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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 468 – maio 2001

 

Igreja e Nacional-socialismo:

 

A PERSEGUIÇÃO RELIGIOSA MOVIDA PELO NAZISMO

 

Em síntese: O artigo analisa a situação interna da Alemanha antes da ascensão de Adolf Hitler ao poder e vai mostrando como se foi configurando a atitude hostil do ditador à Igreja; considera a reação dos católicos a tal agressão, evidenciando o sofrimento do Papa Pio XII daí decorrente.

 

A revista mexicana ECCLESIA, em seu número de abril-setembro 2000, pp. 249-268, publicou o artigo de Peter Gumpel intitulado La Persecución Religiosa durante el Nazismo. Visto que é uma fonte de informações preciosas, vai, a seguir, proposta a súmula de tais páginas em tradução portuguesa.

 

O autor começa propondo três observações preliminares: TRÊS OBSERVAÇÕES

 

1)            É muito importante relatar os acontecimentos que formaram o pano de fundo da perseguição nazista à Igreja Católica. Com efeito, já decorreram 68 anos após a ascensão de Hitler ao poder em 30 de janeiro de 1933, e 56 anos após a sua morte. Isto significa que muitas das pessoas que hoje vivem ainda não haviam nascido naquela época ou, ao menos, eram uma geração tão jovem naqueles tempos que não lhe era possível avaliar de modo realista e objetivo o alcance dos acontecimentos que então tiveram lugar.

 

2)            Facilmente acontece que autores que escrevem sobre um passado mais ou menos remoto nem sempre concordam, ou mesmo divergem, entre si. Em consequência, os leitores que, por falta de formação histórica, não têm condições de analisar criticamente tais obras, ficam perplexos; em muitos casos deixam-se enganar e julgam de maneira equivocada e injusta os acontecimentos do passado. Este perigo hoje em dia é mais grave do que em tempos idos, porque a opinião pública não é formada por obras cientificas, mas sim pelas notícias colhidas nos meios de comunicação.

 

3) É outrossim um fato notório que em muitos países a Igreja Católica é atacada não somente por causa de seus pronunciamentos fiéis à Lei de Cristo (relativos ao divórcio, ao homossexualismo, à manipulação genética...), mas também pelo que ocorreu no passado, especialmente na sequencia de 1933 a 1945, quando se travou a luta contra o nacional- socialismo. O Papa Pio XII tem sido falsamente acusado de omissão frente ao regime hitlerista perseguidor dos judeus. A propósito manifestou-se o Cardeal Ângelo Sodano, Secretário de Estado do Vaticano, aos 8 de março de 1999, referindo-se a "calúnias lançadas após a guerra contra o Servo de Deus Pio XII, de venerável memória, ignorando os dados da história e até manipulando-os para fazê-los coincidir com teses preconceituosas.

Esta é uma forma maligna de perseguição" (L'Osservatore Romano, 10/03/99, p. 6).

"Após esta breve, mas indispensável, introdução, abordarei quatro pontos decisivos", diz o autor.

 

QUATRO QUESTÕES

 

"Tenho em vista abordar, ainda que brevemente, os quatro seguintes pontos:

 

I.            Como foi possível que Hitler tenha subido ao poder na Alemanha e como se comportou inicialmente frente à Igreja Católica?

II.            Qual foi a atitude da Igreja Católica antes da chegada de Hitler ao poder e como se conduziu imediatamente após tal chegada?

III.            Como, uma vez consolidada a autoridade de Hitler, se foi desenvolvendo a perseguição à Igreja e qual foi a reação desta ao perseguidor?

IV.            Qual há de ser o juízo definitivo sobre o comportamento da Igreja Católica frente a Hitler e ao nacional-socialismo?"

 

Passemos ao primeiro ponto:

 

I. Como foi possível a ascensão de Hitler ao poder e como se comportou inicialmente frente à Igreja Católica?

 

É de notar, de imediato, que Hitler não chegou ao poder em consequência de uma revolução ou de um golpe de Estado. Na verdade, aos 30 de janeiro de 1933 foi nomeado Chanceler do Reich de maneira legal pelo então Presidente da República o Marechal Paul von Hindenburg. Naquela época nem o Presidente von Hindenburg nem a grande maioria do povo alemão estavam em condições de prever, ou mesmo de suspeitar, as desastrosas consequências de tal nomeação.

 

Verdade é que Adolf Hitler não era um desconhecido: já em 1923 havia tentado um golpe de Estado em Munique, que fora sufocado com violência e derramamento de sangue. Depois disto Hitler foi processado e condenado a um período de cárcere. Uma vez cumprida a pena, percorrera toda a Alemanha, pronunciando discursos impregnados de violência e concepções radicalmente racistas. Os seus seguidores mais fanáticos eram conhecidos por sua agressividade contra quem não pensasse como eles; disso tudo resultaram conflitos públicos com grande número de mortos e feridos. Donde surge a pergunta: como foi possível que um homem, com tal folha corrida, tenha chegado a ser chefe de uma nação que sempre manifestara alta cultura e elevado senso cívico? - A resposta é fornecida por um conjunto de fatores heterogêneos, correlacionados entre si.

 

Antes do mais, é preciso levar em conta o empobrecimento catastrófico que afetou vários setores da sociedade alemã em consequência da derrota sofrida pela Alemanha na primeira guerra mundial (1914-18). O Tratado de Versailles, que pôs fim às hostilidades, impôs aos alemães um ressarcimento tão pesado que tornava impossível o ressurgimento da economia alemã. Disto se seguiu uma inflação sem igual na história do país. E. quando a Alemanha se viu em condições de não poder pagar o que as potências vencedoras exigiam, teve seus territórios ocidentais ocupados e explorados por tais potências. Somente os vultosos empréstimos que recebeu dos Estados Unidos da América permitiram aos poucos uma lenta e difícil recuperação econômica. Note-se, porém, que tais empréstimos foram bruscamente suspensos após a queda da Bolsa de Wall Street em 1929 - o que ocasionou a falência de muitos Bancos, fábricas e empresas alemãs. Aumentou então vertiginosamente o número de desempregados, que no início da década de 1930 chegava a seis milhões de pessoas, às quais o governo alemão não podia oferecer auxílio adequado. Muitas famílias alemãs começaram a passar fome e viver na mais profunda miséria.

 

Ora tal cenário desesperador não podia deixar de favorecer a escalada de políticos extremistas, entre os quais Adolf Hitler. Aliás, não somente Hitler se aproveitava da situação; projetavam-se também os comunistas, cujo número de adeptos ia crescendo gradativamente; era assim real o perigo de que a esquerda marxista tomasse o poder mediante um golpe de Estado ou através de maioria no Parlamento; muitos alemães tinham conhecimento do que faziam os comunistas na Rússia; lembravam-se de que terroristas russos haviam tentado instaurar repúblicas comunistas em vários Lãnder (territórios) da Alemanha após a derrota de 1918. Valendo-se de tais preocupações, Hitler foi conseguindo aumentar constantemente o número de seus seguidores.

 

Este quadro geral, posterior a 1929, há de ser completado por ulterior consideração. Com efeito; após a queda da monarquia alemã e a proclamação da república, surgiram na Alemanha dezenas de Partidos políticos, grandes, médios e pequenos, nenhum dos quais conseguira a maioria absoluta. Por conseguinte, todos os governos subsequentes tiveram que se formar mediante coalizões, que eram instáveis e de curta duração. Sucederam-se com frequência a dissolução do Parlamento e novas eleições políticas - situação esta que foi suscitando a descrença de muitos cidadãos em relação ao sistema político vigente. Difundia-se mais e mais o desejo de ver no Governo um homem forte, capaz de pôr ordem na administração do país.

 

Ora Hitler parecia a muitos ser esse homem forte, principalmente porque era o único político que apregoava libertar a Alemanha das pesadas cadeias do Tratado de Versailles.

 

Mais ainda: nas eleições que precederam a nomeação de Hitler como Chanceler do Reich, o seu nome obtivera o maior número de votos, embora não maioria absoluta. Hitler foi assim obrigado a formar um governo de coalizão, com o apoio de outros partidos; julgava-se que tais aliados de Hitler refreariam o seu furor e conseguiriam equilíbrio no governo da nação. Era, de resto, difundida a opinião de que Hitler, uma vez chegado ao poder, teria sido mais moderado do que prometiam seus discursos demagógicos. A história, porém, desmentiu esta expectativa, embora Hitler a fomentasse, dando a crer que se manteria tranquilo, especialmente em relação aos cristãos do país.

 

Pergunta-se agora: qual foi a atitude de Hitler frente à igreja Católica no primeiro período do seu governo?

 

Dois dias depois de chegar ao poder, isto é, a 1o de fevereiro de 1933, Hitler pronunciou solene discurso programático, transmitido por todos os meios de comunicação, no qual enfatizou a grande importância das comunidades cristãs da Alemanha e lhes assegurava liberdade e proteção do Estado.

 

Apesar disto, como nos anos anteriores, continuaram a se verificar invectivas dos nacional-socialistas contra membros da Igreja e associações católicas da Alemanha. Quando as autoridades eclesiásticas protestavam contra tais feitos preocupantes, mostrando que estavam em contraste com as declarações do Chanceler, este invariavelmente respondia que não os aprovava e os explicava pelo fato de ainda não ter pleno controle da situação no território nacional.

 

Não tardou muito o dia em que Hitler conseguiu o pleno domínio de toda a Alemanha. Com efeito; aos 27 de fevereiro de 1933, o Reichstag ou o Parlamento alemão foi incendiado; difundiu-se o rumor de que os próprios nazistas haviam ateado o fogo - suposição, porém, que nunca foi comprovada. Não está excluída a suspeita de que o incêndio tenha sido causado por um jovem comunista holandês, mentalmente desequilibrado, que foi surpreendido pelos bombeiros enquanto andava pelo Parlamento em chamas. Como quer que fosse, Hitler aproveitou o fato para acusar os comunistas, propagando a notícia de que o incêndio era claro sinal de um próximo golpe de Estado que estariam por realizar. O Chanceler foi mais além, apelando para uma cláusula da Constituição de Weimar, que regia a Alemanha a partir de 11/08/1919. Esta Magna Carta, redigida sob o impacto dos movimentos terroristas do pós-guerra, outorgava ao Presidente do Reich o poder de cancelar artigos da Constituição em casos de perigo para a segurança nacional e conceder ao Chanceler faculdades muito amplas para garantir a paz interna do país. Ora dois dias após o incêndio do Parlamento, o Presidente von Hindenburg, pressionado por Hitler, conferiu ao Chanceler poderes quase ilimitados para governar; este os aproveitou para suprimir o Partido Comunista, prender vários membros do mesmo assim como adversários políticos sob o pretexto de que ameaçavam a segurança nacional.

 

Poucos dias mais tarde, isto é, aos 5 de março de 1933, haveria eleições para a renovação do Parlamento; na véspera Hitler reafirmou sua intenção de tutelar e proteger a plena liberdade das confissões cristãs da Alemanha.

 

Todavia também desta vez Hitler não obteve maioria absoluta no Parlamento. Isto o levou a pedir a todos os Partidos que lhe renovassem por um período de quatro anos as faculdades extraordinárias que o Presidente do Reich lhe concedera temporariamente. Ora na sessão parlamentar de 23 de março de 1933 Hitler obteve tais faculdades; somente o Partido Social-democrático lhe deu voto negativo, ao passo que o Zentrum ou o Partido abertamente cristão e essencialmente católico lhe deu voto positivo.

 

Esta atitude pode causar estranheza. Mas há que recordar que o Zentrum só se pronunciou de tal modo após haver obtido de Hitler uma nova declaração relativa à plena garantia de liberdade e incolumidade das comunidades cristãs.

 

Uma vez obtidos os poderes extraordinários, Hitler podia governar doravante sem ouvir o Parlamento e sem a obrigação de seguir a Constituição do país. Estava assim aberto o caminho para a ditadura em todos os setores, ou seja, no executivo, no legislativo e no judiciário. Em consequência os Partidos políticos perderam sua razão de ser; alguns foram supressos para favorecer "a unidade nacional"; outros, para evitar semelhante fim, se dissolveram por iniciativa própria, constando entre estes o Zentrum, que na data de 5 de julho de 1933 decidiu dissolver-se.

 

Passamos agora ao segundo ponto do nosso propósito:

 

 

II. Qual foi a atitude da Igreja Católica antes e depois da ascensão de Hitler ao poder?

 

Antes da chegada de Hitler ao poder, o episcopado alemão condenou categórica e repetidamente o movimento nacional-socialista; proibiu aos católicos filiar-se ao mesmo e votar em favor dele. A grande maioria dos fiéis seguiu tal orientação. As estatísticas das eleições políticas que precederam o dia 30 de janeiro de 1933 revelam que a quase totalidade dos católicos permaneceu fiel ao Partido cristão, o Zentrum, conhecido como antagônico ao Partido de Hitler. Esta forte oposição dos Bispos e dos fiéis católicos se baseava no livro Mein Kampf (1) e nos discursos de Adolf Hitler; este exaltava a supremacia do Estado a ponto de suprimir a liberdade dos cidadãos; professava uma ideologia racista nitidamente pagã, burlando assim a condenação do antissemitismo proclamada pelo Santo Ofício por ordem de Pio XI em 1928. Em suma, Hitler se fazia de mero oportunista, que mentia conscientemente para lograr seus objetivos plenipotenciários.

 

1 Minha Luta (N.d.R.).

 

Esta tomada de posição do episcopado alemão coincide com a do Núncio apostólico na Alemanha, Mons. Eugênio Pacelli, que em começo de 1930 fora nomeado Secretário de Estado por Pio XI. Durante sua permanência na Alemanha, Pacelli pronunciou 44 discursos públicos e em cerca de quarenta deles atacou teses fundamentais não só do comunismo, mas também do nacional-socialismo.

 

O pensamento de Pacelli - futuro Pio XII - a respeito de Hitler foi claramente manifestado pelo próprio Pacelli a uma pessoa de sua total confiança, ou seja, à irmã Pascualina Lehnert, que o acompanhou durante o seu governo pontifício no Vaticano. Chamada a depor no processo de Beatificação de Pio XII, exprimiu, sob juramento, o modo de considerar Hitler e sua atividade tal como Pio XII lho confiara. Eis o testemunho dessa Religiosa, testemunha altamente qualificada:

 

"Um pensamento angustiante perturbava o Núncio quando partiu da Alemanha: o contínuo crescimento do nacional-socialismo. Como fora ele perspicaz já então ao julgar Hitler e quantas vezes alertou ele o povo alemão frente ao tremendo perigo que o ameaçava! Personalidades de diversas proveniências e de todas as classes deram-lhe a entender, no momento de sua partida, o que esperavam de Hitler: o ressurgimento e a grandeza da Alemanha. Certa vez perguntei ao Núncio se não julgava que tal homem podia ter em si algo de bom que pudesse talvez ajudar o povo alemão. O Núncio, sacudindo a cabeça, disse: 'Eu muito me enganaria se pensasse que tudo isso pode ser encaminhado a um termo feliz. Esse homem está totalmente possuído; destrói tudo que não serve a ele; tudo o que ele diz e escreve, traz a marca do seu egocentrismo; esse homem é capaz de passar por cima dos cadáveres e de eliminar tudo o que pareça um obstáculo. Não posso entender como tanta gente na Alemanha, inclusive entre as pessoas mais preparadas, não o percebem e não sabem deduzir as conclusões do que ele escreve e diz. Quem entre tantos terá lido ao menos sua expressiva obra Mein Kampf?'. Quando mais tarde veio a Roma um daqueles hitleristas de então, disse-me: 'Quanta miséria moral, quanta humilhação e quanta vergonha se teria podido poupar a nós e ao mundo se tivéssemos escutado o Núncio Pacelli!" (Pascualina Lehnert, PIO XII, II privilegio di servirlo. Tradução do alemão por Marola Guarducci, Rusconi 1984, pp. 53s).

 

A nomeação de Hitler como Chanceler do Reich criou uma situação totalmente nova e pôs o episcopado alemão diante da obrigação de tomar uma decisão dramática: continuaria sua oposição pública ao nacional-socialismo e correria o risco de um novo Kulturkampf (como nos tempos de Bismarck), o que equivaleria a uma violenta perseguição da Igreja na Alemanha, ou deveria tratar de encontrar um modus vivendi que não comprometesse de modo algum a fé e a doutrina da Igreja Católica?

 

As repetidas afirmações, solenes e públicas, de Hitler, assegurando que respeitaria plenamente a liberdade da Igreja ou mesmo a tutelaria e protegeria, pareceram à maioria dos Bispos da Alemanha oferecer respaldo para optar pela segunda alternativa, mesmo que mantivessem viva a desconfiança com relação à credibilidade do novo Chanceler.

 

Por isto, no dia 28 de março de 1933, isto é, três dias após a concessão de poderes extraordinários a Hitler por parte do Parlamento, os Bispos retiraram a anterior condenação do nacional-socialismo, declarando, porém, que isto não significava que a Weltanschauung (cosmovisão) desse movimento fosse compatível com a fé e a doutrina católicas.

 

Tal decisão do episcopado alemão foi considerada prematura por parte do Cardeal Pacelli, Secretário de Estado, que não fora previamente informado a respeito e julgava que teria sido melhor esperar para ver se as palavras de Hitler seriam confirmadas pelos atos do seu governo. Contrariamente a quanto foi afirmado por alguns autores, o Vaticano não influiu de modo algum na dissolução do Zentrum; quando, após o fato, o Cardeal Pacelli foi informado, manifestou o seu mais vivo desacordo com o acontecimento, desacordo documentado por quem o ouviu em conversas particulares.

 

As relações entre Hitler e a Igreja Católica entraram em nova fase, quando se deram os primeiros passos para chegar a uma Concordata entre a Santa Sé e o Reich. Antes de tratar deste tema, impõem-se algumas considerações oportunas:

 

a)             Antes do mais, deve-se ter presente que as Concordatas não são tratados de amizade, mas, na maioria dos casos, são acordos concluídos pela Santa Sé com nações nas quais os católicos são minoria.

b)             O objetivo que leva a Santa Sé a assinar uma Concordata é sempre essencialmente de índole pastoral: assegurar aos católicos a liberdade no exercício do culto e de todas as atividades que formam parte integrante da vida católica.

c)             No tocante à Concordata com o Reich, é preciso recordar que na época da monarquia alemã foram estipulados vários tratados desse tipo, sempre porém com os monarcas respectivos. Tendo caído o regime monárquico após a primeira guerra mundial, tais Concordatas perderam todo o seu valor. Isto criou um vazio perigoso, que podia redundar numa atitude hostil frente aos católicos alemães, atitude aliás manifestada por quase todos os Partidos políticos não católicos como também por parte dos protestantes, que constituíam a maioria dos cristãos da Alemanha.

 

Graças aos esforços do Núncio Pacelli, já haviam sido concluídas várias Concordatas com alguns Estados alemães (Baviera em 1924, Prússia em 1929, Baden em 1932). Todavia nunca fora possível concluir uma Concordata com todo o Reich na época pré-hitleriana.

 

Vejamos agora como se desenrolaram os fatos.

 

Em 1933 não foi a Santa Sé quem pediu a Concordata com o Reich, mas o próprio Hitler foi quem ofereceu a oportunidade, propondo condições muito favoráveis à Igreja. Tal oferta era um passo improvisado; vinha a ser algo de pouco interessante ao Papa Pio XI e a seu Secretário de Estado o Cardeal Pacelli, que não confiavam nas declarações do Chanceler e queriam averiguar, antes do mais, se as garantias dadas por ele resultariam em fatos concretos do seu Governo. Todavia deve-se observar que a Igreja nunca recusou concluir Concordatas quando lhe foram oferecidas. Na década de 1920 a Santa Sé havia tratado secretamente com o governo comunista da Rússia a respeito da possibilidade de iniciar contatos em vista de uma Concordata, coisa que na verdade não chegou a efetivar-se.

 

A posição do Vaticano era tão delicada que uma resposta negativa da Santa Sé significaria uma aberta ruptura com desastrosas consequências. Com efeito; em casos de recusa, Hitler certamente teria proclamado ao mundo que as suas propostas eram muito vantajosas para a Igreja e teria acrescentado: "Estendi a mão em sinal de paz para a Igreja Católica; mas a Igreja a ignorou. Pois bem; se não quer a paz, terá a guerra".

 

Após ampla consulta aos Bispos, aos diretores de várias associações católicas da Alemanha, como também a homens políticos de grande autoridade não simpatizantes com o nazismo, a Santa Sé chegou à conclusão de que era melhor iniciar as conversações. Em consequência, depois de longas e penosas reuniões, com grande cautela e tenacidade da parte do Cardeal Pacelli, que neste caso, como em tantos outros, atuou sempre segundo as decisivas orientações do Santo Padre Pio XI, a Santa Sé assinou a Concordata com o Reich.

 

Houve quem lançasse em rosto à Santa Sé o fato de ter assinado o primeiro pacto internacional firmado por Hitler. Isto não é verdade. A Concordata com a Santa Sé foi concluída aos 20 de julho de 1933, ao passo que, já aos 7 de junho do mesmo ano, Hitler havia assinado um tratado internacional com a Inglaterra, a França e a Itália, ou seja, o chamado "Pacto das Quatro Nações".

 

Também se tem afirmado falsamente que o Vaticano confiou imprudentemente em quanto Hitler lhe oferecia de vantajoso. A verdade é assaz diferente. É notório que as autoridades do Vaticano, desde o início das conversações, e posteriormente por ocasião da conclusão da Concordata, estavam convictas de que Hitler não manteria a palavra solenemente empenhada. A prova disto é o que, semanas após o dia 20 de julho de 1933, o Cardeal Pacelli, Secretário de Estado, disse ao diplomata inglês Ivone Kirkpatrick: estava certo, afirmava, de que Hitler não respeitaria a Concordata e a única esperança era a de que não violasse ao mesmo tempo todas as cláusulas da mesma. Com efeito, nos primeiros meses Hitler baixou alguns decretos em defesa dos interesses católicos, mas depois foi violando sistematicamente todas as cláusulas da Concordata e deu início a progressiva perseguição da Igreja Católica, como constará da terceira parte da nossa exposição.

 

 

III. Como se desenvolveram as relações entre a Igreja e o poder nacional-socialista após a definitiva consolidação do domínio absoluto de Hitler na Alemanha? Como foi perseguida a Igreja Católica e qual foi a sua reação ao agressor?

 

A Concordata entre a Santa Sé e o Reich suscitou reações muito diversas na Alemanha. Os católicos alemães respiraram tranquilos porque ao menos a maioria julgava que cessariam as invectivas a que estavam sendo submetidos em muitas regiões; pensavam outrossim que, se tais ataques não acabassem, a Santa Sé teria em mãos um instrumento de direito internacional que lhe permitiria protestar publicamente e de modo eficaz, dado a influxo do Vaticano na opinião das nações.

 

Ao contrário, foi totalmente negativa a reação da maioria da população da Alemanha, que sempre fora hostil à Igreja Católica; de modo particular, mais se irritaram os fanáticos seguidores de Hitler. O Chanceler tomou consciência disto na primeira sessão do Conselho de Ministros; informado do descontentamento reinante, proibiu qualquer discussão a respeito da Concordata e, para acalmar os ânimos, declarou que, tendo solucionado o problema da Igreja Católica, o seu governo gozava de mais liberdade para tratar de outras questões e, de modo especial, da luta contra os judeus.

 

A conexão entre a Concordata e a perseguição aos judeus não tinha fundamento algum no texto da Concordata; foi um expediente falacioso utilizado por Hitler para suavizar a indignação de quem não estava disposto a renunciar à luta já iniciada contra a Igreja Católica. Por outro lado, como as próprias autoridades vaticanas e os católicos mais perspicazes tinham previsto, Hitler nunca tivera a intenção de respeitar a Concordata; muito ao contrário, em breve foram sistematicamente entravadas todas as atividades da Igreja, com exceção apenas das estritamente litúrgicas ou paralitúrgicas. Os periódicos, as revistas e os livros publicados pelos católicos logo foram severamente censurados e posteriormente supressos. As escolas confessionais foram embargadas em sua ação educadora de forma astuta e, sem demora, obrigadas a fechar. As numerosas associações católicas foram constrangidas a se agregar às associações nazistas ou mesmo expressamente proscritas e dissolvidas. Os funcionários estatais de todos os níveis foram dispensados desde que houvesse a mínima sombra de dúvida a respeito de sua adesão à ideologia nacional-socialista. Sob diversos pretextos, os conventos e as casas religiosas foram confiscados. Os sacerdotes e os Religiosos foram sistematicamente vigiados, até mesmo dentro das igrejas: eram denunciados à Gestapo se explicassem a doutrina católica de modo não aceitável pelos nazistas. Quase a terça parte dos clérigos diocesanos e regulares sofreu perseguição por parte da polícia política e considerável número deles foram levados aos cárceres ou aos campos de concentração, onde muitos morreram. A mesma sorte tocou a numerosos leigos e leigas que não eram do agrado do nazismo, simplesmente porque continuavam a exercer aquelas atividades que, segundo a Concordata, lhes era lícito desenvolver. Rapazes e moças que não pertencessem à Juventude Hitlerista não eram admitidos aos exames de segundo grau e muito menos às Universidades; não lhes era possível nem mesmo encontrar trabalho nas fábricas, nas empresas ou no artesanato. Em poucas palavras, com o passar do tempo, instaurou-se uma autêntica perseguição em todos os níveis contra aqueles que quisessem permanecer fiéis à sua fé católica e vivenciá-la segundo os ditames da sua consciência.

 

Houve mais ainda. Nos periódicos e nas revistas, como também nos programas radiofônicos, empreendeu-se uma campanha sistemática contra a Igreja Católica, contra o Papa, os sacerdotes, os Religiosos e os fiéis em geral; foram classificados como inimigos do Reich e frequentemente acusados, em termos baixos, de todo tipo de delitos contra a Moral. Basta ler a imprensa nazista daquela época para tomar consciência dos meios pelos quais foi movida essa campanha difamatória, que aliás não se limitou a quanto acabamos de dizer. A opinião pública foi constantemente influenciada por filmes que exibiam cenas e cantos anticatólicos, sem que a Igreja tivesse a possibilidade de se defender adequadamente frente a tais ataques; fora despojada de todos os meios de comunicação pública através dos quais ela poderia reagir a tais invectivas maldosas e caluniosas.

 

Como se compreende, os Bispos católicos protestaram repetidamente perante as autoridades do Reich; a Santa Sé fez o mesmo, enviando notas diplomáticas nas quais eram enumeradas as constantes e flagrantes violações da Concordata. O governo alemão ou não respondia a tais protestos ou replicava acusando a Igreja de atuar de maneira ilegítima contra as disposições das autoridades estatais.

 

Em 1937 a medida chegara ao auge; por conseguinte naquele ano a Santa Sé publicou a encíclica Mit Brennender Sorge (Com candente preocupação). Nesse documento eram denunciadas, perante o mundo inteiro, e de modo muito duro, as contínuas e gravíssimas derrogações à Concordata; era condenada a idolatria do Estado, que sacrificava os inalienáveis direitos da pessoa humana; eram denunciadas a inspiração pagã da ideologia nazista, a sua doutrina e a sua prática cruelmente racista e outros males.

 

A encíclica foi lida em todas as igrejas católicas no domingo da Paixão. Muito fortaleceu os fiéis católicos, mas desencadeou violenta reação por parte dos nazistas, aumentando de maneira extremamente penosa a intensidade da perseguição movida à Igreja na Alemanha.

 

Pergunta-se agora: qual foi a atitude dos próprios católicos frente à perseguição que os assolava? - Não há dúvida, muitos perderam o ânimo e deixaram-se impressionar pelos grandes sucessos que Hitler conseguiu na década de 1930, tanto através da sua política social no interior da Alemanha quanto em sua política exterior. As grandes potências vencedoras da primeira guerra mundial concederam-lhe o que haviam recusado aos governos democráticos anteriores ou, ao menos, toleraram suas conquistas territoriais, procurando assim viver em paz com o ditador, apesar de suas façanhas evidentemente contrárias ao direito internacional (tratava-se da invasão da Áustria e dos Sudetos, que, segundo Hitler, deviam fazer parte do grande Reich ou da Grande Alemanha).

 

Todavia não é menos certo que a imensa maioria dos católicos permaneceram fiéis à Igreja, mesmo à custa de grandes sacrifícios e, não poucas vezes, de maneira genuinamente heroica. Esta fidelidade é uma página de glória para a Igreja, a qual não deve cair no esquecimento. Os próprios nazistas, tendo Hitler à frente, admitiram que, enquanto a Igreja continuasse a exercer seu profundo influxo, a ideologia nazista jamais seria aceita por grande parte do povo alemão.

 

Finalmente põe-se a interrogação:

 

 

IV. Qual há de ser o juízo definitivo a respeito do comportamento da Igreja Católica frente a Hitler e ao nacional-socialismo?

 

Na base de quanto foi até aqui exposto, podemos propor as seguintes conclusões:

 

Desde o início Hitler e seus mais próximos seguidores estiveram animados por um ódio patológico à Igreja Católica, considerada (com razão) por ele como o mais perigoso opositor do quanto tencionava realizar na Alemanha.

 

Dão prova disto, entre outras coisas, os discursos, já publicados, de Hitler perante o círculo de seus íntimos adeptos (são os chamados Tischgespráche, conversas de sobremesa). Igualmente vêm ao caso o Diário de Joseph Goebbels, as Ordenanças de Martin Bormann, os delirantes arrazoados de Alfred Rosenberg, as ordens emitidas por Heinrich Himmler aos SS e à Gestapo...

 

Entre o nacional-socialismo e a Igreja Católica existia uma radical e insolúvel divergência. Hitler e seus mais próximos colaboradores não souberam respeitar as mais elementares normas morais, mas foram movidos por critérios de absoluto relativismo dialético e oportunista, que não levava em conta nem a verdade nem os direitos mais fundamentais dos cidadãos e das instituições. Todos aqueles que não se dobrassem incondicionalmente ao seu modo de pensar e agir eram considerados e tratados pelos nazistas como inimigos a ser aniquilados.

 

Tal atitude devia induzi-los necessariamente a empreender uma luta encarniçada contra o Cristianismo e, de modo particular, contra a Igreja Católica. Esta, por sua própria índole, não podia aceitar compromissos com um sistema radicalmente criminoso.

 

Precisamente por causa da diversidade fundamental existente entre os princípios inspiradores das duas partes opostas, a luta foi travada com armas totalmente diversas: o Estado nacional-socialista podia usar, e de fato usou, todo tipo de meios postos à sua disposição. Ao contrário, os católicos fiéis a Cristo e à Igreja dispunham somente das armas do espírito: a fé, a esperança e a caridade, que Deus derramara em seus corações. Em última análise, eles só podiam sofrer a perseguição, permanecer firmes em sua posição e, caso a ocasião se apresentasse, padecer o martírio.

 

A perseguição da Igreja na Alemanha não somente não se conteve, mas se agravou durante a segunda guerra mundial. Só terminou quando se encerrou o conflito mundial, isto é, antes que Hitler pudesse levar a termo as palavras com que havia declarado que, após a sua vitória, ele achataria a Igreja como se achata um sapo, conculcando-o debaixo dos pés. - Eis que assim, mais uma vez, se cumpriu a promessa do Senhor: "As portas do inferno não prevalecerão contra ela" (Mt 16,18).

 

“Antes de terminar, parece-me oportuno tecer ainda algumas breves considerações:

 

a)             De caso pensado, limitei-me à perseguição desencadeada pelos nacional-socialistas contra a Igreja na Alemanha. Por isto não tratei dos horrendos crimes perpetrados pela ideologia nos países ocupados pelos nazistas durante a segunda guerra mundial não somente contra os judeus, os poloneses, os ciganos, os prisioneiros russos, os homossexuais, os adventistas, mas também contra muitos membros da Igreja Católica.

b)            Dos milhares de documentos hoje em dia publicados, assim como dos numerosos testemunhos de pessoas contemporâneas dos fatos atrás mencionados, depreende-se que a Santa Sé e, de modo especial, o Santo Padre Pio XII, realizaram todos os esforços possíveis para impedir os crimes nazistas; procuraram ir ao encontro dos perseguidos, e com tal eficácia o conseguiram que puderam salvar centenas de milhares de pessoas ameaçadas de morte cruel.

 

Apesar de tudo isto, em vários países se levanta uma campanha difamadora precisamente contra esse grande Papa. Tal campanha, em alguns casos, é fruto de ignorância culpável ou preconcebida; em outros casos, é o resultado de um onda sistematicamente organizada com o único intuito de desacreditar a Igreja Católica.

 

A nós, católicos, toca o dever de não sofrer em silêncio tal campanha, mas, sim, de reagir contra ela de modo claro e bem documentado. É este um dever de lealdade e de fidelidade para com a Igreja, o Papa Pio XII e a própria VERDADE".

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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Diversos  Apologética  3998 Catequese e Apologética37.91
Diversos  Protestantismo  3970 A prostituição da alma33.40
Diversos  Doutrina  3988 Como foi a assunção de Nossa Senhora29.24
Diversos  Mundo Atual  3996 O número de cristãos despenca nos EUA27.55
PeR  Escrituras  1355 Jesus jamais condenou o homossexualismo?27.00
Vídeos  Entrevista  3994 O purgatório na Bíblia23.45
Diversos  Ética e Moral  3992 O evento LGBT que a PUC poderia fazer19.12
Diversos  História  3997 O mito da serpente18.60
Diversos  Testemunhos  3922 Como o estudo da fé católica levou-me ao catolicismo18.56
Diversos  Mundo Atual  3995 Restrições da liberdade religiosa16.67
Diversos  Protestantismo  3990 Ontologia transexual do protestantismo15.10
Diversos  Doutrina  3986 O purgatório e a graça salvífica14.65
Diversos  Testemunhos  3967 O Navio e as Jangadas14.63
Diversos  Educação  3989 O ensino religioso e a laicidade14.52
Diversos  Doutrina  3991 Não julgueis!13.89
Diversos  Anjos  3911 Confissões do demônio a um exorcista13.76
Orações  Comuns  2773 Oração de Libertação13.76
Diversos  Igreja  3993 A Igreja que incomoda13.70
Diversos  Protestantismo  3971 Velhas heresias em novas roupagens11.93
PeR  O Que É?  2142 Quiromancia e Quirologia11.80
Diversos  Igreja  3981 A alienação do fervor religioso11.28
Diversos  Doutrina  3979 Casais homossexuais podem batizar seus "filhos"?11.20
A decepção causada por não poucos afugenta os indecisos.
Dom Estêvão Bettencourt

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