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O pecado não é trivialidade (17-09-2017)

Primeira Leitura:
SAPIENCIAL: Livro do Eclesiástico (Eclo), capítulo 28
(1) Aquele que quer vingar sofrerá a vingança do Senhor, que guardará cuidadosamente os seus pecados. (2) Perdoa ao teu próximo o mal que te fez, e teus pecados serão perdoados quando o pedires. (3) Um homem guarda rancor contra outro homem, e pede a Deus a sua cura! (4) Não tem misericórdia para com o seu semelhante, e roga o perdão dos seus pecados! (5) Ele, que é apenas carne, guarda rancor, e pede a Deus que lhe seja propício! Quem, então, lhe conseguirá o perdão de seus pecados? (6) Lembra-te do teu fim, e põe termo às tuas inimizades, (7) pois a decadência e a morte são uma ameaça (para aqueles que transgridem) os mandamentos. (8) Lembra-te do temor a Deus, e não fiques irado contra o próximo. (9) Lembra-te da aliança com o Altíssimo, e passa por cima do erro que o teu próximo cometeu inadvertidamente.

Segunda Leitura:
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Epístola de São Paulo aos Romanos (Rm), capítulo 14
(7) Nenhum de nós vive para si, e ninguém morre para si. (8) Se vivemos, vivemos para o Senhor, se morremos, morremos para o Senhor. Quer vivamos quer morramos, pertencemos ao Senhor. (9) Para isso é que morreu Cristo e retomou a vida, para ser o Senhor tanto dos mortos como dos vivos.
EVANGELHOS: Evangelho segundo São Mateus (Mt), capítulo 18
(21) Então Pedro se aproximou dele e disse: Senhor, quantas vezes devo perdoar a meu irmão, quando ele pecar contra mim? Até sete vezes?
(22) Respondeu Jesus: Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.
(23) Por isso, o Reino dos céus é comparado a um rei que quis ajustar contas com seus servos.
(24) Quando começou a ajustá-las, trouxeram-lhe um que lhe devia dez mil talentos.
(25) Como ele não tinha com que pagar, seu senhor ordenou que fosse vendido, ele, sua mulher, seus filhos e todos os seus bens para pagar a dívida.
(26) Este servo, então, prostrou-se por terra diante dele e suplicava-lhe: Dá-me um prazo, e eu te pagarei tudo!
(27) Cheio de compaixão, o senhor o deixou ir embora e perdoou-lhe a dívida.
(28) Apenas saiu dali, encontrou um de seus companheiros de serviço que lhe devia cem denários. Agarrou-o na garganta e quase o estrangulou, dizendo: Paga o que me deves!
(29) O outro caiu-lhe aos pés e pediu-lhe: Dá-me um prazo e eu te pagarei!
(30) Mas, sem nada querer ouvir, este homem o fez lançar na prisão, até que tivesse pago sua dívida.
(31) Vendo isto, os outros servos, profundamente tristes, vieram contar a seu senhor o que se tinha passado.
(32) Então o senhor o chamou e lhe disse: Servo mau, eu te perdoei toda a dívida porque me suplicaste.
(33) Não devias também tu compadecer-te de teu companheiro de serviço, como eu tive piedade de ti?
(34) E o senhor, encolerizado, entregou-o aos algozes, até que pagasse toda a sua dívida.
(35) Assim vos tratará meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar a seu irmão, de todo seu coração.
Homilia do : Padre Paulo Ricardo
Homilia do Padre Miguel:---
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético
Ver Preces
Ver Homilia de Dom Henrique Soares
Ver Homilia de Mons. José Maria
Ver Homilia do Pe. Françoá Costa
Canção Nova: Homilia

24.º Domingo do Tempo Comum - O pecado não é uma trivialidade

No Evangelho deste domingo, Nosso Senhor conta a seus discípulos a parábola do credor incompassivo, explicando-lhes a necessidade do perdão. Nosso Senhor demonstra, com isso, que o ato de perdoar não é uma realidade corriqueira, mas algo que exige de nós uma profunda conversão. Nos dias de hoje, contudo, ao invés de perdoar de verdade, são muitos os charlatães que adotam o discurso da tolerância, receitando remédios falsos para um mal que leva à morte.

Nesta homilia, Padre Paulo Ricardo explica a diferença entre estas duas atitudes — perdão e tolerância —, apontando-nos a terapia correta para lidarmos com o nosso pecado.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt
 18, 21-35)

Naquele tempo, Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: "Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?"

Jesus respondeu: "Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. Porque o Reino dos Céus é como um rei que resolveu acertar as contas com seus empregados. Quando começou o acerto, levaram-lhe um que lhe devia uma enorme fortuna. Como o empregado não tivesse com que pagar, o patrão mandou que fosse vendido como escravo, junto com a mulher e os filhos e tudo o que possuía, para que pagasse a dívida. 

O empregado, porém, caiu aos pés do patrão e, prostrado, suplicava: 'Dá-me um prazo, e eu te pagarei tudo!' Diante disso, o patrão teve compaixão, soltou o empregado e perdoou-lhe a dívida. 

Ao sair dali, aquele empregado encontrou um de seus companheiros que lhe devia apenas cem moedas. Ele o agarrou e começou a sufocá-lo, dizendo: 'Paga o que me deves'. 

O companheiro, caindo aos seus pés, suplicava: 'Dá-me um prazo, e eu te pagarei!' Mas o empregado não quis saber disso. Saiu e mandou jogá-lo na prisão, até que pagasse o que devia. 

Vendo o que havia acontecido, os outros empregados ficaram muito tristes, procuraram o patrão e lhe contaram tudo. 

Então o patrão mandou chamá-lo e lhe disse: 'Empregado perverso, eu te perdoei toda a tua dívida, porque tu me suplicaste. Não devias tu também ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?' 

O patrão indignou-se e mandou entregar aquele empregado aos torturadores, até que pagasse toda a sua dívida. 

É assim que o meu Pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão".

O Evangelho deste domingo é um grande comentário àquela parte do Pai-Nosso em que pedimos a Deus o perdão de nossos pecados, e se insere no chamado discurso eclesiológico, em cujo conteúdo se encontram todos os ensinamentos de Cristo para a formação da Igreja. O perdão, ensina Jesus, é imprescindível à comunhão com Deus, porque apaga de nossos corações as rixas do pecado e nos vincula outra vez ao seu corpo místico.

Jesus narra a parábola do credor incompassivo para demonstrar que o perdão não é uma realidade trivial, mas algo que exige de nós uma profunda conversão. Não pode receber o perdão divino quem não perdoa igualmente aos seus irmãos.

No mundo atual, porém, constitui um grande obstáculo à verdadeira misericórdia o surgimento de uma ideologia que propaga uma falsa espécie de perdão. Trata-se da chamada "tolerância". Em nome de um bem-estar social, nega-se a existência do pecado e as suas consequências malignas para a alma humana.

Imagine a seguinte situação: você se sente mal e vai a um médico para que descubra as causas de suas dores. O médico faz o diagnóstico e você, então, fica sabendo que está com câncer. O doutor o acalma, explica que o câncer tem cura, mas que será necessária, porém, uma longa e dolorosa série de tratamentos: cirurgia para retirada do tumor, sessões de quimioterapia e, depois, fisioterapia para que você recupere seus movimentos.

A notícia o escandaliza e, por isso, você decide buscar o diagnóstico de outro médico. Mas, para sua desgraça, esse outro médico não é sincero como o primeiro e, pensando simplesmente em poupá-lo da dor, diz-lhe que sua doença é apenas um mal-estar corriqueiro. Ele receita-lhe uma pílula de morfina para cortar o desconforto e você, achando-se saudável, vai para casa tranquilo.

A tolerância é o remédio desse segundo médico. Infelizmente, não estamos dispostos a enxergar nossa doença profunda, o que nos leva a procurar qualquer solução fácil, qualquer morfina que retire nossas dores, que acabe com nossas crises de consciência. Porém, a única cura verdadeira para nossas enfermidades encontra-se nos méritos da cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. O bom médico deve, sim, receitar-lhe um longo e doloroso tratamento: a frequência aos sacramentos, a penitência, a mortificação, as obras de caridade... E depois de tudo isso, você ainda terá de crescer em virtudes até que, enfim, morra o homem velho e nasça o homem novo, cujo coração é capaz de perdoar.

Um grande número de cristãos, porém, não quer mudar de vida e prefere ficar com os remédios dos charlatões, que os livram de sua situação "opressora" sem que seja necessário, por outro lado, adequar-se às exigências do Evangelho. Os bons médicos, enquanto isso, são continuamente acusados de "rigorismo", "radicalismo", "fanatismo" etc. E com isso as almas se perdem.

Em 1946, o Papa Pio XII dedicou uma de suas radiomensagens a um Congresso Nacional sobre Catequese, realizado em Boston, nos EUA. Nessa radiomensagem, o papa dizia o seguinte: Perhaps the greatest sin in the world today is that men have begun to lose the sense of sin — "Talvez o maior pecado do mundo de hoje seja que o homem tenha começado a perder o sentido do pecado". Essa declaração do Santo Padre ficou famosa e ainda vale para os dias atuais, embora mereça uma atualização: o homem já perdeu totalmente o sentido do pecado. Hoje, o único pecado intolerável é dizer que existe pecado.

Na mesma radiomensagem, o servo de Deus recorda que o pecado deve ser entendido a partir da crucificação de Cristo, onde se revelou todo o amor de Deus. Para nos perdoar, Deus precisou sacrificar seu Filho unigênito, precisou submeter-se a uma terrível terapia para curar nossas doenças. Isso demonstra a gravidade do pecado, e que o perdão não é algo banal.

O servo impiedoso da parábola, portanto, precisaria voltar seus olhos para a grande misericórdia de seu patrão. A extensão de sua dívida, conforme está no Evangelho, seria algo na casa dos bilhões de reais hoje em dia. Mas ele achava que o perdão era uma trivialidade, que nada custava.

Pela fé, no entanto, nós sabemos: o perdão de nossos pecados custou o preciosíssimo sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso, somente o acolhimento humilde e generoso das terapias de Deus poderá curar verdadeiramente os nossos corações.

Padre Paulo Ricardo


Quantas vezes perdoar?

Caríssimos, no Evangelho ouvimos a parábola do devedor implacável. Recordemos que estamos terminando o capítulo 18 de São Mateus, no qual Jesus trata da vida da Igreja, a Comunidade dos seus discípulos. No Domingo passado, o Senhor Jesus nos mandava corrigir o caso o irmão nos fizesse o mal. Corrigir para salvar, corrigir para dar o perdão. Hoje, Pedro pergunta quantas vezes se deve dar o perdão a quem nos fez mal na Comunidade. Jesus responde: Perdoa sempre! Mas, aprofundemos esta Palavra de Deus que nos é dirigida como luz e caminho da nossa vida.

Uma coisa que a humanidade atual, tão cheia de si, não compreende é que a verdadeira liberdade nossa, a autêntica maturidade, somente é possível se formos abertos para Deus na nossa vida. O homem fechado em si é presa de suas paixões, de sua tendência à auto-afirmação, à amargura, ao rancor, à vingança… Quando nos abrimos para Deus e temos a coragem de nos deixar medir por ele, aí sim, somos obrigado a nos deixar a nós mesmos e nos sentimos compelidos a ver, sentir e agir conforme o coração de Deus. Tomemos a primeira leitura da Missa. Observemos como Deus nos coloca freio, como nos educa, como nos serve de medida e modelo:“Quem se vingar encontrará a vingança do Senhor, que pedirá severas contas dos seus pecados. Perdoa a injustiça cometida por teu próximo: assim, quando orares, teus pecados serão perdoados. Lembra-te do teu fim e deixa de odiar; pensa na destruição e na morte, e persevera nos mandamentos. Pensa na aliança do Altíssimo, e não leves em conta a falta alheia!” Eis, irmãos, Deus no colocando freio e rédeas às paixões! E por quê? Porque, como diz o Salmo: “Ele te perdoa toda culpa, e te cerca de carinho e compaixão. Não fica sempre repetindo as suas queixas, nem guarda eternamente o seu rancor. Não nos trata como exigem nossas faltas nem nos pune em proporção às nossas culpas…”É esta a grande diferença entre quem crê e não crê, entre quem é aberto para Deus e para ele se fecha. Para quem crê, a medida é Deus, é o coração do Pai do céu, tal qual Jesus no-lo revelou!

Esta idéia aparece muito clara na segunda leitura de hoje. O Apóstolo nos recorda que a vida não nos pertence de modo fechado, absoluto; a vida é um dom e como dom deve ser vivida: “Ninguém dentre nós vive para si mesmo ou morre para si mesmo. Se estamos vivos, é para o Senhor que vivemos; se morremos, é para o Senhor que morremos. Vivos ou mortos, pertencemos ao Senhor”.Ele, portanto, é nossa medida, nosso critério e nossa realização; ele, que por nós morreu e ressuscitou, para ser o nosso Senhor.

Pensando nisso, detenhamo-nos, agora, no Evangelho. Como já disse, a questão aqui é ainda a vida na Igreja. Quantas vezes perdoar? Até quando conservar um coração aberto, disponível, sem deixar-se levar pela tristeza e a amargura, o rancor e o fechamento? Até quando manter a doçura, filha da esperança, fruto da certeza da vitória do Senhor? O Senhor Jesus nos adverte que o perdão deve ser dado sempre porque o coração do Pai, como o do rei da parábola, é assim: cheio de compaixão, capaz de perdoar toda a dívida. Observem, caríssimos, que Jesus começa dizendo que o Reino dos Céus é assim: o reinado de um rei que é Pai e perdoa. Ora, o Pai somente reina no coração de quem perdoa como ele mesmo perdoa, como ele mesmo nos perdoou e acolheu em Jesus, que morreu e ressuscitou para ser o perdão de Deus para nós! Eis o que é a Igreja: o espaço, o ambiente no qual o reinado de Deus deve manifestar-se no mundo; lugar da misericórdia, do acolhimento, do amor, do perdão mil vezes, da esperança que não desiste, da doçura aprendida e bebida daquele Coração aberto na cruz. A Igreja deve ser assim, Não porque sejamos bonzinhos, mas porque aprendemos assim do coração do Pai de Jesus. Com efeito, como experimentará o perdão de Deus quem tem o coração fechado para os outros? Quem reconhecerá de verdade que tudo deve a Deus e nunca pagará o bastante quem não perdoa as dívidas dos irmãos? É preciso que compreendamos ser impossível experimentar Deus como amor e doçura – e nosso Deus é assim; Jesus no-lo revelou assim! – se não nos deixar inundar pelo amor e doçura de Deus, inundar nosso coração, até transbordar para os irmãos!

Caríssimos, no Senhor, que o silêncio da oração, que a contemplação persistente do Cristo e de seus gestos e palavras, que a participação piedosa, recolhida e devota da Eucaristia, faça o nosso coração aprender do Coração do Pai de Jesus. Eis aqui como a Comunidade chamada Igreja – esta Comunidade reunida para a Eucaristia – será sinal do Reino, início do Reino, semente do Reino. Somente assim, poderemos dizer ao mundo sedento de Deus: Vinde e vede! Que o Senhor no-lo conceda. Amém!

Dom Henrique Soares