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Um Deus transfigurado (25-02-2018)

Primeira Leitura:
PENTATEUCO: Livro do Gênesis (Gn), capítulo 22
(1) Depois disso, Deus provou Abraão, e disse-lhe: “Abraão!” “Eis-me aqui”, respondeu ele. (2) Deus disse: “Toma teu filho, teu único filho a quem tanto amas, Isaac, e vai à terra de Moriá, onde tu o oferecerás em holocausto sobre um dos montes que eu te indicar.” (3) No dia seguinte, pela manhã, Abraão selou o seu jumento. Tomou consigo dois servos e Isaac, seu filho, e, tendo cortado a lenha para o holocausto, partiu para o lugar que Deus lhe tinha indicado. (4) Ao terceiro dia, levantando os olhos, viu o lugar de longe. (5) “Ficai aqui com o jumento, disse ele aos seus servos, eu e o menino vamos até lá mais adiante para adorar, e depois voltaremos a vós.” (6) Abraão tomou a lenha do holocausto e a pôs aos ombros de seu filho Isaac, levando ele mesmo nas mãos o fogo e a faca. E, enquanto os dois iam caminhando juntos, (7) Isaac disse ao seu pai: “Meu pai!” “Que há, meu filho?” Isaac continuou: “Temos aqui o fogo e a lenha, mas onde está a ovelha para o holocausto?” (8) “Deus, respondeu-lhe Abraão, providenciará ele mesmo uma ovelha para o holocausto, meu filho.” E ambos, juntos, continuaram o seu caminho. (9) Quando chegaram ao lugar indicado por Deus, Abraão edificou um altar, colocou nele a lenha, e amarrou Isaac, seu filho, e o pôs sobre o altar em cima da lenha. (10) Depois, estendendo a mão, tomou a faca para imolar o seu filho. (11) O anjo do Senhor, porém, gritou-lhe do céu: “Abraão! Abraão!” “Eis-me aqui!” (12) “Não estendas a tua mão contra o menino, e não lhe faças nada. Agora eu sei que temes a Deus, pois não me recusaste teu próprio filho, teu filho único.” (13) Abraão, levantando os olhos, viu atrás dele um cordeiro preso pelos chifres entre os espinhos, e, tomando-o, ofereceu-o em holocausto em lugar de seu filho. (14) Abraão chamou a este lugar Javé-yiré, de onde se diz até o dia de hoje: “Sobre o monte de Javé-Yiré.” (15) Pela segunda vez chamou o anjo do Senhor a Abraão, do céu, (16) e disse-lhe: “Juro por mim mesmo, diz o Senhor: pois que fizeste isto, e não me recusaste teu filho, teu filho único, eu te abençoarei. (17) Multiplicarei a tua posteridade como as estrelas do céu, e como a areia na praia do mar. Ela possuirá a porta dos teus inimigos, (18) e todas as nações da terra desejarão ser benditas como ela, porque obedeceste à minha voz.”

Segunda Leitura:
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Epístola de São Paulo aos Romanos (Rm), capítulo 8
(31) Que diremos depois disso? Se Deus é por nós, quem será contra nós? (32) Aquele que não poupou seu próprio Filho, mas que por todos nós o entregou, como não nos dará também com ele todas as coisas? (33) Quem poderia acusar os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica. (34) Quem os condenará? Cristo Jesus, que morreu, ou melhor, que ressuscitou, que está à mão direita de Deus, é quem intercede por nós!
EVANGELHOS: Evangelho segundo São Marcos (Mc), capítulo 9
(2) Seis dias depois, Jesus tomou consigo a Pedro, Tiago e João, e conduziu-os a sós a um alto monte.
(3) E transfigurou-se diante deles. Suas vestes tornaram-se resplandecentes e de uma brancura tal, que nenhum lavadeiro sobre a terra as pode fazer assim tão brancas.
(4) Apareceram-lhes Elias e Moisés, e falavam com Jesus.
(5) Pedro tomou a palavra: Mestre, é bom para nós estarmos aqui, faremos três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias.
(6) Com efeito, não sabia o que falava, porque estavam sobremaneira atemorizados.
(7) Formou-se então uma nuvem que os encobriu com a sua sombra, e da nuvem veio uma voz: Este é o meu Filho muito amado, ouvi-o.
(8) E olhando eles logo em derredor, já não viram ninguém, senão só a Jesus com eles.
(9) Ao descerem do monte, proibiu-lhes Jesus que contassem a quem quer que fosse o que tinham visto, até que o Filho do homem houvesse ressurgido dos mortos.
(10) E guardaram esta recomendação consigo, perguntando entre si o que significaria: Ser ressuscitado dentre os mortos.
Homilia do : Padre Paulo Ricardo
Homilia do Padre Miguel:---
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético
Ver Comentário Exegético
Ver Homilia de Dom Henrique Soares
Ver Homilia de Mons. José Maria
Canção Nova: Homilia

Um Deus que esconde a própria glória

Existe um milagre maior do que a Transfiguração. Trata-se do fato extraordinário de que Jesus, Deus encarnado, esconda a própria glória para padecer os nossos sofrimentos. Com isso, Ele quer nos ensinar a transformar em amor toda a “quaresma” desta vida, sem que nos iludamos com consolações espirituais e queiramos, como Pedro, montar três tendas neste mundo passageiro. Acompanhe-nos em mais esta meditação do Padre Paulo Ricardo para a Quaresma.

Neste ano litúrgico, a Igreja toma do Evangelho de S. Marcos a tradicional meditação para o 2.º Domingo da Quaresma, que é o relato da transfiguração de Cristo. Como lemos no texto, Jesus sobe a uma alta montanha e, diante de seus discípulos mais próximos, manifesta a sua qualidade de Filho de Deus, de Segunda Pessoa da Trindade. Essa manifestação, porém, é algo um tanto passageiro e, ao mesmo tempo, sinal de uma realidade ainda mais gloriosa: o Deus que se fez homem para redimir a humanidade de seus pecados. De fato, a importância da Encarnação é tanta que Moisés e Elias aparecem no mesmo monte, durante a Transfiguração, para falar justamente do caminho de Cristo até a Cruz.

Na exegese dos Padres da Igreja, mostra-se que a transfiguração de Cristo foi uma modificação que ocorreu na visão dos discípulos, e não propriamente em Jesus. Antes da epifania, os discípulos não O enxergavam como o “Filho amado do Pai”, não percebiam que, naquele homem, Deus estava presente de uma maneira particular, como em nenhuma outra pessoa. Com efeito, o milagre da Transfiguração não é a transfiguração por si mesma, mas o milagre do Deus encarnado que esconde a sua glória para sofrer a condição da humanidade. Essa é a realidade que nos deveria deixar boquiabertos.

Como é possível que Deus renuncie à própria divindade para sofrer em nosso lugar? Neste tempo de Quaresma, essa é a pergunta que deve nos inquietar e provocar uma modificação em nosso coração. Na verdade, a transfiguração de Jesus apenas traduz aquilo que nós mesmos experimentamos todos os dias. Nós mesmos, pela graça da Encarnação, somos “filhos muito amados de Deus” que, apesar de alguns momentos de glória, vivemos diariamente a Quaresma deste mundo: os padecimentos, as penitências, os sofrimentos… Os nossos momentos de consolação são tão fugazes quanto a Transfiguração; vivemos a Quaresma não apenas nestes quarenta dias de liturgia penitencial, mas ao longo de toda a nossa história.

Na vida dos santos, por exemplo, encontram-se muitos relatos de “transfigurações”, momentos de glória como os da Virgem Maria no Céu, vestida de Sol e com a Lua debaixo de seus pés. Mas esses momentos são passageiros. Na maior parte do tempo, os santos levam uma vida árdua, de penitência e humildade indiscutíveis, repetindo o caminho do mestre Jesus. E assim deve ser conosco também.

Ora, Deus esconde a sua glória para que não sejamos tentados pelo conforto da sua presença, e nos esqueçamos de amar concretamente. Pedro quis armar tendas para permanecer no monte porque era bom estar ali. De fato, é bom experimentarmos o amor de Deus. Mas esse amor deve ser transmitido, precisa ser levado aos demais por meio de um serviço diligente e piedoso. Por isso, Deus nos concede a oportunidade de amar de volta, de padecer pelos outros como Ele padeceu por nós.

Pois bem, a Quaresma deve ser esse momento de transformar a nossa dor em amor. Não nos deixemos vencer pela tentação de construir as três tendas, mas lembremo-nos de que este mundo é passageiro e nossa morada definitiva precisa ser construída no Céu.

Quando Pedro fala das tendas, ele está se referindo a uma festa que os judeus celebravam pela memória dos quarenta anos no deserto. Esses quarenta anos representam o tempo nosso aqui na terra, no deserto dos sofrimentos. E esse tempo precisa ser vivido segundo a voz que vem da nuvem, do Deus que veio fazer morada no meio de nós: “Este é o meu Filho amado. Escutai o que ele diz!”

Nesta Quaresma, vivamos a dinâmica da Cruz, sabendo que Jesus habita em nosso coração e deseja transformar a nossa dor em amor, para, um dia, na glória celeste, nos transfigurar definitivamente!

Padre Paulo Ricardo


Um Deus transfigurado

Surpreende-nos, caríssimos, que neste tempo quaresmal, de tanta sobriedade, a Mãe católica nos coloque diante dos olhos Jesus transfigurado. Não seria mais adequado este texto num dos domingos da Páscoa? Cabe tanta glória, tanta luz, tanto esplendor, neste tempo de oração, penitência, esmola e combate espiritual? Mas, não duvidemos: a Igreja tem seus motivos; motivos sábios, motivos de mãe que educa com carinho.

Primeiramente, a glória de Jesus no Tabor, antegozo da sua ressurreição, anima-nos e alenta-nos neste caminho quaresmal. Ao nos falar da oração, da penitência, da esmola, ao nos exortar ao combate aos vícios e à leitura espiritual, a Igreja, fazendo-nos contemplar o Transfigurado, revela-nos qual o objetivo da batalha da Quaresma: encontrar o Cristo cheio de glória e, com ele, sermos glorificados. Olhai o Tabor, irmãos, e vereis o que o Senhor preparou para nós! Pensai no Tabor, e a penitência terá um sentido, as mortificações deste tempo serão feitas com alegria! Que diz o Evangelho? Diz que, diante dos apóstolos, Jesus transfigurou-se: “Suas roupas ficaram brilhantes e tão brancas como nenhuma lavadeira sobre a terra poderia alvejar”. Eis! A Transfiguração é uma profecia, uma antecipação da glória da Páscoa; e a Páscoa de Cristo é a garantia da nossa glorificação. Porque Cristo morreu e ressuscitou, nós também, mortos com ele, seremos daquela multidão vestida de branco, de que fala o Apocalipse! (Ap 7,9) Então, ânimo! As observâncias da santa Quaresma não são um peso, mas um belo caminho, um belo instrumento para conduzir-nos à Páscoa do Senhor!

Mas, a leituras de hoje colocam-nos também diante de uma outra realidade, bela e profunda. Comecemos pela primeira leitura, na qual Deus pede a Abraão tudo quanto ele tinha: “teu filho único, Isaac, a quem tanto amas”. Isaac era tudo para Abraão: por ele, tinha deixado Ur na Caldéia, por ele, tinha esperado mais de trinta anos, por ele, tinha suportado todas as provas… E, agora, já idoso, sem nenhuma possibilidade de ter mais filhos, agora que o menino já esta crescidinho e Abraão pensava poder descansar, Deus o pede a Abraão. Que prova, caríssimos! A fé de Abraão, aqui, chega quase que ao absurdo! Mas, ele foi em frente e “estendeu a mão, empunhando a faca para sacrificar o filho”.

Caríssimos, Deus tinha o direito de pedir isso a Abraão? Deus tem o direito de nos provar, detantas vezes nos pedir coisas que não compreendemos bem? Tem o direito de pedir fé e confiança diante dos percalços da vida? Poderíamos responder dizendo simplesmente que “sim”, porque ele é Deus; deu-nos tudo e pode pedir-nos o que desejar. Mas, não é essa a resposta que a Palavra de Deus nos indica na liturgia de hoje. Ele nos pode pedir, certamente, e nós devemos dar, com certeza, porque ele mesmo, o nosso Deus, nos deu tudo! Ele, que pede que Abraão lhe sacrifique o filho único e amado, é o mesmo Deus que, como diz São Paulo, na segunda leitura deste hoje, “não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós!” Eis o grande mistério: Deus, no seu amor por nós – primeiro pelo povo de Israel, descendência de Abraão, e, depois, por toda a humanidade, com a qual ele deseja formar o novo povo, que é a Igreja – Deus, no seu amor por nós, entregou à morte o seu Filho único, o Amado, o Justo e Santo, aquele no qual ele coloca todo o seu bem-querer. Não é assim que ele no-lo apresenta hoje no Monte Tabor? “Este é o meu Filho amado. Escutai o que ele diz!” É este Filho que será entregue à morte. O Evangelho de São Lucas nos diz que, precisamente nesta ocasião, Jesus transfigurado falava com Moisés e Elias “sobre a sua partida, isto é, a sua morte, que iria se consumar em Jerusalém” (Lc 9,31). E no Evangelho de São Marcos, que escutamos, o próprio Jesus, ao descer da montanha, “ordenou que não contassem a ninguém o que tinham visto, até que o Filho do Homem tivesse ressuscitado dos mortos”. Compreendei, caríssimos: sobre o Monte Tabor, com o Transfigurado envolto em glória, paira a sombra da paixão, da morte do Filho amado e único, que o Deus de Abraão entregará por nós até o fim. Ao filho de Abraão, a Isaac, Deus poupou no último momento; não poupará, contudo, o seu próprio Filho!

Isso nos revela a dimensão do amor de Deus, da sua paixão pela humanidade, do seu compromisso salvífico em nosso favor! Ele pode nos pedir tudo, caríssimos, e nós deveríamos dar-lhe tudo, porque, ainda que não compreendamos, ele deseja somente o nosso bem, a nossa vida, a nossa salvação. Somos preciosos a seus olhos! Escutai o Apóstolo: “Se Deus é por nós, quem será contra nós? Deus que não poupou seu próprio filho, mas o entregou por todos nós, como não nos daria tudo juntamente com ele? Quem acusará os escolhidos de Deus? Deus, que os declara justos? Quem condenará? Jesus Cristo, que morreu, mais ainda, que ressuscitou, e está à direita de Deus, intercedendo por nós?” Eis, pois, amados em Cristo, a dimensão e a profundidade, a largura e a altura do amor de Deus por nós! Deixemo-nos, portanto, tocar no nosso coração; convertamo-nos! Abramo-nos para o Senhor! Arrependamo-nos de nossas indiferenças, de nossa frieza, de nosso fechamento! Tenhamos vergonha de tanta incredulidade e desconfiança de Deus, simplesmente porque não entendemos seu modo de agir! Que Santo Abraão, nosso pai na fé, e a Santíssima Virgem Maria, nossa Mãe na fé, intercedam por nós para uma verdadeira conversão quaresmal. E que, realizando com generosidade a amor, as práticas quaresmais, cheguemos às alegrias da Páscoa e contemplemos nos santos mistérios da Liturgia, a face do Cristo glorificado. Amém.

Dom Henrique Soares