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O trovão e a brisa (20-05-2018)

Primeira Leitura:
ATOS: Atos dos Apóstolos (At), capítulo 2
(1) Chegando o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. (2) De repente, veio do céu um ruído, como se soprasse um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados. (3) Apareceu-lhes então uma espécie de línguas de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. (4) Ficaram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar em línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem. (5) Achavam-se então em Jerusalém judeus piedosos de todas as nações que há debaixo do céu. (6) Ouvindo aquele ruído, reuniu-se muita gente e maravilhava-se de que cada um os ouvia falar na sua própria língua. (7) Profundamente impressionados, manifestavam a sua admiração: Não são, porventura, galileus todos estes que falam? (8) Como então todos nós os ouvimos falar, cada um em nossa própria língua materna? (9) Partos, medos, elamitas, os que habitam a Macedônia, a Judéia, a Capadócia, o Ponto, a Ásia, (10) a Frígia, a Panfília, o Egito e as províncias da Líbia próximas a Cirene, peregrinos romanos, (11) judeus ou prosélitos, cretenses e árabes, ouvimo-los publicar em nossas línguas as maravilhas de Deus!

Segunda Leitura:
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Epístola aos Gálatas (Gl), capítulo 5
(16) Digo, pois: deixai-vos conduzir pelo Espírito, e não satisfareis os apetites da carne. (17) Porque os desejos da carne se opõem aos do Espírito, e estes aos da carne, pois são contrários uns aos outros. É por isso que não fazeis o que quereríeis. (18) Se, porém, vos deixais guiar pelo Espírito, não estais sob a lei. (19) Ora, as obras da carne são estas: fornicação, impureza, libertinagem, (20) idolatria, superstição, inimizades, brigas, ciúmes, ódio, ambição, discórdias, partidos, (21) invejas, bebedeiras, orgias e outras coisas semelhantes. Dessas coisas vos previno, como já vos preveni: os que as praticarem não herdarão o Reino de Deus! (22) Ao contrário, o fruto do Espírito é caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, (23) brandura, temperança. Contra estas coisas não há lei. (24) Pois os que são de Jesus Cristo crucificaram a carne, com as paixões e concupiscências. (25) Se vivemos pelo Espírito, andemos também de acordo com o Espírito.
EVANGELHOS: Evangelho segundo São João (Jo), capítulo 20
(19) Na tarde do mesmo dia, que era o primeiro da semana, os discípulos tinham fechado as portas do lugar onde se achavam, por medo dos judeus. Jesus veio e pôs-se no meio deles. Disse-lhes ele: A paz esteja convosco!
(20) Dito isso, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos alegraram-se ao ver o Senhor.
(21) Disse-lhes outra vez: A paz esteja convosco! Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio a vós.
(22) Depois dessas palavras, soprou sobre eles dizendo-lhes: Recebei o Espírito Santo.
(23) Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados, àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos.
Homilia do : Padre Paulo Ricardo
Homilia do Padre Miguel:---
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético
Ver Comentário Exegético
Ver Homilia de Dom Henrique Soares
Ver Homilia de Mons. José Maria
Canção Nova: Homilia

Igreja, o novo Corpo de Cristo

O venerável arcebispo Fulton Sheen costumava referir-se à Igreja como o “novo Corpo” com o qual Jesus quis se revestir enviando a seus Apóstolos o Espírito Santo. É com base nessa afirmação que Padre Paulo Ricardo conduz esta meditação de Pentecostes, renovando em nós o desejo de pertencer à “Igreja una, santa, católica e apostólica”.

Meditação. — O venerável arcebispo Fulton Sheen cunhou uma expressão um tanto ousada para referir-se à Igreja. Em seu dizer, ela nada mais seria que o novo Corpo com o qual Jesus se revestiu após os eventos de Pentecostes, ou seja, após o derramamento do Espírito Santo sobre a comunidade reunida em torno dos Apóstolos e da Virgem Maria, no cenáculo.

Na solenidade de Pentecostes, portanto, os fiéis católicos celebram o acontecimento eclesial por excelência, o surgimento da Igreja como Corpo Místico de Cristo, do qual ninguém devidamente esclarecido pode se afastar sem prejuízo da própria salvação. Guiada e instruída por seu divino fundador, ela transmite aos homens de todas as épocas os meios necessários para a sua santificação, quais sejam: os sacramentos e o depósito sagrado da .

Nenhum cristão pode considerar-se verdadeiro discípulo de Jesus se não segue os legítimos pastores por Ele instituídos, nem “é compatível com a doutrina da Igreja a teoria que atribui uma atividade salvífica ao Logos como tal na sua divindade, que se realizasse ‘à margem’ e ‘para além’ da humanidade de Cristo, também depois da encarnação”, pois “como existe um só Cristo, também existe um só seu Corpo e uma só sua Esposa: ‘uma só Igreja católica e apostólica’” (Dominus Iesus, IV, 16).

Infelizmente, muitas pessoas fazem uma distinção indevida entre Jesus e a Igreja, como se fosse possível estar junto de um e longe do outro. Isso é simplesmente absurdo. Apesar dos erros de muitos de seus membros ao longo dos séculos, Cristo prometeu a sua assistência à Igreja, por meio do Espírito Santo,  conferindo aos Apóstolos o poder de perdoar ou não os pecados. E esse poder é conservado ainda hoje pelos sucessores dos Apóstolos, os bispos da Santa Igreja Católica, dos quais se destacam santos homens que governaram a grei de Cristo com zelo e dedicação. Quem ignora essa realidade, termina por perseguir o próprio Senhor, como fazia São Paulo até o episódio de Damasco, quando Jesus lhe perguntou: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” (At 9, 4).

O Espírito Santo é a alma da Igreja, que nos anima a seguir o caminho de santidade indicado por Nosso Senhor Jesus Cristo. Renovemos, então, o nosso desejo de pertencer cada vez mais a esse Corpo Místico, a fim de que sejamos verdadeiros membros do Senhor Jesus, pela graça do Espírito Santo.

Oração. — Senhor Jesus, nesta Solenidade de Pentecostes, quero renovar as minhas promessas batismais, implorando-vos uma alegria renovada por pertencer ao vosso Corpo Místico, a Santa Igreja Católica. Imploro-vos, meu Deus, um amor ardente pelos legítimos pastores do vosso rebanho, sobretudo pelo sucessor de Pedro, por quem devo rezar e oferecer sacrifícios. Não permitais nunca que me revolte contra a verdadeira Igreja, nem que dela me afaste por qualquer motivo. Que meu coração seja sempre grande, largo, católico. Assim seja.

Propósito. — Oferecer um terço pelos pastores da Igreja de Deus, a fim de que eles sejas firmes no seu dever de confirmar e santificar os irmãos na fé.

Recomendações

Padre Paulo Ricardo


O trovão e a brisa

Caríssimos, estamos no sagrado Pentecostes. Freqüentemente, o sentido profundo da hodierna solenidade é passado por alto. Diz-se simplesmente: hoje o Espírito Santo desceu sobre os Apóstolos no Cenáculo e a Igreja iniciou sua missão pública. Eis: é tudo! E, no entanto, isso é dizer tão pouco! É muito mais rico e profundo o Mistério que hoje celebramos! Eis alguns dos seus principais aspectos:

Primeiramente, com esta Solenidade encerramos o Tempo Pascal, aqueles cinqüenta dias que a Igreja celebra como se fosse um só dia, santo e glorioso, o Dia da Ressurreição. Pois bem: é o Senhor ressuscitado, pleno do Espírito Santo que o Pai derramou sobre ele, que hoje nos doa o seu Espírito. Nunca esqueçamos: o dom do Espírito é o fruto excelente e principal da Páscoa de Cristo: é no Espírito que nossos pecados são perdoados, é no Espírito que o fruto da paixão e morte de Cristo nos é dado, é no Espírito que somos transfigurados à imagem de Cristo Jesus. Sem o Espírito, de nada valeria para nós tudo quando Jesus por nós disse e fez! Se hoje, na primeira leitura, o Espírito aparece agindo de modo tão vistoso e barulhento no Cenáculo de Jerusalém (como a tempestade, o terremoto e a erupção vulcânica descritos no Sinai – cf. Ex 19,3-20), é para que nós compreendamos que ele age em nós constantemente, discreto e suave, como a brisa que passou diante de Moisés e Elias, fazendo-os encontrar a Deus! Eis, portanto: o Espírito é dado pelo Cristo ressuscitado, que o soprou sobre a Igreja no próprio Dia da Ressurreição – como escutamos no Evangelho de hoje -, e continua a soprá-lo sobre nós, no sinal visível da água no sacramento do Batismo e do óleo, na santa Crisma. No Cenáculo, no dia mesmo da Páscoa, os Apóstolos foram batizados no Espírito e tornaram-se cristãos; do mesmo modo, no nosso Batismo, banhados pela água, símbolo do Espírito, nós também recebemos em nós o Espírito de Cristo e nos tornamos cristãos, templos do Santo Espírito, chamados a viver uma vida segundo o Espírito de Cristo. Por isso, o conselho de São Paulo: “Procedei segundo o Espírito e não satisfareis os desejos da carne”. O cristão, caríssimos, vivendo no Espírito desde o Batismo, já não vive mais segundo a carne, isto é, segundo a mentalidade deste mundo, segundo o pecado. Agora, ele é impulsionado pelo Espírito de Cristo, crescendo cada vez mais nos sentimentos do Senhor Jesus. Isto é a obra do Espírito, que nos vai cristificando, dando testemunho de Cristo em nós (cf. Jo 15,26), conduzindo cada um de nós e a Igreja inteira à plena verdade de Cristo (cf. Jo 16,13). Portanto, é somente porque somos sustentados pelo Espírito, que podemos crer com toda certeza que Jesus está vivo e é Senhor e que Deus, o Pai de Jesus, é também nosso Pai, porque nos deu o Espírito do Filho, que nos faz filhos (cf. Rm 8,16).

Foi este Espírito Santíssimo, que Jesus, glorificado pelo Pai, fez descer de modo portentoso em Pentecostes, a festa judaica da Lei. O Espírito de amor é a nova lei, a Lei do cristão, pois “O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo seu Espírito quen os foi dado”(Rm 5,5)! Observai, caríssimos, o sentido profundo daquele acontecimento, cinqüenta dias após a Páscoa, em Jerusalém! O Espírito encheu de coragem e vigor os apóstolos, de modo que eles abriram as portas e, ao lado de Pedro, o Chefe da Igreja, deram publicamente testemunho de Cristo. A Igreja abriu as portas para nunca mais fechar; falou por Pedro para nunca mais se calar! É, portanto, na força do Espírito, que a Mãe católica iniciou publicamente sua missão de levar o Evangelho a todos os povos. Mais ainda: vede como o Espírito atrai e reúne línguas e pessoas tão diversas. Estavam em Jerusalém judeus vindos de várias partes do Império romano, judeus que não falavam mais o hebraico nem conheciam o aramaico; e, no entanto, compreendiam o que os apóstolos falavam, como se fosse na sua própria língua! É o Espírito quem reúne o que está disperso, é o Espírito quem conserva a unidade, é o Espírito quem, na unidade, faz permanecer a rica diversidade das línguas, culturas e mentalidades, sempre para a glorificação do Senhor Jesus! É o Espírito quem embriaga de alegria, como um vinho bom, o vinho do Reino, o vinho novo de Caná da Galiléia, que tomou o lugar da velha água da Lei de Moisés! É o Espírito quem impele a Igreja para a missão, testemunhando Jesus pela proclamação da Palavra, pela celebração dos santos sacramentos e pelo testemunho santo da vida dos cristãos que, sustentados por este Santo Paráclito, são capazes de dar a vida por Jesus e com Jesus.

Eis, caríssimos, o sentido da Festa de hoje! É a solenidade que nos faz retomar a consciência do papel e da missão do Santo Espírito na vida da Igreja e na nossa vida. Sem o Espírito, a Igreja seria somente a Fundação Jesus de Nazaré, que recordaria alguém distante e ficado no passado. Sem o Espírito, a vida dos cristãos seria apenas um moralismo opressor, tentativa inútil de colocar em prática mandamentos exigentes que o Senhor nos deu. Sem o Espírito, a evangelização seria apenas uma propaganda, um exercício de marketing… Sem o Espírito, a nossa esperança seria em vão, porque o que nasce da carne é apenas carne, e nossa alma e nosso corpo jamais alcançariam a Deus, que é Espírito! Mas, caríssimos meus, no Espírito, tudo tem sentido, tudo se enche de profunda significação: com o Espírito, a Igreja é o Corpo vivo de Cristo, no qual os membros recebem a vida que vem da Cabeça, a seiva que vem do Tronco, que é Cristo; com o Espírito, Jesus está vivo entre nós e nós o recebemos de verdade em cada sacramento que celebramos; com o Espírito, os mandamentos podem ser cumpridos na alegria, porque o Espírito nos convence que eles são verdadeiros e libertadores e nos dá, no amor de Cristo, a força para tentar cumpri-los na generosa alegria; com o Espírito, a obra da evangelização é testemunho vivo do Senhor Jesus, dado com a convicção de quem experimentou Jesus; com o Espírito, já temos a garantia, o penhor da ressurreição, pois comungamos a Eucaristia, alimento espiritual, que nos dá a semente da vida eterna.

Que nos resta dizer? Só nos resta, admirados, suplicar: Vem, ó Santo Espírito! Enche o nosso coração, cristifica a nossa pobre existência mortal! És consolo que acalma, és hóspede da alma, és alívio dulcíssimo, és descanso no labor, refrigério no calor, és consolo na aflição! Ó Santo Espírito, lava nossa sujeira, refrigera nossa secura, cura nosso coração doente! Dobra nossa dureza, ilumina nossa treva, dá-nos o gosto pelas coisas de Deus e o aborrecimento pelo pecado; aquece nossa frieza! Tu, Espírito de Cristo, sê alento, força e vida divina, doce penhor do mundo que há de vir e que durará na eterna alegria do Pai e do Filho em vós, pelos séculos dos séculos.

Amém.

Dom Henrique Soares