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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 015 – março 1959

 

Como Explicar as Divergências do Dia e Hora da Morte de Jesus?

 SAGRADA ESCRITURA

JOÃO DA CRUZ (São Paulo)  questiona:

Os Evangelhos não concordam entre si ao indicar o dia da morte de Jesus. Como se explica a divergência?

Também a hora da crucifixão de Jesus dá ocasião a problema, pois São Marcos (15,25) e São João (19,14) parecem contradizer-se”.

Diz-se que os manuscritos recém-descobertos junto ao Mar Morto projetam luz sobre o assunto”.

 

Em nossa resposta deveremos abordar primeiramente os dados do problema para depois deter-nos na consideração das soluções até hoje propostas.

 

1. Os dados do problema

 

1) Verifica-se que o Evangelho de São João apresenta, no tocante à Paixão do Senhor, cronologia um tanto diversa da dos Evangelhos chamados «sinóticos» (Mt, Mc e Lc).

 

Os quatro Evangelistas concordam plenamente entre si ao assinalarem uma quinta-feira como dia da última ceia de Jesus e uma sexta-feira como data de sua morte. A dificuldade, porém, está na indicação do dia do mês: conforme os sinóticos (Mt, Mc e Lc), a quinta-feira era o dia 14 de Nisã (março/abril); a sexta-feira, por conseguinte, era o dia 15. Ao contrário, segundo São João, Jesus se despediu dos discípulos no Cenáculo na quinta-feira dia 13 e foi crucificado na sexta-feira dia 14, como se vê no esquema abaixo:

 

Mês de Nisã       Sinóticos                                          São João

13                                                                                  5ª feira: Última Ceia

14                        5ª feira: última Ceia                       6ª feira: Morte de Cristo

15                         6ª feira: Morte de Cristo

 

A diversidade de cronologia tem suas consequências teológicas. A Lei de Moisés mandava que os filhos de Israel imolassem o cordeiro pascoal à tarde de 14 de Nisã («entre duas vésperas», diz o texto de Êx 12,6, isto é, entre o começo do declínio e o desaparecimento do sol, conforme os Fariseus; entre o ocaso e a noite completa, de acordo com os samaritanos), e o comessem após o pôr do sol; no dia 15 de Nisã celebrariam a solenidade de Páscoa, observando então estrito repouso, equiparado ao do sábado. Ora, conforme os sinóticos, Jesus terá realmente comido a ceia pascoal a 14 de Nisã e haverá sido crucificado no dia de Páscoa (15 de Nisã). Segundo São João, porém, a última ceia de Cristo (a 13 de Nisã) não foi a ceia de Páscoa; justamente o Senhor morreu à tarde de 14 de Nisã, quando em Jerusalém os judeus imolavam o cordeiro pascoal para consumi-lo à noite.

 

2) Examinemos agora nos SS. Evangelhos os textos que constituem os dados precisos do problema.

 

São Mateus (26,17-20), São Marcos (14,12-17) e principalmente São Lucas (22,7-18) dão a saber que o dia anterior ao da morte de Jesus era o dia em que os judeus «imolavam a Páscoa... em que era preciso imolar a Páscoa» ; donde se conclui que o Senhor celebrou na quinta-feira santa uma autêntica ceia de Páscoa.

 

São João, ao contrário, diz que Jesus morreu na «Parasceve», isto é, na preparação ou vigília de Páscoa (19,14-31) e que, justamente por não terem ainda comido o cordeiro pascoal, os judeus não entraram no pretório de Pilatos durante o processo de sexta-feira santa (o contato com o ambiente pagão os contaminaria, impossibilitando-lhes a celebração da ceia noturna ; cf. Jo 18,28).

 

Acontece, porém, que algumas afirmações dos sinóticos sugerem ulteriores reflexões, constituindo um testemunho indireto em favor da cronologia de São João. Leve-se em conta, por exemplo, que, conforme Mt, Mc e Lc, as diversas peripécias do processo de Jesus se devem ter efetuado em plena solenidade de Páscoa (dia 15 de Nisã); ora tais ocupações eram incompatíveis com a lei de repouso sabático que marcava a grande data (cf. Êx 12,16; Lev 23,7). Era, sim, proibido em tal ocasião carregar armas e encarcerar um réu (cf. Mt 26,47); acender fogo como o acenderam em casa do Sumo Sacerdote (cf. Lc 22,55); caminhar do campo para a cidade, como fez Simão o Cireneu provavelmente após a sua jornada de trabalho agrícola (cf. Mc 15,21); carregar a cruz, como Jesus teve que fazer; executar uma sentença capital, como fizeram os seus carrascos; comprar uma mortalha, como a comprou José de Arimatéia (cf. Mc 15,46); preparar aromas e bálsamos para ungir o corpo morto, como o empreenderam as santas mulheres (Lc 23,56). Dificilmente, portanto, se admitirá que se tenha realizado no dia 15 de Nisã tudo que os sinóticos referem imediatamente em torno da condenação e execução de Jesus. — Destas considerações conclui-se que, segundo Mt, Mc e Lc, ao menos um grupo de judeus (os que realizaram os atos acima descritos) não havia comido o cordeiro pascoal na noite de quinta-feira, como Jesus fez, nem estava celebrando a solenidade de Páscoa na sexta-feira. Ora é justamente esta a perspectiva que se depreende do Evangelho de São João.

 

Ainda outra observação se reveste de importância: Jesus morreu na tarde de sexta-feira que, segundo os sinóticos, deveria ser o dia de Páscoa (15 de Nisã). Logo após o falecimento do Mestre, José de Arimatéia se aprestou por sepultar o cadáver, pois, quando baixasse o sol, entraria em vigor a lei do rigoroso repouso sabático (cf. Mc 15, 42-46); sabemos que os judeus contavam os dias de ocaso a ocaso do sol, não de meia-noite a meia-noite). Do seu lado, as piedosas mulheres prepararam os bálsamos para ungir o corpo de Jesus morto, mas, tendo caído a noitinha, interromperam o trabalho, aguardando que passasse o sábado (cf. Lc 23,56). Ora estes dizeres não teriam cabimento se a sexta-feira em que Jesus morreu era o dia de Páscoa, dia de repouso tão rigoroso como o do próprio sábado; porque se terá apressado José de Arimatéia na tarde de sexta-feira se nesta já se prescrevia a abstenção de todo trabalho? — Destes traços deduz-se com razão que José de Arimatéia e as santas mulheres não estavam celebrando Páscoa na sexta-feira em que Jesus morreu; esta sexta-feira, para eles, não era o dia 15 de Nisã, o que mais uma vez vai depor em favor da cronologia joanéia.

 

São estes os elementos, assaz complexos e matizados, do problema sobre o qual os estudiosos têm procurado projetar alguma luz, como abaixo veremos.

 

2. As soluções propostas

 

Não poucas têm sido as tentativas de elucidar a questão apresentada. Dessas vão aqui mencionadas apenas as três mais significativas.

 

a) O sistema dito «do adiamento» ensina que Jesus celebrou, sim, a ceia pascoal no dia prescrito pela Lei (14 de Nisã à noite), mas que os membros do Sinédrio e bom número de judeus a transferiram para o dia 15 (ficando, por sua vez, a solenidade de Páscoa adiada para o dia 16), a fim de poder rematar antes da festa a ação contra Jesus.

 

Tal explicação se apresenta de todo inverossímil para quem considera a tenacidade com que os judeus guardavam suas leis e tradições, não tolerando retoques às mesmas. Ademais o adiamento teria sido decretado quase que imprevistamente e imposto à massa de peregrinos que haviam ido a Jerusalém justamente para celebrar a Páscoa conforme a Lei e que pouco se importavam com o caso de Jesus; ora um tal decreto parece improvável.

 

b) O sistema «do duplo calendário» baseia-se na tese de que duas diversas maneiras de computar as datas litúrgicas estavam em vigor no povo de Israel. Ensinam os propugnadores desta sentença que fariseus e saduceus discordavam entre si no tocante ao dia de Pentecostes e, por conseguinte, também no que se referia à Páscoa: a facção saducéia dos Betoseus afirmava que Pentecostes se devia celebrar sempre no primeiro dia da semana; ora os cinquenta dias que separavam Pentecostes de Páscoa começavam a ser contados a partir do dia (escolhido dentro da oitava de Páscoa) em que se ofereciam as primícias do trigo novo no Templo ; por isto queriam os Betoseus que também a oblação das primícias se fizesse sempre no primeiro dia da semana. Os fariseus, ao contrário, realizavam a oblação das primícias logo no dia seguinte ao de Páscoa (16 de Nisã) e celebravam Pentecostes sete semanas mais tarde, em qualquer dia da semana.

 

Embora sustentassem esse seu ponto de vista, os saduceus faziam o possível para se acomodar ao costume dos fariseus concernente à data de oferta das primícias, desde que isto não implicasse grande derrogação aos seus princípios. Por isto nos anos em que a Páscoa (15 de Nisã) caía em sexta-feira, transferiam-na para o sábado (16 de Nisã), celebrando na sexta-feira a ceia pascoal, no sábado a Páscoa e no dia seguinte (que vinha a ser o primeiro dia da nova semana) a oblação das primícias no Templo (nesses anos, portanto, os saduceus se adaptavam de certo modo aos fariseus).

 

Ora verifica-se que justamente no ano em que Jesus "morreu, Páscoa (15 de Nisã) caiu numa sexta-feira; os fariseus a celebraram nesse dia mesmo, ao passo que os saduceus a adiaram para o dia 16 de Nisã de modo a fazer a oferta das primícias, de acordo com a norma dos fariseus, no dia seguinte à Páscoa, que era igualmente o dia de sua preferência, isto é, o primeiro dia da semana. Eis o que explica o duplo calendário pressuposto pelos Evangelhos: os sinóticos assinalam os acontecimentos dentro do quadro da cronologia dos fariseus, enquanto São João pressupõe a computação dos saduceus (sexta-feira 15 de Nisã: ceia pascoal de uma parte do povo; sábado 16 de Nisã : solenidade de Páscoa).

 

Esta sentença elucida sem dúvida, as divergências verificadas entre os Evangelistas. Pergunta-se, porém, se de fato corresponde à realidade histórica; há, sim, exegetas que não julgam plausível tenham os judeus tolerado a existência de dois calendários na mesma cidade e no tocante a tão solene festa como era Páscoa. A sentença, por conseguinte, tem sugerido certas reticências e reservas.

 

c) Em vista disso, bons exegetas dão preferência ao sistema «da antecipação», segundo o qual Jesus celebrou uma autêntica ceia de Páscoa (como querem os sinóticos) aos 13 de Nisã (como insinua São João), ao passo que outros filhos de Israel realizaram a ceia ritual aos 14 do mesmo.

 

Pergunta-se, porém: qual o motivo para que Jesus antecipasse a refeição ritual?

 

Não o terá feito a título pessoal ou particular, ou seja, baseado na divina autoridade de que gozava sobre as instituições da Antiga Lei (cf. Mc 2,28), pois certamente com o Senhor Jesus outros israelitas celebraram antecipadamente a Páscoa (cf. Mc 14,12 ; Lc 22,7 : «era necessário imolar a Páscoa»). Nem há fundamento para se admitir que Cristo haja feito uso de privilégio concedido aos galileus, pois não se tem conhecimento de tal tipo de privilégio. Muito plausível, ao contrário, é a seguinte hipótese: nos anos em que o dia 14 de Nisã caía numa sexta-feira, era licito antecipar a imolação do cordeiro pascoal para a quinta-feira dia 13, a fim de que não se violasse o repouso do sábado. Com efeito, dado o grande número de cordeiros que se deviam matar (coisa que sempre se fazia no Templo) e assar por ocasião da solenidade, muitos israelitas corriam o risco de ter que executar trabalhos manuais (levar o cordeiro do Templo para casa e assá-lo) depois do pôr do sol de sexta-feira (já dentro do período de repouso sabático); ora, a fim de evitar tal inconveniente, procurava-se diminuir o serviço do dia 14 de Nisã, antecipando parte do trabalho de imolação para o dia 13. Quanto ao consumo da vítima ou à celebração da ceia, poderia efetuar-se tanto no dia 13 mesmo como a 14. Na base desta hipótese, dir-se-á que Jesus e seus discípulos fizeram uso da faculdade de antecipar, ao passo que outros personagens envolvidos na história da Paixão preferiram não antecipar.

 

Que dizer desta explicação ?

 

A praxe da antecipação, sobre a qual se baseia a teoria, é fato suficientemente documentado. Flávio José (De bello judaico 6, 9, 3 § 423), porém, sugere que, por volta do ano de 60 d.C., nos casos focalizados acima não se antecipava mais o dia, mas apenas a hora, da imolação; donde a questão: será que no ano de 30 d.C. ainda estava em vigor a antecipação do dia ? — Esta dúvida não diminui decisivamente as probabilidades da solução assim proposta.

 

Resta agora notar que São João, afastando-se dos sinóticos na indicação das datas da Paixão, não o fez em vão, mas, sim, em vista de mensagem profundamente teológica: o quarto Evangelista fez coincidir cronològicamente a imolação de Cristo na cruz com a do cordeiro típico, simbólico no Templo de Jerusalém...; queria com isto significar que Cristo se tornou para o gênero humano o verdadeiro Cordeiro Pascoal, isto é, a vítima cujo sangue remiu os homens não do cativeiro egípcio, mas do cativeiro do pecado e do Príncipe deste mundo. Para inculcar a tipologia «cordeiro da Antiga Lei — Cordeiro da Nova Lei (Cristo)», o Evangelista sublinha ter-se cumprido por excelência em Jesus aquela prescrição de Moisés (que era também uma profecia) de não se quebrar osso algum do Cordeiro imolado (cf. Jo 19, 33-36 ; Êx 12, 46 ; Num 9,12). — Nesta divergência de cronologia de São João em relação aos sinóticos, evidencia-se bem como o quarto Evangelista, sem deixar de narrar a realidade histórica, escreveu o «Evangelho espiritual», isto é, o Evangelho em que os feitos se tornam transparentes...

 

3. Novas perspectivas ?

 

Os manuscritos recém-descobertos junto ao Mar Morto têm chamado a atenção dos exegetas para nova possibilidade de se elucidarem as dificuldades de que temos tratado (sobre a história de tais manuscritos, veja-se «P. R.» 4/1958, qu. 9).

 

Com efeito, esses documentos vieram confirmar a existência, já conhecida por outras fontes (livros apócrifos dos Jubileus e de Henoque), de um calendário judaico até agora não explorado neste setor de estudos, calendário dito «sacerdotal». Este parece ter-se implantado em alguns grupos de sacerdotes e judeus piedosos em reação contra tendências de muitos israelitas do séc. I a.C. a se adaptarem aos costumes (e também à maneira de contar os tempos) dos povos estrangeiros. No calendário sacerdotal, o ano compreendia doze meses distribuídos em quatro trimestres, de 91 dias cada um; o primeiro e o segundo mês de cada trimestre constavam de 30 dias, ao passo que o terceiro mês abrangia 31 dias. O ano contava consequentemente 52 semanas ou 364 dias. Em virtude deste principio, os dias do mês ocorriam em dias fixos da semana. Ora sabe-se que no calendário sacerdotal o ano começava sempre por uma quarta-feira; em consequência, a ceia de Páscoa, que se celebrava no dia 14 do primeiro mês, ocorria sempre numa terça-feira (não se poderia deixar de observar de passagem a semelhança desse calendário antigo com o novo «calendário mundial», que em nossos dias vai sendo proposto em substituição ao sistema ora vigente; cf. «P. R.» 14/1959, qu. 1).

 

Pois bem; sugerem alguns exegetas contemporâneos que Jesus com seus discípulos seguiu o calendário sacerdotal, comendo a Páscoa na terça-feira da Semana Santa (os sinóticos afirmam, sim, ter Cristo celebrado uma autêntica ceia pascoal antes de morrer). Quanto a outros personagens de Israel, adotavam o calendário oficial (em parte inspirado por costumes helenistas); por isto na sexta-feira em que Cristo morreu, ainda estavam para comer a Páscoa (conciliar-se-iam assim as afirmações de São João com as dos sinóticos).

 

Os fundamentos desta recentíssima hipótese são, em parte, os testemunhos de antiga tradição, talvez já existente no séc. II, segundo a qual Cristo celebrou a sua ceia pascoal numa terça-feira.

 

Eis dois dos textos mais significativos a este propósito: A «Didascalia», coleção de ritos e preceitos litúrgicos do inicio do séc. III, refere a seguinte ordem de acontecimentos: na terça-feira da Semana Santa à noite Jesus comeu a Páscoa, e, a seguir, foi detido pelos judeus; na quarta-feira ficou preso em casa de Caifás, enquanto os príncipes do povo deliberavam a respeito da sua sorte; na quinta-feira, os judeus acusaram Jesus diante de Pilatos; por fim, foi pregado à cruz, onde sofreu seis horas de intenso martírio (c. 21; ed. Nau XIV 4-9).

 

A mesma «Didascalia» atribui a Jesus os seguintes dizeres: «Terça-feira à tarde comi a Páscoa convosco e à noite Me prenderam». «Na quarta-feira jejuareis em favor deles (os judeus), pois na quarta-feira eles Me prenderam, visto que a noite subsequente à terça-feira já pertence à quarta-feira». «Na sexta-feira crucificaram-Me» (c. 21; ed. Nau XIV 18-20).

 

S. Epifânio (+403), bispo de Salamina (Chipre), transmite a seguinte concepção; na segunda-feira Judas recebeu o preço da traição; na terça-feira, ao fim do dia, os sacerdotes de Jerusalém e também Jesus celebraram a Páscoa; na noite que então começou. Jesus foi preso, permanecendo a noite inteira em casa de Caifás; na quarta-feira de manhã, foi entregue a Pilatos, que O deteve até o dia seguinte; na quinta-feira Pilatos mandou Jesus para Herodes, que O devolveu, ficando o Senhor mais uma noite no pretório do governador romano; na sexta-feira finalmente foi sentenciado, e à hora terceira crucificado (fragmento de S. Epifânio, editado por Holl, em «Festgabe füer A. Jülicher» 1927. 160-164).

 

Não nos interessam aqui os pormenores dessas notícias, mas apenas a afirmação referente à ceia de terça-feira.

A nova teoria pretende fundar-se também no texto dos S. Evangelhos, que supõe o quadro de alguns dias para o desenvolvimento normal dos diversos episódios da Paixão de Jesus.

Conforme a nova hipótese, ter-se-ia a seguinte série de acontecimentos:

 

Terça-feira:

- debates de Jesus com os fariseus e saduceus (Mt 22s), após os quais o Senhor proferiu o seu sermão sobre a ruína de Jerusalém e do mundo (Mt 24s);

- ceia pascoal de Jesus, conforme o calendário sacerdotal (Mt 26,17-29);

- agonia no horto das Oliveiras (Mt 26,36-46);

- Jesus é detido e levado para a casa do sacerdote Anás, onde S. Pedro O renega (Jo 18,3-27; Lc 22,47-62);

- depois é entregue a Caifás (Jo 18,24; Mt 26,57; Mc 14,53).

Quarta-feira:

- primeira sessão do Sinédrio ou do conselho dos judeus (Lc 22,66), que acaba declarando Jesus réu de morte por ter blasfemado (Mc 14,55-64; Mt 26,59-66; Lc 22,67-71);

- Jesus sofre então os ultrajes da soldadesca (Mc 14,65; Mt 26,67s; Lc 22,63-65) e passa o resto do dia, assim como a noite seguinte, no cárcere judaico.

Quinta-feira:

- segunda sessão do Sinédrio, que promulgou oficialmente o decreto de morte de Jesus (Mt 27,1; Mc 15,1);

- Jesus é levado a Pilatos, que, a pedido dos judeus, deveria ratificar a,sentença de morte (Mt 27, 11-14; Mc 15,1-5; Lc 23 1-6; Jo 18,28);

- Pilatos quer desembaraçar-se do caso enviando Jesus a Herodes; este O devolve ao governador romano (Lc 23,7-12), ficando Cristo a noite seguinte no cárcere romano.

Sexta-feira:

- segundo interrogatório diante de Pilatos (Lc 23,13; Jo 18,28);

- flagelação (Jo 19,1-3; Mc 15,15; Mt 27,26);

- condenação de Jesus (Jo 19,4-16; Mc 15,15; Mt 27,26; Lc 23,25);

- crucifixão (Mc 15,25);

- morte do Senhor à hora nona ou às três horas da tarde (Mc 15,34; Mt 27,46).

 

Contudo os argumentos derivados do texto evangélico em favor da cronologia nova sofrem contestação por parte de outros textos, que sugerem ter Jesus morrido no dia imediatamente subsequente ao da sua ceia pascoal. Além do mais, surge em alguns autores a seguinte dúvida: se Jesus celebrou na terça-feira a ceia, celebrou-a sem cordeiro pascoal, pois é muito improvável que os sacerdotes no Templo (onde a vitima devia ser imolada) hajam tolerado uma imolação de cordeiro que eles julgavam ilegítima; a Páscoa de Jesus teria constado apenas de pão ázimo e dos outros alimentos menos importantes no ritual de Páscoa — o que não deixa de parecer estranho. Sendo assim, os comentadores se mostram reservados na sua maneira de apreciar a sentença acima. Esta ainda é bastante nova...; deverá ser mais maduramente estudada, a fim de se poderem elucidar as dúvidas que ela deixa na mente dos exegetas.

 

Bibliografia:

A. Jaubert, em «Revue de 1’histoire des Religion» 146 (1954) 140-173.

E. Vogt, em «Bíblica» 36 (1955) 403-413.

D. Barthélémy, em «Revue biblique» 59 (1952) 199-203.

B. Kipper, Uma nova cronologia da Semana da Paixão, em «Revista Eclesiástica vBrasileira» 16 (1956) 26-45.

E. Bierzychudek, Martes: dia de la última cena, em «Revista bíblica» (Argentina) XX (1958) 217-222.

 

 

A Questão da Hora

Segundo São Marcos, «era a hora terceira, quando crucificaram Jesus» (15,25), ao passo que, conforme São João, a condenação de Cristo ocorreu «por volta da sexta hora» (19,14).

 

Será de fato insolúvel (como já se tem dito) essa aparente divergência?

Para responder ao quesito, examinemos as três principais sentenças que tentam elucidar a dificuldade.

 

1) Alguns autores julgam que São João, no texto acima, supôs a maneira como os romanos contavam as horas. Estes as numeravam como nós, a partir da meia-noite, enquanto os orientais procediam do nascer do sol. — Nesta hipótese, conforme o quarto Evangelho, Jesus teria sido condenado de madrugada («por volta das seis horas») ; a sessão judiciária teria então começado pelas 5 hs. da madrugada; e finalmente o Senhor haveria sido crucificado às 9 hs. da manhã (São Marcos terá entendido a hora terceira no sentido dos orientais, admitindo portanto que a primeira hora começava às nossas 6 hs. da manhã).

 

Contudo a esta explicação se objeta o seguinte: a) o quarto Evangelista, em seu livro, segue sempre a computação de horas oriental, e jamais a romana; cf. 1,39; 4.6.52; 11,9; b) é de todo inverossímil admitir tenham os romanos realizado processos judiciários de madrugada; há mesmo documentos a atestar que não o faziam por princípio (cf. Macróbio, Saturnalia 1,3; Sêneca, De ira 2,7).

 

2) Outros exegetas supõem corrupção do texto sagrado: alguns códices do Evangelho de São João trazem, sim, em 19,14 a variante «terceira (hora)» em vez de «sexta»; a grafia originária T (gama = 3) teria sido transformada por descuido dos copistas em F (digama = 6). — Atendendo-se a tal variante do texto sagrado, ter-se-ia sem grande dificuldade a desejada concórdia de Jo com Mc.

 

Verifica-se, porém, que a mencionada variante, do ponto de vista da critica do texto, carece de autoridade; os melhores e mais antigos códices dão a ler «sexta». A mudança parece ter sido introduzida nos manuscritos a fim de eliminar o problema suscitado pelo texto original.

 

Resta a terceira solução, que é comumente aceita: São João e São Marcos dividiam o dia segundo critérios diversos; São João o distribuía em 12 horas a partir do nascer do sol (cf. 1,39; 4,52; 11,9), ao passo que São Marcos distinguia apenas quarto partes do dia: a manhã, das nossas 6 hs. às 9 (cf. Mc 15,1); a hora terceira, das nossas 9 hs. ao meio-dia (cf. 15,25); a sexta hora, do meio-dia às nossas 3 hs. da tarde (15,33); a. nona hora, das nossas 3 às 6 hs. da tarde (cf. 15,34); São Marcos terá assim aplicado ao dia a divisão em quatro partes que os romanos aplicavam à noite (cf. Mc 13,35). Suposto isto, dir-se-á que o segundo Evangelista de modo vago assinalou para a crucifixão de Jesus o intervalo que vai das 9 às 12 hs. da manhã, tendo em vista o fim deste período; São João resolveu (de acordo com suas tendências) indicar em particular o momento da condenação, que teve lugar nas proximidades do meio-dia, naturalmente antes da crucifixão. Na verdade, nem um nem outro dos dois Evangelistas se preocupou com precisão cronológica no caso; em consequência, não será licito ao leitor moderno atribuir sentido rigoroso às suas indicações, aumentando indevidamente as proporções de duas noticias que careciam de importância para os Evangelistas.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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#0•A1967•C996   2018-03-30 09:21:18 - Convidado/Ferino
Por que o responsável pela redação ou o autor do texto não se dedicam mais ao estudo e aprendizado da língua-mãe. Bastante adverso, para quem não domina a própria língua, tentar esmiuçar evangelhos tão semotos.

Responder

#0•A1967•C696   2015-08-12 11:50:44 - Convidado/uega arres
Os Judeus da Galiléia comemoravam a páscoa no início do 14 dia, isto é, 13 de abibi ou nisã, a tardinha (pôr-do-sol), ao passo que os judeus de Jerusalém comemoravam a páscoa no final do dia 14, a tardinha, ou seja, início do dia 15, que também era o início da festa dos pães azimos (Lv. 23:4-8). Esse dia era um sábado(descanso). isso se deu numa quinta-feira e não no sábado semanal(sétimo dia). Os evangelistas Marcos e Lucas falam desse sábado pascal (Mc. 15:42, 16:1 Lc. 23:54) e do sábado semanal (Lc. 23:56). Note que Lucas especifica o sábado semanal ao dizer: "descansaram conforme o mandame......

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#0•A1967•C695   2015-08-12 11:11:32 - Convidado/uega arres
O DIA DA MORTE DE JESUS CRISTO
Introdução: Em que dia morreu e ressuscitou Jesus Cristo? Para a maioria dos cristãos a resposta à esta pergunta é: “morreu na Sexta-feira e ressuscitou no Domingo de Páscoa”. Porém não é tão simples assim. Examinando as Escrituras encontraremos a verdade sobre o dia da morte de Jesus na Cruz. O presente estudo tem como objetivo examinar uma série de textos bíblicos que o farão entender melhor os fatos que envolveram a pessoa de Cristo com relação à sua morte e ressurreição.

I- A PÁSCOA: SUA RELAÇÃO COM A MORTE DE CRISTO

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Por que o evangélico crê na Bíblia se não crê no testemunho e na autoridade divina da Igreja Apostólica que definiu e autenticou a Bíblia?
Claudio Maria

Católicos Online