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O Imposto de César. Estado e Igreja (16/10/2011)

Primeira Leitura:
PROFETAS MAIORES: Livro de Isaías (Is), capítulo 45
(1) Eis o que diz o Senhor a Ciro, seu ungido, que ele levou pela mão para derrubar as nações diante dele, para desatar o cinto dos reis, para abrir-lhe as portas, a fim de que nenhuma lhe fique fechada: (2) Irei eu mesmo diante de ti, aplainando as montanhas, arrebentando os batentes de bronze, arrancando os ferrolhos de ferro. (3) Dar-te-ei os tesouros enterrados e as riquezas escondidas, para mostrar-te que sou eu o Senhor, aquele que te chama pelo teu nome, o Deus de Israel. (4) É por amor de meu servo, Jacó, e de Israel que escolhi, que te chamei pelo teu nome, com títulos de honra, se bem que não me conhecesses. (5) Eu sou o Senhor, sem rival, não existe outro Deus além de mim. Eu te cingi, quando ainda não me conhecias, (6) a fim de que se saiba, do levante ao poente, que nada há fora de mim. Eu sou o Senhor, sem rival,
Segunda Leitura:
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Primeira Epístola aos Tessalonicenses (1Ts), capítulo 1
(1) Paulo, Silvano e Timóteo à igreja dos tessalonicenses, reunida em Deus Pai e no Senhor Jesus Cristo. A vós, graça e paz! (2) Não cessamos de dar graças a Deus por todos vós, e de lembrar-vos em nossas orações. (3) Com efeito, diante de Deus, nosso Pai, pensamos continuamente nas obras da vossa fé, nos sacrifícios da vossa caridade e na firmeza da vossa esperança em nosso Senhor Jesus Cristo, sob o olhar de Deus, nosso Pai. (4) Sabemos, irmãos amados de Deus, que sois eleitos. (5) O nosso Evangelho vos foi pregado não somente por palavra, mas também com poder, com o Espírito Santo e com plena convicção. Sabeis o que temos sido entre vós para a vossa salvação.
EVANGELHOS: Evangelho segundo São Mateus (Mt), capítulo 22
(15) Reuniram-se então os fariseus para deliberar entre si sobre a maneira de surpreender Jesus nas suas próprias palavras.
(16) Enviaram seus discípulos com os herodianos, que lhe disseram: Mestre, sabemos que és verdadeiro e ensinas o caminho de Deus em toda a verdade, sem te preocupares com ninguém, porque não olhas para a aparência dos homens.
(17) Dize-nos, pois, o que te parece: É permitido ou não pagar o imposto a César?
(18) Jesus, percebendo a sua malícia, respondeu: Por que me tentais, hipócritas?
(19) Mostrai-me a moeda com que se paga o imposto! Apresentaram-lhe um denário.
(20) Perguntou Jesus: De quem é esta imagem e esta inscrição?
(21) De César, responderam-lhe. Disse-lhes então Jesus: Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.
(226) Homilia do Padre Paulo Ricardo:PLAYER AQUI

O Estado e a Igreja

Ao dizer "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus", Jesus estabeleceu um princípio que, com o passar do tempo, derrubou o Império Romano. E isto, sem disparar um tiro sequer e sem dar início a uma revolução sangrenta.
A tirania do Estado totalitário não sobrevive quando as pessoas descobrem que não há nada de divino nas leis injustas daqueles que querem ocupar o lugar que pertence somente a Deus.

Jesus entrou triunfante no domingo de Ramos. 'Hosana ao Filho de Davi' era a aclamação do povo, para quem Jesus era um general do povo a fim de libertar Israel da tirania romana.
Mas, Ele também entrou no templo e lá expulsou os vendilhões.
No evangelho deste domingo Jesus nos fala da religião e da política.
Os adversários de Jesus agora são uma combinação estranha de dois partidos inimigos, fariseus (que odiavam o invasor romano) e herodianos (colaboracionistas de Roma pois o poder de Herodes vinha do Império Romano).
A armadilha: devemos ou não pagar os impostos? Com uma ou outra resposta Jesus estaria descontentando um ou outro partido.
A resposta de Jesus irá iluminar o resto da história da humanidade e irá derrubar o império Romano a longo prazo sem dar um tiro e sem golpe de estado.
'Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus'.

O cardeal Ratzinger nos ensina:
Quando Jesus dá essa resposta, Jesus está profetizando ali o fim do império Romano, totalitário.
O imperador romano era tido como sagrado, divino e Jesus separa o poder político do poder sagrado, mostrando que nossa sociedade possui duas comunidades distintas: a civil com poderes limitados, e a de fé, religiosa, também com poderes limitados. Com isso ele nega que haja um poder totalitário e afirmando que as duas devem viver em harmonia.

Ao nascer, não se escolhe o país. Com isso, o cidadão está submetido a um poder político que ele não escolheu. E isso significa que o estado não pode entrar no espaço de liberdade de consciência de cada um.
No império, como o imperador era tido como divino, tinha-se a ideologia de um estado totalitário. Qualquer coisa que o estado diga, aquilo é o correto, é o bem supremo e inquestionável.
Mas Jesus limita esse poder do estado e abre um espaço para o cristão que não precisa obedecer às leis do estado e que, se essas leis estiverem contra Deus, ele deve não obedecê-las. Ele cria um espaço para a liberdade de consciência e cria um espaço para a desobediência civil. Assim, sem fazer uma revolução explícita, Jesus está desmontando o estado ideológico e totalitário do império romano, condenando-o ao fim.
Foi assim que os romanos viram a silenciosa revolução em que as pessoas foram se convertendo aos poucos e dando a Deus o que é de Deus acabando com aquele estado totalitário.
Ao mesmo tempo, Jesus também coloca limites na comunidade de fé, que é a Igreja. A pessoa entra na Igreja a partir da própria liberdade e a Igreja não tem o direito de impor a fé. A Igreja tem o poder e o dever de formar a consciência das pessoas, estabelecer os princípios sagrados e morais, mas não de impor a fé.
César tem que se deter na porta de nossa consciência e se limitar ao espaço público. A Igreja tem o dever de formar consciências e tem que se deter na porta de nossa liberdade de escolha, não pode usar força política para impor seus valores.

Infelizmente esse princípio de Jesus não foi respeitado, tanto de um lado quanto do outro.
É comum o estado querer impor seus princípios totalitários, como nas ditaduras comunistas e no nazismo ainda presentes até hoje.
No Brasil, está havendo a mesma tentação de implantar um estado totalitário disfarçado de democracia. Temos um partido de ideologia socialista que quer impor a todos os seus valores e a ética socialista. Estamos caminhando para um estado totalitário, onde o governo abraçou a tarefa de determinar ele os valores morais e éticos, perseguindo a atacando os que lhe são contrários.
Os meios de comunicação são um dos principais meios para concretizar isso.
Porém, o brasileiro da maioria continua sendo cristão, achando que o aborto é um pecado terrível, que o casamento gay não deve ser comparado ao casamento normal, que os valores da família não devem ser destruídos... mas o governo atual quer formar conforme sua ética um estado totalitário e invadir nossas consciências, impondo seus princípios.
Precisamos exorcisar esse espírito totalitário de nossas vidas. Devemos tomar consciência de que existe o espaço de liberdade da nossa consciência. Há leis injustas e não devemos engolir tudo, pois o estado não é sagrado, não é divino. Precisamos ter objeção de consciência.

O estado romano passou a perseguir os cristãos porque logo percebeu que ambos não poderiam coexistir. Eles propunham um imperador divino e os cristãos se recusavam a dobrar os joelhos diante desse imperador, aceitando todas as suas leis como sagradas.

As pretensões totalitárias das pessoas que nos governam aplicam o patrulhamento ideológico, a calúnia, a imposição de leis iníquas, e quem discorda é tratado como não-pessoa, como radical, pessoa não-grata, um assassinato da personalidade.

Jesus abre as portas da liberdade e precisamos pedir a Deus esse equilíbrio e não deixar que o estado entre em nossas consciências para impor seus valores.
À Igreja permitimos formar nossas consciências e da Igreja podemos sair quando quisermos.

Tenhamos coragem, deixemos que Deus seja Deus em nossas vidas na fidelidade a Cristo, mesmo que seja até o martírio.

Padre Paulo Ricardo

Catequese Bíblico-Missionária

Contra a idolatria do poder

O ser humano, ao longo da história, em sua atuação social demonstra um encantamento pelo poder. Normalmente, mesmo na história recente, esse poder vem misturado com aspectos religiosos, que lhe dão sustentação ideológica. Tanto que, na Antiguidade, a guerra entre os povos era considerada como guerra entre deuses, o que justificava a imposição da religião dos vitoriosos sobre os derrotados.

A Comunidade Ontem

O trecho do livro do profeta Isaías que lemos hoje, está inserido no conjunto de capítulos conhecido como o "Segundo Isaías", escrito durante o tempo do exílio babilónico. Frente o crescimento da Pérsia sob o comando de Ciro, o profeta faz uma leitura da história presente a partir de sua fé e da esperança do povo. Na atuação do rei persa, imprimindo derrota aos babilónios e manifestando tolerância religiosa é política, o escritor sagrado vê a ação de Deus. No entanto, ele não àbsolutiza o poder de Ciro. Ao vê-lo como instrumento de Deus, Isaías deixa transparecer que o poder não pertence a ele. A Deus é que pertence o verdadeiro poder. O ser humano, quando em sua ação pratica a justiça, toma-se instrumento de Deus.

Essa relação religião-poder torna-se explícita no tempo de Jesus. O povo sofre sob o peso da aliança espúria entre os chefes refigiosos de Israel e os representantes de Roma. Tal aliança indica os que serão responsáveis pela morte de Jesus.

No Evangelho, o poder de César é materializado na moeda com sua efígie. Nela concentra-se o significado da exploração. Para que o rei e sua corte sustentem sua riqueza, o povo deve ser explorado através dos impostos. Esse é o poder humano, o poder César.

Ao distinguir o que pertence a Deus, "a Deus, o que é Deus", Jesus o separa do poder de morte. Ele relativiza o poder absoluto dos reis e reconhece como único absoluto o poder de Deus, que é poder de vida. Dar a César o que é César significa deixá-lo morrer em seu próprio veneno e, não se contaminando pela força de persuasão dos dominadores, fazer-se solidário com os oprimidos.

A Comunidade Hoje

Na compreensão bíblica, o poder é elemento positivo porque está diretamente ligado a Deus. Isso exige das pessoas imbuídas de pódèr, a humildade para reconhecer que não são "donas" do poder, mas que o receberam para se disporem no serviço à vida e à justiça.

A idolatria do poder manifesta-se hoje de diversas formas. Ao julgarem-se donas absolutas do poder, autoridades políticas e religiosas transformam-no em ídolo de morte. É o que contemplamos nas guerras, nos atentados violentos, na repressão ao povo, na tortura, na corrupção, na trapaça etc. A perversão do poder é fonte de sofrimento. Partindo do horizonte da fé, somos chamados a exorcizar esse ídolo através dé atitudes de partilha, solidariedade e de respeito ao ser humano.

Pe, Marcelo C. Araújo, C.Ss,R.