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Jesus e o Leproso (11-02-2018)

Primeira Leitura:
PENTATEUCO: Livro do Levítico (Lv), capítulo 13
(42) Mas se na parte calva, posterior ou dianteira, se encontrar uma chaga de um branco-avermelhado, é a lepra que se declarou na parte calva posterior ou dianteira. (43) O sacerdote o examinará. Se o tumor da chaga for de um branco-avermelhado na parte calva posterior ou dianteira, tendo o aspecto da lepra da pele do corpo, esse homem é leproso, (44) é impuro, a sua lepra está na cabeça. (45) Todo homem atingido pela lepra terá suas vestes rasgadas e a cabeça descoberta. Cobrirá a barba e clamará: Impuro! Impuro! (46) Enquanto durar o seu mal, ele será impuro. É impuro, habitará só, e a sua habitação será fora do acampamento.”

Segunda Leitura:
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Primeira Epístola aos Coríntios (1Cor), capítulo 11
(1) Tornai-vos os meus imitadores, como eu o sou de Cristo.
EVANGELHOS: Evangelho segundo São Marcos (Mc), capítulo 1
(40) Aproximou-se dele um leproso, suplicando-lhe de joelhos: 'Se queres, podes limpar-me.'
(41) Jesus compadeceu-se dele, estendeu a mão, tocou-o e lhe disse: 'Eu quero, sê curado.'
(42) E imediatamente desapareceu dele a lepra e foi purificado.
(43) Jesus o despediu imediatamente com esta severa admoestação:
(44) Vê que não o digas a ninguém, mas vai, mostra-te ao sacerdote e apresenta, pela tua purificação, a oferenda prescrita por Moisés para lhe servir de testemunho.
(45) Este homem, porém, logo que se foi, começou a propagar e divulgar o acontecido, de modo que Jesus não podia entrar publicamente numa cidade. Conservava-se fora, nos lugares despovoados, e de toda parte vinham ter com ele.
Homilia do : Padre Paulo Ricardo
Homilia do Padre Miguel:---
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético
Ver Homilia de Dom Henrique Soares
Ver Homilia de Mons. José Maria
Ver Homilia do Pe. Françoá Costa
Canção Nova: Homilia

A ousadia de um leproso

A lepra era tratada pelo Antigo Testamento como uma doença de pessoas impuras. Quem fosse acometido por ela deveria andar pelas ruas proclamando em alta voz a própria condição, a fim de que ninguém se aproximasse. No Evangelho deste domingo, porém, um leproso meio que “se esquece” das prescrições da lei e vai confiante ao encontro de Jesus Cristo, dizendo-lhe com fé e humildade: “Se queres, tens o poder de curar-me”.

Duas semanas atrás, nós vimos Jesus entrar na sinagoga e expulsar o demônio de um possesso. No domingo passado, a liturgia foi dedicada à cura da sogra de Pedro. E, neste domingo, o 6.º do Tempo Comum, a Igreja medita sobre a cura de um leproso. Para São Beda, o Venerável, esses três Evangelhos podem ser meditados como uma recapitulação do que houve no livro do Gênesis, de modo que Jesus inverte a lógica do pecado e salva o homem da perdição.

No capítulo III do livro do Gênesis, o pecado começa por uma iniciativa da serpente. Como sabemos, ela seduz a mulher, Eva, e a induz a pecar e oferecer o fruto proibido ao homem, Adão.  Temos, então, esta ordem: a serpente, a mulher e o homem, a mesmíssima ordem dos acontecimentos dos três Evangelhos. Jesus, primeiro, expulsa o diabo (a serpente) de um possesso; depois, cura a sogra de Pedro (a mulher) e, finalmente, purifica o leproso (o homem).

Com efeito, a purificação do leproso simboliza algo mais profundo do que uma simples cura; representa a salvação de toda a humanidade. Naquele leproso, Jesus via o rosto de cada pessoa que padece pelas impurezas do pecado. A libertação que Ele traz, portanto, não é a de um curandeiro, mas a de alguém que possui o poder de salvar o gênero humano. Na cura do leproso, Jesus está dirigindo uma mensagem a todos os homens e mulheres; Ele está falando conosco.

De fato, o Evangelho deste domingo precisa ser lido com profundidade, pois esse texto revela muito mais do que um fato social da época de Cristo. Recordemo-nos, sobretudo, que, para o Antigo Testamento, a lepra era uma doença de gente impura. Os impuros deviam ser excluídos do convívio social, e era seu dever gritar pelas ruas sobre a doença, a fim de que ninguém se aproximasse deles. Assim como era proibido tocar em cadáveres e em sangue, o contato com leprosos também deveria ser evitado. O leproso poderia dirigir-se ao sacerdote apenas depois de curado, para que este o declarasse livre e apto a prestar culto a Deus e retornar à cidade.

O leproso do Evangelho, porém, desobedece a todas essas regras. Ele aproxima-se de Jesus sem avisar e clama por sua purificação. Com essa atitude do leproso, o Evangelho nos mostra que devemos ir a Jesus mesmo com nossos pecados. Cristo não admite apenas os puros. Ele nos quer mesmo na nossa impureza.

A oração do leproso é a oração do cristão: “Seja feita a vossa vontade”. Ele professa sua fé no poder de Jesus e clama pela sua salvação. Ao contrário dos pagãos, que debatem com seus deuses e orixás, exigindo que façam a sua vontade, o leproso deixa Jesus livre para decidir se quer ou não curá-lo. Trata-se da mesma atitude humilde do publicano, que reconhece seus pecados e não ousa levantar a cabeça para Deus.

O Evangelho também fala da misericórdia de Jesus. Para expressar melhor o sentimento de Cristo diante do leproso, o evangelista usa a palavra σπλαγχνισθεὶς (“splanchnistheis”), que significa uma piedade visceral, ou seja, que sai das entranhas de Jesus. Trata-se de algo profundamente humano e que justifica toda a nossa devoção ao coração de Jesus. Nós adoramos o Sagrado Coração de Jesus porque Deus nos ama profundamente, e mandou o seu Filho único para nos amar com um coração humano.

Além disso, Deus também se fez homem para que nos sentíssemos incentivados a corresponder ao seu amor. Esse é o segredo da caridade. Para amar de verdade, o ser humano precisa conhecer a vida de Cristo, meditar concretamente sobre o seu amor, a fim de que Ele se compadeça de nós e nos livre de nossas impurezas.

Jesus quer nos curar como curou o leproso. Ele diz: “Quero”. A vontade humana de Cristo está perfeitamente adequada à sua vontade divina. Em nossas orações, portanto, precisamos recorrer a esse desejo profundo do coração de Cristo de nos tornar pessoas puras e capazes de prestar um culto agradável a Deus. E, uma vez curados, Jesus nos envia para o templo, para nos apresentarmos diante do sacerdote. Essa é a chave de todo o Evangelho deste domingo, que praticamente repete o que vimos na semana passada: somos libertados para servir a Deus.

Enfim, Jesus veio a este mundo e se ofereceu por nós. Por isso, neste domingo, quando você for à Missa, ofereça a sua vida de volta no altar do sacrifício. E assim você será como o leproso que testemunha as maravilhas de Deus em sua vida. Afinal, Deus deseja não somente a nossa pureza, mas também a nossa santidade.

Padre Paulo Ricardo


Jesus toca o leproso

Para nos guiar na meditação da Palavra de Deus deste hoje, tomemos o Evangelho que acabamos de ouvir. “Um leproso chegou perto de Jesus”. No tempo de Cristo, toda doença na pele que oferecesse perigo de contágio era considerada um tipo de lepra; tornava a pessoa impura. Ouvimos na primeira leitura: “O homem atingido por esse mal andará com as vestes rasgadas, os cabelos em desordem e a barba coberta, gritando: ‘Impuro! Impuro!’ Durante todo o tempo em que estiver leproso será impuro; e, sendo impuro, deve ficar isolado e morar fora do acampamento”. Eis! É alguém assim que se aproxima de Jesus: ferido, excluído do convívio da Assembléia de Israel, colocado fora da Cidade, um morto-vivo… Um leproso não podia tocar as pessoas: elas se tornariam impuras como ele; um leproso não convivia com sua família, não podia entrar na Casa do Senhor para rezar com seus irmãos: era um ninguém: “Impuro! Impuro!” – ele gritava, com a barba coberta em sinal de luto e profunda tristeza…

É um homem assim que se aproxima de Jesus; tem a ousadia de chegar junto dele, sem medo de ser repelido, repreendido, desprezado. E, do fundo de sua miséria, ele suplica: “Se queres, tens o poder de curar-me”. Quanta confiança, quanta esperança! Que oração brotada do mais profundo da dor! O que fará Jesus? Sua reação é absolutamente inesperada: ele faz algo que a Lei proibia: “Jesus, cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou nele, e disse: ‘Eu quero: fica curado!’” Notai, irmãos! O Senhor estendeu a mão, o Senhor tocou o leproso! Não precisava fazê-lo, não deveria fazê-lo! Segundo a Lei, Jesus deveria ficar impuro também, ao menos até o entardecer… Por que tocou o leproso? Não poderia tê-lo curado sem tocá-lo? O próprio Evangelho explica: ele teve compaixão! Quis estar próximo daquele miserável, quis que ele se sentisse amado, acolhido! Jesus não nos ama de longe, não vê de modo indiferente a nossa miséria: ele se faz próximo, ele nos toca, ele compartilha nossa dor! Assim Deus faz conosco! E, para nossa surpresa, ao invés da impureza contagiar Jesus, é Jesus que contagia o leproso com a sua pureza! Eis! O Reino chegou: em Jesus, Deus vai libertando a humanidade de toda sua lepra, da lepra do seu pecado! Na ação de Jesus, compreendemos que o amor é mais forte que o egoísmo, que a luz é mais forte que a treva, que o bem é mais forte que o mal, que a graça é mais poderosa que o pecado, que a vida é capaz de vencer a morte! “No mesmo instante a lepra desapareceu e ele ficou curado”.Eis o bem, eis a graça, eis a salvação que o Senhor nos veio trazer! O Profeta Isaías, havia anunciado: “Ele tomou sobre si as nossas dores, ele carregou-se com os nossos pecados! Era nossas enfermidades que ele levava sobre si, as nossas dores que ele carregava (Is 53,4-5). Jesus curou o leproso e o Evangelho diz que ele“não podia mais entrar publicamente numa cidade: ficava fora, em lugares desertos.” Vede bem que, com essa linguagem, o Evangelho deseja afirmar que Cristo, curando o leproso, assumiu o seu lugar: agora, o homem que antes vivia nos lugares desertos, entra na cidade, volta a ser alguém; quanto a Jesus, fica fora, assume o lugar do homem: tomou sobre si as nossas dores!

Caríssimos, um grande mal da nossa época, uma grande ilusão, é achar que não temos pecado, pensar que somos maduros e integrados. Não somos capazes de reconhecer nossas lepras, somos incapazes de suplicar, de joelhos: “Senhor, se queres, podes curar-me!” E por que isso? Porque somos auto-suficientes: olhamo-nos, examinamo-nos não à luz do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, mas à luz de nós mesmos. Pensamos que somos senhores do bem e do mal, do certo e do errado! É tão comum vivermos de modo contrário à vontade do Senhor e ainda, cheios de orgulho e soberba, dizermos que estamos certos… É tão comum querermos moldar Jesus e a sua Palavra à nossa vontade… É tão freqüente a ilusão que podemos jogar na lata do lixo o ensinamento da Igreja, sobretudo no campo moral… E assim, vamos construindo nossa vidinha do nosso modo, modo de pecado, modo de lepra, modo de doença: doença da ida, da descrença, da indiferença, da falta de fé!

Reconheçamo-nos pecadores, meus caros! Mostremos ao Senhor a nossa lepra? Como fazê-lo? Primeiramente, deixando que sua Palavra nos fale e nos mostre nossos erros, nossas manhas, nossos males. Depois, à luz da Palavra do Senhor, façamos, com freqüência, o sincero exame de consciência e tenhamos a coragem de olhar de frente o que pensamos, falamos e fazemos contrário ao Senhor. Finalmente, sinceramente arrependidos, procuremos o Senhor no sacramento da Confissão e, confessando nossos pecados, busquemos o perdão, a cura do Cristo, nosso Deus. Quantas vezes evitamos a Confissão! Quantas vezes fugimos na tal da Confissão comunitária, desobedecendo às normas da Igreja, que só a permitem em casos raros e graves. A Confissão, então é inválida e acrescentamos aos pecados cometidos, mais estes: a desobediência à norma de Igreja e a soberba de nos julgar auto-suficientes. Deveríamos aprender do Salmista, na missa de hoje: “Eu confessei, afinal, meu pecado, e minha falta vos fiz conhecer. Disse: ‘Eu irei confessar meu pecado!’ E perdoastes, Senhor, minha falta!” Mas, não! Teimamos em não levar a sério nosso próprio pecado! Julgamo-nos juízes de Deus e da Igreja! Terminamos, então por comungar indignamente, esquecendo que a Eucaristia, se traz vida para quem a recebe bem, traz também morte para quem não a recebe com as devidas disposições…

Caros meus em Cristo, chega de um cristianismo morno, chega da falta de coragem de nos olharmos de frente! Senhor, cura-nos! Senhor, somos leprosos, somos pecadores, nossos pecados mancham não a nossa pele, mas o nosso coração, o mais profundo da nossa alma! Senhor, de joelhos, como o leproso do Evangelho, te suplicamos: cura-nos e seremos curados! Dá-nos a graça de reconhecer nossos pecados; reconhecendo-os, dá-nos a coragem e sinceridade de confessá-los; confessando-os, dá-nos a graça de experimentar teu perdão, de cumprir generosamente a penitência e de procurar com responsabilidade emendar a nossa vida! Tem piedade de nós, ó Autor da graça e Doador do perdão! A ti a glória para sempre! Amém.

Dom Henrique Soares