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O Tabor e o Calvário (06-08-2017)

Primeira Leitura:
PROFETAS MAIORES: Livro de Daniel (Dn), capítulo 7
(9) Continuei a olhar, até o momento em que foram colocados os tronos e um ancião chegou e se sentou. Brancas como a neve eram suas vestes, e tal como a pura lã era sua cabeleira, seu trono era feito de chamas, com rodas de fogo ardente. (10) Saído de diante dele, corria um rio de fogo. Milhares e milhares o serviam, dezenas de milhares o assistiam! O tribunal deu audiência e os livros foram abertos. (11) Olhei então, devido à balbúrdia causada pelos discursos arrogantes do chifre, olhei até o momento em que o animal foi morto, seu corpo subjugado e a fera jogada ao fogo. (12) Quanto aos outros animais, o domínio lhes foi igualmente retirado, mas a duração de sua vida foi fixada até um tempo e uma data. (13) Olhando sempre a visão noturna, vi um ser, semelhante ao filho do homem, vir sobre as nuvens do céu: dirigiu-se para o lado do ancião, diante de quem foi conduzido. (14) A ele foram dados império, glória e realeza, e todos os povos, todas as nações e os povos de todas as línguas serviram-no. Seu domínio será eterno, nunca cessará e o seu reino jamais será destruído.

Segunda Leitura:
EPISTOLAS CATÓLICAS: Segunda Epístola de São Pedro (2Pd), capítulo 1
(16) Na realidade, não é baseando-nos em hábeis fábulas imaginadas que nós vos temos feito conhecer o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, mas por termos visto a sua majestade com nossos próprios olhos. (17) Porque ele recebeu de Deus Pai honra e glória, quando do seio da glória magnífica lhe foi dirigida esta voz: Este é o meu Filho muito amado, em quem tenho posto todo o meu afeto. (18) Esta mesma voz que vinha do céu nós a ouvimos, quando estávamos com ele no monte santo. (19) Assim demos ainda maior crédito à palavra dos profetas, à qual fazeis bem em atender, como a uma lâmpada que brilha em um lugar tenebroso até que desponte o dia e a estrela da manhã se levante em vossos corações.
EVANGELHOS: Evangelho segundo São Mateus (Mt), capítulo 17
(1) Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e conduziu-os à parte a uma alta montanha.
(2) Lá se transfigurou na presença deles: seu rosto brilhou como o sol, suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura.
(3) E eis que apareceram Moisés e Elias conversando com ele.
(4) Pedro tomou então a palavra e disse-lhe: Senhor, é bom estarmos aqui. Se queres, farei aqui três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias. Falava ele ainda, quando veio uma nuvem luminosa e os envolveu. E daquela nuvem fez-se ouvir uma voz que dizia: Eis o meu Filho muito amado, em quem pus toda minha afeição, ouvi-o.
(6) Ouvindo esta voz, os discípulos caíram com a face por terra e tiveram medo.
(7) Mas Jesus aproximou-se deles e tocou-os, dizendo: Levantai-vos e não temais.
(8) Eles levantaram os olhos e não viram mais ninguém, senão unicamente Jesus.
(9) E, quando desciam, Jesus lhes fez esta proibição: Não conteis a ninguém o que vistes, até que o Filho do Homem ressuscite dos mortos.
Homilia do : Padre Paulo Ricardo
Homilia do Padre Miguel:---
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético
Ver Homilia de Mons. José Maria
Canção Nova: Homilia

Festa da Transfiguração do Senhor - O Tabor e o Calvário

Neste domingo, 6 de agosto, em que celebramos a Transfiguração do Senhor, Padre Paulo Ricardo medita sobre este episódio da vida de Cristo à luz do sacerdócio católico.

Jesus sobe ao Tabor porque Ele espera que, um dia, os seus sacerdotes subam ao Calvário como vítimas, assim como Ele mesmo fez.

Padre Paulo Ricardo


A Transfiguração

Esta festa do Senhor é celebrada desde os começos, nesta mesma data, em muitos lugares do Ocidente e do Oriente. No século XV, o Papa Calixto lll estendeu-a  a  toda a Igreja. O milagre da Transfiguração é recordado mais de uma vez, durante o ano: no segundo domingo da Quaresma, para afirmar a divindade de Cristo, pouco antes da Paixão; e hoje, para festejar a exaltação de Cristo na sua glória. A Transfiguração do Senhor é, além disso, uma antecipação do que será a glória do Céu, onde veremos a Deus face a face; em virtude da graça, participamos já nesta terra dessa promessa da vida eterna.

A caminho de Jerusalém, Jesus faz o primeiro anúncio da Paixão. Disse que iria sofrer e padecer em Jerusalém, e que morreria às mãos dos príncipes dos sacerdotes, dos anciãos e dos escribas. Os apóstolos tinham ficado aflitos e tristes com a notícia. O caminho da salvação esperado pelos discípulos é bem diferente! Para fortalecer o ânimo profundamente abalado dos discípulos, Jesus toma consigo Pedro, Tiago e João e leva-os a um lugar à parte para orar. Aí, no Monte Tabor, revela-lhes a glória da divindade. “Enquanto orava, o seu rosto transformou-se e as suas vestes tornaram-se resplandecentes” (Lc 9, 29; Mt 17, 1 – 9 ).

São Leão Magno diz que “a finalidade principal da Transfiguração foi desterrar das almas dos discípulos o escândalo da Cruz.”

Pela Transfiguração, Deus demonstra que uma existência feita dom não é fracassada, mesmo quando termina na Cruz. Também nos revela que Jesus é “o Filho amado do Pai” e nos convida a escutar o que Ele diz.

A Transfiguração do Senhor antecipa a Ressurreição e anuncia a divinização do homem. Conduz-nos a um alto Monte para acolher de novo, em Cristo, como filhos do Filho, o dom da Graça de Deus: “Este é o meu Filho amado: Escutai-O.”

O Senhor, momentaneamente, permitiu que os três discípulos pudessem entrever a sua divindade, e eles ficaram fora de si, cheios de uma imensa felicidade. “A Transfiguração revela – lhes um Cristo que não se mostrava na vida cotidiana. Está diante deles como Alguém no qual se cumpre a Antiga Aliança, e sobretudo como o Filho eleito do Pai Eterno,  a quem é preciso prestar  fé absoluta e obediência total” ( São João Paulo ll, Homilia ),  a quem devemos buscar ao longo da nossa existência aqui na terra.

A Transfiguração foi uma centelha de glória divina que inundou os apóstolos de uma felicidade tão grande que fez Pedro exclamar: “Senhor, é bom ficarmos aqui. Se queres, vou fazer aqui três tendas…” (Mt 17, 4). Pedro quer prolongar aquele momento. Mas, Pedro não sabia o que dizia; pois o que é bom, o que importa, não é estar aqui ou ali, mas estar sempre com Cristo, em qualquer parte, e vê-lo por trás das circunstâncias em que nos encontramos. Se estamos com Ele, tanto faz que estejamos rodeados dos maiores consolos do mundo ou prostrados no leito de um hospital, padecendo dores terríveis. O que importa é somente isto: vê-lo e viver sempre com Ele! Esta é a única coisa verdadeiramente boa e importante na vida presente e na outra. Desejo ver-te, Senhor, e procurarei o teu rosto nas circunstâncias habituais da minha vida!
São Beda diz que o Senhor, “numa piedosa autorização, permitiu que Pedro, Tiago e João fruíssem durante um tempo muito curto da contemplação da felicidade que dura para sempre, a fim de fortalecê-los perante a adversidade”. A lembrança desses momentos ao lado do Senhor, no Tabor, foi sem dúvida uma grande ajuda nas várias situações difíceis em que estes três Apóstolos viriam a passar.

A Transfiguração leva-nos a pensar no Céu, que é a nossa morada. O Senhor quer confortar-nos com a esperança do Céu, de modo especial nos momentos mais duros ou quando se torna mais patente a fraqueza da nossa condição: “à hora da tentação, pensa no Amor que te espera no Céu. Fomenta a virtude da esperança, que não é falta de generosidade” (Caminho, 139).

A nossa vida é um caminho para o Céu. Mas é uma via que passa pela Cruz e pelo sacrifício. Até o último momento, teremos que lutar contra a corrente, e é possível que também passemos pela tentação de querer tornar compatível a entrega que o Senhor nos pede com uma vida fácil e talvez aburguesada, como a de tantos que vivem com o pensamento posto exclusivamente nas coisas materiais. “Não sentimos frequentemente a tentação de pensar que chegou o momento de converter o cristianismo em algo fácil, de torná – lo confortável, sem sacrifício algum; de fazê – lo conformar – se com as maneiras cômodas, elegantes e comuns dos outros e com o modo de vida mundano? Mas não é assim!… O cristianismo não pode dispensar a Cruz: a vida cristã é inviável sem o peso forte e grande do dever… Se procurássemos tirá – lo da nossa vida, criaríamos ilusões e debilitaríamos o cristianismo; transformaríamos o cristianismo numa interpretação branda e cômoda da vida” ( Beato Paulo Vl ). Não é esse o caminho que o Senhor indicou.

O pensamento da glória que nos espera deve animar-nos na nossa luta diária. Nada vale tanto como ganhar o Céu. Ensina Santa Teresa: “E se fordes sempre avante com essa determinação de antes morrer do que desistir de chegar ao termo da jornada, o Senhor, mesmo que vos mantenha com alguma sede nesta vida, na outra, que durará para sempre, vos dará de beber com toda abundância e sem perigo de que vos venha a faltar.”

“Este é o meu Filho amado: ouvi-O”. Deus Pai fala através de Jesus Cristo a todos os homens, de todos os tempos. Ensina São João Paulo II: “procura continuamente as vias para tornar próximo do gênero humano o mistério do seu Mestre e Senhor: próximo dos povos, das nações, das gerações que se sucedem e de cada um dos homens em particular” (Encíclica Redemptor Hominis, 7). A sua voz faz-se ouvir em todas as épocas, sobretudo através dos ensinamentos da Igreja.

O significado concreto de tudo isso, hoje como então, é este: nossa vida de cristãos está permeada de provações; o sofrimento nos acompanha. Muitas vezes, é tanta a escuridão que não se consegue mais   divisar   o Céu; o horizonte da fé parece desaparecer ao longe. Vemos somente a realidade presente que se mostra com toda sua aspereza. É nesta hora   que a dor nos cerca com   seu espetáculo: dor de gerações passadas, dor atual, dor dos pecadores e dor dos justos…  Aos lábios aflora espontânea a pergunta: Por que tudo isto? Por que se Deus é bom, se Deus é Pai? São Pedro nos afirma que também alguns dos primeiros cristãos estavam tentados a dizer: Onde está a promessa de sua vinda? Desde que nossos pais morreram, tudo continua como desde o princípio do mundo ( 2Pd 3,4).

Nesta prova da fé, brilha o Evangelho da Transfiguração, como penhor certíssimo de vitória. Toda esta dor irá acabar. Um dia, cada um de nós, e todo o universo, será transfigurado porque deverá ser como Jesus, deverá assumir seu modo de ser glorioso e espiritual e formar, aliás, “um só Espírito” com ele.

Jesus, como fez com Pedro, Tiago e João, aproxima – se, coloca – nos uma mão sobre o ombro e nos convida a descer do monte. Convida – nos a segui – Lo a Jerusalém, isto é, nas provas da vida cotidiana.

Nós devemos encontrar Jesus na nossa vida corrente, no meio do trabalho, na rua, nos que nos rodeiam, na oração, quando nos perdoa no Sacramento da Penitência (Confissão), e sobretudo na Eucaristia, onde se encontra verdadeira, real e substancialmente presente. Devemos aprender a descobri-Lo nas coisas ordinárias, correntes, fugindo da tentação de desejar o extraordinário.

Mons. José Maria Pereira