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Solenidade do Corpo de Cristo (23/06/2011)

Primeira Leitura:
PENTATEUCO: Livro do Deuteronômio (Dt), capítulo 8
(1) Tereis muito cuidado em praticar tudo o que hoje vos prescrevo, para que possais viver e multiplicar-vos, e entrar na possessão da terra que o Senhor jurou dar a vossos pais. (2) Lembra-te de todo o caminho por onde o Senhor te conduziu durante esses quarenta anos no deserto, para humilhar-te e provar-te, e para conhecer os sentimentos de teu coração, e saber se observarias ou não os seus mandamentos. (3) Humilhou-te com a fome, deu-te por sustento o maná, que não conhecias nem tinham conhecido os teus pais, para ensinar-te que o homem não vive só de pão, mas de tudo o que sai da boca do Senhor. (4) Tuas vestes não se gastaram sobre ti, e teu pai, não se magoou durante estes quarenta anos. (5) Reconhece, pois, em teu coração, que assim como um homem corrige seu filho, assim te corrige o Senhor, teu Deus. (6) Guardar s os mandamentos do Senhor, teu Deus, andando em seus caminhos e temendo-o. (7) Porque o Senhor, teu Deus, vai conduzir-te a uma terra excelente, cheia de torrentes, de fontes e de águas profundas que brotam nos vales e nos montes, (8) uma terra de trigo e de cevada, de vinhas, de figueiras, de romãzeiras, uma terra de óleo de oliva e de mel, (9) uma terra onde não será racionado o pão que comeres, e onde nada faltará, terra cujas pedras são de ferro e de cujas montanhas extrairás o bronze. (10) Comer à saciedade, e bendirás o Senhor, teu Deus, pela boa terra que te deu. (11) Guarda-te de esquecer o Senhor, teu Deus, negligenciando a observância de suas ordens, seus preceitos e suas leis que hoje te prescrevo. (12) Não suceda que, depois de teres comido à saciedade, de teres construído e habitado formosas casas, (13) de teres visto multiplicar teus bois e tuas ovelhas, e aumentar a tua prata, o teu ouro e o teu bem, (14) o teu coração se eleve, e te esqueças do Senhor, teu Deus, que te tirou do Egito, da casa da servidão. (15) Foi ele o teu guia neste vasto e terrível deserto, cheio de serpentes ardentes e escorpiões, terra árida e sem água, onde fez jorrar para ti água do rochedo duríssimo, (16) foi ele quem te alimentou no deserto com um maná desconhecido de teus pais, para humilhar-te e provar-te, a fim de te fazer o bem depois disso.
Segunda Leitura:
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Primeira Epístola aos Coríntios (1Cor), capítulo 10
(16) O cálice de bênção, que benzemos, não é a comunhão do sangue de Cristo? E o pão, que partimos, não é a comunhão do corpo de Cristo? (17) Uma vez que há um único pão, nós, embora sendo muitos, formamos um só corpo, porque todos nós comungamos do mesmo pão.
EVANGELHOS: Evangelho segundo São João (Jo), capítulo 6
(51) Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão, que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo.
(52) A essas palavras, os judeus começaram a discutir, dizendo: Como pode este homem dar-nos de comer a sua carne?
(53) Então Jesus lhes disse: Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos.
(54) Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia.
(55) Pois a minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue, verdadeiramente uma bebida.
(56) Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele.
(57) Assim como o Pai que me enviou vive, e eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer a minha carne viverá por mim.
(58) Este é o pão que desceu do céu. Não como o maná que vossos pais comeram e morreram. Quem come deste pão viverá eternamente.

Homilia para a Solenidade de Corpus Christi

Uma das inteligências mais privilegiadas da história do pensamento humano foi, sem dúvida, Santo Tomás de Aquino; já em vida, teve um enorme prestígio. A sua obra filosófica e teológica continua sendo uma referência obrigatória. Quando o Papa Urbano IV lhe propôs ser cardeal, Fr. Tomás não quis aceitar tal dignidade. O Papa perguntou-lhe se recusava o título por razões de humildade, ao que Tomás de Aquino respondeu: "-Não, Santo Padre. Na verdade, eu desejo algo maior". O Papa surpreendido disse: "-Você quer ser Papa?". Então Santo Tomás manifestou o seu desejo: "-O que eu quero é que a festa de Corpus Christi se estenda a toda a Igreja". O Papa, antes de responder, ficou um pouco meditativo; depois lhe disse: "-Pedis muito, Tomás, mas o farei se me prometerdes encarregar-vos da composição da liturgia da festa". E assim foi! A festa de Corpus Christi começou a celebrar-se em toda a Igreja Católica por meio da Bula Transiturus, de Urbano IV, do dia 8 de setembro de 1264, e os belíssimos textos que a liturgia da Igreja tem para essa solenidade, tanto na Missa como na Liturgia das Horas, foram escritos por esse grande Santo.

No dia de hoje, ao participarmos da Santa Missa e sairmos às ruas em Procissão, façamo-lo com fé, com amor, com devoção, com dignidade, em espírito de adoração. Sejamos esmeradamente cuidadosos com o Corpo e o Sangue de Deus. Somente se soubermos cuidar o Corpo Eucarístico do Senhor, cuidaremos da maneira que convém do Corpo Místico de Cristo, que é a Igreja, e dos nossos irmãos numa verdadeira fraternidade e solidariedade. Dediquemos ao culto eucarístico os nossos melhores esforços, os melhores ornamentos, os melhores cálices, os melhores cantos. Tudo para Deus!

Como outrora, Jesus nos recebe e nos fala do Reino, cura as nossas enfermidades e nos dá de comer (cfr. Lc 9,11-17). No Sacramento da Eucaristia podemos experimentar essa realidade: Deus está não somente perto de nós, mas dentro de nós. "O Senhor esteja convosco" – nos diz o sacerdote em cada celebração da Eucaristia. Agradecemos a Deus pela sua presença, pelo seu amor, pela sua misericórdia, pela sua amizade?

Recordemos: no momento em que o sacerdote pronuncia as palavras da consagração sobre o pão e o vinho, esses elementos se convertem no Corpo e no Sangue adoráveis de Jesus Cristo. Depois da consagração já não há mais pão, há somente o Corpo de Cristo; não há mais vinho, mas tão somente o Sangue de Cristo. Junto com Jesus, se fazem presentes o Pai e o Espírito Santo porque onde está uma Pessoa da Santíssima Trindade estão as outras duas. Na espécie do pão está todo o Cristo, na do vinho também. Em cada fragmento das espécies do pão e em cada gota da espécie do vinho está Cristo inteiro. Quem comunga somente a espécie do pão, recebe também o seu Sangue e toda a realidade que comporta esse sacramento; quem recebe somente a espécie do vinho, recebe também todo o Cristo. Ao partir-se a hóstia, não partimos a Cristo, pois não se trata de uma presença física de Cristo, mas de uma presença misteriosa, que a teologia chama de presença substancial.

Diante da presença de Jesus Cristo, sejamos educados, corteses, elegantes. Ao entrar na igreja, não nos esqueçamos de usar um pouco da água benta disposta nas paróquias para esse fim, a água benta nos lembra o nosso batismo e nos livra das ciladas do demônio. Em seguida, procuremos onde está o Sacrário e façamos uma genuflexão pausada diante do nosso Deus; que seja uma genuflexão bem feita, isto é, dobrando joelho direito até o chão (não é jeitoso benzer-se ao mesmo tempo, primeiro se faz a genuflexão e depois se benze, ou ao contrário). Não conversemos dentro da Igreja, caso seja necessário falar algo com alguém, façamo-lo em voz baixa. É de boa educação chegar uns minutinhos antes na Missa, dessa maneira manifestamos que nós esperamos a Jesus. Escutemos com atenção as leituras. Às palavras da consagração, está previsto que nos ajoelhemos e não que fiquemos de pé (a não ser que haja alguma causa justa; neste caso, pelo menos façamos uma "inclinação profunda enquanto o sacerdote faz genuflexão após a consagração"); caso se receba a comunhão de pé, é bom fazer alguma reverência antes de recebê-la. Depois da comunhão, não nos esqueçamos de dar graças a Deus, normalmente se recomenda pelo menos uns 10 minutinhos em oração depois de comungar. Também seria muito bom se nos acostumássemos a fazer visitas a Jesus no Sacrário, pois frequentemente o Senhor está muito sozinho nos Sacrários das nossas igrejas e, além do mais, ele está aí por você e por mim. Enfim, tenho certeza que o amor a Deus que está em nossos corações nos sugerirá outros detalhes de carinho para com Jesus na Santíssima Eucaristia. Quem ama é criativo!

Pe. Françoá Rodrigues Figueiredo Costa

Dom Henrique

"Hoje a Igreja te convida: ao pão vivo que dá vida vem com ela celebrar!" – Caríssimos irmãos, é, precisamente, este o sentido da hodierna solenidade: celebrar, proclamar, professar, expressar a nossa fé inabalável na presença real do Cristo morto e ressuscitado nas espécies eucarísticas!

Eis a nossa fé: cremos com todo o nosso coração e com toda a nossa mente que, nas espécies eucarísticas oferecidas como Sacrifico de Cristo – sacrifico único, perfeito, eterno – o Senhor Jesus está realmente presente no seu Corpo e no seu Sangue, alma e divindade, tão perfeito e real como está no céu. Ante o pão e o vinho consagrados, podemos cantar, como o povo cristão canta: "Deus está aqui! Ó vinde, adoradores, adoremos a Cristo redentor!" Eis: nas espécies consagradas já não há mais pão, já não há mais vinho: há somente o Corpo e o Sangue do Senhor morto e ressuscitado, todo no que era vinho, todo no que era pão. É ele: adorável, amável, Vida para nossa vida!

Caríssimos, trata-se de um Mistério de fé que somente pode ser compreendido de joelhos! Trata-se de uma realidade concreta que somente pode ser apreendida se abrirmos o coração ao desígnio amoroso e salvífico de Deus! Não há como perceber, não há como provar, não há como demonstrar cientificamente! Não podemos apreendê-lo, capturá-lo com nossa razão e nossos sentidos: o paladar falha, pois saboreia pão e vinho; o tato falha, pois pega pão e vinho; a visão falha, pois enxerga pão e vinho; o olfato falha, pois cheira pão e vinho... Somente pelo ouvido, que crê o que escuta, podemos perceber o Mistério; somente a audição não falha: "Isto é o meu corpo; isto é o meu sangue! Eu sou o pão vivo descido do céu. O pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo!" Eis, que mistério tão grande: o pão que Cristo dá é a carne dada, a carne sacrificada, entregue na cruz, para a vida do mundo! Que mistério! Que amor!

Os judeus entenderam, os judeus contestaram, os judeus se escandalizaram, os judeus o abandonaram! Infelizmente, há cristãos que não entendem, que contestam, que se escandalizam e não comem nem bebem a Vida que dura eternamente!

Mas, Jesus insiste: "Em verdade, em verdade os digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós! Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu o ressuscitarei!" – São palavras impressionantes, quase que inacreditáveis: o corpo e sangue de Jesus devem ser comidos como fonte de vida! Não de qualquer vida, mas da vida eterna, vida de Deus! Esta vida é o próprio Espírito Santo, que ressuscitou Jesus e que impregna seu Corpo e Sangue nas espécies eucarísticas! Por isso, na comunhão, recebemos, comemos a Vida já agora e plantamos esta Vida para a ressurreição final! "Porque a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue, verdadeira bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele!" – O que mais Jesus poderia dizer para deixar mais claro e patente que sua presença na Eucaristia é realmente real? É "verdadeiramente comida, é verdadeiramente bebida!" "Como o Pai que me enviou vive - é o Deus vivente e pleno de vida -, e eu vivo pelo Pai, o que come de mim viverá por mim!" – Que dom, que graça: viver por Jesus, viver com a mesmíssima vida que Jesus ressuscitado recebeu do Pai: viver daquela vida escondida no pão e no vinho! Eis o dom que o Senhor faz de si mesmo! E Jesus conclui, no Evangelho de hoje: Este é o pão que desceu do céu, não é um simples pão deste mundo! Não é como aquele que os vossos pais comeram. Eles morreram! O maná não dava a vida divina, o maná não era transfigurado pelo Espírito Santo, Senhor que dá a vida! Aquele que come este pão viverá para sempre!"

Caríssimos! Na travessia do deserto da vida, o Senhor nos conduz entre humilhações e provas, que nos revelam quem somos, o que temos no coração... O Senhor não nos infantiliza, não nos livra dos embates da existência, mas permanece conosco: "Não te esqueças do Senhor teu Deus: ele foi teu guia no vasto e terrível deserto. Foi ele que fez jorrar água para ti da pedra duríssima e te alimentou no deserto com o maná que nem tu nem teus pais conhecíeis, para te mostrar que nem só de pão vive o homem, mas o homem vive de toda palavra que sai da boca de Deus!" Nos nossos desertos, nesse deserto da longa história humana, que a Igreja vai atravessando, nutramo-nos desse pão e bebamos da bebida que sai do Cristo, nossa Rocha! Este alimento verdadeiro, de vida verdadeira, ei-lo no altar: "O cálice que abençoamos é a nossa comunhão com o sangue de Cristo. O pão que partimos é a nossa comunhão com o corpo de Cristo!" Comunguemos, pois,com ele: comunguemos no sacramento, no afeto, nas escolhas, nas situações da vida, nas certezas, na morte e na vida eterna!

"Bom Pastor, pão de verdade,/ piedade ou Jesus, piedade, / conservai-nos na unidade, / extingui nossa orfandade,/ transportai-nos para o Pai.

Aos mortais dando comida,/ dais também o pão da vida;/ que a família assim nutrida/ seja um dia reunida/ aos convivas lá do céu". Amém.