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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 517 – julho 2005

Continuidade através dos tempos:

 

FIELMENTE TRANSMITIDO O TEXTO DOS EVANGELHOS?

 

Em síntese: Com referência a uma carta publicada pela Revista do jornal O GLOBO no domingo 9/01, impõem-se algumas observações: os Evangelhos de Marcos, Lucas e João não foram escritos em aramaico, mas em grego. A seqüência dos manuscritos existentes desde o século II permite acompanhar a história do texto e verificar que há continuidade na transmissão do mesmo sem as alterações de que fala a carta. Há mesmo fragmentos de Mateus e Marcos que bons críticos atribuem a meados do século I, a tal ponto que o papirólogo Carsten Peter Thiede pode afirmar ser o Evangelho de Mateus o de "uma testemunha ocular de Jesus". Aliás, tem-se verificado um fato Imprevisto: quanto mais a papirologia progride, tanto mais ela mostra quão próxima de Jesus está a redação dos Evangelhos. A multiplicação de manuscritos descobertos recentemente confirma a transmissão fiel dos originais.

 

A revista do jornal O GLOBO, de 09/01/05 publicou a carta abaixo, que bem exprime o pensamento de muitos leitores perplexos e merece comentários. Eis as palavras do missivista:

 

OS APÓCRIFOS

"Dom Estêvão esquece-se de dizer que os evangelhos autorizados pela Igreja também não têm veracidade histórica e têm inúmeras contradições entre si. São testemunhos sem firma, supostamente escritos por seguidores de Jesus, muitos anos após a suposta passagem de Jesus pela Terra e inúmeras vezes alterados em suas versões desde o original em aramaico. Não pode haver confiabilidade em textos sem autor conhecido, escritos provavelmente por crentes. Considero muito saudável que este tema venha despertando interesse cada vez maior. O ser humano não pode continuar delegando para terceiros uma tutela espiritual. A missão maior que o homem tem nesta vida é a de adquirir conhecimentos transcendentes, que possam levá-lo a se superar e aproximar-se das Grandes Verdades. Ele precisa investigar de onde vem, para onde vai, qual a razão da vida, temas que não podem ser entendidos enquanto a mente estiver submetida às crenças e aos dogmas religiosos. - FLORIANO ABINADER, Rio de Janeiro, RJ".

 

QUE DIZER?

 

Antes do mais, observe-se que os Evangelhos de Marcos, Lucas e João não foram escritos em aramaico, mas em grego. O de Mateus foi redigido em aramaico, conforme o testemunho de Papias (na primeira metade do século II). O texto aramaico, porém, perdeu-se, visto que em 70 os judeus da Palestina foram dispersos pelos países vizinhos e deixaram de falar aramaico. Só se tem atualmente o texto grego de Mateus que é uma tradução (como se crê) retocada em vista de maior clareza.

 

Quanto à conservação íntegra e fiel dos originais, note-se o seguinte:

 

1. Os críticos não alimentam sérias dúvidas sobre a autenticidade literária do texto grego de Mt, Mc, Lc e Jo de que hoje dispomos ([1]).

 

Com efeito, embora tais textos apresentem numerosas variantes (geralmente de pouca monta, pois versam sobre colocação ou omissão de artigo, emprego de partículas enfáticas, modos e tempos de verbos, etc), pode-se reconstituir com grande probabilidade a face do texto original. Existe grande número de códices antigos e de traduções feitas no séc. II/III (para o sírio, o copta, o latim...); tais códices e traduções, confrontados entre si, permitem ao estudioso dirimir as dúvidas concernentes ao teor dos originais dos Evangelhos. Assim contam-se aproximadamente 85 papiros (datados dos séc. II-IV) que apresentam partes do texto do Novo Testamento; 266 códices maiúsculos ([2]) (dos séc. IV-X) do Novo Testamento; 2.754 códices minúsculos ([3]) (dos séc. X-XVI) do Novo Testamento; 2.135 lecionários ([4]) do Novo Testamento.

 

Estes dados perfaziam em 1967 um total de 5.236 manuscritos, completos ou fragmentários, do Novo Testamento. Tal quantidade (que vai crescendo, pois vão sendo descobertos novos testemunhos antigos e medievais do texto bíblico) pode ser dita "fantástica", desde que se leve em conta a transmissão das obras dos autores clássicos romanos e gregos.

 

Na verdade, acontece não raro que só se possui um manuscrito de determinada obra de um clássico (ao passo que do Novo Testamento existem milhares). E tal manuscrito (cópia do autógrafo já perdido) dista de seus originais pelo intervalo de séculos. Assim o autor que melhor se pode conhecer é Virgílio (+19 a.C); ora há um intervalo de 350 anos entre a morte deste poeta e o mais antigo manuscrito do mesmo hoje conservado. Para Tito Lívio (+17 d.C), o intervalo correspondente é de 500 anos; para Horácio (+8 a.C), é de 900 anos, para Cornélio Nepos (+32 a.C), 1200 anos; para Platão (+347 a.C), 1300 anos; para Eurípedes (+407/406 a.C), 1600 anos.

 

Note-se também que o mais antigo papiro do Novo Testamento que se tenha é o de n° 457. Data do início do século II e apresenta o texto de Jo 18, 31-33.37s (é importante observar que o evangelho de S. João foi redigido nos últimos anos do século I). Acha-se guardado em Manchester, na John Rylands Library. Este manuscrito, descoberto em 1935 no Egito, dá a ver que, poucos decênios (os que correspondem aproximadamente à duração de uma geração humana) após a composição de João na Ásia Menor, este livro já era lido no Egito.

 

O sábio suíço Martin Bodmer constituiu uma biblioteca perto de Genebra, em que se guardam importantes manuscritos do Novo Testamento: assim o Papyrus Bodmer III ou P 66, que é um conjunto de folhas de papiro com o texto do Evangelho de São João, conjunto datado do ano 200 aproximadamente e descoberto em 1956; o Papyrus Bodmer XIV-XV ou P 75 data do início do séc. III; descoberto em 1961, reproduz, quase por inteiro, o terceiro e o quarto Evangelhos.

 

Outra coleção célebre é designada por "Papiro de Chester-Beatty" (P 45). Encontra-se em Londres e conserva fragmentos de papiros que foram escritos no século III com o texto dos Evangelhos e dos Atos dos Apóstolos.

 

O cotejo dos papiros, dos códices e das traduções antigas do Novo Testamento tem possibilitado aos estudiosos a confecção de edições críticas do Novo Testamento, tais como as de Merk (católico) e Nestle (protestante) e - mais abalizada - a edição de Aland, Black, Martini, Metzger e Wikgren (comissão mista protestante-católica).

 

Em suma, o balanço do estudo crítico do texto dos Evangelhos é altamente positivo. Permite verificar que a transmissão do Novo Testamento através dos séculos deixou inalterado o depósito dos Evangelistas e Apóstolos e nos fornece hoje sólida base para estudos sobre a pessoa e a obra de Jesus Cristo. Se o retrato de Jesus que nos veio através dos Evangelhos sofreu falsificação, esta só se pode ter dado quando os Evangelhos foram consignados por escrito ou antes, pois é inegável que o texto escrito nos chegou às mãos hoje em estado de alta fidelidade.

 

2. A fim de que o leitor possa formar um juízo sobre o valor do confronto dos manuscritos, sejam consignados aqui alguns exemplos ilustrativos:

 

-   o trecho de Lc 22, 43s, que refere o suor de sangue durante a oração de Jesus no horto das Oliveiras, foi posto em xeque já nos primeiros séculos da Igreja por motivos teológicos: caracteriza muito fortemente (para alguns cristãos, demasiado fortemente) a natureza humana de Cristo. - O confronto dos manuscritos demonstrou que tal secção pertence ao teor original de Lc;

-   a secção de Jo 7, 53-8,11, que narra o episódio da mulher depreendida em adultério, parece ter constituído uma folha avulsa, que os copistas dos Evangelhos colocaram ora no fim do Evangelho de São João (após Jo 21, 25, ou seja, após o texto contínuo dos quatro Evangelhos) ou dentro do Evangelho de São Lucas (após Lc 21, 38) ou também no lugar em que hoje se acha (após Jo 7, 52);

-   a passagem de Jo 5, 4 (um anjo descia na piscina de Bezata e movia a água, de modo a curar o primeiro doente que nela se projetasse após a moção da água) é tida evidentemente como interpolação tardia;

-   o famoso trecho de 1Jo 5, 6s (testemunho da SS. Trindade) é reconhecido, sem hesitação, como enxerto praticado no séc. IV por ocasião da controvérsia ariana.

 

Assim os exegetas estão em condições de restabelecer o texto em seu teor original nos casos mais controvertidos. Os resultados até hoje adquiridos pela crítica são de tal monta que se pode dizer que a imagem de Jesus consignada pelos Evangelistas não sofrerá alteração em consequência de pesquisas futuras.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)



[1] O Evangelho segundo S. Mateus foi originariamente escrito em aramaico, mas este texto inicial se perdeu, de modo que hoje em dia só se possui a respectiva versão grega, a qual corresponde a nova elaboração e ampliação do texto aramaico.

Marcos, Lucas e João escreveram seus autógrafos em grego.

[2] Escritos com letras gregas maiúsculas (unciais, capitais).

[3] Escrito com letras gregas minúsculas.

[4] Repertórios de leituras a serem utilizadas na liturgia, repertórios compostos em diversas épocas da história antiga e medieval da Igreja.


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