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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 021 – setembro 1959

 

A Ideologia de Pietro Ubaldi

CASTOR (São Paulo) :

Quais as idéias filosóficas de Pietro Ubaldi ?

Que posição toma a Igreja diante dessa ideologia?”

 

Para conhecermos devidamente as idéias, impõe-se, antes do mais, uma notícia a respeito da personalidade de Pietro Ubaldi. Pelo que, em nossa resposta distinguiremos duas etapas, às quais se seguirá uma reflexão sobre os assuntos abordados.

 

1. A personalidade de Pietro Ubaldi

 

Pietro Ubaldi apresenta-se ao mundo como a reencarnação de São Pedro Apóstolo. A história do seu atual currículo na terra é a seguinte:


Pietro nasceu em Foligno (Itália) no ano de 1886. Estudou Direito em Roma, formando-se aos 24 anos de idade; após o que, dedicou-se ao magistério, regendo a cátedra de inglês no Liceu de Módica (província de Ragusa. Sicília). Costumava retirar-se para uma colina rochosa nos arredores da cidade, a fim de orar; na solidão, começou um dia a ouvir a sua «.Voz», isto é, um guia espiritual que desde então, por via de mediunidade, «ultrafania», lhe vem revelando verdades sublimes e desconhecidas ao comum dos homens...


Em 1931 fez voto de pobreza, a fim de imitar São Francisco de Assis; na manhã seguinte a este ato, ao abandonar a sua fazenda acompanhado de seu cão predileto, na estrada deserta teve a visão de Cristo e de S. Francisco, que o estimulavam em sua vida nova. Nesse mesmo ano de 1931 Ubaldi enviou uma mensagem a Mussolini, predizendo-lhe a próxima guerra mundial e admoestando-o a que dela não participasse; infelizmente, porém, não foi atendido.


Em julho de 1951 transferiu-se para o Brasil, nação pela qual sempre nutriu grande simpatia, julgando-a destinada a futuro muito próspero. Fixou residência em São Vicente (Est. de São Paulo), onde procura a solidão necessária às suas reflexões filosófico-religiosas; não faz conferências para as massas, mas dedica-se à formação das elites e dos dirigentes.


Ubaldi é autor de doze livros, dos quais o principal se intitula «A Grande Síntese» (1935). Tem procurado comunicar ao mundo novas concepções sobre o homem e a história, utilizando noções de física, química, matemática, filosofia e religião. Dada a amplidão e o aparato cientifico de suas afirmações, Ubaldi tem chamado a atenção dos nossos contemporâneos, impressionados não somente pelas visões do Além (Ubaldi assevera já ter visto quatro vezes Nosso Senhor Jesus Cristo nesta encarnação), mas também pelo porte magro, tranquilo e sério (em suma, aparentemente profético) do pensador italiano.


Em agosto de 1951 Ubaldi foi recebido pelo Legislativo Estadual de São Paulo, cujo Presidente o apresentou como «um dos maiores pensadores contemporâneos». O deputado Cid Franco saudou-o com as seguintes expressões:


«...Esta própria Assembléia me parece pequena demais para a grandeza de Pietro Ubaldi... Pietro Ubaldi constitui a visão da humanidade futura... Qualquer Assembléia Legislativa, deste ou de outros países, é pequena demais para a grandeza deste homem... Ubaldi é grande demais, para que eu o saúde, e grande demais para que esta Assembléia o homenageie» (Diário Oficial do Estado, 2 de agosto de 1951).


Pergunta-se agora: como se delineia o pensamento de tão apregoado autor?

 

2. A síntese doutrinária de Ubaldi

 

Quem quisesse caracterizar em poucas palavras o pensamento de Ubaldi, classificá-lo-ia como sendo uma modalidade de panteísmo ou monismo fecundada por «mensagem do Além». Na realidade, «São Pedro reencarnado» colhe de várias correntes filosóficas e religiosas os fios condutores de sua doutrina. Analisemo-los sucessivamente :

1) O primeiro traço da mensagem ubaldista é a afirmação de que veio acender uma luz nova no mundo ou veio trazer a revelação de verdades até agora desconhecidas, verdades correspondentes à idade adulta ou madura do gênero humano. Promete resolver problemas milenares e explicar racionalmente todos os mistérios que até hoje ocuparam os homens no campo da Filosofia e da Religião («A Grande Síntese» 27.34).


«Encontrei a chave de todos os problemas do Universo», assevera o filósofo (Gr. Sínt. 15).


Dentro desta perspectiva, está claro que o Cristianismo toma valor meramente relativo; é apenas a mais completa das revelações e religiões até hoje professadas; destina-se contudo a ceder à sabedoria de cúpula, que é a de Ubaldi inspirado por seu «espírito guia» (São Pedro?)


«Revelo-vos os liames que unem os fenômenos aparentemente mais disparatados. Meu sistema... toma a ciência como base, completa-a... e lhe dá dignidade de filosofia e de religião» (Gr. SInt. 73).


O filósofo admite que nem todos os homens aceitem seus ensinamentos, pois nem todos estão suficientemente maduros para tanto. Não obstante, conserva a consciência de estar prestando grande serviço à humanidade:


«Minha obra está terminada. Se daqui a anos e anos uma humanidade diversa, muito maior e melhor, volvendo o olhar para o passado, procurar esta semente, lançada com demasiada antecipação para que possa ser de pronto fecundada e compreendida, se se admirar de como tenha sido possível que ela se antecipasse assim aos tempos, tenha um pensamento de gratidão para com o ser humano que, sozinho, levou a termo este trabalho, através do seu amor e do seu martírio» (conclusão de «A Grande Síntese», pág. 420).


Assim misteriosamente inspirado, como é que Ubaldi concebe o mundo e os homens ?

 

2) A tese básica do seu sistema professa que o universo inteiro constitui uma única substância, substância divina (!), posta em evolução e tendente a atingir a plena consciência de si ou a perfeição em cada um dos seres parciais que a constituem: assim como existe uma consciência individual em expansão, diz Ubaldi, assim também existe uma consciência universal, que o filósofo identifica com Deus.

 

Mais particularmente a respeito de Deus, escreve ele:

 

«Deus é a grande alma que está no centro do Universo; não centro espacial, mas centro de irradiação e de atração. Desse centro ele irradia e atrai, sendo tudo: o principio e suas manifestações. Eis como Ele pode ser, embora inconcebível para vós, realmente omnipresente» (Gr. Sínt. 42). «Eis o novo monismo, que sucede ao politeísmo e ao  monoteísmo das épocas passadas» (Gr. Sínt. 45).


Destas confusas afirmações, depreende-se ao menos que Deus é tudo. Eis a formulação típica do panteísmo, que Ubaldi professa, reconhecendo consequentemente que tudo é Deus ou centelha divina.


Posto tal princípio, o filósofo descreve a evolução da única substância, isto é, propõe a maneira como esta passa de uma modalidade para outra, desde o estado mais sutil ao mais denso. Em síntese, é esta a sua concepção: três são os estados da substância cósmica — o do espírito, o da energia e o da matéria. Ora o espírito ou pensamento (também chamado «Lei» e «Deus») condensa-se, materializa-se, dando o que se denomina «energia» (= movimento). Esta, por sua vez, condensa-se ou materializa-se, produzindo a matéria propriamente dita ou o mundo sensível. Este movimento «descêntrico» ou de expansão é seguido do inverso ou de um processo «concêntrico», que fecha o ciclo. A primeira onda deu origem ao mundo atual, com seus sistemas planetários e tudo que vemos sobre a terra (tal seria a «criação» do mundo); a segunda onda, a de retorno, é aquela em que vivemos atualmente; «diz respeito... à conquista de uma consciência sempre mais ampla até a visão do Absoluto, É a fase do retorno da matéria, que, através da ação, da luta, da dor, reencontra o espírito e volta para a ideia pura» (Gr. Sínt. 44).


Detendo sua atenção sobre a matéria. Ubaldi tenta descrever a transição de um elemento para outro dentro da tabela de Bohr (hidrogênio, hélio, lítio, berílio, etc.), baseando-se, para isto, em conceitos filosóficos e em fórmulas matemáticas, que dão aspecto pomposo à sua explanação; esta, aliás, se ergue sobre o pressuposto de que «toda a matéria, ainda a que denominada bruta e inerte, é viva e sente... obedece, se atingida por um comando profundo» (Gr. Sínt. 60).


As especulações que Ubaldi desenvolve neste terreno, como o seu pensamento em geral, não primam pela clareza; conceitos imprecisos e proposições confusas tecem a exposição. Como quer que seja, Pietro se ufana de haver previsto em 1932 a libertação do átomo e de ter formulado, dezoito anos antes de Einstein, a «teoria generalizada da gravitação e a teoria do campo unificado»; só tem tido contato com cientistas como Einstein, Bozzano, Fermi, e com as maiores autoridades internacionais (economistas, estadistas, biólogos, filósofos, etc.).

 

3) No cenário do universo descrito, o homem aparece como um ser que se encarna e desencarna sucessivamente até atingir a sua perfeição; o processo faz-se lentamente e passa por vários planetas (pois há, sim, muitos mundos habitados, conforme Ubaldi!). Distinguem-se, por conseguinte, indivíduos involuídos e outros evoluídos; uns mais, outros menos evoluídos... Ora o estado dos menos evoluídos constitui o que se chama «inferno», estado marcado pela dor, isto é, pelas consequências dos erros e da bestialidade de tais homens; do seu lado, os mais evoluídos dão origem ao «paraíso», situação feliz por causa da virtude que nela impera. «Céu» e «inferno» seriam,- por conseguinte, meros estados dos homens existentes nesta terra ou nos outros planetas, em demanda de sua plena purificação.

 

4) A evolução do mundo atingirá um de seus grandes marcos no ano 2000: os próximos decênios serão caracterizados por lutas apocalípticas, que porão fim à civilização atual, tida como materialista, e ocasionarão o surto de nova ordem de coisas, de caráter «espiritualista» ; os povos se destruirão uns aos outros por meio de guerras ; enquanto o hemisfério norte for sendo mais e mais devastado, o Brasil conservar-se-á em paz, destinado a ser o coração do novo mundo no século XXI, mundo de paz e felicidade arquitetado sobre o amor que se irradia do Evangelho; o terceiro milênio corresponderá, sim, ao terceiro dia após a morte do Senhor, ou seja, ao dia da ressurreição e da renovação.


Os quatro tópicos acima referidos condensam o pensamento de Ubaldi de maneira a possibilitar uma apreciação do mesmo.

 

3. Uma reflexão

 

A exposição objetiva das teses de Ubaldi é talvez a mais eficaz refutação das mesmas; mostra a inconsistência de afirmações nas quais a fantasia teve partes muito mais amplas do que o raciocínio.

Formulemos, porém, algumas considerações particulares a respeito do quadro de idéias proposto.

 

1) A doutrina de Ubaldi pode atrair alguns de seus observadores, dado o aparato com que se apresenta. É apregoada, sim, como a síntese mais moderna dos conhecimentos que o homem possa adquirir; o pensador italiano coordena em seus livros meditações filosóficas, cálculos matemáticos, gráficos, etc., de sorte que o leitor tem a impressão de estar diante de uma fortaleza de pensamento tão alicerçado que parece inexpugnável. Para corroborar esta impressão, Ubaldi pretende dar às suas proposições autoridade transcendente, asseverando tê-las recebido de uma «Voz» genial do Além. Sabe também bajular a vaidade inata em todo homem, afirmando que ele possui a sabedoria absoluta, da qual cada uma das escolas até hoje existentes só hauriu uma parcela pequenina. Ubaldi proclama a libertação frente a todos os dogmas religiosos; e isto, não em nome da impiedade, mas em nome de uma adesão mais íntima a Deus e ao Evangelho.


Tal posição é extremamente sedutora para a vaidade humana: quem adere a Ubaldi não estará dando provas de ser um indivíduo maduro? E quem rejeita Ubaldi não mostrará ser uma criança grande? — Além disto, é posição muito cômoda: remove qualquer autoridade religiosa objetiva para fazer de Deus uma entidade ou uma fórmula que o homem concebe como lhe apraz, adaptando-a consciente ou inconscientemente às suas conveniências pessoais; um tal Deus não molesta nem coíbe o homem.


Na verdade, porém, quem submete a sereno exame da razão as teses que Ubaldi propõe em nome de sua sabedoria superior, verifica que estão longe de corresponder à filosofia mais rudimentar ; envolvem contradições, como se verá abaixo.


Em particular a respeito da posição de Ubaldi frente à Religião, notar-se-á: é a soberba que leva o homem moderno a crer que ele é a sua própria autoridade religiosa e que ele, seguindo o seu bom senso subjetivo, pode ditar a si as normas que o encaminhem para Deus. O homem do séc. XX não é menos criatura, menos finito do que o homem do séc. I da era cristã. Mesmo manejando a bomba atômica e penetrando os espaços cósmicos, a inteligência humana se vê levada a afirmar que a única atitude inteligente é a do homem de fé, pois tudo que é material, é finito e limitado, ao passo que o homem tem a sede inata do Infinito, daquele Infinito que só a fé atinge. A grandeza do homem está em servir a Deus, ao único Deus, que é pessoal e distinto do mundo.


A respeito dos dogmas religiosos e de suas relações com a razão, cf. «P. R.» 8/1958, qu. 2.

 

Quanto às credenciais de Ubaldi para falar em nome de uma sabedoria superior — a sua «Voz» e as suas revelações —, são algo de tão mal fundado que não merecem deter a atenção do estudioso; o profeta teria primeiramente que provar possuir relações misteriosas com o Além ; ora eis que ele afirma explicitamente a respeito de sua identidade com o Apóstolo São Pedro:


«Quando não se pode provar, não se deve afirmar. Por isso não afirmo categoricamente. É questão de foro íntimo, pessoal. E é um problema vasto que não pode ser resumido numa frase. Mas com o tempo vou esclarecer este assunto, e em condições de prová-lo» (declaração publicada pela revista «A Noite Ilustrada» de 29/9/1953, pág. 30).


Estas palavras de Ubaldi dispensam de qualquer ulterior demora sobre a questão; colocam-nos fora dos setores da filosofia e da ciência.

 

2) O panteísmo ou monismo, tese central de Ubaldi, já foi refutado em «P.R.» 7/1957, qu. 1. Resumindo o que aí foi dito, lembraremos que o panteísmo admite um Absoluto ou Eterno ou Infinito posto em evolução ou em «devenir» (= tornar-se) contínuo. Ora um «devenir» ou tornar-se absoluto implica contradição; com efeito, «tornar-se» significa lacuna em demanda de plenitude, ao passo que o Absoluto diz plenitude de perfeição ; em última análise, a noção de um «tornar-se absoluto» identifica ser e não-ser, burlando o princípio mais óbvio da razão humana! Daí o repúdio da sã filosofia frente ao monismo e ao panteísmo.

 

Merece atenção a maneira como um autor moderno, H. de Lubac, caracteriza a psicologia do homem panteísta ou monista :


«Alguma coisa em nós se recusa a adorar. Alguma coisa em nós procura de todos os modos remover o único verdadeiro Deus... Não queremos ser chamados, chamados por nosso nome pessoal. Não queremos ser antecipados (não queremos que outro tome alguma iniciativa antes de nós), não queremos ser amados. Não queremos arriscar-nos a ser levados para onde não sabemos e para onde não desejamos» (La rencontre du bouddhisme et de L’Occident. Paris 1952, 281s).


Estas linhas são de grande finura psicológica. Em última análise, parece ser o fato de não querermos ser amados antes de amarmos que leva não poucos a evitar o conceito de um Deus pessoal, Criador e Redentor dos homens,... de um Deus que é Amor e que primeiro nos amou e ao qual temos que responder com nosso amor. O panteísmo identificando Deus com o homem e com o universo, permite ao homem distribuir livremente o seu amor, sem ter que reconhecer que o indivíduo, ao amar, apenas responde a um Amor maior e anterior. A soberba do homem moderno encontra no panteísmo a expansão que ela não encontra no monoteísmo cristão; daí a tentação e sedução do panteísmo.

 

O monismo de Ubaldi implica outrossim identificação de espírito e matéria, admitindo que aquele se transforme nesta e vice-versa. Ora a necessária distinção entre um e outro destes termos já foi demonstrada em «P.R.» 5/1958, qu. 1 e 2 (energia e pensamento) ; 15/1959, qu. 1 (os cérebros artificiais).

 

Sumàriamente, a distinção se baseia no princípio de que o modo de agir ou a atividade de um ente decorre do modo de ser ou da natureza do mesmo e lhe é proporcionado; principio claro, pois que a atividade não é senão o efeito e a expressão da natureza íntima do respectivo sujeito. Donde se segue que pela índole das atividades de um sujeito se pode reconhecer a essência ou a natureza do mesmo. — Pois bem; a alma humana, mediante sua inteligência, produz atividade que transcende a matéria; ela é, sim, capaz de conceber objetos emancipados de notas concretas, materiais (tais como a ideia do Dever, da Justiça, da Igualdade, da Divergência, etc.); sem dúvida, tais concepções supõem uma atividade que não seja material, mas transcenda a matéria. Esta atividade, por sua vez, supõe um princípio de ação que seja independente da matéria no seu modo de existir, isto é, supõe que a inteligência e, por conseguinte, a alma humana sejam realidades não materiais, ou realidades espirituais. — Donde se vê que é válida e necessária a distinção entre matéria e espírito.

 

3) A reencarnação, professada pelo novo «São Pedro», também foi estudada e recusada como crença errônea em «P.R.» 3/1957, qu. 8. — Para não repetir o que já dissemos sobre o assunto, limitamo-nos a citar aqui uma reflexão de bom senso ou de sabedoria popular, formulada pelo repórter de «A Noite Ilustrada» (1. Cit.), ao consignar as declarações de Ubaldi:


«Ubaldi promete provar posteriormente que Pietro é Pedro. Resta-nos esperar. Talvez, quando se conseguir provar que Pietro Ubaldi é Simão Pedro (São Pedro), também se prove aquilo que afirmam alguns espíritas, isto é, que o presidente Vargas é D. João VI, Adhemar de Barros é Pedro I, Jânio Quadros é Lincoln, Aldeonoff Póvoas é Herodes, Jeová é João Batista, Fulano é Sicrano e Sicrano é Beltrano.


A julgar pela história de Jeová, que já foi Elias, David, Sócrates, João Batista e não sei mais o que, nós todos não passamos de espíritos já vividos, e hoje em dia não se fabrica mais espírito novo.

É ou não é falta de espírito?»

 

Quanto ao inferno, está claro que um reencarnacionista o nega, para garantir de todo modo a salvação do homem. Acontece, porém, que, mesmo sem aderir ao reencarnacionismo, muitos recusam crer no inferno; contudo recusam unicamente porque nunca tiveram conhecimento exato do que ele é; ao contrário, só concebem o inferno através de descrições fantasistas ou infantis.

 

A noção adequada de inferno já foi proposta em «P. R.» 3/1957, qu. 5. Resumindo, lembraremos o seguinte: o inferno não há de ser entendido como castigo que um Deus cruel tenha concebido mais ou menos arbitràriamente para atormentar o homem; o inferno é, antes do mais, um estado no qual a criatura mesma se coloca. Sim; o pecador que presta adesão a um bem criado, rejeitando consciente e voluntariamente o Criador, comete um ato de violência não só contra Deus, mas contra a sua própria natureza. Esta foi feita para o Bem infinito, Deus, e somente n’Êste se repousa ou sacia; é, por conseguinte, em demanda do Bem Infinito que a natureza humana brada desde que começa a existir. Caso o homem, por sua atividade livre, se oponha a este brado, entregando-se totalmente ao que é finito, ele não pode deixar de sentir a dilaceração ou a retorsão interna daí decorrentes. Enquanto, porém, vive nesta terra, o pecador pode suavizar o seu tormento interior, usufruindo de paliativos, que são os prazeres transitórios. Todavia, após esta vida já não há paliativo nem ilusão possível, de modo que o pecador passa a experimentar na integra a dor mais íntima possível: de um lado, a sua alma continua e continuará sem fim a bradar por Deus (...sem fim, porque o espírito é imortal, já que não se compõe de partes quantitativas); do outro lado, a sua vontade continuará a aderir livre e conscientemente à criatura, repudiando a Deus de acordo com a última disposição que tinha aqui na terra. Esta disposição não se poderá mudar, porque a alma humana por sua natureza mesma não pode adquirir novas noções nem conceber novos afetos senão enquanto unida ao corpo (todo raciocínio tem origem no conhecimento sensitivo). — Donde se vê que não é necessário, pronuncie o Senhor alguma sentença para infligir o inferno a uma criatura; o Senhor apenas reconhece e respeita a livre opção do homem que se lhe apresenta logo após a morte; não retoca nem mutila essa livre opção, porque isto equivaleria a derrogar à liberdade do homem, liberdade que o Criador quis benignamente outorgar à criatura racional. Esta, portanto, se verá para todo o sempre alheia a Deus.


Tal é a pena que primariamente constitui o inferno. A isso sobrevém o que se chama «o fogo do inferno», isto é, a ação de um elemento físico, corpóreo, capaz de agir sobre a alma humana. Este agente físico (que não pode ser identificado com o fogo deste mundo) representa o universo corpóreo voltado contra o pecador, porque este, rebelando-se contra Deus, violentou direta ou indiretamente também a natureza corpórea.


Note-se ainda um tópico importante: os réprobos no inferno sofrem precisamente por reconhecerem, de um lado, que Deus é bom e santo e, de outro lado, que eles se incompatibilizaram com tal Bem; o seu estado de alma, por muito penoso que seja para os respectivos indivíduos, tem consequentemente um significado positivo no conjunto das criaturas; sim, vem a ser um modo de proclamar a glória de Deus, fazendo eco ao coro dos justos, que proclamam essa mesma glória, familiarizados com ela. Assim o Criador, sem retocar a liberdade das criaturas no currículo desta vida, faz que cada qual em seu estado final concorra, na base mesma da sua livre opção, para o Fim único de toda a criação, que é louvar e exaltar o Pai do céu.


Eis em que consiste propriamente o inferno. Tal noção, por trágica que seja, se apresenta cheia de grandiosidade... Não façamos do homem, más de Deus, o centro do universo, e consequentemente saberemos ver, expressa no inferno mesmo, a sabedoria e a santidade do Criador.

 

4) As previsões de Ubaldi referentes ao fim deste século e ao terceiro milênio deverão ser julgadas à luz do que se lê na resposta No 3 deste  fascículo.

 

5) Ainda uma palavra sobre a atitude da Igreja frente à Ideologia de Ubaldi; os vários erros filosófico-religiosos que este pensador recolhe em sua mensagem, justificam a condenação proferida pela Santa Sé aos 8 de novembro de 1939 sobre duas obras do filósofo: «L’Ascesi mística» e «La Grande Sintesi». O que motivou a intervenção do S. Oficio no caso não foram somente as doutrinas errôneas como tais, professadas por Ubaldi, mas também o fato ponderável de que este autor em suas teorias envolve valores fundamentalmente cristãos: a pessoa de Cristo, a autoridade do Evangelho, do Apocalipse, os conceitos de paraíso, inferno, etc.

 

Rematando quanto até aqui propusemos, concluiremos que Pietro Ubaldi é mais uma das figuras profundamente religiosas ou místicas de nossos tempos; toda a sua têmpera ardente, porém, é dirigida segundo falsos rumos, falsos rumos inspirados pela fantasia e talvez pelo espírito de autossuficiência que tanto contamina o homem moderno. A docilidade e a humildade são inegáveis garantias de êxito na procura da Verdade.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

 


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#0•A2127•C176   2012-09-15 10:13:52 - 144/Francisco de Assis da Cruz
A análise de Dom Estevão sobre A Ideologia de Pietro Ubaldi é muito esclarecedora e mostra o quanto é rica a Igreja Católica, a qual dispõe de bons mestres bem formados para guiar seu rebanho.E não é coisa nova desde de o início ela vem fazendo isso.

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#1•R176•C974   2017-12-17 02:07:37 - Convidado/claudiadepaulao09@gmail.com
Excelente explicação de Dom Estevão Bittencourt. Ganhei de presente um livro deste escritor mas precisamente "Cristo", logo no primeiro capítulo percebi que algo de muito errado havia naqueles escritos, porque ele coloca jesus como atoer de peça teatral, que já sabia o enredo que iria encenar. Considerei uma grande blasfêmia contra Cristo e Sua Igreja. Não terminei de ler, joguei no lixo, era apenas um monte de papel com escritos sem sentido. Muito obrigada..Creio Na Santa Igreja Católica. esta é a minha verdade, a minha fé!


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