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A Cruz é o Caminho (28/08/2011)

Primeira Leitura:
PROFETAS MAIORES: Livro de Jeremias (Jr), capítulo 20
(7) Seduzistes-me, Senhor, e eu me deixei seduzir! Dominastes-me e obtivestes o triunfo. Sou objeto de contínua irrisão, e todos zombam de mim. (8) Cada vez que falo é para proclamar a aproximação da violência e devastação. E dia a dia a palavra do Senhor converte-se para mim em insultos e escárnios. (9) E, a mim mesmo, eu disse: Não mais o mencionarei e nem falarei em seu nome. Mas em meu seio havia um fogo devorador que se me encerrara nos ossos. Esgotei-me em refreá-lo, e não o consegui.
Segunda Leitura:
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Epístola de São Paulo aos Romanos (Rm), capítulo 12
(1) Eu vos exorto, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, a oferecerdes vossos corpos em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus: é este o vosso culto espiritual. (2) Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito.
EVANGELHOS: Evangelho segundo São Mateus (Mt), capítulo 16
(21) Desde então, Jesus começou a manifestar a seus discípulos que precisava ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas, seria morto e ressuscitaria ao terceiro dia.
(22) Pedro então começou a interpelá-lo e protestar nestes termos: Que Deus não permita isto, Senhor! Isto não te acontecerá!
(23) Mas Jesus, voltando-se para ele, disse-lhe: Afasta-te, Satanás! Tu és para mim um escândalo, teus pensamentos não são de Deus, mas dos homens!
(24) Em seguida, Jesus disse a seus discípulos: Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me.
(25) Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas aquele que tiver sacrificado a sua vida por minha causa, recobrá-la-á.
(26) Que servirá a um homem ganhar o mundo inteiro, se vem a prejudicar a sua vida? Ou que dará um homem em troca de sua vida?...
(27) Porque o Filho do Homem há de vir na glória de seu Pai com seus anjos, e então recompensará a cada um segundo suas obras.
(800) Homilia do Padre Paulo Ricardo:PLAYER AQUI

A Cruz é o Caminho, afasta-te Satanás!

Quando o amor veio ao mundo, nós o crucificamos. A partir disto, todas as vezes que rejeitamos a cruz estamos, na verdade, fugindo de nossa vocação mais autêntica, a de configurar-nos ao amor de Cristo.

O evangelho deste domingo é Mt 16,21-27.

No início do capítulo 16, temos:
Quem dizeis ser o filho do homem? Pedro responde 'tu és o Messias, o Cristo, o Filho de Deus vivo'. E Cristo responde 'tu és pedra e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja'.
O evangelho de hoje é a continuação desse episódio.
No versículo 17: 'não foi um ser humano que te revelou isso, mas o Pai que está nos céus'.
E no versículo 23: 'porque não pensas as coisas de Deus, mas sim nas coisas dos homens'.

Quando Pedro começa a pensar de forma humana, Jesus o denuncia com palavras duras: 'Vai para longe Satanás'!
Como fazer para evitar essa armadilha?
Assim que S. Pedro percebe que Jesus é o Messias, este logo em seguida se dá ao trabalho de esclarecer que Ele não é o messias esperado, mas o messias inesperado que deveria ser morto e ressucitado em três dias. E Pedro acaba considerando ruim o que é bom.
Esta é a chave de leitura do evangelho de hoje.
Por causa do pecado original temos uma forma de pensar que não é a realidade de Deus, que é a Verdade: pensamos que é ruim o que é bom e que é bom o que é mau.
A lei que está dentro de nós é fugir da dor e buscar o prazer. Nós fugimos da cruz, fugimos da dor.
Mas disse Jesus: 'quem quiser perder sua vida por causa de Mim vai salvá-la'. Ou ainda 'quem quiser me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga'.
Para isso precisamos mudar a mentalidade mundana. Jesus denuncia isso: 'Pedro, tu não penas nas coisas de Deus, mas nas coisas dos homens'. O mesmo Pedro que alguns versículos antes havia sido tão elogiado.

'Não vos conformeis com o mundo, mas transformai-vos renovando a vossa maneira de pensar para que possais julgar e assim saber o que é vontade de Deus, o que é bom, o que é agradável, o que é perfeito', diz S. Paulo na leitura de hoje.
Conformar-se aqui quer dizer aceitar a mentalidade do mundo. S. Paulo exorta à conversão.
Precisamos mudar nossa maneira de encarar a vida, não segundo a carne e o sangue, mas segundo a revelação do Pai do céu. Conversão é isso, uma nova mentalidade.
Deus nos revela que o caminho para a felicidade é o amor. E Ele revela isso quando seu Filho morre na cruz. Essa nova mentalidade não é fácil. O próprio Jesus no Horto das Oliveiras agonizou 'Pai afasta de mim este cálice'...
Quando Jesus manda Satanás se afastar, Ele o faz porque Ele também está sofrendo a tentação de se afastar da vontade do Pai.

E para que isso dê fruto em nossas vidas, o que fazer?
Na verdade, todo pecado, toda mentalidade mundana, é uma mentira.
A comparação mais clara que podemos fazer é com a de um drogado. Quem consome a droga quer ser feliz. No entanto, qualquer um é capaz de ver que o drogado está se detruindo. Ele queria se salvar e, no entanto, está se perdendo e está abraçando a própria destruição.
Todo pecado tem esse caráter da droga, essa característica de ser uma falsa promessa de uma felicidade vazia, essa mentalidade ilusória.

É a vida humana então um suicídio?
Não.
Deus quer que nossa vida seja como um sabonete que recebemos de presente.
Há 3 atitudes. As duas primeiras são extremas. Um extremo é guardar na gaveta por medo de perdê-lo. O outro extremo é jogar o sabonete dentro de um balde cheio de água onde o sabonete vai se dissolver e ninguém vai aproveitar nada. A terceira atitude é usar o sabonete de forma sábia, de forma produtiva e com um fim.
A nossa vida é um grande dom, presente de Deus, que nos é dada para que seja gasta de forma produtiva.
A mania da geração-saúde faz muitos viverem nas academias preocupadados com a saúde, bombados e sarados. No entanto, suas vidas são inúteis.
Esses têm corpos falsos.
O corpo verdadeiro é o do padre velhinho com calos nos dedos de girar o rosário e que passa horas no confessionário. Este não se poupou.

Façamos um exame de consciência: como é sua vida? Será o seu corpo verdadeiro? Consumido gradualmente para dar a vida?
Nosso Senhor nos alerta: não é possível ser feliz sem abraçar a cruz. O cristão sabe que atrás de toda cruz há a ressurreição e a verdadeira felicidade eterna.
A última palavra não é a sexta-feira santa, mas o domingo de Páscoa. Não haverá domingo sem passar pela sexta-feira.

Padre Paulo Ricardo

Catequese Bíblico-Missionária

Ser seduzido por Deus acarreta sofrimentos, pois a sedução do Senhor não é uma acomodação imatura que nos arranca das contradições do mundo, mas é um mergulhar no mais profundo deste ciclo de violência.

Jesus, o Filho amado, sofreu denúncias, traições, ameaças e acabou crucificado pelos que, um pouco antes, o haviam aclamado como Rei. O evangelista João nos deixa de sobreaviso: "Chegará um tempo quando quem vos matar pensará oferecer um culto a Deus" (Jo 16,2).

A sedução do Senhor nos faz clamar como o profeta: "Tornei-me zombaria de todo dia, todos se riem de mim. Vivo reclamando da violência e da opressão".

O Ressuscitado nos convida a um mergulho e a um olhar para dentro de nós. Se não for o Cristo e a sua cruz o ponto do olhar interior, estaremos fechados sobre nós mesmos na vaidade e no orgulho, ocupados com um eu que queremos salvar: um eu frustrado, culpabilizado, cheio de angústias e que busca apenas sua autossatisfação.

No Antigo Testamento, a palavra sedução é usada positivamente, como a força que sustenta o profeta das zombarias quando denuncia as maldades do povo. No Novo Testamento, a palavra sedução é o ofício de Satanás, e Pedro torna-se pedra de tropeço ao repreender Jesus e tentar demovê-lo da rota de colisão com as elites políticas e religiosas que traria consequências funestas para Ele e seus seguidores.

Uma igreja que se evade dessa sedução é uma igreja que se esconde por detrás de fantasias espiritualizadas, mas absolutamente vazias do Espírito de Deus. Cada vez que Satanás seduz a Igreja santa e pecadora, eia se alia aos opositores dos desígnios de Deus: a prática do amor que liberta.

Somente um cristão adulto, numa Igreja adulta, consegue aceitar a Cruz como a dinâmica para a construção da maturidade. A Igreja, para ser a de Jesus, não pode se evadir a ser crucificada com o Cristo. A sedução do Senhor transforma a vida numa oblação e numa entrega definitiva ao escândalo e à loucura da Cruz. Paulo nos exorta a oferecermos nossos corpos como "hóstias vivas e santas" na mesa do Senhor para que sejamos expressão da unidade: "Um é o pão e um é o corpo que formamos, apesar de muitos, pois todos partilhamos o único pão" (1Cor 10,17).

Como diz o poeta: "Cheio de Deus não temo o que virá, pois venha o que vier nunca será maior do que a minha alma" (Fernando Pessoa). A experiência de Deus é tão forte quanto a experiência da proscrição imposta aos que amam pelos que, covardemente, fazem de seu medo de viver um espetáculo de coragem. Deus tenha misericórdia e compaixão de nós para que nunca escutemos de seu Cristo: "Afasta-te de mim, Satanás! Tu estás sendo para mim uma pedra de tropeço, pois não tens em mente as coisas de Deus, e sim, a dos homens".

Pe. Paulo Botas, mts