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Pecado, sofrimento e salvação (04-02-2018)

Primeira Leitura:
SAPIENCIAL: Livro de Jó (Jó), capítulo 7
(1) A vida do homem sobre a terra é uma luta, seus dias são como os dias de um mercenário. (2) Como um escravo que suspira pela sombra, e o assalariado que espera seu soldo, (3) assim também eu tive por sorte meses de sofrimento, e noites de dor me couberam por partilha. (4) Apenas me deito, digo: Quando chegará o dia? Logo que me levanto: Quando chegará a noite? E até a noite me farto de angústias. (5) Minha carne se cobre de podridão e de imundície, minha pele racha e supura. (6) Meus dias passam mais depressa do que a lançadeira, e se desvanecem sem deixar esperança. (7) Lembra-te de que minha vida nada mais é do que um sopro, de que meus olhos não mais verão a felicidade,

Segunda Leitura:
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Primeira Epístola aos Coríntios (1Cor), capítulo 9
(16) Anunciar o Evangelho não é glória para mim, é uma obrigação que se me impõe. Ai de mim, se eu não anunciar o Evangelho! (17) Se o fizesse de minha iniciativa, mereceria recompensa. Se o faço independentemente de minha vontade, é uma missão que me foi imposta. (18) Então em que consiste a minha recompensa? Em que, na pregação do Evangelho, o anuncio gratuitamente, sem usar do direito que esta pregação me confere. (19) Embora livre de sujeição de qualquer pessoa, eu me fiz servo de todos para ganhar o maior número possível. (20) Para os judeus fiz-me judeu, a fim de ganhar os judeus. Para os que estão debaixo da lei, fiz-me como se eu estivesse debaixo da lei, embora o não esteja, a fim de ganhar aqueles que estão debaixo da lei. (21) Para os que não têm lei, fiz-me como se eu não tivesse lei, ainda que eu não esteja isento da lei de Deus - porquanto estou sob a lei de Cristo -, a fim de ganhar os que não têm lei. (22) Fiz-me fraco com os fracos, a fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, a fim de salvar a todos. (23) E tudo isso faço por causa do Evangelho, para dele me fazer participante.
EVANGELHOS: Evangelho segundo São Marcos (Mc), capítulo 1
(29) Assim que saíram da sinagoga, dirigiram-se com Tiago e João à casa de Simão e André.
(30) A sogra de Simão estava de cama, com febre, e sem tardar, falaram-lhe a respeito dela.
(31) Aproximando-se ele, tomou-a pela mão e levantou-a, imediatamente a febre a deixou e ela pôs-se a servi-los.
(32) À tarde, depois do pôr-do-sol, levaram-lhe todos os enfermos e possessos do demônio.
(33) Toda a cidade estava reunida diante da porta.
(34) Ele curou muitos que estavam oprimidos de diversas doenças, e expulsou muitos demônios. Não lhes permitia falar, porque o conheciam.
(35) De manhã, tendo-se levantado muito antes do amanhecer, ele saiu e foi para um lugar deserto, e ali se pôs em oração.
(36) Simão e os seus companheiros saíram a procurá-lo.
(37) Encontraram-no e disseram-lhe: 'Todos te procuram.'
(38) E ele respondeu-lhes: 'Vamos às aldeias vizinhas, para que eu pregue também lá, pois, para isso é que vim.'
(39) Ele retirou-se dali, pregando em todas as sinagogas e por toda a Galiléia, e expulsando os demônios.
Homilia do : Padre Paulo Ricardo
Homilia do Padre Miguel:---
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético
Ver Comentário Exegético
Ver Homilia de Mons. José Maria
Canção Nova: Homilia

Livres para quê?

A liberdade que Jesus Cristo nos oferece não é uma liberdade qualquer. Por sua graça, vemo-nos não apenas libertos “do” poder de Satanás, mas também livres “para” servir a Deus. Nesta homilia, Pe. Paulo Ricardo explica o verdadeiro sentido da liberdade cristã. Assim como, tão logo foi curada de sua febre, a sogra de São Pedro começou a servir a Cristo e aos Apóstolos, Deus também quer que, “libertos do inimigo, a Ele nós sirvamos sem temor, em santidade e em justiça”.

No Evangelho deste domingo, acompanhamos mais um trecho do início da vida pública de Jesus. Desta vez, o evangelista São Marcos descreve a cura da sogra de Pedro imediatamente após o episódio na sinagoga, onde Jesus expulsou o demônio de um possesso, de tal modo que podemos perceber uma conexão entre os dois acontecimentos.

São Marcos resume esses fatos para mostrar que o objetivo da missão de Jesus era libertar o homem das cadeias do pecado para que, uma vez livre, ele servisse a Deus de maneira imediata, ou seja, como no exemplo da sogra de Pedro que,imediatamente após ser curada, se pôs a serviço do hóspede. O evangelista usa o advérbio “imediatamente” para expressar uma relação entre os dois momentos.No original grego, a palavra εὐθὺς (euthys) sugere a ideia de pressa, da qual o evangelista se serve para transmitir o ensinamento de Jesus.

O Evangelho conta que o Senhor ajudou a sogra de Pedro a se levantar. Na verdade, o texto original utiliza a palavra κρατήσας (kratēsas), que quer dizer “agarrar” ou "segurar com mão forte”. A famosa expressão Pantocrator, por exemplo, significa “aquele que tem uma mão poderosa”. A mão de Cristo tudo alcança e tudo sustenta. E, com essa mesma mão, Ele cura a febre da sogra de Pedro e a levanta para o serviço a Deus, para a διηκόνει (diēkonei), isto é, para um trabalho apostólico de sacrifício e oferecimento ao Senhor.

O significado da cura da sogra de Pedro pode ser iluminado pelo cântico de Zacarias: “E o juramento a Abraão, o nosso pai, de conceder-nos que, libertos do inimigo, a Ele nós sirvamos sem temor, em santidade e em justiça diante dEle, enquanto perdurarem nossos dias” (Lc 1, 73-75). Deus nos liberta, como libertou o povo de Israel no Egito, para que possamos servi-lo e prestar-lhe culto de adoração.

Ultimamente, a ideia de liberdade é um tanto confusa ao homem moderno. Pensa-se a liberdade como algo ilimitado e sem responsabilidade. Para os cristãos, no entanto, a liberdade de Deus consiste em poder fazer algo de bom. Deus nos liberta de algum vício para servirmos ao seu chamado. No caso da sogra de Pedro, então, Jesus a libertou da febre para que ela pudesse sair da inércia e colocar-se a serviço de Deus.

Essa febre de que fala o evangelista não é uma febre qualquer. Os Santos Padres a compreenderam como o ardor da carne, este que é o grande inimigo da nossa alma. Na Tradição Apostólica, fala-se comumente de três inimigos do homem: o diabo, omundo e a carneEssa carne, porém, não diz respeito ao corpo humano, como muitos podem pensar, mas à alma carnal, ou seja, aos prazeres e às paixões que dominam a alma humana.

A alma é aquilo de mais íntimo que existe em nosso ser e é nela que reside a nossa capacidade de amar. Por isso a carne é o mais perigoso de nossos inimigos, porque ela está dentro de nós. Trata-se de uma ameaça interna. “O inimigo é tão mais traiçoeiro e perigoso quanto mais íntimo for”, diz Santo Tomás de Aquino.

Neste sentido, a febre da sogra de Pedro nos lembra que precisamos lutar contra os instintos e os prazeres carnais, a fim de que, libertos da mentalidade mundana, sejamos livres para doarmos nossa vida. Precisamos pedir logo a Jesus que nos cure; precisamos pedir imediatamente pela intercessão de Deus em nossas vidas, como fizeram os Apóstolos. Trata-se de uma prece, uma oração para que o Evangelho de Deus seja nossa força.

Infelizmente, algumas pessoas querem pregar o Evangelho de forma adaptada e acabam reduzindo a mensagem de Cristo ao homem carnal. Para não incomodarem as pessoas, esses pregadores diminuem a exigência do cristianismo. Ora, a pregação católica deve, sim, ser adaptada para que o homem moderno a entenda. Mas, ao mesmo tempo, o homem moderno precisa ser perturbado e desejar uma mudança de vida. Se isso não acontecer, não há pregação.

Neste domingo, imitemos Jesus e os discípulos e partamos logo em missão para anunciar o Evangelho. E então poderemos cumprir aquilo que Zacarias disse de São João Batista: “Anunciar as maravilhas do Senhor”.

Padre Paulo Ricardo


Urgência da pregação

O Evangelho (Mc 1, 29-39) apresenta Jesus rodeado de uma multidão marcada pelo sofrimento: “Curou muitos enfermos atormentados por diversos males e expulsou muitos demônios” (Mc 1, 34). Mas se, por um lado, Ele se dedica a curar, por outro retira-se para um lugar deserto. E ali orava durante a noite. Ação apostólica e oração se completam. Pedro e seus companheiros o procuram. Quando O encontraram, dizem-lhe: “Todos Te procuram”. A verdadeira luz deve ser procurada em Deus, sobretudo através da oração.

Vimos que Jesus vai à casa de Simão Pedro e André e encontra a sogra de Pedro doente com febre; toma – a pela mão, ajuda – a a levantar – se e a mulher fica curada e começa a servir. Neste episódio sobressai simbolicamente toda a missão de Jesus. Jesus vindo do Pai vai à casa da humanidade, na nossa terra, e encontra uma humanidade doente, doente com febre, com aquela febre que são as ideologias, as idolatrias, o esquecimento de Deus. O Senhor dá – nos a sua mão, levanta – nos e cura – nos. E faz isto em todos os séculos; pega – nos pela mão com a sua Palavra, e assim dissipa a obscuridade das ideologias, das idolatrias. Toma a nossa mão nos Sacramentos, cura – nos da febre das nossas paixões e dos nossos pecados mediante a absolvição no Sacramento da Reconciliação  ( Confissão). Dá – nos a capacidade de nos erguermos, de estarmos de pé diante de Deus e diante dos homens. Jesus dorme na casa de  Pedro, mas de madrugada quando ainda está escuro, levanta – se e sai à procura de um lugar deserto para rezar ( Cf. Mc 1, 35). Surge aqui o verdadeiro centro do Mistério de Jesus. Jesus fala com o Pai, esta é a fonte e o centro de todas as atividades de Jesus; vemos a sua pregação, as curas, os milagres e por fim a Paixão, saem deste centro, do seu ser com o Pai. E, desta forma, este Evangelho ensina – nos o centro da fé e da nossa vida, isto é, a primazia de Deus. Onde Deus não está, o homem deixa de ser respeitado. Só quando o esplendor de Deus resplandece no rosto do homem, o homem  imagem de Deus é protegido por uma dignidade que depois ninguém pode violar.

O Reino de Deus é o centro do seu anúncio, isto é,   Deus como  fonte e centro da nossa vida, diz – nos: só Deus é a redenção do homem. E podemos ver na história do século passado, como nos Estados onde Deus tinha sido abolido, não só a economia foi destruída, mas sobretudo as almas.

As destruições morais, as destruições da dignidade do homem são as destruições fundamentais e a renovação só pode vir do regresso de Deus, isto é, do reconhecimento da centralidade de Deus. Só quando primeiro há a Palavra de Deus, só quando o homem está reconciliado com Deus, é que as coisas materiais podem correr bem.

Os apóstolos dizem a Jesus: volta, todos te procuram. E Ele responde: não, devo ir a outros lugares para anunciar Deus e para afastar os demônios, as forças do mal; foi para isto que vim. Jesus veio – está escrito : “saí do Pai – não para trazer os confortos da vida, mas para trazer a condição fundamental da nossa dignidade, para nos trazer o anúncio de Deus, a presença de Deus e, desta forma, vencer as forças do mal. Ele indica esta prioridade com grande clareza: não vim curar – faço também isto, mas como sinal – mas vim para vos reconciliar com Deus. É sobretudo a Ele que nos devemos dirigir.

Quando os apóstolos disseram: “Todos andam à Tua Procura; o Senhor respondeu-lhes: “Vamos a outros lugares, às aldeias da redondeza! Devo pregar também ali, pois foi para isso que eu vim” (Mc 1, 38).

A missão de Cristo é evangelizar, levar a Boa Nova até o último recanto da terra, através dos Apóstolos e dos cristãos de todos os tempos. Esta é a missão da Igreja, que assim cumpre o que o Senhor lhe ordenou: “Ide e pregai a todos os povos…, ensinando-os a observar tudo quanto vos mandei” (Mt 28, 19-20).

São Paulo, citando o Profeta Isaías, exclama com entusiasmo: “Como são formosos os pés dos que anunciam a Boa Nova!” (Rm 10, 15). Continua S. Paulo: “Porque, pregar o Evangelho não é para mim motivo de glória, mas uma necessidade. Ai de mim se eu não pregar o Evangelho” (1 Cor 9, 16).

Com essas mesmas palavras de S. Paulo, a Igreja tem recordado com frequência aos fiéis a chamada que o Senhor lhes dirige para levarem a doutrina de Cristo a todos os cantos do mundo, aproveitando qualquer ocasião.

São João Crisóstomo vai ao encontro das possíveis desculpas perante esta gratíssima obrigação: “Não há nada mais frio do que um cristão que não se preocupa pela salvação dos outros. Não digas: não posso ajudá-los, porque, se és cristão de verdade, é impossível que não possas fazer. Não há maneira de negar as propriedades das coisas naturais; o mesmo acontece com isto que agora afirmamos, pois está na natureza do cristão agir dessa forma. É mais fácil o sol deixar de iluminar ou de aquecer do que um cristão deixar de dar luz; mais fácil do que isso seria que a luz fosse trevas. Não digas que é impossível; impossível é o contrário. Se orientarmos bem a nossa conduta, o resto sairá como consequência natural. Não se pode ocultar a luz dos cristãos, não se pode ocultar uma lâmpada que brilha tanto”.

Perguntemo-nos se no nosso ambiente, no lugar onde vivemos e onde trabalhamos, somos verdadeiros transmissores da fé, se levamos os nossos amigos a uma maior frequência dos Sacramentos. Examinemos se encaramos a ação apostólica como algo urgente, como exigência da nossa vocação, se sentimos a mesma responsabilidade daqueles primeiros, pois a necessidade hoje não é menor… “Ai de mim se não evangelizar!

O mundo precisa de santos! A santidade não é um privilégio de poucos; é um dom oferecido a todos: “Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação” (1 Ts 4,3).

Na pregação não se pode querer agradar a todos reduzindo, de acordo com as conveniências humanas, as exigências do Evangelho:” Falamos, não como quem procura agradar aos homens, mas somente a Deus” (1Ts 2, 4).

Não é bom caminho pretender tornar fácil o Evangelho, silenciando ou rebaixando os mistérios que devem ser cridos e as normas de conduta que devem ser vividas. Ninguém pregou nem pregará o Evangelho com maior credibilidade, energia e atrativo que Jesus Cristo, e houve quem não o seguisse fielmente. Não podemos esquecer-nos de que pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios, mas poder de Deus para os escolhidos, quer judeus, quer gregos” (1 Cor 1, 23-24).

Todos andam à Tua procura… O mundo tem fome e sede de Deus. Diz o Doc. de Aparecida, nº 29: “Conhecer a Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber; tê-Lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas vidas, e fazê-Lo conhecido com nossa palavra e obras é nossa alegria”.

A obra de salvação, iniciada por Cristo, está ainda em ação e, para que se perpetue até ao fim do mundo, deixou à Igreja a incumbência de a levar a cabo e, na Igreja, a todo o crente. São Paulo, muito sensibilizado com esse dever, e nele fortemente empenhado, declarava aos Coríntios: “Pregar o Evangelho não é para mim motivo de glória. É antes uma necessidade para mim, uma imposição. Ai de mim se eu não pregar o Evangelho!” ( 1Cor 9,16). Todo o cristão que teve o privilégio de ter recebido o Evangelho, deve sentir – se responsável dele perante os que não tiveram esse dom, e comunica – Lo na medida do possível. O que já está na órbita da salvação, não pode olhar com indiferença para os que ainda não estão; está obrigado a arrastar consigo o maior número possível de irmãos.

Mons. José Maria