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Jesus anda sobre as águas e Pedro vacila (07/08/2011)

Primeira Leitura:
HISTÓRICO: Primeiro Livro dos Reis (1Rs), capítulo 19
(9) Chegando ali, passou a noite numa caverna. Então a palavra do Senhor foi-lhe dirigida: Que fazes aqui, Elias? (10) Ele respondeu: Estou devorado de zelo pelo Senhor, o Deus dos exércitos. Porque os israelitas abandonaram a vossa aliança, derrubaram os vossos altares e passaram os vossos profetas ao fio da espada. Só eu fiquei, e querem tirar-me a vida. (11) O Senhor desse-lhe: Sai e conserva-te em cima do monte na presença do Senhor: ele vai passar. Nesse momento passou diante do Senhor um vento impetuoso e violento, que fendia as montanhas e quebrava os rochedos, mas o Senhor não estava naquele vento. Depois do vento, a terra tremeu, mas o Senhor não estava no tremor de terra. (12) Passado o tremor de terra, acendeu-se um fogo, mas o Senhor não estava no fogo. Depois do fogo ouviu-se o murmúrio de uma brisa ligeira. (13) Tendo Elias ouvido isso, cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se à entrada da caverna. Uma voz disse-lhe: Que fazes aqui, Elias?
Segunda Leitura:
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Epístola de São Paulo aos Romanos (Rm), capítulo 9
(1) Digo a verdade em Jesus Cristo, não minto, a minha consciência me dá testemunho pelo Espírito Santo: (2) sinto grande pesar, incessante amargura no coração. (3) Porque eu mesmo desejaria ser reprovado, separado de Cristo, por amor de meus irmãos, que são do mesmo sangue que eu, segundo a carne. (4) Eles são os israelitas, a eles foram dadas a adoção, a glória, as alianças, a lei, o culto, as promessas (5) e os patriarcas, deles descende Cristo, segundo a carne, o qual é, sobre todas as coisas, Deus bendito para sempre. Amém.
EVANGELHOS: Evangelho segundo São Mateus (Mt), capítulo 14
(22) Logo depois, Jesus obrigou seus discípulos a entrar na barca e a passar antes dele para a outra margem, enquanto ele despedia a multidão.
(23) Feito isso, subiu à montanha para orar na solidão. E, chegando a noite,
(24) Entretanto, já a boa distância da margem, a barca era agitada pelas ondas, pois o vento era contrário.
(25) Pela quarta vigília da noite, Jesus veio a eles, caminhando sobre o mar.
(26) Quando os discípulos o perceberam caminhando sobre as águas, ficaram com medo: É um fantasma! disseram eles, soltando gritos de terror.
(27) Mas Jesus logo lhes disse: Tranqüilizai-vos, sou eu. Não tenhais medo!
(28) Pedro tomou a palavra e falou: Senhor, se és tu, manda-me ir sobre as águas até junto de ti!
(29) Ele disse-lhe: Vem! Pedro saiu da barca e caminhava sobre as águas ao encontro de Jesus.
(30) Mas, redobrando a violência do vento, teve medo e, começando a afundar, gritou: Senhor, salva-me!
(31) No mesmo instante, Jesus estendeu-lhe a mão, segurou-o e lhe disse: Homem de pouca fé, por que duvidaste?
(32) Apenas tinham subido para a barca, o vento cessou.
(33) Então aqueles que estavam na barca prostraram-se diante dele e disseram: Tu és verdadeiramente o Filho de Deus.
(7558) Homilia do Padre Paulo Ricardo :PLAYER AQUI

Senhor, salva-me!

A negação de Pedro, que faz parte do relato da Paixão (Mt 26,1ss), ilumina o evangelho de hoje de forma extraordinária. O mesmo Pedro que caminha sobre as águas e que promete que morrerá por Jesus (Mt 26,35), é o Pedro que começa a afundar nas águas e nega o divino mestre por três vezes (nega, jura e amaldiçoa!).

Em Pedro, todos nós cristão nos reconhecemos. Homens de fé pequena (oligópistos) e de coração dividido (dipsichía), confiamos que a mão chagada do ressuscitado venha nos resgatar das águas do pecado, do medo e da morte.

Esta é uma das realidades mais ricas do evangelho de São Mateus. Mateus tem uma fonte única. Só ele apresenta Jesus andando sobre as águas e Pedro que afunda.
Como olhar para esse evangelho de hoje?
Como a figura de S. Pedro é apresentada por Mateus? De forma muito realista e histórica. Pedro é apresentado como um homem de forma muito realista, um quadro com luzes e sombras. Pedra sobre a qual se edifica a Igreja e também pedra de tropeço e escândalo.
Como pode ser assim?
É exatamente porque Pedro é como cada um de nós, é um campo de batalha. É o que crê, mas também a nega. Pede com coragem para caminhar sobre as águas e afunda com medo.
O evangelho no original grego é muito claro ao mostrar que enquanto Pedro estava voltado para Jesus ele consegue caminhar sobre as águas, pois é nessa fé que Pedro consegue dizer 'tu és o Messias, filho do Deus vivo' e 'eu irei contigo até a morte'.
Também nós estamos voltados para o divino mestre, mas nossa 'doença' é que somos pessoas divididas.
Quando Pedro afunda nas águas, Jesus chama-o de 'homem de fé pequena'. Ao sentir o vento, Pedro grita: 'Senhor, salva-me!'...
No versículo 29 (Mt 14,29) Pedro tinha os olhos fixos em Jesus e consegue andar. Mas no versículo 30 (Mt 14,30) ele se distrai, vê o vento se amedronta... ao desviar o olhar de Jesus, tem medo, começa a afundar e grita por ajuda.
No versículo 31 (Mt 14,31), Jesus responde ao pedido de Pedro e "imediatamente" estende a mão, a mão salvadora que segura Pedro e pergunta: 'por que vacilaste'?

Como este que será a pedra (fé) sobre a qual se edificará a Igreja, pode ser tão instável?
Os santos padres falam de uma doença espiritual que só os cristãos podem ter: a alma dividida. A nossa fé é pequena e não ocupa todo o espaço da alma.
É como se Deus não estivesse presente em todos os aspectos de nossa vida.

Se formos olhar todas as vezes que Pedro fracassou no evangelho de S. Mateus, vemos que está sempre presente o medo. Sempre que ele fracassa, é o medo da morte. Claro que Pedro tenta superar o medo da morte, com bravatas ('mesmo que todos se escandalizem de ti, eu não me escandalizarei!')... e no entanto no final do capítulo 26, ocorre o fracasso.
Isso nos leva a um exame de consciência: nossa fé é verdadeira ou é uma bravata?
A verdadeira fé confia em Deus e a bravata confia em nós mesmos.

Quando Pedro nega Jesus três vezes, ele afunda cada vez mais: ele nega, ele nega a jura, ele nega, jura e amaldiçoa!
No entanto, a queda não é o fim, pois Pedro tem confiança suficiente para se voltar para Jesus e dizer 'Senhor, salva-me!'. É esta confiança cristã que ao final nos salva.
Após a negação, Pedro 'chorou amargamente'. Essa é a realidade do arrependimento profundo de quem diz 'eu não sou capaz, mas vós sois capaz'. E então vemos a mão poderosa de Nosso Senhor Jesus Cristo, imediatamente. Isto gera em nós confiança na misericórdia de Deus, é Ele quem vai nos sustentar com sua mão poderosa.
É a mão chagada de Cristo que se levanta em cada absolvição 'eu te absolvo dos teus pecados'... um perdão que absolve e repreende. Jesus também coloca o dedo na ferida e aponta a fraqueza a ser corrigida.
Esta é a forma de curar-nos dessa doença de alma dividida, desse vacilo, para sermos pedra firme.
Nós cristãos não podemos nunca deixar de progredir na fé e de ver em Pedro de fé pequena a nossa figura e a figura da Igreja, imaculada e santa sobre cuja fé é edificada a salvação da humanidade mas cujos membros são pecadores.
Dentro de nós vive-se um drama. Professamos a fé e vacilamos. Pedro no Papa é aquele que confirma a fé dos irmãos, mas também é homem que fraqueja, peca e se deixa abalar. A história do papado é a história de Pedro. E isso só aumenta nossa fé como Deus consegue fazer coisas maravilhosas por meio de instrumentos tão fracos e debilitados.
Digamos com fé: Senhor, salva-nos!