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A Inveja, o Amor e a Misericórdia (18/09/2011)

Primeira Leitura:
PROFETAS MAIORES: Livro de Isaías (Is), capítulo 55
(6) Buscai o Senhor, já que ele se deixa encontrar, invocai-o, já que está perto. (7) Renuncie o malvado a seu comportamento, e o pecador a seus projetos, volte ao Senhor, que dele terá piedade, e a nosso Deus que perdoa generosamente. (8) Pois meus pensamentos não são os vossos, e vosso modo de agir não é o meu, diz o Senhor, (9) mas tanto quanto o céu domina a terra, tanto é superior à vossa a minha conduta e meus pensamentos ultrapassam os vossos.
Segunda Leitura:
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Epístola aos Filipenses (Fl), capítulo 1
(20) Meu ardente desejo e minha esperança são que em nada serei confundido, mas que, hoje como sempre, Cristo será glorificado no meu corpo (tenho toda a certeza disto), quer pela minha vida quer pela minha morte. (21) Porque para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro. (22) Mas, se o viver no corpo é útil para o meu trabalho, não sei então o que devo preferir. (23) Sinto-me pressionado dos dois lados: por uma parte, desejaria desprender-me para estar com Cristo - o que seria imensamente melhor, (24) mas, de outra parte, continuar a viver é mais necessário, por causa de vós... (25) Persuadido disto, sei que ficarei e continuarei com todos vós, para proveito vosso e consolação da vossa fé. (26) Assim, minha volta para junto de vós vos dará um novo motivo de alegria em Cristo Jesus. (27) Cumpre, somente, que vos mostreis em vosso proceder dignos do Evangelho de Cristo. Quer eu vá ter convosco quer permaneça ausente, desejo ouvir que estais firmes em um só espírito, lutando unanimemente pela fé do Evangelho,
EVANGELHOS: Evangelho segundo São Mateus (Mt), capítulo 20
(1) Com efeito, o Reino dos céus é semelhante a um pai de família que saiu ao romper da manhã, a fim de contratar operários para sua vinha.
(2) Ajustou com eles um denário por dia e enviou-os para sua vinha.
(3) Cerca da terceira hora, saiu ainda e viu alguns que estavam na praça sem fazer nada.
(4) Disse-lhes ele: - Ide também vós para minha vinha e vos darei o justo salário.
(5) Eles foram. À sexta hora saiu de novo e igualmente pela nona hora, e fez o mesmo.
(6) Finalmente, pela undécima hora, encontrou ainda outros na praça e perguntou-lhes: - Por que estais todo o dia sem fazer nada?
(7) Eles responderam: - É porque ninguém nos contratou. Disse-lhes ele, então: - Ide vós também para minha vinha.
(8) Ao cair da tarde, o senhor da vinha disse a seu feitor: - Chama os operários e paga-lhes, começando pelos últimos até os primeiros.
(9) Vieram aqueles da undécima hora e receberam cada qual um denário.
(10) Chegando por sua vez os primeiros, julgavam que haviam de receber mais. Mas só receberam cada qual um denário.
(11) Ao receberem, murmuravam contra o pai de família, dizendo:
(12) - Os últimos só trabalharam uma hora... e deste-lhes tanto como a nós, que suportamos o peso do dia e do calor.
(13) O senhor, porém, observou a um deles: - Meu amigo, não te faço injustiça. Não contrataste comigo um denário?
(14) Toma o que é teu e vai-te. Eu quero dar a este último tanto quanto a ti.
(15) Ou não me é permitido fazer dos meus bens o que me apraz? Porventura vês com maus olhos que eu seja bom?
(16) Assim, pois, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos. [ Muitos serão os chamados, mas poucos os escolhidos.]
O padre Paulo Ricardo não pôde gravar a homilia por estar sem voz. Abaixo o texto preparado por ele.

A Inveja, o Amor e a Misericórdia.

Também a mim destes esperança!

Poderíamos abordar o evangelho deste domingo sob dois ângulos diferentes. Ou se enfatiza a atitude infinitamente generosa de Deus (o proprietário, na parábola) que não mede esforços para que sejamos salvos. Ou analisamos a aplicação moral que nos ensina a modificar o nosso “mau olhar”, a inveja (dos operários da primeira hora).

Vamos iniciar com o segundo ponto: a inveja. E, para iluminar o evangelho deste domingo, convido você a se recordar comigo da história de José do Egito, como é relatada no livro do Gênesis.

José do Egito e a inveja da graça

José era o mais amado dos filhos de Jacó. Seu pai não escondia esta predileção e mandou fazer para ele uma “túnica de mangas compridas” (Gn 37,3). Mas não somente isto, o próprio José de forma imprudente, ou talvez ingênua, partilhava candidamente com seus irmãos os dois sonhos, segundo os quais, sua família inteira, até mesmo seu pai e sua mãe, viriam um dia se inclinar diante dele.

Com estas atitudes, a inveja não tardou a envenenar o coração de seus irmãos. Os filhos de Jacó decidem então vender José como escravo e encobrir o seu desaparecimento com uma farsa. Arrancam-lhe a túnica inconfundível, mancham-na de sangue e inventam que o pequeno sonhador fora dilacerado por um animal feroz. Ao receber a notícia da morte de José, “Jacó rasgou as vestes de dor, vestiu-se de luto e chorou a morte do filho por muitos dias” (Gn 37,34).

O episódio é emblemático e nos ajuda a compreender a natureza da inveja descrita em nossa parábola. Não se trata de uma inveja normal, que tem por objeto o irmão, mas de uma inveja muito mais mortífera: “a inveja da graça de Deus”.

É interessante notar que os irmãos não invejavam simplesmente a José. O que invejavam na verdade era o amor que o pai lhe concedera. Poderíamos, porém, como os operários de nossa parábola, argumentar que a única coisa que os irmãos desejavam era uma justiça distributiva e receber, também eles, uma túnica de mangas compridas, junto com um equitativo lote de amor. Mas, no caso da história de José, esta interpretação “benévola” se demonstra insustentável. Como é possível alegar que os irmãos maliciosos desejavam apenas o amor de seu pai, quando, com a farsa da morte de José, eles foram os primeiros a ferir o coração amoroso de Jacó?

Com seu crime, os filhos de Jacó não somente revelam toda a inveja de José, mas uma inveja que nasce da pura malícia: o desejo de anular o amor do pai (no caso de Deus, diríamos: anular o derramamento da graça de Deus).

Seria enganoso pensar que o que levou os irmãos a venderem José como escravo tenha sido o desejo de ser amado por Jacó. Eles infelizmente não queriam nada disso. É triste admiti-lo, mas o que eles desejavam, na verdade, é que Jacó simplesmente parasse de amar!

Mas baldados foram os seus esforços, pois quanto mais seus filhos e filhas tentavam consolá-lo, “ele recusava qualquer consolo, dizendo: ‘Em prantos descerei até meu filho no reino dos mortos’. Assim o chorava o pai” (Gn 37,35).

Os filhos de Jacó são expressão emblemática do ódio contra Deus que habita o coração de quem “inveja a graça de Deus”; o coração do homem que deseja, de forma absurda, que Deus pare de amar.

A inveja segundo Santo Tomás de Aquino

Mas vamos analisar mais de perto a natureza da inveja.

Santo Tomás de Aquino, seguindo a esteira dos Santos Padres, descreve a inveja como sendo uma espécie de tristeza. Quando a pessoa se entristece por constatar o bem do outro, ela sofre de inveja.

No evangelho, o patrão diz aos empregados de primeira hora: “Acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja porque estou sendo bom?” (Mt 20,15). A expressão “estás com inveja” é uma adaptação portuguesa, pois o original grego reza assim: “ou o teu olhar é malvado porque eu sou bom?”.

Olho mau (? ???????? ??????? – ho ofthalmós ponerós) é uma expressão semítica. Trata-se daquele mesmo olhar que os irmãos de José pousaram sobre ele quando “tendo-o o visto de longe, antes que se aproximasse, tramaram a sua morte. Disseram uns aos outros: ‘Aí vem o sonhador!’” (Gn 37,19-20).
Jesus nos recorda que um olhar assim só pode brotar do coração (cf. Mc 7,21-22: “Pois é de dentro do coração humano que sai… o mau olhar”). Mas trata-se de um coração deformado por ser incapaz de se alegrar com a felicidade do outro.

Mas, como já dissemos, o que nos chama a atenção nesta parábola não é a simples inveja do irmão (invidia fratris), mas a inveja muito mais grave que, segundo Santo Tomás, constitui um dos tipos de pecado contra o Espírito Santo: a inveja da graça de Deus (invidia fraternæ gratiæ, cf. Super Sent., 2, 43). Do que se trata?

Que pecado é este que leva Jesus a dizer que “todo pecado e toda blasfêmia serão perdoados; mas a blasfêmia contra o Espírito Santo não será perdoada” (Mt 12,31)? Se olharmos de perto o contexto em que Jesus pronuncia esta dura sentença, podemos notar que Nosso Senhor acabara de libertar um possesso que era surdo e mudo, com o dedo de Deus, com o poder do Espírito Santo. Graças iguais a esta eram uma demonstração clara da presença de Deus e, por isto, o povo começava a crer em Jesus.

Os fariseus, tomados pela “inveja da graça de Deus”, pela tristeza de verem a graça de Deus derramada sobre o povo, queriam impedir que as pessoas cressem em Jesus e então começaram a blasfemar dizendo que a ação do Espírito era do próprio Satanás.

Esta é uma atitude semelhante à dos irmãos de José que desejavam aniquilar o amor do pai: o fariseu, como os filhos de Jacó e como o empregado da parábola, se entristece com a graça distribuída generosamente por Deus. É este “mau olhar” condenado pelo proprietário da vinha, no evangelho, que constitui um pecado contra o Espírito Santo.

O que poderia impedir o próprio Deus de nos salvar e de perdoar os nossos pecados? Nós mesmos! Quando, por pura malícia, preferimos em nosso coração nos fechar à graça de Deus e aniquilá-la. Quem, ao contrário, não peca contra o Espírito Santo é aquele que se alegra por vê-la distribuída generosamente a seus irmãos.

Uma lição para os bons cristãos

Gostaria, finalmente, de alargar o nosso horizonte hermenêutico, recordando o contexto da perícope que nos foi proposta para a reflexão deste domingo.

Neste evangelho, estamos em pleno discurso “eclesiástico” de Jesus. Trata-se, portanto de um ensinamento dirigido primordialmente aos discípulos e não aos judeus.

No capítulo anterior, 19, Nosso Senhor acaba de responder a São Pedro que lhe declarara: “Nós deixamos tudo e te seguimos. Que haveremos de receber?”. Jesus responde prometendo a recompensa de vida eterna e conclui assim: “muitos que são primeiros serão últimos, e muitos que são últimos serão primeiros” (Mt 19,30).

É neste contexto imediato que nos é apresentada a parábola deste domingo, a qual Jesus irá concluir com uma frase quase idêntica: “os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos” (Mt 20,16).

Isto nos permite então interpretar esta parábola à luz do drama existencial daqueles que, como São Pedro, deixaram tudo para seguir Jesus e que, como os fariseus, se sentem tentados pela inveja da graça. De fato, para alguns cristãos, é bastante duro ver as portas do paraíso se abrirem de par em par aos que não tiveram que suportar “o peso do dia e o calor ardente”.

Podemos concluir, assim, que a mensagem central do evangelho deste domingo é a generosa misericórdia de Deus. Esta misericórdia, porém, não nos é apresentada como uma pequena recompensa egoística. Ela é um compromisso dramático. Ou aprendemos, com o proprietário da vinha, a ter um “olhar luminoso”, que sabe celebrar a salvação de Deus e a sua largueza. Ou seremos escravizados por aquele olhar infernal que se entristece por ver a graça derramada com prodigalidade.

Em extrema síntese poderíamos dizer que devemos ser “misericordiosos como o nosso Pai celeste é misericordioso” (Lc 6,36). De fato, é difícil imaginar que no Reino dos céus possa entrar alguém que não se alegre com a conversão “da última hora” de um bom ladrão ou de uma Maria Madalena.

Qui Mariam absolvisti
Vós que absolvestes Maria Madalena
Et latronem exaudisti,
E ouvistes a prece do bom ladrão,
Mihi quoque spem dedisti.
Também a mim destes esperança!

Padre Paulo Ricardo