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A missão de Jesus (05/02/2012)

Primeira Leitura:
SAPIENCIAL: Livro de Jó (Jó), capítulo 7
(1) A vida do homem sobre a terra é uma luta, seus dias são como os dias de um mercenário. (2) Como um escravo que suspira pela sombra, e o assalariado que espera seu soldo, (3) assim também eu tive por sorte meses de sofrimento, e noites de dor me couberam por partilha. (4) Apenas me deito, digo: Quando chegará o dia? Logo que me levanto: Quando chegará a noite? E até a noite me farto de angústias. (5) Minha carne se cobre de podridão e de imundície, minha pele racha e supura. (6) Meus dias passam mais depressa do que a lançadeira, e se desvanecem sem deixar esperança. (7) Lembra-te de que minha vida nada mais é do que um sopro, de que meus olhos não mais verão a felicidade,
Segunda Leitura:
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO: Primeira Epístola aos Coríntios (1Cor), capítulo 9
(16) Anunciar o Evangelho não é glória para mim, é uma obrigação que se me impõe. Ai de mim, se eu não anunciar o Evangelho! (17) Se o fizesse de minha iniciativa, mereceria recompensa. Se o faço independentemente de minha vontade, é uma missão que me foi imposta. (18) Então em que consiste a minha recompensa? Em que, na pregação do Evangelho, o anuncio gratuitamente, sem usar do direito que esta pregação me confere. (19) Embora livre de sujeição de qualquer pessoa, eu me fiz servo de todos para ganhar o maior número possível. (20) Para os judeus fiz-me judeu, a fim de ganhar os judeus. Para os que estão debaixo da lei, fiz-me como se eu estivesse debaixo da lei, embora o não esteja, a fim de ganhar aqueles que estão debaixo da lei. (21) Para os que não têm lei, fiz-me como se eu não tivesse lei, ainda que eu não esteja isento da lei de Deus - porquanto estou sob a lei de Cristo -, a fim de ganhar os que não têm lei. (22) Fiz-me fraco com os fracos, a fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, a fim de salvar a todos. (23) E tudo isso faço por causa do Evangelho, para dele me fazer participante.
EVANGELHOS: Evangelho segundo São Marcos (Mc), capítulo 1
(29) Assim que saíram da sinagoga, dirigiram-se com Tiago e João à casa de Simão e André.
(30) A sogra de Simão estava de cama, com febre, e sem tardar, falaram-lhe a respeito dela.
(31) Aproximando-se ele, tomou-a pela mão e levantou-a, imediatamente a febre a deixou e ela pôs-se a servi-los.
(32) À tarde, depois do pôr-do-sol, levaram-lhe todos os enfermos e possessos do demônio.
(33) Toda a cidade estava reunida diante da porta.
(34) Ele curou muitos que estavam oprimidos de diversas doenças, e expulsou muitos demônios. Não lhes permitia falar, porque o conheciam.
(35) De manhã, tendo-se levantado muito antes do amanhecer, ele saiu e foi para um lugar deserto, e ali se pôs em oração.
(36) Simão e os seus companheiros saíram a procurá-lo.
(37) Encontraram-no e disseram-lhe: 'Todos te procuram.'
(38) E ele respondeu-lhes: 'Vamos às aldeias vizinhas, para que eu pregue também lá, pois, para isso é que vim.'
(39) Ele retirou-se dali, pregando em todas as sinagogas e por toda a Galiléia, e expulsando os demônios.
(328) Homilia do Padre Paulo Ricardo:PLAYER AQUI
Presbíteros: Ver Roteiro Homilético

Padre Paulo Ricardo

É uma luta a vida do homem sobre a terra.

A doença representa uma provação para a alma e, como Jó, somos chamados a lutar para manter a fé. A comparação de Jesus para com os enfermos é muito diferente da mágica dos curandeiros. Nosso Senhor sabe que temos a alma em perigo e concede a cura física “quando for conveniente para a salvação da alma” (Concílio de Trento, DS 1696; cf. Catecismo da Igreja Católica 1512).

Mc 1,29-39
O contexto é o de um dia na cidade de Cafarnaum. No domingo passado Jesus vai à sinagoga e expulsa um demônio. Agora, Jesus vai a casa de Pedro; Jesus adota a casa de Pedro em Cafarnaum como sua, a base de operações da fase inicial de sua vida pública de Jesus na Galiléia.
Descobertas arqueológicas recentes conduzidas pelos franciscanos descobriram em Cafarnaum a casa de Pedro e sabemos exatamente onde ela está. Como saber? Porque os cristãos do primeiro séculos fizeram ao redor daquela casa um local de encontro e peregrinações.

São relatadas muitas curas de enfermidades de opressões demoníacas.
Apesar disso, Jesus não deixava que os demônios falassem quem Ele era. Por que? Para evitar equívocos. Quase 1/3 do evangelho de S. Marcos é sobre milagres de Jesus. Mas, a identidade de Jesus fica oculta até os pés da cruz quando o centurião, ao ver a forma como Jesus morreu, afirma: "verdadeiramente este homem era o filho de Deus".
Podemos entender quem é Jesus ou cometer um grande equívoco.
Jesus quer o nosso bem, mas este passa pelo mistério da cruz. As pessoas procuram Jesus, mas estranhamente Ele parece fugir delas...
Quando todos o procuram, Jesus diz: "vamos para outros lugares, foi para isso que eu vim".
Ou seja, Jesus não veio para curar todas as enfermidades.
Se você vai à Igreja, procura Deus só porque quer uma cura física, quer algo, quer um bem-estar aqui na Terra, estará procurando Jesus pela razão errada.
Ele se compadece de nós e cura alguns, mas a missão não é essa. Existe um primado do espírito. Ele não é um curandeiro que veio estabelecer o paraíso na Terra. Ele quer nos conduzir para uma felicidade perfeita no céu. Não podemos transformar essa bondade de Deus numa idolatria da prosperidade neste mundo.

O sacramento da unção dos enfermos da Igreja... é dado sobretudo por causa das necessidades espirituais dos doentes. O Concílio de Trento e o catecismo da Igreja dizem isso claramente. A pessoa que sofre de uma doença tem sua alma em perigo, a fé é tentada, e o sacramento dá à pessoa a força para sua salvação. E se for importante para a salvação da pessoa, Deus pode até curar essa pessoa.
Deus cura o corpo se isto convier à alma.
O nosso bem maior é a vida eterna. Esta vida aqui tem valor e é um bem, mas não é o valor maior. Há uma hierarquia de valores.
Se pensarmos, vemos que isso é óbvio e irrefutável. Quanto viveremos? Uns mais, outros menos mas no fim, o que vai restar?

A pessoa que sofre com a doença física está em um embate espiritual. O livro de Jó na primeira leitura trata disso: "não é acaso uma luta a vida do homem sobre a Terra?"
O papa S. Gregório Magno fez um comentário sobre essa frase de Jó: na tradução antiga estava escrito que a vida no homem sobre a terra é uma tentação. No original hebraico usa-se a figura de um exército, daí a tradução atual ser uma luta.

Jó se descreve como se fosse quase um morto-vivo, o fim inoxerável. Nossa fé é tentada pela doença.
Jesus é esse homem que agoniza e se sente abandonado por Deus, como Jó. Mas sabemos que a última palavra é a ressurreição.
Para entender a realidade da doença, é preciso olhar para a Páscoa e para a ressurreição. Se existe cruz é porque atrás de cada cruz há uma ressurreição.
O mistério da doença e da dor é um grande mistério para nossa inteligência. Nós somos realmente tentados diante do sofrimento e da doença. Mas Jesus vem em nosso socorro. Se não nos der a cura física, nos dará as graças e a força necessária para carregarmos nossas cruzes. Não nos esqueçamos da presença de Cristo!


Catequese Bíblico-Missionária

Jó descreve a inquietude e a insipidez do cotidiano. O tédio é enorme e a vida se restringe ao cumprimento de um serviço disciplinado. Nela, a dor cansa mais que o trabalho e não nos dá trégua e nem nos traz o incentivo de qualquer pagamento. Não se pode vender nem alugar a nossa dor, pois não há quem a compre ou a alugue. Cada um carrega a sua própria dor, partilhando os seus males.

A vida é como o trabalho de um tecelão. Cheio de nós e emendas para os que veem por baixo e pelo avesso, mas uma obra de arte para os que contemplam de cima o produto final. A vida real é construída pelo avesso de uma trama cheia de cortes, nós, emendas e cores. "Qual tecelão eu ia tecendo minha vida, mas cortaram-me a trama" (Is 38,12). Jó somente sairá deste sofrimento quando, ao invés de desejar a morte, confiar sem temor na promessa do Senhor: "Eu nunca te deixarei, jamais te abandonarei".

O evangelista nos mostra que Jesus se reveste de uma grande compaixão pelo sofrimento e é de um zelo incansável. Jesus tem compaixão com o sofrimento da sogra de Pedro e revela isto ao curá-la com o simples toque de sua mão. Jesus rompe o preconceito, toca numa mulher que poderia ter sido curada, como tantos outros, pela sua palavra. Quando somos tocados com compaixão e ternura nos curamos da prostração de qualquer mal.

Jesus atende, ao cair da tarde, a cidade reunida em frente à casa de Pedro. O evangelista deixa transparecer que Jesus passou toda noite acolhendo “os doentes e os possuídos peio demônio”. Os que foram recebidos na noite anterior exigem mais e mais e só para eles. Na sua terna compaixão, Jesus não se justifica, dizendo querer rezar, mas evita a privatização de sua pessoa, afirmando: "Vamos a outros lugares, às aldeias da redondeza! Devo pregar também ali, pois para isso que eu vim".

O Evangelho é o Evangelho da Liberdade e temos, no fundo do nosso coração, o desejo de sermos fulminados por uma profunda compaixão humana que nos diviniza e tatua nosso espírito com a regra de ouro: "Fiz-me tudo para todos para salvar alguns". Eis a suprema compaixão, eis a suprema liberdade.

Pe. Paulo Botas, mtc