiça. Ao mesmo tempo, porém, sendo Deus, Cristo não manda a ninguém o impossível: seus preceitos não são normas meramente ideais ou abstratas; são, muitos pelo contrário, "palavras de vida eterna", destinadas a produzir abundantes frutos na vida dos que as colocam em prática.

Por isso, ambas as interpretações de que se falou mais acima são inaceitáveis. Quem quiser entender de fato o que ensina o Evangelho deste domingo, deve lançar um olhar de fé ao mistério da Encarnação do Verbo, tal como é descrito por São João: "De tal modo Deus amou o mundo que lhe deu o seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo 3, 16), e igualmente por São Paulo: "Eis aqui uma prova brilhante de amor de Deus por nós: quando éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós" (Rm 5, 8). Em outras palavras, o Verbo se fez carne para a nossa salvação — salvação que está na remissão dos pecados (cf. Lc 1, 77) — quando ainda éramos inimigos de Deus. Jesus Cristo foi o primeiro, portanto, a amar os seus inimigos — que somos nós mesmos.

Destruído porém o muro da inimizade, transformados que fomos, pela graça, em seus amigos mais íntimos, o nosso destino agora é caminhar para cada vez mais perto da semelhança com o Filho de Deus. Isso só é possível quando, enxergando com os olhos da fé com quanto amor Ele nos amou, brota de nossos corações uma profunda gratidão, a qual está destinada a transformar-se em mais caridade ainda. Diante do que Deus realizou para nos resgatar, diante do fato de que Ele rompe os céus para nos vir buscar e transportar-nos para o seu Reino, não há resposta mais adequada que amar de volta. "Se nos custava amá-lO", dizia Santo Agostinho, "ao menos não nos custe retribuir-lhe o amor": si amare pigebat, saltem reamare non pigeat.

Se o amor de Deus é o primeiro na ordem de importância, não acontece o mesmo, entretanto, na ordem de execução, lembrava ainda o Doctor Gratiae. Não basta que procuremos amar a Deus de volta; é necessário que, imitando o Cristo, também saibamos amar o nosso próximo, especialmente quando ele nos maltrata, nos persegue e nos faz o mal. Do contrário, se não soubermos perdoar a quem nos tem ofendido, tampouco o Pai dos céus perdoará as inúmeras ofensas que cometemos contra Ele.

Como pôr em prática esse preceito, no entanto, quando os sentimentos de ódio e de vingança parecem aflorar quase que de modo inevitável? Como perdoar de coração àqueles que nos ofenderam?

A resposta está no encontro que devemos fazer, todos os dias, com Aquele que é o divino hóspede das almas. Lá no fundo de nosso ser, bem onde Nosso Senhor nos toca quando comungamos com devoção, está Ele mesmo a reinar majestoso, permanentemente, à espera de que entremos no aposento de nossa alma e peçamos-lhe, em intimidade, a graça de amar. Só unindo-nos a Ele, de fato, o único que perdoou de modo perfeito os seus algozes, poderemos também nós reconciliar-nos, nem que seja interiormente, com os nossos inimigos.

Padre Paulo Ricardo


Vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus

Caríssimos irmãos no Senhor, mais uma vez estamos reunidos para a santa Eucaristia dominical, na qual encontramos o Ressuscitado, alimentamo-nos da sua palavra e nutrimo-nos do seu Corpo sagrado. Com efeito, ele está conosco, ele nos fala, ele se dá a nós, totalmente! Ouvir o Senhor, alimentar-se dele – pensem bem -, significa abrir-se para ele porque nele cremos. É isto crer, meus caros: viver abertos de verdade para o Senhor, deixando que ele plasme a nossa vida, ilumine os nossos caminho, vá invadindo e transformando toda a nossa existência.

Se pensarmos bem, é a uma atitude assim que a Palavra de Deus hoje nos convida. O Senhor Deus nos diz: “Sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo”; depois, no Evangelho, insiste: “Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito!” Em outras palavras: Sede como o vosso Deus, deixai-vos invadir por ele, transformar por ele! Deixai que ele seja o lastro, o alicerce, o fundamento, o rumo da vossa vida! Crer nele e deixar-se invadir por ele e ir assumindo seus sentimentos, seus pensamentos, seus desígnios. Observai como na primeira leitura o Senhor Deus afirma: “Eu sou o Senhor!” Se eu sou o Senhor para vós, sede santos como eu, tende um coração como o meu: não guardes ódio no coração, não te vingues, repreende o teu próximo com bom coração, ama de verdade o próximo como a ti mesmo!

Compreendeis, caríssimos? Não podemos dizer que Deus é o Senhor e, ao mesmo tempo, vivermos do nosso modo, como se nós próprios fôssemos o nosso Deus! Alguém que viva do seu modo,seguindo seus próprios critérios, alguém que se julgue o senhor do bem e do mal e veja, analise, julgue e aja de acordo com seus próprios pensamentos, gostos e prioridades, independente da vontade de Deus – e essa vontade de Deus não é teórica, distante, mas nos aparece nas Escrituras interpretadas pela Igreja com a autoridade de Cristo – alguém assim, mesmo que dissesse que acredita, não crê de verdade, não exprime na vida que Deus é seu Senhor! Ah, caríssimos, que há tantos crentes de nome e ateus de vida! Há tantos, como diz o Apóstolo, “que se comportam como inimigos da cruz de Cristo. O seu fim será a perdição; o seu deus, é o ventre; e sua glória, eles a põem na própria ignomínia, já que só levam a peito as coisas da terra” (Fl 3,18-19). Viver na vontade do Senhor, abertos ao Senhor, àquele Deus Santo que se manifestou como Poder, Santidade, Sabedoria e Salvação na fraqueza, na maldição, na loucura e na perdição da cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo!

A mesma ideia aparece na segunda leitura de hoje: vede como São Paulo nos convida ter plena consciência de que não nos pertencemos: “Irmãos, acaso não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus mora em vós?” Somos santuário de Deus, isto é, somos templo, morada do seu Santo Espírito, aquele Espírito que Jesus morto e ressuscitado derramou em nossos corações desde o nosso batismo. Então, como poderíamos viver do nosso jeito? Como poderíamos seguir a lógica da moda, da maioria, do mundo atual? Como poderíamos abraçar a louca e tola sabedoria do mundo atual? Que palavras claras e escandalosas as do Apóstolo: “Ninguém se iluda: se algum de vós pensa que é sábio nas coisas deste mundo, reconheça sua insensatez para se tornar sábio de verdade; pois a sabedoria deste mundo é insensatez diante de Deus!” O que significam tais palavras? É preciso deixar nossa lógica mundana para abraçar a lógica de Deus; e esta lógica – nunca esqueçamos, nunca deixemos de repetir – manifestar-se-á sempre e somente na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo! Era isto que o nosso bendito Salvador dizia no Domingo passado e continua a dizer neste hoje: a nossa religião tem que superar a dos escribas e fariseus! Lembram de oito dias atrás? “Se a vossa justiça, isto é, se o vosso modo de praticar a religião, de cumprir os preceitos, não for maior que a justiça dos escribas e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus!” em que nossa prática deve ser maior? No modo de viver a religião: um modo interior, nascido do amor a Deus e aos irmãos; um amor que deixa de verdade Deus entrar, habitar em nós como num templo, nos questionar, nos transformar; uma prática da religião suscitada, sustentada, impulsionada, animada pelo Santo Espírito! Observai, amados no Senhor, como Jesus chama atenção não primeiramente para a letra do preceito, mas para o espírito, a intenção, a motivação com a qual se realiza o preceito: “Ouvistes o que foi dito: olho por olho, dente por dente” – é justo, era a medida da justiça da Lei de Moisés e ainda hoje é a medida de todos os tribunais do mundo. Este preceito não é de vingança; é de justiça: um olho por um olho, um dente por um dente! “Eu, porém, vos digo: não só justiça, mas misericórdia, generosidade, porque vosso Deus é assim!” “Ouvistes o que foi dito: amarás a quem te ama, não tens obrigação para com teus inimigos. Eu, porém vos digo: amai a todos, amai sem esperar recompensa, porque o coração do vosso Pai no céu é assim!” Abri-vos, pois, irmãos meus, abri-vos para Deus, aquele Deus que vos deu tudo quando vos deu o Filho Único, o Amado, até a morte e morte de cruz!

Caríssimos, vivemos num mundo no qual o homem se colocou como o centro. Até mesmo na Igreja há pessoas que pensam num cristianismo à medida do homem e do gosto das modas atuais. Há cristãos, há teólogos que pensam assim: “Se fizermos como o mundo espera, vamos atrair o mundo para a Igreja; se fizermos adaptações no cristianismo e na Igreja ele se tornará atraente…” Não! É Cristo quem atrai, é Cristo crucificado e ressuscitado o critério! Não se trata de atrair para a Igreja, mas para o Jesus vivo e verdadeiro, com toda a sua verdade, com todo o seu amor, com toda a sua exigência que nos liberta, nos tira de nós e nos dá a vida em abundância! O resto é pensamento humano, vazio e estéril! Repito, caríssimos: o centro é Cristo Jesus que nos leva ao Pai: é ele o critério, é ele a medida, é ela a única verdade! Quando nos deixamos transformar por ele somos livres de verdade e de verdade damos glória a Deus. Nunca esqueçais, amado meus: “Tudo vos pertence, tudo é vosso, mas vós sois de  Cristo, e Cristo é de Deus”. A ele a glória pelos séculos. Amém.

Dom Henrique Soares